Não Te Esquecerei Jamais
7 Cavalo de Tróia
Notas iniciais

Capítulo 6
— Meu dia foi ótimo. Encontrei novamente aquele jovem simpático que escuta todas as minhas lamúrias. Adoro quando estou no ônibus e encontro jovens dispostos a me ouvir falar.
Minha mãe perguntou à minha avó como tinha sido o dia dela ontem. A cada quinze dias, ela ia ao centro da cidade entregar encomendas de algumas peças de crochê. Fazia o trajeto de ônibus porque era muito difícil conseguir vaga para estacionar na região, sem contar o trânsito caótico das redondezas. Éramos todos muito gratos pela saúde de ferro dela; se duvidar, era mais fácil eu cair de cama primeiro. Minha avó era extremamente ativa e adorava uma boa prosa. Sempre voltava para casa radiante quando encontrava alguém paciente para escutar suas histórias.
— Que bom, mamãe. Bem que notei que você chegou feliz da vida.
— É sempre bom encontrar pessoas que nunca ouviram minhas histórias. Já não tem mais graça contá-las para vocês — a idosa brincou.
— Mas nós sempre escutamos com o maior prazer, não importa quantas vezes repita — afirmei, sorrindo.
— Sim, isso é verdade.
Ficamos em silêncio durante o restante do jantar. Meu pai ainda não tinha chegado do trabalho; ele trabalhava em uma fábrica de plástico e o seu turno só terminava à meia-noite. Assim que terminamos de comer, organizamos a mesa e eu fiquei responsável por lavar a louça.
— Quando é que a Mirela volta de viagem? — perguntei, lembrando que, pelo cronograma da casa, hoje seria o dia dela encarar a pia.
— Amanhã.
— Espero que ela tenha se divertido. Bem que eu queria ter umas férias dessas.
Mirela tinha acabado de completar dezoito anos, por isso pôde viajar sozinha para outra região da ilha. Ela tinha um emprego de meio período, mas nossos pais com certeza a ajudaram com alguma quantia financeira. Minha irmã sempre foi o tipo de pessoa econômica. Mesmo quando não tinha nenhum objetivo específico em mente, repetia que ter um dinheiro guardado nunca fazia mal a ninguém.
Eu ainda não tinha nenhuma experiência com finanças, portanto não sabia se me encaixava nesse perfil controlado. Sempre que precisava de algo, recorria aos meus pais. Quando Cristina soube que minha irmã tinha viajado por conta própria, ficou genuinamente surpresa. Pelo que entendi da reação dela, meus pais eram bem desencanados, o que me transformava em uma adolescente de muita sorte.
— Quando você tiver dezoito anos, também vai poder viajar sozinha, desde que prove ser uma pessoa responsável — minha mãe pontuou, enquanto guardava o jantar do meu pai em uma marmita.
— Mas eu pensei que todo mundo se tornasse responsável aos dezoito.
— Legalmente, sim. Mentalmente, financeira, emocionalmente... às vezes — ela fez uma pausa, pensativa. — Quer dizer, é difícil cobrar maturidade emocional de uma jovem de dezoito anos. Mas acho que, se não for um caso crítico de um adolescente emocionado, dá certo. Eu conversei bastante com ela antes de ir — completou, soltando um suspiro profundo.
Abri um sorriso largo.
— Então está tudo bem.
Deixei os pratos limpos no escorredor e limpei a mesa, aparando as migalhas de comida com a mão em formato de concha. Terminado o serviço, voltei para o meu quarto e liguei o notebook. Minha mãe e minha avó continuaram na sala, sintonizadas na novela da noite. Eu, por outro lado, só queria assistir a Anne With an E. Tinha acabado de começar a terceira temporada e estava no terceiro episódio.
Eu não queria lidar com o fato de que uma das minhas séries preferidas tinha chegado ao fim. Protelei o desfecho por tempo demais — a temporada final tinha sido lançada no início do ano. Já tinha tomado vários spoilers por causa disso na internet, mas, ainda assim, a ansiedade com os acontecimentos me consumia.
Aquele terceiro episódio, no entanto, acabou comigo. Nem lembrava da última vez em que tinha chorado tanto. Mary era uma personagem muito querida. Doeu demais assistir à forma como ela precisou se conformar com o próprio destino, sendo obrigada a deixar tudo para trás de uma hora para outra, enquanto as pessoas ao seu redor tentavam lidar com a dor do futuro próximo.
Senti uma saudade absurda de quando eu era menor, da época em que era igualzinha às crianças que encontrei na rua após a aula de desenho. Naquela idade, eu não tinha maturidade para entender o quanto determinadas coisas eram difíceis de enfrentar. Tudo parecia possível e a dor simplesmente não existia.
A morte, de fato, é um acontecimento natural no percurso da vida humana. No entanto, nós nos programamos para enfrentá-la somente após longos anos, e quando uma tragédia burla esse fluxo natural, fica mil vezes mais difícil aceitar o fim. Fiquei me questionando na cama, mesmo depois de já estar debaixo das cobertas: o quanto nós temos que ser fortes para sobreviver à perda precoce da pessoa mais importante da nossa vida.
[...]
Eu não fazia ideia de que tinha chorado tanto até encarar o espelho pela manhã. Meu rosto estava completamente inchado, principalmente na região dos olhos. Havia, contudo, um certo alívio no meu coração: na noite anterior, antes de eu pegar no sono, minha mãe tinha me flagrado no meio da choradeira, olhado para a cena da série pausada na tela e entendido tudo de imediato. Graças a isso, ela não estranharia minha cara amassada no café da manhã e eu me livraria de um questionário chato.
Questionei-me se deveria usar maquiagem para cobrir os rastros do choro. Eu odiava me maquiar para ir à escola, com medo de que aquilo virasse um hábito diário. Manter uma rotina dessas consumiria um tempo razoável e me forçaria a acordar mais cedo todos os dias. Observei meu reflexo com mais atenção, notei as olheiras e bufei. Fazer uma maquiagem decente acabou consumindo metade do meu tempo, por isso precisei engolir o café já morno às pressas.
— Por que demorou tanto hoje? Não vai dar tempo de comer nada! Sabe que eu odeio que saia de estômago vazio — minha mãe reclamou, enquanto enfiava uma maçã envolta em plástico-filme dentro da minha mochila.
— Bem, depois de ontem, precisei cobrir os rastros da minha choradeira histórica.
— Você deveria parar de assistir a coisas tristes.
— Mas isso faz parte da vida, mãe. Se não fizesse, não estaria na ficção. Meu professor disse que a ficção imita a vida porque é dela que os autores tiram inspiração.
Ela me encarou com um pequeno sorriso de canto.
— E por que você se maquiou para disfarçar o rosto? Hoje nem é um dia normal de aula, é só o curso de verão.
— Não tem nenhum motivo especial — desconversei, sentindo minhas bochechas esquentarem. — Só não queria que me vissem totalmente detonada. Não estou com paciência para ninguém me perguntando se aconteceu alguma coisa.
As sobrancelhas dela se ergueram de imediato, assumindo uma postura desconfiada.
— Eu pensei que você não tivesse feito amigos nessa aula. Você mesma me disse que eram todos mais velhos e desconhecidos.
Encurralada pela lógica dela, só encontrei uma saída estratégica para a situação.
— Mamis, estou mega-atrasada!
Saí correndo em direção à sala, fugindo da conversa como o diabo foge da cruz. No exato instante em que alcancei a entrada, a porta se abriu e meu pai passou por ela carregando uma sacola de padaria.
— Querida, comprei aquele doce que você tanto gosta — ele disse, estendendo uma caixinha branca na minha direção. Peguei o pacote na hora. — Tem um amigo seu te esperando lá fora. Ainda bem que ele está de bicicleta, assim vocês não se atrasam. Vocês voltaram a se falar?
Meus pés vacilaram por um milésimo de segundo, quase imperceptível.
— O Guilherme está aí? Meu Deus! — minha mãe exclamou com surpresa lá da cozinha, mas não parei para observar a reação dela.
Apenas disparei para fora de casa, bati o portão com rapidez e encarei o Guilherme montado na bicicleta, exatamente como meu pai havia descrito. Sabendo a agitação e o interrogatório que estariam se formando dentro de casa, e querendo evitar a todo custo um encontro tenso entre minha mãe e ele, aproximei-me a passos largos.
— Posso guardar isso na sua mochila? — perguntei, estendendo a caixinha de doces.
— Claro.
Abri o zíper da mochila dele com habilidade. Como o material era de boa qualidade, o fecho deslizou sem travar. Acomodei a caixa lá dentro com o máximo de cuidado, certificando-se de que a fita adesiva que a lacrava continuava firme. Fechei o compartimento e, sem questionar ou apresentar qualquer resistência — o que deve ter deixado Guilherme em choque —, subi direto nos apoios de metal da roda traseira.
Apoiei minhas mãos firmemente nos ombros dele, ciente de que precisava daquele apoio se quisesse manter o equilíbrio em pé. Eu sabia que, mais tarde, quando estivesse sozinha no meu quarto, lembraria daquela proximidade e me espernearia de vergonha na cama, mas agora era uma questão de sobrevivência.
— Vamos! — ordenei.
Guilherme deu a primeira pedalada e meu corpo balançou de leve com o arranque. Minhas mãos agarraram o tecido da camiseta dele com força, buscando estabilidade. Assim que percebi que a bicicleta tinha firmado o rumo e que eu não corria o risco de cair, suavizei o aperto.
Tenho que admitir que o trajeto foi incrivelmente rápido. Num piscar de olhos, estávamos parados em frente ao portão da escola, ainda dentro do horário. Pulei para trás com agilidade, amortecendo o impacto da queda flexionando os joelhos. Ergui o olhar rapidamente para encará-lo, irritada ao perceber que alguns fios rebeldes do meu cabelo tinham grudado direto no meu gloss.
— Por que você me esperou? — disparei, tentando disfarçar o nervosismo. — Quase que você chega atrasado também.
Ele deu de ombros, com os olhos semi fechados por causa do sol forte que batia direto em seu rosto. A pele cor de caramelo parecia brilhar sob a luz dourada da manhã, e as mechas de cabelo que escapavam do boné ganhavam um tom ainda mais claro sob a claridade.
— Se eu não esperasse, você não chegaria a tempo. Hoje você bateu o recorde.
— Como assim bati o recorde? Você nunca me esperou para vir para essa aula antes.
— Dedução — ele respondeu simples, enquanto começamos a caminhar em direção ao pátio.
— Deduziu errado — rebati, embora estivesse mentindo. Houve um dia em que me atrasei de verdade e precisei pedir um Uber. Foi a primeira e única vez; minha sorte foi que o motorista estava por perto e chegou em segundos.
Guilherme parou para prender a bicicleta no bicicletário. Enquanto ele se mantinha ocupado com o cadeado, aproveitei para observá-lo em detalhes, tomando todo o cuidado do mundo para não ser flagrada. Guilherme era oito meses mais novo do que eu. Quando éramos crianças no prezinho, eu sempre fui mais alta, mas, com a chegada da adolescência, ele tinha dado um estirão absurdo. Agora, eu precisava erguer o queixo para conseguir encará-lo de frente.
— Por que você usa o boné virado para trás se a aba serve justamente para proteger o rosto do sol? — perguntei assim que ele se levantou, me encarando. Dei um passo curto para a frente, segurei o boné pela aba, girei-o rapidamente na cabeça dele e o encaixei de novo, deixando a aba para a frente. A sombra do acessório impedia que eu visse a cor dos seus olhos de maneira nítida.
— É estilo! — Guilherme reclamou, mas moveu a cabeça de um jeito engraçado, como se estivesse posando para uma foto de revista.
— Ok, estilo. Mas é chato conversar com você fazendo careta porque não consegue abrir os olhos por causa da claridade.
Ele soltou uma gargalhada alta e no fim dela, ela me perguntou:
— Você dormiu bem? Seus olhos estão um pouco inchados.
— Hum... É que eu fui dormir tarde assistindo a uma série.
— Qual?
— Anne With an E.
Guilherme abriu um sorriso de lado, lançando a provocação certeira:
— Você chorou!
— Claro que não! Quem chora vendo um personagem de ficção morrer? Ele nem existe de verdade.
— Eu lembro, Ariana. Lembro perfeitamente que você chorava sempre que assistia a qualquer coisa triste.
— Não me amola, Guilherme! Eu era uma criança!
— Mas eu sempre achei fofo o jeito que você se solidariza com "pessoas" — ele fez o sinal de aspas com os dedos no ar — que nem conhecia.
— Como assim não conheço? Eu passo horas acompanhando a vida deles na tela. É como se fôssemos best friends!
De repente, a mão direita dele subiu até o meu rosto, e o polegar fez uma carícia suave, bem em cima da minha bochecha.
— Tão fofa... — ele sussurrou.
O movimento da minha mão foi puramente instintivo e veloz. Afastei o toque dele com um tapa rápido, sentindo meu rosto arder de vergonha.
— Não é questão de fofura. É que é muito triste! O Sebastian amava tanto a Mary, e eles tinham uma filhinha recém-nascida que nem vai ter a chance de conhecer a própria mãe... — Minha voz falhou e eu parei de falar assim que senti meus olhos arderem de novo.
— Não acredito que você me deu um spoiler desses na cara dura! — ele reclamou, fingindo indignação enquanto parávamos em frente à porta da sala de aula.
— Não inventa. Eu sei que você não assiste. Se duvidar, nunca nem ouviu falar da série.
— Claro que já ouvi. A Netflix passa a vida me recomendando isso na página inicial.
— Por quê? A sua mãe usa o seu perfil?
— Às vezes a gente assiste junto — ele deu de ombros.
— Hum.
Avistei a professora Michele virando o corredor e tratei de entrar logo na sala. Puxei meu material com pressa de dentro da mochila, percebendo que tinha gastado todo o tempo de organização conversando com ele.
No fundo, nós nos dávamos tão bem. Tinha sido tão fácil aceitar a presença dele de volta que todos os motivos que inventei para mantê-lo afastado começaram a parecer ridículos. A mágoa antiga por ele ter sumido tão de repente já não tinha relevância nenhuma no meu peito.
Guilherme passou pela minha mesa e me olhou sorrindo antes de ir para o seu lugar. Retribui com um sorriso largo, daqueles que faziam as bochechas doerem. Naquele momento, meu coração sentiu uma gratidão genuína por ele não ter desistido de mim quando decidi dar um gelo nele.
Tentei identificar em qual momento exato ele tinha conseguido ultrapassar minhas barreiras, porque eu lembrava perfeitamente de estar decidida a incluí-lo apenas no grupo de amigos, sem recuperar a intimidade que tínhamos a sós.
Baixei a cabeça, encarando o caderno em branco, e sorri de canto. A resposta era óbvia demais. Eu mesma o tinha deixado entrar. Fui o meu próprio Cavalo de Troia.
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