Não Sou Quem Você Imagina!
17 Capítulo 17
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Sentia saudade da casa onde um dia vivera, da segurança que um dia acreditara possuir. Cometera um deslize que mudara toda sua história, e então fora forçada a admitir que o pai nunca a amara de verdade, considerando-a importante somente enquanto fora de alguma utilidade para ele, enquanto não se transformara em um fardo, em motivo de vergonha.
Helena jamais teria de aprender uma lição tão dolorosa, prometeu a si mesma. Seu amor por ela seria incondicional e eterno. Seria uma mãe compreensiva e presente. Jane fez o juramento silencioso antes de deixar a igreja e correr para casa a fim de cuidar dos últimos preparativos.
***
A recepção foi informal, com um bufê montado na sala de jantar. Charles observou que depois de uma criada recolher o casaco de cada convidado e acrescentar o presente à pilha crescente, Anne cumprimentava cada um deles pessoalmente. As roupas e o comportamento eram exemplares, e estava surpreso com a firmeza com que ela lidava com os empregados e a simpatia com que recebia os convidados.
Ela não conhecia os banqueiros e industriais de Meryton, mas Charles passou por um grupo entretido por Anne e ouviu as perguntas que ela formulava para estimular a conversa.
— Se o canal é tão importante, por que o projeto ainda não foi posto em prática?
— Porque é muito caro — respondeu Edward Coughlin, um banqueiro aposentado. — E os produtores têm preferido o transporte ferroviário ao fluvial.
— A ideia do canal tem sido passada de uma administração a outra por mais de cem anos — disse o prefeito Philips. — Um dia desses vai aparecer alguém com dinheiro suficiente para financiar o projeto.
O prefeito parecia encantado com Anne. Charles notou como o viúvo tentava chamar a atenção da jovem. Ela conseguiu afastar-se e integrar-se a outro grupo, caminhando com graça espantosa para alguém que se apoiava em muletas.
— O que achou de minha cunhada? — Charles perguntou ao prefeito Philips, fazendo questão de lembrar que o objeto de sua atenção era uma Bingley e estava sob sua proteção.
— Uma mulher fascinante. É uma pena o que aconteceu com seu irmão. Eles deviam formar um casal muito interessante. Ela é jovem e bela. Tenho certeza de que voltará a se casar em breve.
Os olhos de Charles passaram do prefeito a Anne.
Casar-se outra vez?
Era perfeitamente natural que alguém pensasse assim. Ela era jovem. E bela, também.
Por que haveria de contentar-se com uma vida de viúva rica, se poderia ser muito mais rica e ainda contar com a companhia de um marido?
— Há muito não o vejo no teatro — Edward disse. Dividiam um camarote no balcão, e Charles costumava acompanhar a mãe. — Por que não leva Anne no sábado à noite? Será uma boa oportunidade para que ela conheça as damas da nossa sociedade... e outras pessoas, também.
Os Coughlin eram a nata da sociedade de Hampshire. Assim que fosse aceita por eles, Anne passaria a ser parte indispensável da estrutura social local. Charles a seguia com os olhos.
Fitzwilliam Darcy, elegante na calça preta e na casaca cinza, mantinha-se em pé em um canto da sala de estar. Anne aproximou-se dele. Fitzwilliam inclinou a cabeça para ouvi-la e seus olhos cinzentos foram iluminados por uma centelha de interesse.
— E então? Podemos esperá-lo no sábado à noite, Charles? — Edward perguntou.
Anne disse alguma coisa no ouvido de Fitzwilliam e tocou a manga de sua casaca. Ele sorriu e respondeu, e Charles não conseguiu entender o desconforto provocado pela cena.
— Sim — respondeu. — Estaremos lá. — Atravessando a sala com passos determinados, parou ao lado da cunhada.
Fitzwilliam ergueu a cabeça.
— Anne fez um trabalho maravilhoso com a comida, não? Já provou o patê de ganso?
Charles tentou superar a irritação inexplicável.
— Sim. Minha mãe é uma excelente professora.
Anne o encarou, e se não soubesse tudo o que sabia sobre ela, Charles teria julgado ver uma sombra de dor em seus olhos. Ela podia enganar a todos, mas não se deixaria enganar pelo charme estudado e o falso sotaque londrino.
— Esteve na casa dos Crane? — perguntou ao assistente. — Como estava William?
— Ele está se recuperando bem. Apenas um pouco frustrado por não poder trabalhar. A sra. Crane me pediu para transmitir sua gratidão pelos suprimentos.
— Acha que é o bastante?
— Você mandou meia carroça de comida, Charles!
— Sua generosidade é admirável — Anne comentou.
— Não se deixe enganar — Fitzwilliam apontou. — Charles é um grande sovina. Ninguém consegue arrancar um centavo extra de seu bolso em uma transação comercial. Ele discute o preço do grama de ferro até os fornecedores serem vencidos pela exaustão.
— Meu pai fundou a companhia com o dinheiro de um empréstimo cedido pela Coughlin's Savings and Trust. Eu seria um filho indigno se não honrasse sua memória justificando todo o trabalho duro e multiplicando o investimento.
Os olhos de Anne foram invadidos por uma sombra.
Samuel Breslow, dono de um moinho, estava passando por eles e parou ao ouvir o último comentário.
— Fez um excelente trabalho, Charles. Agora precisa providenciar um herdeiro, alguém que assuma o comando dos negócios quando chegar sua vez de descansar.
Um silêncio estranho caiu sobre o grupo. Charles evitou olhar para Anne.
— Ainda pretendo passar muitos anos no comando da Fundição Bingley — garantiu.
— Não tenho dúvidas quanto a isso — o homem respondeu rindo. — Trouxe uma caixa de cigarros de Georgetown especialmente para você. O que acha de irmos experimentá-los?
— É claro. Com licença — Charles pediu, olhando para Anne com expressão fechada.
Jane assentiu, e os dois homens atravesaram a sala repleta de visitantes.
— Sou capaz de imaginá-lo realizando bons negócios e multiplicando o capital da companhia — ela comentou. — O que não consigo aceitar é o outro lado. O da generosidade e da compaixão.
— Charles é leal com todos os empregados — Fitzwilliam contou.
— E com a família.
— Sim, com a família.
— Você o conhece há muito tempo?
— Sim, há muitos anos. Certa vez nos apaixonamos pela mesma mulher.
— Oh?
— Tínhamos dez anos de idade.
Jane encarou-o e viu o humor em seu rosto.
— Nós nos odiamos por um mês inteiro.
— E o que aconteceu?
— Fiz com que ele fosse acusado de ter despejado tinta na cadeira da professora. Ele retribuiu esmurrando meu nariz. Mais tarde Mary Joy mudou-se para Chicago, e nós a esquecemos.
Jane sorriu.
— Ele e Fitzwilliam eram como óleo e água — Fitzwilliam prosseguiu. — Charles fazia tudo de acordo com as convenções, seguindo as regras, esforçando-se para agradar Templeton.
— O pai?
— Sim. E Fitzwilliam era exatamente o oposto. Quebrava todas as regras sem dar a menor importância ao que os outros pensavam dele. Nem mesmo a opinião do pai tinha importância.
— Entendo. E por isso o sr. Bingley preferia Charles.
— Pelo contrário. Oh, ele tentava não demonstrar, mas Fitzwilliam era o favorito. Pensando bem, era como se ele estivesse sempre tentando compensar o desapontamento causado por Fitzwilliam. — Sua expressão mudou de repente. — Desculpe-me.
— Por quê?
— Não devia ter dito isso. Você é a viúva de Fitzwilliam.
— Não, não. Sou grata por ser tão franco comigo. Ainda existem muitas coisas que desconheço ou não compreendo sobre esta família. Quanto mais souber, mais fácil será lidar com minha situação.
Charles nunca deixara transparecer que Fitzwilliam fosse mais que um valioso empregado. Mas ele estivera presente no serviço religioso em memória de Fitzwilliam, e de repente podia ver o relacionamento entre os dois homens sob uma nova luz.
Uma ideia invadiu sua mente.
— Ficou surpreso por Charles tem decidido investigar-me?
— Ele fez isso?
— Não sabia?
— Não.
— Pensei que ele pudesse ter lhe contado.
— Tenho certeza de que foi apenas uma medida de precaução. Alguém na posição de Charles tem de estar sempre pronto para proteger a propriedade e os investimentos. Qualquer mulher com quem Fitzwilliam tivesse se casado teria sido submetida ao mesmo tratamento. Charles mandará investigar o passado da própria esposa, se um dia decidir se casar.
O homem parecia sincero. Aparentemente, não participara do processo de levantamento de informações sobre Anne. Mas a simpatia e a amizade de Fitzwilliam a deixaram mais confortável do que estivera durante todo o dia.
— O que ele lhe contou a meu respeito?
— Apenas que chegaria com uma criança e estaria ferida. A menina é encantadora. Fico feliz por vocês estarem bem.
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