Não Sou Quem Você Imagina!
18 Capítulo 18
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
O homem parecia sincero. Aparentemente, não participara do processo de levantamento de informações sobre Anne. Mas a simpatia e a amizade de Fitzwilliam a deixaram mais confortável do que estivera durante todo o dia.
— O que ele lhe contou a meu respeito?
— Apenas que chegaria com uma criança e estaria ferida. A menina é encantadora. Fico feliz por vocês estarem bem.
— Tenho certeza de que foi apenas uma medida de precaução. Alguém na posição de Charles tem de estar sempre pronto para proteger a propriedade e os investimentos. Qualquer mulher com quem Fitzwilliam tivesse se casado teria sido submetida ao mesmo tratamento. Charles mandará investigar o passado da própria esposa, se um dia decidir se casar.
***
A tarde passou depressa. Jane e Mary abriram os presentes e, aos poucos, os convidados foram se despedindo. Pouco depois Mary abraçou Jane, elogiou seu trabalho e foi para o quarto.
Certificando-se de que os criados limpavam a casa depois da festa, Jane também se recolheu. A perna, que havia começado a doer horas antes, latejava intensamente. Exigira demais dela. Parada diante da escada, olhou para cima, preparando-se para o esforço.
— Por que não disse nada?
A voz profunda de Charles pegou-a desprevenida, assustando-a. Ao virar-se, encontrou-o a seu lado.
— Sobre o quê? — perguntou com o coração aos saltos.
Teria descoberto alguma coisa?
Um dos empresários presentes à festa podia tê-la reconhecido. Não tinha motivos para temer que um daqueles industriais do ferro possuíssem ligações comerciais com seu pai, mas era possível que houvesse recebido alguns deles em sua casa, em Londres, e esquecido.
— Está sentindo dores na perna. É esse o motivo da ruga em sua testa, não?
Aliviada, apoiou-se no corrimão de madeira polida.
— Não é nada — disse. Especialmente se comparado aos outros males que a afligiam.
— Não precisa fingir que está bem. É tolice. — Sem preâmbulos, tomou-a nos braços.
Por um momento Jane permaneceu tensa, tentando resistir ao impacto provocado pelo contato e à atitude presunçosa. Mas depois dos primeiros degraus foi forçada a reconhecer que se sentia grata por alguém preocupar-se com seu bem-estar.
Jane permitiu-se relaxar nos braços que ofereciam conforto, proteção e segurança, como se não precisasse enfrentar o mundo sozinha.
Chegaram ao topo da escada e ela o encarou. Por um momento Charles teve a sensação de que as botas estava presas ao chão. Sentira a resistência inicial, mas de repente o corpo tentador e perfumado relaxara em seus braços, indicando que estava mais cansada do que havia percebido.
Apenas algumas semanas se passaram desde o terrível acidente e do parto. Observara-a durante a tarde e sofrera crises de consciência, o que o levara a perguntar-se se não havia sido duro demais com ela. Quem quer que fosse aquela mulher, não tinha o direito de abusar de suas forças ou prejudicar sua saúde.
Levou-a para a cama e depositou-a sobre o colchão com gentileza. Estava começando a se afastar quando ela gritou e, assustado, Charles percebeu que uma mecha de cabelos ficara presa em um botão de sua casaca. Devagar, sentou-se ao lado dela e estudou o cacho.
— Desculpe-me... — A voz doce e a expressão constrangida o fizeram pensar em cenas eróticas, despertando sensações que só uma mulher era capaz de provocar.
— Deixe-me ajudá-la. Chegue mais perto. — Mas aproximar-se poria toda aquela gloriosa massa de caracóis bem perto de seu rosto.
Ela obedeceu, e Charles tocou a mecha sedosa e libertou-a do botão com imenso cuidado. Era como tocar a mais pura seda. Incapaz de resistir à tentação, manteve-a entre os dedos e prolongou o contato.
Jane levantou a cabeça e foi possível ver todas as questões em seus olhos. Como se tivesse vontade própria, a mão buscou o queixo de formato harmonioso e sentiu o calor provocado pelo rubor que a coloriu. O hálito quente e doce era como um convite ao pecado, chamando-o e provocando-o. O aroma dos cabelos e da pele o incendiava. Ela respirou fundo, e o desejo de provar o sabor daqueles lábios foi mais forte que o bom senso.
Os dedos mergulharam no oceano de caracóis dourados. Os lábios buscaram os dela. Ela respirou fundo mais uma vez, talvez por surpresa ou prazer, não saberia dizer, mas beijou-a antes que houvesse tempo para protestos ou resistência.
Mergulhado nas sensações deliciosas provocadas pelo beijo, Charles levou alguns instantes para perceber que a mão em seu peito o empurrava.
O gesto foi como um chamado da realidade e ele interrompeu o contato, levantando-se e sentindo a cabeça latejar.
Ela permaneceu sentada, a cabeça baixa, uma das mãos apoiada sobre o colchão para suportar o peso do corpo, a outra ajeitando os cabelos.
— Sinto muito — sussurrou.
— A culpa foi minha — Charles respondeu depressa. Depressa demais. E zangado.
Uma lágrima brotou de um daqueles olhos azuis.
— Desculpe, Anne. Você está vulnerável neste momento. Não me comportei como um cavalheiro honrado. Tem todo o direito de estar aborrecida. Prometo agir com maior discrição no futuro.
Ela se manteve quieta, silenciosa.
— Olhe para mim, por favor. Foi só um beijo.
O pedido foi atendido. E ele lamentou tê-lo expressado. Porque ao ver os olhos cheios de espanto e dor, soube a verdade e sentiu-se o pior dos homens.
Nenhuma negativa seria suficiente para apagar o que acontecera ali.
Não havia sido apenas um beijo.
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