Notas iniciais
Olá meninas como vão? Aqui estou eu com mais um capítulo para vcs. Muito obrigada pelos comentários deixados, espero que gostem, bjs

[RECAPITULANDO]

O coração de Jane batia descompassado. Não tinha o direito de discutir com aquele homem. Nem de estar zangada, contrariada, ou de desa­fiá-lo e questionar seu direito a duvidar das in­tenções de uma desconhecida que acolhera em sua casa. Não era nada para ele. Mas a bondade e a generosidade de Fitzwilliam e Anne haviam sido tudo para ela. Por eles ainda estava viva.

— Não, não acredito que tenha desejado a morte de meu irmão. Mas não estou convencido das ra­zões que a levaram a se casar com ele.

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Jane permaneceu em silêncio. Não disse que os motivos de Anne não tinham importância. Fitzwilliam se casara com ela. O fato estava consu­mado e as ramificações legais da decisão teriam de ser cumpridas. Em sua opinião, se Anne es­tivesse viva, a obrigação de Charles teria sido cumprir os desejos do irmão e garantir os direitos da cunhada e do sobrinho.

E acreditava que ele sabia disso.

— E quanto às responsabilidades que pretendia discutir?

— Vou honrar o testamento deixado por meu irmão — ele revelou sem responder à pergunta.

— Vai honrar também o casamento que ele fez? A esposa que escolheu? — Jane arrependeu-se assim que ouviu as próprias palavras. — Desculpe-me, não devia ter dito isso. Não quero discutir com você. Diga-me apenas o que é esperado de mim.

— O que espero, Anne, é que honre o nome dos Bingley. Que tenha um comportamento ade­quado a uma Bingley. E que comece a assumir os deveres que minha mãe cumpriu sozinha du­rante muitos anos. Não foi fácil para ela. No início, quando a fundição ainda era apenas um sonho em vias de realização, tudo era muito difícil. Creio que agora ela merece um pouco de paz e descanso.

Jane não tinha dúvida de que Charles estava certo. Além do mais, sabia que ia sentir-se melhor se fizesse alguma coisa em troca do sustento. De­via mais que isso a Fitzwilliam.

— Não tenho uma esposa — ele prosseguiu. — Se e quando decidir me casar, a mulher que es­colher dividirá as tarefas.

— O que quer que eu faça?

— Quero que cuide da administração doméstica, receba os eventuais convidados, supervisione os criados e as compras, planeje os cardápios... esse tipo de coisa. Minha mãe vai ajudá-la enquanto estiver aprendendo.

Em outras palavras, teria de desempenhar o papel de Anne diante dos convidados. A ideia provocou um arrepio gelado e um medo que quase a paralisou.

— Com que freqüência recebem?

Ele a encarou e estudou-a em silêncio por alguns instantes. Era evidente que percebera o terror pro­vocado pela ideia, mas imaginava diferentes ra­zões para o sentimento.

— Sempre que um associado comercial está na cidade. Uma ou duas vezes por mês. Talvez mais. Talvez menos.

Assumir as responsabilidades de Mary a per­turbava mais que tudo. O que aconteceria quando Jane partisse? Com sorte, só teria de organizar as recepções algumas poucas vezes. Depois par­tiria, e então Mary seria deixada novamente com todo o trabalho.

A situação era cada vez pior.

Mas, se Anne estivesse em seu lugar, teria con­cordado com os desejos do cunhado.

O que mais poderia ter feito?

Aprender a comportar-se como dona da casa e garantir o futuro da filha teria sido sua principal e maior obrigação.

E era assim que Jane tinha de agir. Qualquer outra atitude despertaria suspeitas.

— Está bem. Vai falar com sua mãe sobre isso?

— Conversarei com ela amanhã cedo.

Reconheceu a tensão nos ombros musculosos e na maneira como ele sustentava a cabeça.

— Farei o melhor que puder.

O olhar de Charles sugeria incerteza e uma pequena medida de surpresa.

— Espero que sim.

Não era uma ameaça. Mas Jane chegou ao quar­to com a sensação de que as conseqüências seriam desastrosas, caso não fosse aprovada nesse teste.

Por que se importava?

Só teria de suportar o peso do ressentimento de Charles por mais al­gumas semanas. Depois disso deixaria Netherfielde encontraria um lugar onde pudesse viver em paz com Helena. Um lugar onde poderia re­construir sua vida.

Um lugar onde ninguém a conhecesse, onde não existisse uma única expectativa a ser correspondida.

Até lá suportaria todas as provações, todos os testes. Porque não tinha escolha.

***

O batizado de Helena só podia ser o primeiro evento programado. E ha­veria uma recepção. Fitzwilliam fora enterrado e pranteado; agora a herdeira dos Bingley teria uma recepção à altura de sua importância.

Jane sofria com a ideia de levar sua herdeira impostora à presença de Senhor e pedir Sua bênção.

Que destino esperaria por ela depois dessa última e imperdoável transgressão?

O som do órgão enchia a igreja de Youngstown, e o cheiro da cera de velas misturava-se ao dos perfumes caríssimos que pairavam no ar. Jane tentou não pensar que estava dando a filha um nome falso. E cada vez que a enormidade do ato a atingia, abalando suas estruturas mais elemen­tares, pensava no próprio pai, amaldiçoando Mor­ris Bennet por seu papel naquela farsa.

Sentia saudade da casa onde um dia vivera, da segurança que um dia acreditara possuir. Come­tera um deslize que mudara toda sua história, e então fora forçada a admitir que o pai nunca a amara de verdade, considerando-a importante so­mente enquanto fora de alguma utilidade para ele, enquanto não se transformara em um fardo, em motivo de vergonha.

Helena jamais teria de aprender uma lição tão dolorosa, prometeu a si mesma. Seu amor por ela seria incondicional e eterno. Seria uma mãe com­preensiva e presente. Jane fez o juramento si­lencioso antes de deixar a igreja e correr para casa a fim de cuidar dos últimos preparativos.