Notas iniciais
Olá meninas,aqui estou eu. Já acabei de fazer a primeira prova da semana, então, só vou postar hj, pois ainda tenho mais 3 para fazer esta semana. Obrigada pelos comentários deixados e mais uma vez peço encarecidamente que os fantasmas que acompanham a fic deixem recadinhos por favor, att


[RECAPITULANDO]

— Também vou me deitar, querido. Conversem sobre o que quiserem com a privacidade que os cavalheiros tanto apreciam. — Mary ofereceu o rosto para o beijo do filho e despediu-se do visi­tante. — Boa noite.

— Boa noite, mãe.

Dominada por pensamentos sombrios, Jane acompanhou a sra. Bingley.

— Por que não disse nada sobre as visitas que tem feito aos Crane? — Mary perguntou enquanto subiam a escada. Ela carregava Helena de forma que Jane pudesse apoiar-se no corrimão e em uma das muletas.

O que faria?

Só conseguia pensar em fazer as malas e fugir protegida pela escuridão da noite. Mas então olhou para a filha e soube que teria de planejar algo mais sensato.

*****

— Não queria que Charles pensasse que estava tentando conquistar seus favores — disse, tentando comportar-se com um mínimo de normali­dade. — Creio que foi por orgulho.

— Ele não tem demonstrado muita aceitação, não é?

— Entendo as preocupações de Charles.

— É o único comportamento que ele conhece. Meu filho assumiu a responsabilidade pela fundição, por mim e por Fitzwilliam ainda muito jovem. E sempre encarou seus deveres com absoluta seriedade.

Jane forçou-se a ouvir o que Mary dizia. Pre­cisava descobrir algumas coisas.

— Como pôde ter filhos tão diferentes?

— Fitzwilliam era muito mais jovem que Charles quando meu marido faleceu. Charles estava no segundo ano da universidade, mas Fitzwilliam tinha apenas doze anos. Tive uma menina entre os dois, mas ela só viveu algumas semanas.

Jane pensou nos primeiros momentos de consciência no hospital, quando ficara apavora­da sem saber sobre o paradeiro da própria filha. Lembrou o amor que sentira ao ver a menina pela primeira vez, um sentimento que se tor­nava mais forte a cada minuto de convivência, e sentiu pena de Mary.

Alcançaram o corredor do segundo andar e ca­minharam devagar. Os joelhos de Jane tremiam.

— Charles voltou para casa imediatamente e assumiu todas as obrigações. Nunca tive de me preocupar com assuntos legais ou financeiros. Ele se tornou um homem no dia em que perdeu o pai. Cuidou para que Fitzwilliam terminasse os estudos, apesar das constantes discussões.

Mary acompanhou Jane até o quarto e deixou o bebê sobre a cama.

— Ele abriu mão de tudo, e nunca disse uma única palavra que pudesse sugerir insatisfação ou ressentimento. Sempre negou o próprio sacrifício, comprovando o orgulho que herdou do pai. Mas sei que foi difícil. Charles abandonou os estudos, as ambições, os sonhos... E apesar de ter prometido que era apenas amigo daquela jovem, creio que teria se casado com a moça que conheceu na faculdade.

Jane ouviu com um misto de surpresa e interesse.

— Ele dizia que não havia tempo para se re­lacionar com alguém que morava em Londres, tão longe daqui, e suponho que tenha sido verdade. Quando Charles conseguiu dominar todos os as­suntos relativos à fundição e evitar a falência, ela já havia conhecido outro rapaz. Por outro lado, Fitzwilliam só pensava em ir ao teatro, escrever suas peças e viajar. Sei que Charles esperava que o irmão concluísse os estudos e voltasse para dividir as responsabilidades. Meu filho trabalha duro como o pai sempre fez. E encara o mundo com a mesma seriedade. Sei que não teríamos tudo que temos se os dois não houvessem sido tão diligen­tes, mas às vezes penso que... Talvez meu marido ainda estivesse vivo se fosse mais... — Calou-se por instantes. — Ia dizer mais parecido com Fitzwilliam, mas ele também nos deixou.

Lágrimas cintilavam em seus olhos. Jane apoiou a muleta no armário e abraçou-a, com­preendendo que a mulher só desejara o melhor para os dois filhos.

— Oh, Anne. Você é uma bênção. Não sei como teria sobrevivido a essas últimas semanas sem você. Saber que está aqui em minha casa é o su­ficiente para fazer-me dormir todas as noites.

Como viveria com o peso da culpa oprimindo seu coração?

Mary afastou-se, secou os olhos com um dos len­ços de renda que sempre carregava no bolso e aproximou-se da cama.

— Ter Helena comigo é minha única fonte de alegria. Vocês duas são muito importantes para mim. — Sentou-se e deixou o bebê segurar seu dedo. — Sinto-me egoísta. Sei que sua mãe tam­bém precisa de você, mas... Bem, se foi capaz de deixá-la para ir viver sozinha... É claro que devem ter sido muito próximas. Não entendo como ela conseguiu viver sem você por tanto tempo.

A mãe de Anne teria de saber que a filha estava morta.

Mary, Charles e Fitzwilliam não seriam os únicos pre­judicados pela horrível mentira que perpetuava. A pobre mulher também sofreria por conta de sua co­vardia.

Quantas outras pessoas seriam afetadas an­tes que tivesse coragem de revelar a verdade?

Jane sentou-se na beirada da cama, tomada pela apreensão. A mulher devia estar imaginando por que a filha não a procurara.

Quantos outros parentes de Anne ainda teria de enfrentar?

O que faria?

Não poderia fingir que era Anne quando a mãe dela chegasse. Talvez devesse ir embora naquela noite.

— Quando ela chegará?

— Na terça-feira, creio.

— Oh, céus! Na mesma noite em que os convidados de Charles estarão chegando. Fiz tantos planos...

— Só teremos de incluí-la, querida. Não haverá problema algum.

Não? Mary não tinha ideia do que estava di­zendo. Sua cabeça doía. E agora?

Talvez devesse ir encontrá-la na estação. Sim, era isso.

E então? Diria a ela que a filha estava morta e que devia voltar para casa?

Não sabia nem qual era seu nome. Não a re­conheceria.

— Anne, você está pálida! Vou chamar a sra. Gardiner para cuidar de Helena e depois a ajudarei e mudar de roupa. Está exausta com todo esse tra­balho que tem feito. Sua saúde é importante para o bem-estar da bebê, e não deve se esquecer disso.

— É claro que não. — Deixou que Mary a aju­dasse sem protestar, dominada pela culpa e pelo arrependimento. A pobrezinha a amava e queria seu bem. Queria sua felicidade, embora temesse perder parte de seu amor e atenção para a des­conhecida que hospedaria em sua casa. Era esse o amor incondicional que um ser humano sentia pelo próprio filho?

Quando a última criada partiu e Helena ador­meceu tranquila no berço, Jane ainda lutava con­tra os temores e aflições.

Ficou deitada olhando para a escuridão, os olhos ardendo e o estômago oprimido pela angústia. Ti­vera consciência do próprio destino desde que pu­sera os pés naquela casa. Sempre soubera que a farsa um dia chegaria ao fim, e então teria de enfrentar o futuro sombrio que a aguardava. Mas não estava pronta para a sentença final.

Ainda não conseguia andar sem as muletas. Não podia sequer carregar a filha e as malas e apoiar-se nas muletas ao mesmo tempo, muito menos por tempo suficiente para chegar à estação.

Não conseguia dormir. Apesar da exaustão, sen­tiu-se aliviada quando Helena acordou para ma­mar antes do amanhecer, porque assim podia con­versar com alguém e aplacar os pensamentos caó­ticos. Suas escolhas eram limitadas.

Podia partir imediatamente. Mas que tipo de vida teria sua filha se fosse embora sem dinheiro e meios de sobrevivência?

Podia esperar que a mãe de Anne chegasse e revelasse a farsa. O cenário também não era dos mais atraentes.

Ou podia ir encontrá-la na estação e conversar com franqueza. Talvez, se contasse a verdade e explicasse a situação, pudesse contar com sua piedade.

Quando o dia amanheceu, Jane optou pela me­nos terrível das escolhas. Correria o risco de abrir o coração para a mãe de Anne. Mas como des­cobriria seu nome?

Era domingo. Dispunha de dois dias para des­cobri-lo. E a única maneira de obter a informação era lendo as outras cartas mandadas por Fitzwilliam. Charles e Mary disseram que ele escrevera con­tando sobre Anne, o que significava que devia ter mencionado o sobrenome da mulher que escolhera para esposa. Era a única ideia que tinha no momento.