Notas iniciais
Olá meninas como vão? Finalmente as minhas provas acabaram e eu posso voltar a postar para vcs. Obrigada pelos recados deixados para a minha pessoa, eles são muito importantes. E lembrando aos fantasmas que tbm acompanham a fic, que não custa nada dizer o que estão achando não é? Att

[RECAPITULANDO]

Quando o dia amanheceu, Jane optou pela me­nos terrível das escolhas. Correria o risco de abrir o coração para a mãe de Anne. Mas como des­cobriria seu nome?

Era domingo. Dispunha de dois dias para des­cobri-lo. E a única maneira de obter a informação era lendo as outras cartas mandadas por Fitzwilliam. Charles e Mary disseram que ele escrevera con­tando sobre Anne, o que significava que devia ter mencionado o sobrenome da mulher que escolhera para esposa. Era a única ideia que tinha no momento.

*****

Na segunda-feira de manhã, Jane deixou Helena no berço e foi até a suíte de Charles. Cau­telosa, devolveu as cartas que havia lido e apanhou o restante da correspondência, levando o pa­cote para o quarto. Era assustador constatar como aperfeiçoava as táticas para sustentar a mentira em que se transformara sua vida.

Quanto ainda desceria antes da história chegar ao fim?

Naquela tarde, enquanto a filha dormia, pediu a sra. Gardiner para ir à casa dos Crane em seu lugar e aproveitou o tempo para ler as cartas.

O tom de Fitzwilliam era sempre alegre e descui­dado. A narrativa girava basicamente em torno dos projetos que desenvolvia, dos amigos e dos lugares que visitava.

Depois de ouvir o que Mary dissera sobre as esperanças do filho mais velho em torno da volta do irmão, compreendia melhor os sentimentos de Charles. Afinal, ele abrira mão dos estudos, dos desejos e das ambições pessoais para assumir os deveres na fundição.

Do que mais ele havia desistido?

Era difícil ima­giná-lo com esperanças e sonhos. E mais difícil ainda era pensar que um dia fora um jovem apaixonado.

Teria desistido de alguém que amara de verdade?

O estilo de vida livre e espontâneo de Fitzwilliam devia ter sido uma dolorosa lembrança de suas pesadas responsabilidades.

As datas das cartas revelavam meses e meses de silêncio, como se Fitzwilliam só escrevesse quando tivesse algum intervalo em sua movimentada vida social. No último ano escrevera apenas cinco vezes, e em todas as cartas descrevera... Anne Patrick.

Ali estava o nome que procurava.

Fitzwilliam a considerava encantadora e cheia de vida, a mais bela mulher que jamais vira. Podia entender porque Charles não conseguira enqua­drá-la na descrição.

Na última carta ele anunciara a intenção de se casar. Depois seguiram-se três telegramas, o pri­meiro participando o casamento, o segundo falan­do sobre a viagem a Europa, e o terceiro infor­mando sobre sua chegada à casa da família.

Jane permaneceu sentada com o telegrama entre as mãos. Aquela fora a última vez que Charles recebera notícias do irmão. O irmão que ele havia amado e criado. O irmão que desejara ver feliz, o homem com cuja ajuda havia esperado poder contar.

Saber que Fitzwilliam voltava para casa em com­panhia de uma esposa alimentara as esperanças de Charles.

O último telegrama provocou um arrepio gelado.

Lamentamos informar que houve um acidente de trem próximo à estação de Merynton. Solici­tamos sua presença para o reconhecimento do cor­po de seu irmão o mais depressa possível. A sra. Bingley foi levada a um hospital em Newburgh. Ela responde bem ao tratamento e o bebê está em excelentes condições de saúde.

Jane imaginou Charles segurando o pedaço de papel, vislumbrou o choque e o horror que ele devia ter experimentado. Podia quase sentir as mesmas coisas, sentir o gosto da dor e da revolta. Da preocupação com a mãe e com sua reação à morte do filho caçula.

Com o coração pesado, dobrou as cartas. Ne­nhuma mulher devia ter de enterrar o próprio fi­lho. Nunca! Mary dissera as palavras com senti­mento e pesar. Só agora Jane as entendia per­feitamente. Mary perdera uma filha ainda na in­fância e um filho no auge da vida adulta.

Aproximou-se do berço, ajeitou o cobertor sobre o corpo roliço e certificou-se de que a filha estava bem e saudável. O que quer que acontecesse, ga­rantiria seu bem-estar.

Ela era tudo que importava. Não fosse por Helena, teria revelado toda a verdade no primeiro instante. Charles e Mary não mereciam a traição que estavam sofrendo na própria casa amava-os muito para mentir sem sentir culpa.

Mas, apesar de ter melhorado muito, ainda não era capaz de cuidar de um bebê sozinha. Além do mais...

Amava-os? Havia sido isso que pensara?

Quem não sentiria uma profunda afeição por Mary? A mulher maternal e devotada conquistava o coração de todos que a conheciam.

Naquela tarde, enquanto tomavam chá em seu quarto, Jane tratou de demonstrar todo esse afe­to. Seria horrível causar mais uma perda àquela pobre criatura.

— Mary, quero que saiba que dividir Helena com você tem sido uma bênção. Tornou um momento difícil em algo suportável, agradável até. E várias vezes me disse quanto significamos para você. Quero que saiba que também é muito importante para mim e minha filha. Esteve a meu lado em todos os momentos em que precisei de uma amiga.

— Foi um prazer.

— Sim, eu sei. Por isso quero dizer que... que a amo. O que quer que aconteça no futuro, lem­bre-se sempre de que é muito importante para mim e que sou grata por tudo que fez por nós.

— Eu sei disso, meu bem.

Sim, amava-a.

Mas, e Charles?

Ele não dissera meia dúzia de palavras de cortesia desde que a conhecera. Era desconfiado e frio, inatingível e inflexível, taciturno e...

Se ele era tudo isso, por que conseguia imaginá-lo chorando e lamentando a morte do irmão?

Porque ele era tudo isso... e mais. Muito mais. Julgava-o remoto e insensível, mas testemunhara sua interação com os criados. Seu pai teria demi­tido Gruver ao surpreendê-lo embriagado na co­zinha, causando tumulto com sua pequena cele­bração, e depois o teria substituído por alguém que aceitasse um salário menor.

Vira a surpresa de Charles diante da alegria dos empregados e a tristeza em seu rosto quando ele recordara que o irmão costumava rir daquela maneira. Se nunca tivera oportunidade de diver­tir-se, ou se esquecera o som do próprio riso, quem poderia culpá-lo?

E Charles tinha motivos para ser desconfiado, frio e inflexível. Afinal, estava mentindo para ele. Estava absolutamente certo a seu respeito. Não havia se casado, com seu irmão por causa do di­nheiro da família, mas aceitara acompanhá-lo em troca de um teto e comida.