Não Sou Quem Você Imagina!
16 Capítulo 16
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
O coração de Jane batia descompassado. Não tinha o direito de discutir com aquele homem. Nem de estar zangada, contrariada, ou de desafiá-lo e questionar seu direito a duvidar das intenções de uma desconhecida que acolhera em sua casa. Não era nada para ele. Mas a bondade e a generosidade de Fitzwilliam e Anne haviam sido tudo para ela. Por eles ainda estava viva.
— Não, não acredito que tenha desejado a morte de meu irmão. Mas não estou convencido das razões que a levaram a se casar com ele.
****
Jane permaneceu em silêncio. Não disse que os motivos de Anne não tinham importância. Fitzwilliam se casara com ela. O fato estava consumado e as ramificações legais da decisão teriam de ser cumpridas. Em sua opinião, se Anne estivesse viva, a obrigação de Charles teria sido cumprir os desejos do irmão e garantir os direitos da cunhada e do sobrinho.
E acreditava que ele sabia disso.
— E quanto às responsabilidades que pretendia discutir?
— Vou honrar o testamento deixado por meu irmão — ele revelou sem responder à pergunta.
— Vai honrar também o casamento que ele fez? A esposa que escolheu? — Jane arrependeu-se assim que ouviu as próprias palavras. — Desculpe-me, não devia ter dito isso. Não quero discutir com você. Diga-me apenas o que é esperado de mim.
— O que espero, Anne, é que honre o nome dos Bingley. Que tenha um comportamento adequado a uma Bingley. E que comece a assumir os deveres que minha mãe cumpriu sozinha durante muitos anos. Não foi fácil para ela. No início, quando a fundição ainda era apenas um sonho em vias de realização, tudo era muito difícil. Creio que agora ela merece um pouco de paz e descanso.
Jane não tinha dúvida de que Charles estava certo. Além do mais, sabia que ia sentir-se melhor se fizesse alguma coisa em troca do sustento. Devia mais que isso a Fitzwilliam.
— Não tenho uma esposa — ele prosseguiu. — Se e quando decidir me casar, a mulher que escolher dividirá as tarefas.
— O que quer que eu faça?
— Quero que cuide da administração doméstica, receba os eventuais convidados, supervisione os criados e as compras, planeje os cardápios... esse tipo de coisa. Minha mãe vai ajudá-la enquanto estiver aprendendo.
Em outras palavras, teria de desempenhar o papel de Anne diante dos convidados. A ideia provocou um arrepio gelado e um medo que quase a paralisou.
— Com que freqüência recebem?
Ele a encarou e estudou-a em silêncio por alguns instantes. Era evidente que percebera o terror provocado pela ideia, mas imaginava diferentes razões para o sentimento.
— Sempre que um associado comercial está na cidade. Uma ou duas vezes por mês. Talvez mais. Talvez menos.
Assumir as responsabilidades de Mary a perturbava mais que tudo. O que aconteceria quando Jane partisse? Com sorte, só teria de organizar as recepções algumas poucas vezes. Depois partiria, e então Mary seria deixada novamente com todo o trabalho.
A situação era cada vez pior.
Mas, se Anne estivesse em seu lugar, teria concordado com os desejos do cunhado.
O que mais poderia ter feito?
Aprender a comportar-se como dona da casa e garantir o futuro da filha teria sido sua principal e maior obrigação.
E era assim que Jane tinha de agir. Qualquer outra atitude despertaria suspeitas.
— Está bem. Vai falar com sua mãe sobre isso?
— Conversarei com ela amanhã cedo.
Reconheceu a tensão nos ombros musculosos e na maneira como ele sustentava a cabeça.
— Farei o melhor que puder.
O olhar de Charles sugeria incerteza e uma pequena medida de surpresa.
— Espero que sim.
Não era uma ameaça. Mas Jane chegou ao quarto com a sensação de que as conseqüências seriam desastrosas, caso não fosse aprovada nesse teste.
Por que se importava?
Só teria de suportar o peso do ressentimento de Charles por mais algumas semanas. Depois disso deixaria Netherfielde encontraria um lugar onde pudesse viver em paz com Helena. Um lugar onde poderia reconstruir sua vida.
Um lugar onde ninguém a conhecesse, onde não existisse uma única expectativa a ser correspondida.
Até lá suportaria todas as provações, todos os testes. Porque não tinha escolha.
***
O batizado de Helena só podia ser o primeiro evento programado. E haveria uma recepção. Fitzwilliam fora enterrado e pranteado; agora a herdeira dos Bingley teria uma recepção à altura de sua importância.
Jane sofria com a ideia de levar sua herdeira impostora à presença de Senhor e pedir Sua bênção.
Que destino esperaria por ela depois dessa última e imperdoável transgressão?
O som do órgão enchia a igreja de Youngstown, e o cheiro da cera de velas misturava-se ao dos perfumes caríssimos que pairavam no ar. Jane tentou não pensar que estava dando a filha um nome falso. E cada vez que a enormidade do ato a atingia, abalando suas estruturas mais elementares, pensava no próprio pai, amaldiçoando Morris Bennet por seu papel naquela farsa.
Sentia saudade da casa onde um dia vivera, da segurança que um dia acreditara possuir. Cometera um deslize que mudara toda sua história, e então fora forçada a admitir que o pai nunca a amara de verdade, considerando-a importante somente enquanto fora de alguma utilidade para ele, enquanto não se transformara em um fardo, em motivo de vergonha.
Helena jamais teria de aprender uma lição tão dolorosa, prometeu a si mesma. Seu amor por ela seria incondicional e eterno. Seria uma mãe compreensiva e presente. Jane fez o juramento silencioso antes de deixar a igreja e correr para casa a fim de cuidar dos últimos preparativos.
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