PARTE I
Davina Clark realmente pensou, mesmo que por um mísero segundo, que aquele talvez fosse o seu dia de sorte. Afinal, conseguira realizar todos os trabalhos acumulados naquele final de semana e, após uma revigorante xícara de café, ela fez seu trajeto diário até o escritório onde trabalhava.
Ela era apenas a assistente de Melinda Spencer, a editora chefe de um dos jornais mais reconhecidos de Portland, mas aguardava ansiosamente o dia em que teria suas próprias matérias publicadas na seção de Política e Atualidades. No entanto, enquanto sua vida ainda se parecia demais com o filme O Diabo Veste Prada, ela se contentava em marcar reuniões, fazer café e buscar papel A4 no almoxarifado.
Foi pouco antes de seu horário de almoço, em sua visita diária e quase religiosamente marcada ao almoxarifado, que Davina percebeu que a sorte nunca estava a seu favor.
Tudo começou com o chão tremendo levemente. A ruiva, muito sabiamente resolvera apenas ignorar o acontecido e seguir revirando as prateleiras enquanto dançava e murmurava a letra de alguma música pop chiclete que saía de seus fones de ouvido. Sequer ouviu o alarme de emergência – tampouco os gritos ensandecidos de seus colegas de trabalho. Só foi perceber que havia um mundo a sua volta – mesmo que talvez não por muito mais tempo – quando as caixas empilhadas ao seu redor começaram a cair e os artigos de papelaria muito bem organizados nas prateleiras foram de encontro ao chão. Parou instantaneamente e enfim sentiu o impacto. O chão agora tremia muito e em sua mente uma palavra pairava solitária: terremoto. Seu primeiro instinto foi correr até a saída – e ela teria completado o trajeto caso algo estirado no chão não a tivesse feito cair. Esse algo era na verdade alguém: Klaus Hamilton. O editor principal da seção de Política e Atualidade do jornal, e também o ser humano mais desprezível e mulherengo de todo o estado de Oregon, que estava dormindo tranquilamente em um canto da sala.
— Tem como esse dia ficar pior? – Perguntou Davida, com uma ingenuidade que beirava ao cômico. Não só havia maneira de ficar pior, como ficou: o estrondo vindo do lado de fora do almoxarifado era o som cacofônico de partes de uma das pareces do outro lado do corredor despencando e impedindo a passagem.
Davina estava presa em um almoxarifado com a pessoa que mais detestava naquele escritório e não havia sequer previsão de quando eles sairiam dali.
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