Não Sou Quem Você Imagina!
24 Capítulo 24
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Estavam muito próximos, falando em voz baixa numa atitude quase cúmplice.
A atenção de Jane concentrou-se na boca de contorno firme.
— Isto é um convite? — Charles perguntou.
— Acho que sim.
— A que horas Helena costuma tomar banho?
— Depois do café da manhã.
Ambos sabiam que àquela hora ele costumava sair para a fundição. Mesmo assim, Charles respondeu:
— Eu irei.
Apressados, dirigiram-se à sala de jantar para sentarem-se à mesa antes que a sra. Pratt levasse o pudim.
***
O lado desconhecido da complexa personalidade de Charles Bingley a surpreendera mais uma vez. A faceta suave que exibia flexibilidade com os criados e preocupação com os empregados.
Seria essa a porção que falava ao seu coração com tanta freqüência? Ou a verdadeira essência de sua personalidade era composta pela porção cínica, severa e desconfiada?
Não acreditava nisso. Ou não queria crer.
Qual porção reagiria quando ele finalmente soubesse a verdade a seu respeito? Seria tratada com a mesma indulgência que ele dedicava aos empregados? Com a mesma tolerância que testemunhara momentos antes? Ou tudo não passava de uma encenação pelo bem dos negócios? Trate os empregados bem, e eles renderão mais e melhor.
Não confiava na generosidade masculina. Era mais provável que ele reagisse com a mesma intolerância com que fora tratada até então.
Mary continuava brincando com Helena como se Darcy nem existisse. A sra. Pratt serviu o pudim e Jane pegou a colher.
— Tem notícias sobre Joseph Crane? — Charles perguntou ao assistente.
A pergunta assustou-a.
Seu segredo fora descoberto?
Fitzwilliam lançou um olhar discreto em sua direção antes de responder:
— Ele vai bem. A esposa adoeceu, mas as mulheres do Auxílio estão ajudando.
Fitzwilliam sabia! A colher de prata escorregou por entre seus dedos e caiu sobre o prato de fina porcelana. Ela ignorou o som estridente. Se ele fora buscar notícias de Joseph, devia saber que primeiro Lydia e depois Elissa haviam ficado doentes, mas estavam quase recuperadas. E Joseph devia ter falado sobre suas visitas.
Fitzwilliam tinha alguma intenção delatá-la?
Não sabia por que isso era importante. Decidira ajudar a família para ajudar os Bingley, saldar parte da dívida com a memória de Fitzwilliam e, sim, aplacar sua consciência. Desejara a aprovação de Charles.
Mas depois tudo mudara. Sempre vivera cercada pelo conforto, e seu primeiro teste de realidade acontecera quando o pai a expulsara de casa. No entanto, jamais havia visto como viviam os menos favorecidos, e depois de conhecer o medo de não ter a quem recorrer nem aonde ir, queria simplesmente ajudar.
Pensando bem, Charles jamais a aprovaria. Era ela quem tinha de aprovar as próprias atitudes. E isso havia sido muito difícil no último ano.
Charles terminou a sobremesa e reclinou-se na cadeira para saborear o vinho. Os olhos castanhos encontraram os dela e Jane não conseguiu desviar o rosto.
— Tenho uma surpresa para você — ele disse.
Que tipo de surpresa poderia ser?
— Sei que já está ocupada com os preparativos para receber meus convidados, mas teremos outro hóspede.
— Mais uma pessoa não será problema.
— Foi o que pensei. Escrevi enviando um convite em aberto, e acabei de receber uma resposta dizendo que ela está a caminho. E ficará conosco por tempo indeterminado.
Ela? Então havia uma mulher na vida de Charles?
Não entendia por que, mas a ideia provocava um desapontamento que era como uma lâmina cravada em seu peito. Se ele mantinha um relacionamento com alguém do sexo oposto, o assunto não era de sua conta. Mais alguns meses e estaria fora da vida daquela família.
— Preciso fazer algum arranjo especial? — perguntou.
— Essa é uma resposta que só você possui.
— Não entendo... O que quer dizer?
Ele terminou o vinho, saboreando a última gota com um sorriso satisfeito.
Fitzwilliam também parecia esperar com ansiedade a revelação do nome, e menos cauteloso que Jane, perguntou:
— Quem é a mulher misteriosa que está a caminho daqui?
Charles olhou para Jane e respondeu:
— A mãe de Anne.
O coração de Jane disparou. O terror dominou seu cérebro. Mary sorriu.
— Que egoísmo — disse. — Tudo em que consegui pensar foi que vou ter de dividir Helena.
A mãe de Anne estava viva, e Charles e Mary sabiam disso!
Jane estivera tão distraída ultimamente que havia esquecido de devolver as cartas de Fitzwilliam à escrivaninha de Charles e descobrir mais alguma coisa. A informação adicional poderia tê-la ajudado nessa desastrosa situação. Mas...
Quem era aquela pessoa mentirosa em quem se transformara?
— Charles enviou algum dinheiro e convidou-a a ficar conosco por quanto tempo quiser — Mary explicou. — Sei que a presença de sua mãe será importante para você.
— Eu... não sabia que estavam pensando nisso.
Anne tinha uma mãe. Uma mulher que acreditava que a filha ainda estivesse viva.
As mentiras haviam se multiplicado até torná-la prisioneira.
— Disse a Charles que uma mulher precisa do apoio da mãe em situações difíceis. Não comentamos nada porque não queríamos despertar esperanças antes de termos certeza de que tudo daria certo.
— Bem, eu... Vocês... são muito gentis. — Não conseguia pensar em mais nada para dizer.
— O jantar estava ótimo, Anne. — Fitzwilliam levantou-se. Charles imitou-o.
— Querem juntar-se a nós para um cálice de licor, senhoras?
— Levaria Helena para o quarto de forma que você pudesse ficar, Anne, mas sei que está cansada.
— Tem razão. Prefiro me recolher.
— Também vou me deitar, querido. Conversem sobre o que quiserem com a privacidade que os cavalheiros tanto apreciam. — Mary ofereceu o rosto para o beijo do filho e despediu-se do visitante. — Boa noite.
— Boa noite, mãe.
Dominada por pensamentos sombrios, Jane acompanhou a sra. Bingley.
— Por que não disse nada sobre as visitas que tem feito aos Crane? — Mary perguntou enquanto subiam a escada. Ela carregava Helena de forma que Jane pudesse apoiar-se no corrimão e em uma das muletas.
O que faria?
Só conseguia pensar em fazer as malas e fugir protegida pela escuridão da noite. Mas então olhou para a filha e soube que teria de planejar algo mais sensato.
Fale com o autor