Não Te Esquecerei Jamais

9 A Câmera instantânea


Notas iniciais
Hello. Provavelmente não teremos mais capítulos até segunda. Trabalho em um supermecado e geralmente o fim de semana é uma loucura e chego esgotada! Espero que gostem desse capítulo curtinho.

Capítulo 8

Era quase uma da tarde quando cheguei em casa. Entrei consciente de que minha mãe me encheria de perguntas. Ela também nunca tinha entendido direito o porquê de eu e o Guilherme termos nos afastado. Eu sempre dizia a verdade: tinha sido ele quem sumiu, não eu. Na época, cheguei a comentar sobre a separação dos pais dele e que, provavelmente, ele não estava sabendo lidar com a situação. Achei que ele só precisasse de um tempo e que logo voltaria a me procurar, mas nunca imaginei que esse hiato duraria dois longos anos.

O cheiro de bolo recém-assado já tinha se alastrado por toda a casa. Minha avó estava confortável no sofá assistindo à televisão, e havia um murmúrio animado vindo da cozinha. Larguei minha mochila pesada no chão da sala e segui o som das vozes. Mirela finalmente voltava de viagem hoje, mas eu tinha esquecido de perguntar o horário exato da chegada.

— Delicioso como sempre, mãe — escutei Mirela elogiar assim que pisei na cozinha.

— Você chegou! — exclamei, correndo na direção dela.

Precisei resistir à tentação de me jogar no seu colo. Eu costumava fazer muito isso quando era menor; a última vez tinha sido há mais ou menos um ano. Mirela tinha me dado um basta, dizendo que eu estava ficando grande demais para aquele ritual e que logo passaria da altura dela. Mas aquele sempre foi o meu lugar preferido para jogar conversa fora e o meu refúgio secreto todas as vezes em que desabafei sobre a falta crônica que sentia do meu melhor amigo.

— Ariana, você está quase uma hora atrasada! — minha mãe reclamou, interrompendo o momento.

— Desculpa, mãe. Fiquei conversando na calçada depois da aula.

— Você e o Guilherme voltaram a se falar? — ela perguntou, sem conseguir esconder um sorrisinho de canto.

Suspirei. Pelo visto, o meu lamento pós-fim de amizade tinha afetado a casa inteira.

— Ele praticamente implorou para eu voltar a ser amiga dele — brinquei, dando de ombros.

— Esse não é aquele garoto por quem você ficou completamente arrasada depois do "término"? — Mirela virou o corpo na minha direção, largando o pedaço de bolo no prato e agitando as mãos no ar. — Tem muita coisa acontecendo e eu passei semanas fora. Não estou entendendo nada.

— Que término, Mirela? Nós só deixamos de ser amigos.

— Ah, eu lembro muito bem de tudo — ela cutucou a própria têmpora com o indicador. — Tive que consolar você por meses seguidos. Para mim, parecia um término de namoro.

— Se você continuar falando essa bobagem, vou contar só para a mamãe o que aconteceu durante sua viagem — ameacei, cruzando os braços com cara de brava.

Minha mãe estalou a língua na boca e, num movimento rápido, jogou o pano de prato que estava no seu ombro direto na minha direção. O tecido cobriu meu rosto antes que eu pudesse desviar.

— Conta logo, Ariana. Como se ninguém aqui soubesse da sua quedinha por ele desde o prezinho.

— Eu tinha uma quedinha — corrigi, enfatizando o passado.

Mirela e mamãe trocaram um olhar cúmplice e significativo. Um significado que decidi ignorar solenemente.

— Vai, conta logo — Mirela insistiu, apoiando o queixo na mão e o cotovelo na mesa. A postura descontraída me convenceu do seu interesse genuíno.

— Bem, tudo começou no fim de semana passado, quando saí para pedalar com o pessoal. Aparentemente, a mãe dele conversou com o Ricardo para ajudar o Guilherme a se enturmar no bairro de novo. Acho que ela não quer o filho isolado nas férias, sei lá — dei de ombros, percebendo só naquele instante que nunca tinha parado para analisar a situação pela ótica da Dona Fabíola. Por que só agora? O Guilherme tinha desabafado com ela sobre estar sozinho? — Enfim, foi muito estranho vê-lo ali na minha frente. Tinha o rosto do meu antigo amigo, mas ao mesmo tempo parecia um estranho, sabe?

— Consigo imaginar — Mirela murmurou.

Eu não contei para nenhuma das duas sobre o jogo da garrafa no inverno, e decidi que elas não precisavam daquele detalhe agora.

— Foi superesquisito porque eu não conseguia me soltar como antigamente. Era como se nunca tivéssemos nos conhecido. Mas, na volta para casa, a corrente da minha bicicleta partiu e ele insistiu em me acompanhar. Eu não queria, mas não tive muita escolha. No caminho, o Guilherme acabou tocando no assunto e explicou o motivo do sumiço. Como eu já imaginava, foi por causa do divórcio dos pais.

— E aí ele disse: "Por favor, seja minha amiga de novo"? — Mirela dramatizou, juntando as mãos em cima do coração.

— Ele não usou exatamente essas palavras, mas aconteceu outra coisa depois.

— O quê? — Os corpos da minha mãe e da minha irmã se inclinaram para a frente na hora, tomados pela curiosidade.

— O Guilherme é o modelo vivo das minhas aulas de desenho. Nós estamos nos vendo quase todo dia. No começo, eu queria que a nossa convivência fosse profissional, de meros conhecidos, não vou mentir — suspirei fundo. — Não estava nos meus planos originais retomar aquela intimidade, mas eu sou muito trouxa. No segundo dia, eu já estava toda cheia de sorrisos para o lado dele. Sou patética.

— Ah, querida, não. Você não é trouxa e nem patética — minha mãe interveio, aproximando-se e afagando minhas costas com carinho. — Amigos às vezes se desentendem e se afastam, mas o afeto verdadeiro continua ali. É completamente normal lembrar com nostalgia e carinho dos momentos que passaram juntos. Desde o jardim de infância vocês dois sempre foram grudados. É natural querer de volta essa conexão, e está tudo bem perdoar.

— É... Eu não consegui manter a minha postura de marrenta por muito tempo — admiti, mordendo o lábio inferior. Dei de ombros, guardando o restante do pensamento para mim.

Eu senti uma saudade absurda dele. Era isso o que eu queria dizer, mas me faltou coragem.

— Hum... — Mirela ponderou. — Olha, para mim, vocês terem voltado a se falar assim tão rápido não é algo ruim. Primeiro: se o Guilherme tivesse feito algo imperdoável no passado, você nunca teria cedido.

— E qual é o segundo ponto? Você não pode enumerar as coisas e parar no primeiro argumento.

— Segundo: você estava morrendo de saudades dele — ela disparou de supetão, quase como uma vingança por eu ter cobrado sua retórica.

Estalei a língua na boca e fiz menção de pegar a faca para cortar um pedaço do bolo.

— Não, senhora! — Minha mãe segurou minha mão antes mesmo que eu pudesse encostar na assadeira. — Almoço primeiro.

Deixei meus ombros caírem e ergui o rosto para o teto em um lamento mudo. Arrastei os pés lentamente em direção ao fogão, pegando um prato no caminho. Eu realmente precisava aprender a reagir melhor quando ficava sem argumentos.

[...]

— Tudo o que eu queria era passar as férias em uma casa de praia ou em um daqueles hotéis de frente para o mar — comentei, rolando na cama para ficar mais perto da minha irmã, apoiando os cotovelos no colchão. — Olha esse bronzeado!

— Foi muito divertido — Mirela respondeu, puxando um fio de cabelo cor de cobre que tinha grudado na sua blusa. Sob a luz do sol que entrava pela janela, o fio reluziu intensamente avermelhado. — Ariana, acho que você deveria ir ao médico. Não é normal cair tanto cabelo de uma cabeça só.

— A queda do meu cabelo está completamente dentro da média diária aceitável, tá?

Eu e a Mirela não éramos nada parecidas fisicamente. Quer dizer, o formato do rosto, o desenho dos olhos e o nariz até seguiam a mesma linha, mas as semelhanças paravam por aí. Desde sempre achei os lábios da minha irmã desenhados e lindos; ambos eram volumosos e o superior tinha um arco do cupido tão definido que lembrava o contorno de um coração. Os meus também eram cheinhos, mas eu os achava desproporcionais. O inferior era mais grosso e o superior era quase reto, o que dava a falsa ilusão de ser fino.

O cabelo dela era castanho-claro e perfeitamente liso; o meu era ruivo e cacheado. O meu tom costumava acender como fogo quando exposto ao sol, mas longe da iluminação natural adotava uma nuance mais fechada e acobreada. Lembro-me de algumas aulas do professor de biologia explicando sobre genes recessivos, dominantes e mutações. Ao que parecia, meus pais carregavam os genes recessivos exatos para proporcionar essa combinação. Foi um choque descobrir na escola que a cor do meu cabelo era, tecnicamente, o resultado de um "erro" genético.

— É estranho, porque para onde eu olho no quarto, encontro um fio ruivo seu.

— Isso só significa que seres humanos perdem muitos fios ao longo do dia.

— Sei... — ela riu, fazendo um gesto com as mãos. — Vem aqui me ajudar a desfazer a mala.

— Você trouxe uma lembrancinha para mim, não trouxe?

Ela abriu um sorriso largo e balançou a cabeça positivamente. Puxei de dentro da bagagem um objeto preto e redondo. No centro da estrutura, havia uma esfera transparente que imitava cristal. Peguei o objeto nas mãos, examinei de todos os ângulos e continuei sem entender o que era. Ergui um olhar confuso para a minha irmã.

— O que isso faz, afinal?

— Isso é um abajur de projeção — Mirela explicou, esticando o tronco e pegando o objeto de volta das minhas mãos. — Você liga na tomada e ele acende.

Ela apertou um botão na base e a esfera de cristal imediatamente se acendeu em um tom vermelho vibrante. Minha irmã olhou para o teto e eu acompanhei o seu movimento num piscar de olhos. A luz da esfera projetou no teto branco do quarto uma galáxia inteira, com feixes vermelhos e pequenos pontos verdes que imitavam estrelas distantes. Mirela apertou outro botão no controle remoto que tinha tirado de dentro da mala, e a iluminação mudou para um azul profundo. Com mais um comando, as cores começaram a se alternar de forma suave.

— Que maravilhoso! — exclamei, felicíssima com o efeito tecnológico. — É o presente mais perfeito que eu já ganhei na vida!

— E tem mais: ele não é um abajur comum. Isso também é uma caixa de som que funciona via Bluetooth.

— Ai, eu te amo, Mirela! — gritei, correndo para dar um abraço apertado nela.

— Que bom que você gostou! — ela disse, esticando-se o máximo que pôde no colchão, já que não tinha a menor intenção de levantar dali tão cedo. — Mas eu tenho mais uma surpresa.

— Dois presentes de uma vez só? Eu só posso estar no paraíso.

Mirela revirou os olhos diante do meu drama, mas continuou a mexer na bagagem.

— Lembrei de você no exato momento em que vi os dois — ela explicou, erguendo uma câmera instantânea que estava aninhada entre seus dedos.

— Meu Deus, Mirela, você não fez isso! — Minha boca se abriu em puro choque. Eu realmente não esperava por aquilo.

— Não precisa se preocupar com o preço. Comprei em uma daquelas promoções imperdíveis de queima de estoque.

A câmera finalmente pousou nas minhas mãos ansiosas. Foi extremamente fácil decifrar o seu funcionamento básico só de dar uma olhada rápida no visor e nos botões. Minha irmã me entregou uma caixinha de filme e eu a encaixei com cuidado no compartimento indicado na parte traseira. A estrutura da câmera era pintada em um tom de azul-escuro. Pelas propagandas que o algoritmo do Instagram insistia em me mostrar — devido ao número absurdo de vezes que eu já tinha pesquisado sobre o modelo na internet —, eu sabia que existia uma versão em tons pastéis mais claros. Mas a que estava entre os meus dedos tinha uma cor intensa, parecida com a cor do mar profundo.

— Eu sei que você provavelmente preferiria a cor de rosa, mas o estoque daquela cor já tinha esgotado. No fim das contas, achei essas cores mais fortes bem mais bonitas do que as clarinhas.

Balancei a cabeça rapidamente, descartando a preferência.

— Não tem problema nenhum! Essa aqui está simplesmente perfeita.

— Vem — Mirela me chamou, ajeitando-se na cama com um sorriso largo. — Vamos estrear a câmera agora mesmo.


Notas finais
Cada vez mais perto do fim da primeira fase.