Não Escolhi Amar Ele

12 Capítulo 12 - Decisão Arriscada


(Daniel)

Eu já estou decidido, vou contar para minha mãe e o Lucas vai ver como nossas vidas vão melhorar, só preciso chegar em casa e contar, não deve ser difícil, afinal, é uma coisa normal hoje em dia. Só preciso arrumar uma forma de não mencionar o Lucas para ela, já ele pediu muito para mim, e realmente estava assustado.

No caminho de casa peguei meu celular e fui trocando mensagens com o Fabio, contei para ele sobre minha ideia.

–Dani, para com isso cara!

–Por que Fabio? Você já é assumido, sua vida é fantástica e por que eu não posso viver como você?

–Daniel não é tão fácil quanto parece, passei por muita coisa ruim até ser quem sou.

–Ah cara eu consigo, não entendo por que você e o Lucas querem evitar que eu seja feliz!

–Lucas também não quer que você conte? Perguntou Fabio por mensagem

–Não, ele disse que vou fazer merda também e blá blá blá!!!

–Ele está certo Dani, e não estamos evitando que você seja feliz, só estamos pedindo para que você pense melhor.

–Eu vim falar com você por que pensei que fosse receber ajuda, mas acho que não...

–Eu te ajudo, já que você não vai mesmo desistir dessa ideia maluca, te ajudo!

–Tá bom, cheguei em casa agora Binho, depois nos falamos.

–Daniel não fala nada ainda, deixa eu te explicar umas coisas antes...

–Okay, até mais e valeu

Cheguei em casa e fui direto para meu quarto, sei que poderia continuar falando com o Fabio mas precisava de um tempo para ficar sozinho, então me deitei na cama com meu fone de ouvido, pluguei ao celular e fiquei ouvindo músicas, imaginando como seria minha vida daqui para frente.

Em poucos minutos cai no sono, e acordei com minha mãe me chamando.

–Daniel, você está bem? Perguntou

–Sim, estou bem mãe. Por que?

–Você chegou foi direto para o quarto e nem quis almoçar, fiquei preocupada.

–Ah, eu já tinha comido na escola e estava cansado por causa da educação física.

–Então tá bom. Fechou a porta do meu quarto e se retirou

Peguei meu celular para olhar a hora e vi várias mensagens, tinha do Lucas, e também do Fabio.

O Lucas continuava preocupado com o que eu iria fazer.

–Daniel, está ai?

–Dani, me responde!

–Espero que você não tenha contado ainda...

Vi que ele estava realmente preocupado e decidi ligar para ele explicando que até o momento não tinha contado nada, e que o Fabio iria me ajudar assim o nome dele não seria exposto até minha mãe, claro que ele não gostou muito de eu envolver o Fabio nessa situação, acho que ele no fundo tem ciúmes do Binho.

Abri as mensagens do Fabio que não eram muitas.

–Hey gatinho, está tudo bem com você?

–Você disse que depois nos falávamos e sumiu...

–Vê se aparece heim guri!

Corri para responder as mensagens dele.

–Oi Binho, estava dormindo!

–Aeee, apareceu. Dormindo uma hora dessa?

–Sim, estava pensando e acabei pegando no sono, e o que você tinha para falar?

–Bom vamos lá! Você já pensou em como vai falar para sua mãe?

–Já! Vou chegar nela e contar que sou gay, se ela duvidar digo que você é meu namorado.

–Eita menino, namorado?

–Sim, só por enquanto por favor?

–Tudo bem, quando você fizer isso me avisa okay? Preciso sair agora depois te chamo.

–Está bom, tchau beijos

Passei o resto da tarde lendo para tentar distrair minha mente enquanto criava coragem de encarar minha mãe e dizer, ela serviu o jantar e eu distraído nem fui ajudar a preparar. Apenas me sentei na mesa e comi, lavei a louça do jantar e retirei a mesa enquanto ela estava assistindo jornal na tv. Pensei comigo mesmo que essa seria a hora certa e fui até lá.

–Mãe, posso te contar uma coisa?

–Claro que pode Daniel. Responde ela com cara de curiosa enquanto me sento no sofá.

–Mãe... sou gay! Contei com o coração na mão pois estava tremendo de medo.

Ela ficou alguns segundos paralisada, e eu olhando fixamente nos olhos dela, tremendo e suando frio.

–Está falando sério Daniel? Perguntou ela me encarando muito seriamente.

–Estou sim mãe... Engoli seco mas confirmei

Minha mãe começou a chorar muito, ela estava tremendo, as lagrimas escorrendo, eu não imaginava que ela fosse ficar assim. Eu não sabia o que fazer, só conseguia olhar para ela enquanto via sua ruína, achei que ela me amasse do jeito que eu sou. Mas vejo que me enganei.

–Daniel! Me conta isso direito, desde quando você é gay? Perguntou ela começando a alterar a voz.

–Não faz muito tempo mãe, algumas semanas e por isso queria te contar logo. A Sra. Sabe que não gosto de mentir.

–Não acredito seu desgraçado, dei a minha vida para que você fosse uma boa pessoa. Grita ela olhando fixamente em meus olhos.

–Mas mãe... Eu sou uma boa pessoa, sou eu ainda, seu filho Daniel.

–Você vai ser a vergonha da família isso sim. Responde ela dando um tapa em minha cara.

Fico cabisbaixo e não consigo segurar as lagrimas depois de ouvir essas palavras saindo da boca dela, minha mãe dizendo que serei a vergonha da família.

–Olha Daniel não quero saber, você tem duas escolhas vira homem ou vai morar com seu pai, por eu não criei filho sozinha para que ele virasse boiola. Diz ela se levantando do sofá

–Mãe, não é tão simples assim, eu não escolhi ser assim, eu não escolhi gostar de homens, eu nasci assim.

–Você nasceu homem e agora depois de grande decidiu dar a bunda para outros machos, tenho vergonha de você...

–Mãe, para por favor... eu só queria que você fosse a amiga que eu não tenho, pensei que pudesse confiar em você. Mas me enganei...

Ela ficou em pé ao lado da porta do seu quarto chorando muito enquanto me levantei e fui me deitar, minha mente parecia um pássaro perdido em meio a tempestade, sem saber para onde ir, procurando um refúgio, um amigo.

Me deitei e comecei a chorar muito, pensando no que havia feito, enxergando o erro que havia cometido, me culpando por não ter dado ouvido as pessoas que se importam comigo.

Tentei buscar alivio em uma conversa com o Fabio, liguei para ele mas não tive sucesso, a ligação caiu na caixa de mensagens várias vezes e eu fiquei sem saber o que fazer, apenas chorava e pensava na vida que eu acabei de estragar. Minha mãe agora tem vergonha de mim, odeia o próprio filho e diz que não me criou assim, realmente essa é a pior coisa que alguém poderia ouvir, tentando parar de chorar coloquei músicas que me acalmam e fechei os olhos, em poucos minutos consegui dormir.

Acordei e comecei a me arrumar para ir para a escola, minha mãe nem tinha se levantado como em todos os dias, a porta de seu quarto estava fechada, fiquei preocupado mas não me arrisquei a abrir, fui para a escola sem tomar café da manhã e chegando lá Lucas veio me cumprimentar e logo disse

– O que você tem? Está péssimo! –

– Contei para minha mãe – respondi e continuei andando

– Nossa mano, por que você fez isso? – pergunta ele andando logo atrás de mim.

– Vamos para a aula Lu, por favor. –

Eu não queria tocar no assunto logo cedo, e com certeza ele estava super curioso em saber o que tinha acontecido, querendo saber se toquei no nome dele, querendo descobrir todos os detalhes. Mas ainda me faltava coragem de encarar meu erro diante da pessoa que mais lutou para impedir que isso acontecesse.

A aula começou e eu tentei prestar atenção em tudo o que a professora ensinava, mas nada entrava em minha mente, eu só conseguia lembrar das palavras horríveis que minha mãe me disse “-Você vai ser a vergonha da família”.

Cruzei os braços sobre a mesa e encostei minha cabeça, fechei os olhos e tentei esquecer aquele momento, em alguns minutos senti a sensação que o mundo todo estava me olhando, não demorou muito e a professora me chama.

–Daniel, você está se sentindo bem? – pergunta ela vindo em minha direção

–Estou sim professora, só estou sentindo um pouco de dor de cabeça. – respondi fingindo estar com dor.

–Vá até a enfermaria e toma um remédio. – diz ela acariciando meus cabelos

Ela foi muito gentil comigo, acho que por esse motivo a maioria dos alunos adoram ela, me levantei e fui até a enfermaria tomar algo, sei que não estava sentindo nada mas precisava disfarçar bem para que não descobrissem a mentira, tomei um remédio com gosto horrível provavelmente era dipirona, corri para o bebedouro e me enchi de água. Fui caminho lentamente até chegar na sala e estava pensando para onde iria depois da escola, já sinto que não devo voltar para casa, não sei como encarar minha mãe depois daquela discussão.

Pedi licença para a professora e sentei em meu lugar, voltei a encostar os braços e a cabeça na mesa fingindo estar passando mal, mas na verdade era minha mente que estava em turbulência, todos os professores estavam mandando eu ir embora para casa, seria muito bom ir embora da escola mais cedo, mas eu não queria chegar em casa e dar de cara com minha mãe. Então fiquei “deitado” até a hora do intervalo.

Sai da sala e o Lucas veio correndo atrás de mim, enquanto Melissa e companhia só ficavam de olho.

–Hey, espera Daniel! – disse ele correndo para me alcançar

–Fala?

–Me conta cara, o que sua mãe disse? – perguntou enquanto estávamos indo até o mesmo local de sempre.

–Lucas se você quer ouvir que você tinha razão, que você estava certo, que eu deveria ter dado ouvidos para você, tudo bem... Eu errei...

–Calma Dani, não estou falando isso não, só estou preocupado com você, parece que sua mãe não aceitou.

–Não, ela não aceitou. Ela falou um monte de coisas para mim e provavelmente vou ter que ir embora da cidade.

–Ir embora da cidade?

–Sim, vou ir morar com meu pai, ela deixou bem claro que se eu não fosse hetero iria morar com meu pai.

–Nossa cara, não acredito que ela vai ter coragem de fazer isso com você.

As lembranças vieram forte durante essa conversa, meus olhos se encheram de lagrimas e eu não aguentei segurar a pressão que esses pensamentos faziam em minha mente.

–Ela disse que sou uma vergonha... – disse chorando muito,

–Não acredito cara, eu sempre ajudei ela, sempre fiz de tudo. E agora sou a vergonha da família...

–Calma Dani, isso vai passar, espera ela se acalmar. – diz ele me abraçando forte, colocando minha cabeça sobre seu ombro.

–Ah cara, acho que minha vida acabou, devia ter ouvido. Você não queria fazer mal para mim, mas fui muito otário de não enxergar a verdade.

–Hey calma, por favor. Coloque um sorriso lindo nesse rosto e saiba que assim como você esteve ao meu lado quando precisei, também vou estar sempre com você. – disse ele enxugando as lagrimas que escorriam em meu rosto.

–Obrigado Lucas, mas não vou estragar sua vida como fiz com a minha, hoje assim que sair da escola vou dar um jeito nisso. Todo mundo vai ficar feliz de novo e a probabilidade de eu estragar sua vida não vai mais existir.

–Como assim Daniel, o que você vai fazer? – Pergunta ele olhando para mim seriamente.

–Relaxa cara, vai ficar tudo bem. – Respondi e fui indo em direção ao pátio para beber água e limpar meu rosto.