Não Sou Quem Você Imagina!
23 Capítulo 23
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Cuide apenas de sua recuperação e não se preocupe com o resto — disse, ajudando-a a voltar para a cama e ajeitando as cobertas sobre seu corpo. Tinha quase certeza de que a Sociedade de Auxílio às Mulheres pretendia fazer alguma coisa sobre o assunto. Pelo menos imaginava que esse era o destino dos fundos solicitados por Phoebe Graham. Lydia fechou os olhos assim que se deitou.
— Obrigada, sra. Bingley — Joseph disse ao vê-la vestir a capa para partir. — Especialmente pela ajuda que deu a Lydia.
Ela acenou para as crianças e dirigiu-se à carruagem, onde Gruver a esperava.
*****
No dia seguinte Jane mandou toda a roupa suja dos Crane à casa dos Paulson, espantada com as poucas peças possuídas pela família. Enquanto lavava os pratos do almoço e preparava o jantar, pensou em todos os vestidos de Anne pendurados no armário do quarto da casa dos Bingley, vestidos que Jane jamais usaria, e que eventualmente seriam doados.
No outro dia, Penélope, esposa de Gruver, ajudou-a a embalar todos os vestidos, e Gruver deixou-os na sala de estar dos Crane. Lydia já estava bem melhor, e tocou as peças com reverência.
— Tem certeza de que não quer mais estes lindos vestidos, sra. Bingley? — perguntou com os olhos brilhantes.
— Pode me chamar de... Anne. E esses são trajes impróprios para uma viúva. — Na verdade, eram impróprios para qualquer mulher com um mínimo de decência, mas não expressou sua opinião, Lydia devia ter notado. — Pode desmanchá-los e usar o tecido para o que quiser.
— Vou gostar mais disso do que pode imaginar.
Depois de três dias cuidando da casa dos Crane à tarde, correndo de volta para amamentar a filha e organizando os planos para os hóspedes, Jane quase gemeu de aflição ao perceber que Charles levara Fitzwilliam para jantar certa noite. Apressada, foi dizer à sra. Pratt para pôr mais um lugar à mesa.
Os homens incluíram as mulheres na conversa durante a refeição, algo a que Jane não se habituara na casa paterna. Tentou participar com interesse, mas o cansaço a impedia de raciocinar.
— Está entediada, Anne?
Ela levantou a cabeça e um rubor tingiu seu rosto.
— De jeito nenhum.
Levara Helena à sala com ela, e Mary o tirou do cesto e segurou-o contra o peito. Sorrindo, ela mostrou o bebê aos homens.
— Anne está apenas cansada, querido. Não é fácil passar o dia todo ocupada e acordar no meio da madrugada para amamentar uma criança, Mas logo ela estará dormindo a noite toda, não é, Helena, querida? — Beijou o alto da pequenina cabeça com adoração.
— Tem se cansado muito durante o dia, não é? — Charles perguntou sorrindo. — Os cardápios para o jantar têm sido excelentes, mas não creio que essa seja uma tarefa debilitante.
Jane não revelara onde passava as tardes, e por alguma razão, preferia manter o segredo.
— Se espera mais de mim, se há mais alguma coisa que eu deva fazer, só precisa dizer.
— Desde que minha mãe esteja feliz e descansada, o resto não importa. E ela me disse que você tem assumido muitas das tarefas que antes eram dela.
Jane olhou para Darcy. Não devia estar embaraçada, afinal, ele era um amigo íntimo da família, mas preferia que não houvesse testemunhado o tom de desprezo de Charles.
Fitzwilliam brindou-a com um de seus generosos sorrisos, animando-a.
Um som estridente soou na cozinha, seguido pelo barulho de metais se chocando.
— Vou ver o que houve, senhor. — A sra. Pratt, que estivera ajeitando as bandejas sobre o bufê, correu para a porta.
Mary continuou brincando com Helena como se nada houvesse acontecido, mas Charles seguiu a criada.
— Com licença — Jane pediu, levantando-se para acompanhá-lo.
Gargalhadas ecoaram e a sra. Pratt pediu silêncio, agitando os braços com um misto de irritação e nervosismo. Jane olhou por cima do ombro de Charles e viu a confusão de saias e saiotes molhados no chão. Rindo e sem notar a presença da outra criada e dos patrões, Penélope libertou-se de onde o marido a mantinha cativa, agarrou uma panela de água com sabão e jogou o conteúdo em Gruver.
Ele se agitou, riu e se levantou como se pretendesse revidar. Penélope gritou e virou-se para fugir, e então viu Charles e Jane pela primeira vez.
O riso morreu em seus lábios e o sorriso transformou-se em uma expressão de surpresa e desânimo.
Gruver pôs-se em pé e ficou parado, olhando como se não acreditasse no que via. Espuma de sabão escorria por seu rosto e pelas roupas, ensopando o chão.
— Eu... peço desculpas, sr. Bingley — Penélope gaguejou.
— Os Bingley têm um convidado para o jantar. — O tom da sra. Pratt era gelado. — Essa brincadeira infantil é mais adequada para os momentos de folga e na privacidade de seus aposentos. — E virou-se para Charles. — Eu cuido disso, senhor.
Charles ficou em silêncio por alguns segundos. Jane podia sentir o medo de Penélope Gruver. Ali o casal gozava de empregos seguros e bem remunerados, longe da pobreza e da insalubridade dos trabalhadores das minas de ferro.
— Perdoe-nos, sr. Bingley — implorou. — Gruver estava comemorando. Prometo que isso não vai se repetir.
Gruver parecia atordoado e era com dificuldade que se mantinha em pé.
— O que esteve celebrando? — Charles quis saber, surpreendendo a todos com a pergunta.
— Vamos ter outro filho — o empregado anunciou.
Penélope ficou vermelha e tentou limpar as mãos no avental ensopado.
— Parabéns, então — ele disse, adiantando-se alguns passos para estender a mão ao motorista.
Gruver aceitou o cumprimento com um sorriso aliviado.
— Obrigado.
— Cuide para que sua esposa não seja a responsável pela limpeza do chão da cozinha esta noite.
— Não, senhor. Eu mesmo vou cuidar disso.
— E quando terminar, vá ao meu escritório para um cigarro.
— Sim, senhor.
— Creio que estamos prontos para a sobremesa, sra. Pratt — Charles anunciou, mostrando a todos que a discussão estava encerrada.
— Imediatamente.
— Obrigada, sr. Bingley — Penélope agradeceu comovida, segurando a saia molhada para sair.
Naquele momento Charles virou-se e descobriu Jane. Segurando seu braço, levou-a para o corredor entre a cozinha e a sala de jantar. Lá ele parou e encarou-a com expressão estranha, densa e indecifrável.
— Fitzwilliam costumava fazer isso.
— Isso o quê?
— Brincar daquele jeito. Fazer coisas tolas. Bobagens espontâneas e barulhentas... e rir.
— Muitas pessoas riem — ela respondeu.
— Realmente? Pois eu nunca a vi rindo. Nem sorrindo, para ser mais exato.
Podia dizer o mesmo sobre ele, mas não disse.
— Tire alguns minutos para assistir ao banho de Helena e ver como ela molha a sra. Gardiner. Ou quando ela tenta estudar os próprios punhos e só consegue ficar vesgo. Garanto que vai ouvir minhas gargalhadas.
Estavam muito próximos, falando em voz baixa numa atitude quase cúmplice.
A atenção de Jane concentrou-se na boca de contorno firme.
— Isto é um convite? — Charles perguntou.
— Acho que sim.
— A que horas Helena costuma tomar banho?
— Depois do café da manhã.
Ambos sabiam que àquela hora ele costumava sair para a fundição. Mesmo assim, Charles respondeu:
— Eu irei.
Apressados, dirigiram-se à sala de jantar para sentarem-se à mesa antes que a sra. Pratt levasse o pudim.
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