Não Te Esquecerei Jamais

6 A oportunidade que quase tirei dele


Notas iniciais
Olá, gente. Como é que vocês estão? Espero que gostem do capítulo novo!

Capítulo 5

Meu plano era jogar tudo o mais rápido possível na mochila e correr para o banheiro feminino. Dava para contar nos dedos as vezes em que precisei usar meu refúgio secreto, e era um alívio saber que sempre funcionava. Naquela situação, seria infalível. O banheiro feminino era o único lugar onde o Guilherme não podia entrar.

A professora Michele ainda terminava de falar quando comecei a guardar discretamente meu material no estojo. Em seguida, cobri o desenho do rosto de Guilherme com uma folha em branco. No instante em que ela nos liberou, juntei minhas coisas, joguei tudo na mochila, coloquei uma das alças no ombro e caminhei rápido em direção à saída.

Uma das minhas colegas conseguiu sair da sala antes de mim, mas ela já estava colada na porta. Virei os pés depressa na direção dos banheiros, com a nítida impressão de ter ouvido alguém chamar meu nome lá atrás. Eu corri. Corri como se a minha vida dependesse disso.

Eu tinha plena consciência da oportunidade que estava tirando do Guilherme. Sabia também que já tinha decidido deixá-lo se aproximar, caso ele tivesse coragem. Bem, para falar a verdade, quem estava com falta de coragem naquele momento era eu. Eu tinha me preparado psicologicamente para aceitá-lo na minha roda de amigos, com todo mundo por perto. Nunca imaginei que o encontraria em um momento tão íntimo. Sozinha. Não, eu definitivamente não estava pronta.

Tranquei-me em uma das cabines, abaixei a tampa do vaso sanitário e me sentei. Para me distrair, comecei a ler as pichações na porta enquanto ouvia o movimento de outras alunas entrando e saindo.

Mateus do 9ºC é um gatinho.

Era uma das coisas escritas ali. O que me fez perguntar o que diabos estaria escrito na porta das cabines do banheiro masculino.

Letícia Peixoto passou por aqui em 2014.

Hoje alguém já disse que você é bonita?

Ahahaha — alguém tinha respondido logo embaixo — A Denise do 7ºA não é bonita.

"Nossa, que crueldade", pensei, sentindo o estômago revirar.

No mesmo instante, puxei a mochila para o colo, abri o estojo e peguei uma caneta esferográfica. Precisei aplicar um pouco de força no pulso para que a tinta azul cobrisse completamente cada letra do nome da Denise. Quando terminei, respirei fundo. Eu não conhecia a garota e nem sabia quando aquela mensagem tinha sido deixada ali. Só conseguia me perguntar se ela já tinha lido aquilo. E se viu, como se sentiu? Eu teria chorado. Não na frente de todo mundo, claro. Esperaria para ficar sozinha.

Encarei o resto da frase sentindo meus olhos arderem. Minhas narinas deviam estar infladas com uma mistura de raiva, revolta e humilhação por ela. Arranquei a tampa da caneta com os dentes e risquei incessantemente o restante do comentário maldoso, até que tudo virasse um borrão escuro. Tampei a caneta de novo, desejando do fundo do coração que alguém fizesse o mesmo por mim caso uma covardia daquelas acontecesse comigo um dia.

Decidi ir para casa quando julguei que o pior já tinha passado. Fazia alguns minutos que ninguém entrava ali; já devia ser tarde. Ajustei as alças da mochila nas costas e caminhei em direção à saída. De fato, os corredores estavam completamente desertos, e julguei ter cumprido minha missão com sucesso. Minha barriga roncou alto assim que cheguei aos últimos degraus da escada principal. É, eu realmente tinha passado tempo demais escondida.

De repente, meus pés foram obrigados a travar. Meu corpo encolheu em um solavanco e meus braços voaram em direção ao peito em uma reação puramente instintiva de susto. Os pneus de uma bicicleta derraparam no chão de cimento, fazendo um barulho arrastado bem parecido com o que eu escutava quando freava bruscamente. Assim que meu cérebro assimilou o que tinha acontecido, meus braços caíram e meus ombros murcharam. Eu não tinha sido tão bem-sucedida assim.

— Ai, que susto, garoto! — reclamei, sentindo meu coração voltar a bombear o sangue que tinha congelado por um milésimo de segundo. Levei a mão direita ao peito, apertando os olhos com um drama genuíno.

— Não sabia que você gostava de desenhar — Guilherme comentou, ignorando meu teatro.

— Foi uma feliz descoberta para mim também — ajeitei a postura e o encarei com os olhos estreitos. — Por que você ainda está aqui?

Guilherme passou uma das mãos pelo cabelo e agarrou a própria nuca. Notei que as pontas dos seus dedos ficaram brancas pelo aperto forte, demonstrando nervosismo. Suspirei fundo, deixando parte das minhas defesas desmoronarem. A resposta para a minha pergunta era óbvia, visto que ele estava parado na minha frente tentando iniciar uma conversa. Agitei as mãos diante do rosto dele e o cortei antes que falasse:

— Não responda. Só vamos para casa. Estou morrendo de fome.

Ele abriu um sorriso largo e concordou com um breve aceno de cabeça. Começamos a caminhar lado a lado, com ele empurrando a bicicleta pelas manoplas do guidão.

— Você estava me evitando? — ele soltou, sem rodeios.

Eu não achei que ele teria coragem de abordar o assunto tão cedo, mas fiquei feliz por ter pensado em uma saída rápida. Minha primeira reação foi bufar e revirar os olhos.

— Claro que não — balancei a cabeça, sem acreditar na mentira que estava prestes a contar. — Tive uma dor de barriga horrível — completei de forma arrastada, mantendo os olhos fixos na rua à frente.

— E você está bem agora? — ele tentava prender o riso, mas a diversão estava nítida nas nuances do seu tom de voz.

— Sim. Estou ótima.

— Sua bicicleta ainda não saiu do conserto?

— Oh... — hesitei por alguns instantes, engolindo em seco. — Não. Ainda está lá. Acho que só fica pronta no início do mês — menti.

Ele me encarou, genuinamente surpreso.

— Tanto tempo assim para consertar uma corrente?

Pressionei os lábios com força, tentando disfarçar o sorriso que ameaçava desabrochar por causa da expressão confusa e engraçada dele.

— Não. É que ela está com outros problemas mecânicos — inventei, sem conseguir conter um sorrisinho de canto de boca.

— Ah, bom.

Vi a boca dele se abrir para continuar o assunto, mas fomos interrompidos por duas crianças de mais ou menos cinco anos. Uma delas corria desesperadamente, enquanto a outra tentava alcançá-la a todo custo. Um menininho de bochechas rosadas e cabelo grudado na testa pelo suor se escondeu atrás de mim, completamente ofegante. Não precisei de muito mais para entender a situação de perseguição.

A outra criança parou bem na minha frente e cruzou os braços com cara de brava, esperando o garotinho sair do esconderijo.

— Vocês estão brigando? — perguntei, adotando uma postura séria.

— Não — a criança da frente respondeu, emburrada.

— E por que parece que ele está fugindo de você?

— A gente está brincando.

Tive vontade de sorrir. Crianças eram fofas demais, com aquelas bochechas redondas que ficavam vermelhas com qualquer esforço. Mas o tom que ela usou para me responder tinha sido ríspido, o que não combinava em nada com seus olhos redondos e expressivos.

— Hum... Você não sabe? — perguntei, fingindo uma surpresa dramática.

— Do que você está falando? — O tom da criança mudou na hora, a postura desmoronando sob a curiosidade. Ela tinha engolido a minha isca.

Respirei fundo e adotei um tom solene:

— Crianças não podem brigar e nem intimidar os outros.

— Isso não é verdade.

— É claro que é! Se você intimida outra criança, quando crescer, vai nascer cabelo na sua bunda.

— O quê?!

— E no seu rosto também!

— Não pode ser! — O menino arregalou os olhos, genuinamente aterrorizado com a perspectiva.

— Pois é. Ainda bem que eu encontrei você a tempo. Você ainda é jovem, dá para reverter.

— Eu não quero ter cabelo na bunda! — o menininho choramingou, erguendo o rosto para o céu e enrugando as feições, prestes a abrir o berreiro.

Balancei as mãos no ar em desespero, abrindo a boca em um "O" perfeito enquanto tentava conter o choro iminente.

— Não chore, não chore! Você ainda tem tempo — apontei para o Guilherme ao meu lado. — Olhe para esse belo rapaz aqui. Ele já cresceu, está vendo? Você está vendo algum pelo esquisito nele? O Guilherme era a criança mais pacífica do mundo, por isso cresceu completamente livre de cabelos... — fiz uma pausa dramática e pigarreei — na bunda. Olha o rosto dele! Lisinho.

O garoto parou de soluçar e passou a encarar o Guilherme com uma atenção minuciosa. Para uma criança de cinco anos, qualquer um maior do que ela já era considerado um adulto feito. O menininho limpou as lágrimas com as costas da mão gordinha e fungou.

— Se eu não brigar, vou ficar igual a ele?

— Com certeza! — respondi, convicta. O garotinho que estava escondido atrás de mim finalmente colocou a cabeça para fora. — Agora, deem as mãos e façam as pazes.

Eles obedeceram na hora. As mãozinhas gordinhas se apertaram, e tive a gostosa sensação de que tudo ficaria bem.

— Pronto. Agora vocês começam do zero. Voltem direto para casa, para as mães de vocês... sei lá. É perigoso ficar sozinho na rua.

— Tá bom! — falaram juntos, antes de saírem correndo e rindo pela calçada.

— Por favor, sem comentários, tá? — pedi baixinho, sem ter coragem de olhar para o Guilherme nem pelo canto do olho. Voltei a caminhar a passos largos.

— Você mudou a sua abordagem — ele comentou, a voz carregada de diversão. — No prezinho, você costumava encurralar as crianças contra a parede.

— Eu disse sem comentários. Eu até pedi por favor!

— Desculpa, mas é que isso me lembrou muito o dia em que a gente se conheceu.

— Hum — meus lábios formaram uma linha reta enquanto eu fingia analisar o céu acima de nós. — Pensando bem, parece um pouco. Só que, no lugar de violência física, eu inventei uma história assustadora.

— Você se lembra daquele dia?

— Não com tanta riqueza de detalhes. Lembro que havia um copo colorido que era a sensação absoluta da sala. Tentaram roubar de você, obviamente. Você relutou, mas não conseguiu dar conta de todo mundo sozinho. Foi aí que eu cheguei e ajudei.

Guilherme soltou uma gargalhada alta.

— Foi exatamente assim.

Eu não lembrava a nossa idade exata na época, mas provavelmente era a mesma daqueles garotinhos. Recordava, porém, de estar extremamente chateada porque passamos dias seguidos enfrentando uma chuva que não dava trégua. Eu odiava o inverno nesses momentos, porque ficava trancada dentro de casa, sem poder brincar na rua como de costume. Eu precisava urgentemente de uma válvula de escape para o meu estresse, e foi bem nessa hora que vi o Guilherme encurralado naquela situação complicada. Meu sangue ferveu na hora. Lembro até hoje de fechar as mãos em punho com toda a força que tinha.

— Eu não posso mais ser violenta. Já sou uma mocinha grande — comentei, rindo de canto.

— A propósito — ele emendou, mudando de assunto —, como você vai se encontrar com o pessoal no fim de semana se está sem bicicleta?

— Ah. Isso... Bem, eu vou a pé.

— Quer uma carona? — ele ofereceu, atropelando o final da minha frase.

— Hum... — virei o rosto para encará-lo de verdade. Notei que as bochechas dele estavam levemente avermelhadas. — Acho que não. Eu nem sei como andar na garupa de uma bicicleta.

— Eu tenho esses ferrinhos na roda traseira — ele apontou para os dois apoios de metal instalados de cada lado do eixo. — Dá para ir em pé.

— Não sei, não. Vou pensar — fiz mistério, dando de ombros. — Até sexta-feira eu te dou a minha resposta, modelo.

Guilherme abriu um sorriso tão largo que seus olhos se fecharam em duas frestas estreitas.

Notas finais
É isso! Beijinhos!