Não Feche Os Olhos
2 Olhar
Notas iniciais
– Me-me desculpe. – Gaguejou o cara se erguendo rapidamente e oferecendo a mão para me ajudar a levantar. O reconheci. Ele era o cara que estava mexendo no computador. Que maravilha, agora ele tinha me notado bem. O encarei por alguns segundos e estendi a mão de encontro à dele agradecendo a ajuda.
– Tudo bem, nem doeu. Eu só me assustei. – Me senti um pouco ridícula ao perceber que o grito que eu soltei ainda ressoava na minha cabeça. Ok, aquilo havia sido mesmo ridículo.
– Não vi você entrando e também me assustei. – Ele deu um sorriso meio sem graça. Antes que eu pudesse expressar algo ele se apressou em dizer – A biblioteca fica fechada às segundas e sextas. Você não pode ficar aqui, sinto muito.
– E porque ela fica fechada? E porque eu não posso ficar aqui? – Eu e as minhas perguntas curiosamente irritantes. Ele desprendeu o ar dos pulmões como se estivesse surpreso com meu questionamento.
– Todas segundas e sextas eu fico responsável pela manutenção dos computadores da biblioteca. Arrumar arquivos bagunçados, checar os vírus que alguns ‘bons’ alunos teimam em colocar no computador, – Ele havia dito a palavra ‘bons’ com a máxima ironia que conseguia – e consertar alguns aparelhos que possam ter estragado ‘acidentalmente’... – Olha a ironia de novo. Achei engraçada a maneira como falou, mas não esbocei um sorriso. – E você não pode ficar aqui por que... Bem, pode me... Digamos assim, atrapalhar.
Estreitei os olhos e um pingo de indignação me inundou. Abri a boca e as palavras saíram um pouco menos sarcásticas do que eu queria que parecessem.
– Eu estou aqui há quase três horas, eu te atrapalhei em alguma coisa? – Ponto pra mim.
– O quê? – Ele se espantou. – Você está aqui há três horas e ninguém percebeu? Vão me matar se souber que passou tanto tempo assim aqui dentro. Para falar a verdade, não gostam de alunos em lugares onde não possam ser vigiados. – Passou a me empurrar em direção a porta com a ponta dos dedos.
– Eu posso ficar aqui e VOCÊ pode me vigiar. – Forcei o pé no chão evitando ser empurrada por ele. Eu não queria sair dali, aliás, eu não tinha mais para onde ir sem ser encarada como uma completa esquisita. Olhei para ele e pela expressão dos olhos consegui ler seus pensamentos. Ele estava indeciso do que fazer comigo. Parecia ser gentil o bastante para não expulsar uma garota de algum lugar.
– Tudo bem! – Ele relaxou os músculos do corpo. – Mas só dessa vez. Não quero você aqui de novo quebrando as regras e se trancando escondida aqui nem nas segundas e nem nas sextas. Ok?
– Ok. – Levantei as mãos em sinal de rendição. – Não verá minha cara de novo a não ser nos dias permitidos ‘capitão’... – Forcei os olhos para ler seu nome no crachá e ele me interrompeu.
– André... E eu não sou ‘capitão’. Moça, não me leve a mal, não sou eu que dito as regras. Acontece que podem brigar contigo e comigo e... – Tentou justificar. Seus olhos complacentes mexeram comigo de certa forma.
– Manuela. – Eu o interrompi.
– O que? – Ele flexionou a mandíbula como se buscasse entender aonde a conversa tinha parado.
– Meu nome... É Manuela. – Fazia tempo que eu não me apresentava a ninguém. Para ser sincera, fazia tempo que eu não conversava com ninguém e até que estava divertido, mesmo que fosse para ouvir broncas.
– Ah, prazer moça. – E ele ainda me insistia em chamar de moça. Ele olhou para mim sorrindo e eu não pude conter um sorriso também. Por mais que o sorriso fosse pequeno, ele era sincero. – Enfim, volte lá para seu canto escondida e eu finjo que não vi você ok? – Ele piscou para mim fazendo um pacto silencioso.
– Ok. Deixa eu só jogar isso no lixo. – Levantei a mão que continha a barra de cereal que havia se partido mais ainda, provavelmente por nervoso ao se assustar quando eu esbarrei com o André.
– Pode deixar, eu jogo pra você. – Ele tomou a barra da minha mão e se virou em direção ao lixo.
– Ãnh, obrigada. – Eu agradeci baixinho. Ele realmente estava sendo gentil comigo, coisa que era difícil de ser acontecer. Por um segundo achei que tudo aquilo pudesse ser um sonho. Talvez eu estivesse adormecido em cima daquele chato livro de história do Brasil e imaginado uma conversa com alguém realmente humano.
Virei às costas para a porta e voltei aos meus livros.
*
Olhei para o celular pela décima vez e percebi que já eram 17:30. Eu sairia da escola quando o alarme tocasse, mais ou menos umas 18:15. Ainda faltavam alguns longos minutos de estudo. Escutei passos vindos em direção ao corredor onde eu estava e voltei a percorrer meus olhos sobre o livro. Eu estava sentada no chão e me encolhi ainda mais no canto.
André parou no meio do corredor e começou a olhar a prateleira como se estivesse buscando um livro. Elevei meu olhar discretamente para observa-lo. Ele deveria ter 1,75 metros de altura, uns vinte centímetros a mais que eu. Cabelos castanhos médio com olhos da mesma cor. Seu porte físico seria alguém que eu chamaria de magro. Vestia o uniforme que caia um pouco sobre a calça jeans. Aparentava 20 e poucos anos. É ele era bonito. Bonito até demais. Perguntei-me como não tinha o visto antes.
– Você não devia vir com esses shorts para o colégio. – Meus pensamentos haviam sido interrompidos e senti os pelos dos meus braços se eriçarem quando notei que analisava minhas pernas curiosamente, mas sem malícia – Mas você não parece alguém que gosta de seguir regras, não é?
– É, eu sei. Mas calças jeans me incomodam e eu não gosto de vestir. – Encolhi minhas pernas procurando deixar elas invisíveis para ele. Com sucesso, ele voltou a procurar o que queria antes. – Ãnh... E então, o que você está procurando? – tentei puxar assunto, estava gostando de trocar algumas poucas palavras com alguém que gostava de me olhar nos olhos e que não parecia se importar com as minhas esquisitices.
– Eu também não sei. Para falar a verdade, me esqueci. Com certeza algum livro que está nessa prateleira. – Flexionou os músculos da face como se tentasse lembrar o nome do livro que procurava. – Ah, “Os mistérios da internet”, é o nome do livro. – E sua expressão se normalizou.
– “Os mistérios da internet”? Não me parece interessante. Enfim, quer ajuda? – Disse levantando do chão vagarosamente. Esforcei-me para ser educada.
– Achei que não fosse oferecer nunca. – Respondeu ele ceticamente. Minha boca se abriu querendo protestar. Ele fazia aquilo de propósito, mas deixei passar dessa vez. – Estou brincando viu moça? Se quiser, pode ajudar sim. – E ele me deu mais um sorriso maravilhosamente esculpido. Talvez tenha percebido a minha indignação em relação ao que tinha dito anteriormente, mas assim que ele sorriu não pude deixar de sorrir em resposta.
Começamos a procurar o livro em cada fileira e liamos os nomes, um por um. Conversamos pouco e nos ocupamos em achar aquele livro. Passado pouco tempo meu celular começou a vibrar.
– Poxa, mas já? – Nunca vi o tempo passar tão rápido. Já eram 18:15 hora de ir embora. – Me desculpe, mas eu preciso ir. Deu a minha hora. – Segui novamente para meu canto onde eu estava sentada anteriormente e me curvei, organizando tudo rapidamente para eu poder sair dali.
– Tudo bem, hora de eu fechar a biblioteca também. Ah obrigado pela ajuda, embora não tenhamos encontrado o livro foi... Divertido. – Ele disse a ultima palavra como se quisesse dizer outra, mas quis ser simpático.
– Por nada. – Na verdade quem queria agradecer era eu, já que ele tinha ao menos feito meu dia um pouco mais feliz. Finalmente alguém conseguiu ficar comigo mais do que meros minutos sem me xingar. Olhei para o lado e meus lábios leram silenciosamente a capa de um livro no fim da prateleira. Peguei o livro e me levantei. – Olha só o que eu achei: “Os mistérios da internet”. – Caminhei até ele e entreguei o livro. André olhou admirado para a capa e eu julguei que ele era fascinado por aquele tipo de leitura.
– Valeu moça, exatamente esse que eu estava procurando! – Ele agradeceu sem tirar os olhos do livro.
– Disponha. Agora eu preciso ir, tchauzinho! – Assim que ele levantou os olhos e me encarou, ergui as mãos e balancei rapidamente em forma de despedida. E fui saindo da biblioteca.
– Até amanha, moça! – Bom, agora nós dois sabíamos que eu voltaria no dia seguinte.
Cheguei em minha casa exausta e morta de fome. Tomei um banho enquanto um resto de macarrão do almoço esquentava no microondas. Comi desesperadamente e me deitei. Menos de meio milésimo de segundo depois eu me afundei numa enorme escuridão.
*
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