(Não) Procura-se um amor para o fim do mundo
2 Parte II
PARTE II
A situação era a seguinte: Aparentemente um terremoto atingiu grande parte da cidade e todos haviam evacuado o prédio por motivos de segurança. Menos, é claro, Davina Clark e Klaus Hamilton que por motivos distintos sequer perceberam o que acontecia ao seu redor. Para piorar a situação, eles estavam impossibilitados de sair do cômodo onde se encontravam.
— Nós vamos morrer! – Foi a primeira coisa que Davina disse após finalmente conseguir abrir a porta e se deparar com nada além de escombros e muita poeira.
— Nós não vamos morrer, Davina. Por que você sempre é tão dramática? – Klaus revirou os olhos, como sempre. — Estamos em um prédio novo. Em Portland. Você acha mesmo que a estrutura não é planejada para aguentar esse tipo de situação? Os bombeiros já virão procurar por sobreviventes, isso não é o 11 de setembro.
— Meu tio morreu no 11 de setembro – Disse Davina, encarando a expressão agora surpresa e quase – quase – arrependida de Klaus.
— Puxa, ele estava em uma das Torres? – Perguntou o moreno, com o cenho franzido. Seu desconforto era palpável, o que divertiu Davina – e quase a fez soltar um sorriso debochado.
— Não. – Ela gargalhou. – Mas foi muito legal ver você desconfortável. Obrigada por esse momento.
— Você é ridícula. – Klaus ralhou, mas também não conseguiu disfarçar uma sombra de sorriso em seu rosto.
***
— Deixe os azuis para mim, são meus favoritos. – Davina pediu de uma forma quase infantil à Klaus, que segurava o pacote de M&M’s que havia levado consigo. Acontece que ele trabalhava demais e não era de hoje que se escondia no almoxarifado para poder descansar sem que ninguém viesse lhe incomodar – coisa que seu escritório, embora muito confortável, não podia oferecer.
— Todos tem o mesmo gosto, Davina. – Ele resmungou, mesmo que tivesse esquivado os dedos dos chocolates azulados e escolhido logo os vermelhos e verdes. A ruiva o ignorou e continuou a mexer os pés ao som de Love Me Like You.
— Essa música é péssima.
— ‘Last night I lay in bed so blue/ 'Cause I realized the truth, they can't love me like you’ – Davina fez questão de cantar ainda mais alto, só por que sabia que isso irritava o homem sentado ao seu lado. Ela tinha 23 anos, um diploma universitário e um emprego razoavelmente estável, mas ainda escutava música pop adolescente e fazia provocações infantis quando se tratava de seu colega de trabalho. Pois é. Maturidade, assim como Estabilidade Emocional, eram meras lendas urbanas sobre vida adulta.
— Você certamente seria mais atraente se não fosse tão irritante. – Klaus murmurou e foi a vez da mulher revirar seus olhos esverdeados.
— Desde que eu não tenho interesse nenhum em ser atraente para você, posso ser irritante à vontade. – Respondeu com seu sarcasmo beirando ao cinismo. Sabia que Klaus, apesar de tudo, era um homem inteligente e sensato, mas ela simplesmente gostava de lhe dar respostas ácidas sempre que tinha a oportunidade. Esse foi o único jeito que encontraram de interagir um com o outro: a partir de provocações e muito sarcasmo.
Klaus nada respondeu. Permaneceu em um silêncio quase incômodo, se não fosse pela música – agora suave e calma – que saía do celular de Davina.
— Você realmente me acha atraente? – Davina não fazia ideia do porquê de ter feito a pergunta – e se arrependera de tê-la feito no instante em que as palavras saíram de sua boca.
— Não sabia que você fazia do tipo insegura. – Klaus replicou.
— Esquece que eu perguntei, eu não me importo nem um pouco com a sua opinião.
O rosto alvo de Davina já denunciava sua vergonha, ao enrubescer as bochechas em um tom carmim vivíssimo e o sorrisinho que o homem exibia não a fazia se sentir nem um pouco melhor. Foi quando ele começou a se aproximar lentamente de si, que o coração da mulher ameaçou parar por completo. Com seus lábios próximos ao ouvido da ruiva, Klaus murmurou:
— Mais do que atraente, te acho muito talentosa.
Davina sentiu um arrepiou percorrer sua espinha e os pelos dos braços se eriçarem com as palavras do mais velho. Parte porque nada a satisfazia mais do que elogiarem seus artigos, parte porque a presença daquele homem extremamente atraente ao seu lado a deixava quase febril.
— Como você leu meus artigos? – Foi a primeira coisa que veio em sua mente. A única pessoa que tinha acesso a eles além dela era Melinda, mas a editora-chefe não demonstrara grande interesse em sequer lê-los.
— Não acho que isso tenha importância no momento, para ser sincero. – O homem continuava muito perto, mas Davina sequer ameaçava se mexer.
— Ah, é? – Toda a eloquência que Deus lhe dera parecia desaparecido, ao passo que Klaus apenas se aproximava cada vez mais. Seus olhos verdes encaravam os acastanhados do homem e logo desviaram-se para os lábios finos do editor. E então ele a beijou.
Continuaram assim por sabe-se lá quanto mais, já que ambos perderam completamente a noção do tempo. Foi apenas quando escutaram os gritos abafados dos bombeiros que se separaram.
E ainda sorrindo, gritaram juntos:
— Estamos aqui!
FIM.
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