Não Conte Nossos Segredos
5 Capítulo 5
Quando a hora do almoço chegou, todos os alunos saíram em disparada da sala. O coração de Alana acelerou só com o pensamento de que teria a oportunidade de finalmente descobrir quem era Adriana Golveia. Estava quase pegando a pasta, quando notou uma presença perto de si.
-Oi! – Mila estava de pé, ao lado de sua carteira, com o sorriso simpático costumeiro.
-Oi... – Alana cumprimentou, sem saber como reagir e estranhando o comportamento da outra.
-Você está bem? – Mila perguntou, chegando um pouco mais perto.
-Ah... Claro! – Alana se sentiu desconfortável e sem entender o motivo da pergunta – Só uma noite mal dormida. – mentiu.
-Nem me fala! Fiquei tendo pesadelos a noite toda! E acredita que agora nem me lembro com o que sonhei? – Alana tentou ignorar o simples fato de que Mila nem parecia ter tido um ataque de nervos no dia anterior. Era como se aquilo jamais tivesse acontecido.
-Nossa...
-Pois é! Ai, estou com fome. – colocou a mão na barriga – Vamos à cantina? – tudo o que Alana mais queria era ficar sozinha na sala. Tentou pensar em uma desculpa, mas Mila foi mais rápida – Vamos, vai! O Pedro vai jogar futebol e isso eu não perco!
-Eu... Estou cansada, queria ficar sentada aqui... – Mila se mostrou decepcionada – Por que não chama o Marcos? – a outra riu.
-Porque, caso ainda não tenha percebido, Marcos faltou hoje, ele está indisposto. – só então Alana notou que a carteira dele estava vazia – Além disso, mesmo que ele estivesse, não concordaria em assistir ao jogo comigo. Vai, alana, por favor! – implorou.
-Achei que você só gostava de nerds.
-Para namorar! O Pedro é bom de apreciar! – Alana riu com o comentário – Por favor!
Voltou sua atenção para sua mochila. Estava mais do que ansiosa para ler o que quer que estivesse escrito naqueles papéis, mas talvez fosse melhor lê-los em casa, afinal, se algum dos alunos a visse, Alana estaria em sérios problemas.
Entretanto, a ideia de deixar a mochila na sala não a agradava, tinha receio de alguém inventar de mexer nela e ver o que estava lá dentro. Olhou para sala, só para ter certeza de que estavam sozinhas, e acabou achando seu temor estúpido. Quem mexeria em sua mochila?
-Alana?
-Tudo bem, tudo bem... – suspirou – Vamos, mas vê se não baba em mim!
-Chata! – as duas riram e, antes de saírem da sala, Alana olhou uma última vez para sua carteira.
Como era de se esperar, a cantina estava cheia. Alana levou várias cotoveladas e foi empurrada de um lado para o outro, tentando ficar perto de Mila. Por fim, decidiu espera-la perto da quadra, onde várias garotas já estavam reunidas para ver o ídolo do colégio jogar.
Enquanto tentava se afastar da multidão de alunos esfomeados, Alana viu de relance um par de óculos familiar. Marcos não tinha faltado? O que estava fazendo ali? Foi abrindo espaço por entre as pessoas, seguindo uma camiseta azul.
Passou, então, pela sua cabeça, que ela podia estar se confundindo, mas mesmo assim continuava atrás dele. Quando finalmente saiu de toda aquela confusão, percebeu que o tinha perdido de vista. Olhou para todos os lados na esperança de avistá-lo, o que não aconteceu.
-O que está fazendo aqui? – Mila perguntou, dando uma bela mordida no seu sanduíche – Achei que fosse me esperar perto da quadra.
-Acho que me perdi. – falou, ainda vasculhando seu campo de visão. Mila riu.
-Vem, é por aqui.
Com muito custo e muita grosseria por parte da Mila, as duas conseguiram em espaço no qual dava para ver tudo o que estava acontecendo dentro da quadra. Enquanto Alana nem prestava atenção no jogo, Mila gritava sem parar, e foi em um desses gritos que ela engasgou e precisou da ajuda de Alana. No final, o time do Pedro ganhou e ele saiu se exibindo pelo colégio.
Assim que o sinal bateu e as duas voltaram para a sala, Alana olhou discretamente dentro de sua mochila, vendo que a pasta continuava intacta. Conversou mais um pouco com a Mila e, quando o professor, famoso por ser o mais chatos de todos, chegou, voltou para o seu lugar.
Cinco minutos depois que a aula começou, bateram à porta e Gabriel entrou. Só então Alana se deu conta de que ele também não estava presente no primeiro período. Ao vê-lo naquelas roupas pretas, seu sangue gelou e suas pernas ficaram levemente bambas. Já estava acostumada a cor que o Gabriel sempre usava, mas acabou fazendo uma relação com a pessoa que tinha visto na tarde anterior a fez ter medo.
-Ora! – disse o professor – Achei que não nos presentearia com sua notável presença! – ironizou, mas nem isso fez com que Gabriel mudasse sua expressão de indiferença.
-Tive alguns problemas. – respondeu seco e olhou para Alana. Ela se sentiu estranha e desviou o olhar.
-Que não devem ser familiares, uma vez que seu irmão está aqui. – Alana se perguntou o que ele queria dizer com aquilo. Sua fala tinha soado como se soubesse de algo a respeito do garoto. Mais a frente, viu Pedro se mexer na cadeira de modo desconfortável e franziu o cenho – Se você acha que só porque é filho de que é...
O celular de Alana fez um barulho razoavelmente alto, chamando a atenção de todos. Constrangida, olhou rapidamente a mensagem que Mila tinha enviado: “A noite não foi boa. – Mila” E logo tentou apaga-la.
-Senhorita Alana! – assustou-se com o grito – Que barulho foi esse?
-Nada... Me desculpa... – pediu, morrendo de vergonha por ser o alvo de todos os olhares.
-Por caso, está me chamando de louco?! – o professor parecia um pimentão.
-Não! – enquanto ele andava em sua direção, conseguiu apagar a mensagem.
-Me dá seu celular! – e o pegou da mão dela – Se o quiser de volta, pegue depois da aula. E você, senhor Gabriel, vem falar comigo depois, também! – Gabriel revirou os olhos e foi para o seu lugar enquanto continuava encarando Alana – Se vocês permanecerem com essa postura, serão uns inúteis. – e voltou para a frente da sala.
Quando o último sinal bateu, Alana arrumou o material e foi atrás do professor. Ele estava na sala do primeiro ano, sentado, corrigindo algumas folhas que estavam em cima da mesa.
À sua frente, estava Gabriel. Ele nada fazia e Alana percebeu que ele apenas escutava o que o professor falava.
-Não me interessa! – o professor suspirou – Sem mais atrasos. – disse em tom intimidador – Agora, sai.
Gabriel olhou para a porta e a viu parada junto ao batente. Alana ficou com medo de levar mais uma bronca por estar ouvindo a conversa alheia, mas ao invés disso, foi convidada, pelo professor, a entrar.
-Aqui está. – apontou com a cabeça o celular.
-Desculpa, professor. – viu Gabriel sair da sala.
-Que isso não se repita.
-Pode deixar.
Enquanto caminhava, Alana sentiu, novamente, que estava sendo observada. Olhou para trás sem parar de andar, mas não viu nada. Voltou sua atenção para frente e começou a ouvir passos. Já com as mãos suando frio, olhou mais uma vez para trás, vendo uma figura negra encapuzada atrás de si.
Acelerou os passos e percebeu que a outra pessoa também. Começou, então, a correr, e quando se virou outra vez, viu que ela estava perto. Morrendo de medo, foi em direção à rua sem prestar atenção se vinha algum carro ou não. Ouviu uma buzina e pneus cantarem no asfalto, fechou os olhos e sentiu o impacto contra uma superfície quente e até macia.
Abriu os olhos rapidamente e olhou para todos os lados, vendo a pessoa de preto, já do outro lado da rua, entrar em um beco. Suspirou aliviada e encostou a cabeça naquilo que a segurava, e só então se deu conta dos braços fortes que envolviam sua cintura, do cheiro amadeirado, do calor reconfortante e do peito definido que, naquele momento, servia de apoio para sua cabeça.
Afastou-se apressadamente, vendo que estava nos braços de ninguém menos que Pedro.
-Você está bem? – perguntou preocupado. Alana olhou para a rua, imaginando que, se ele não a tivesse puxado de volta para a calçada, provavelmente estaria morta.
-Estou, obrigada. – sorriu minimamente.
-Caramba... – ele suspirou – Não faz mais isso não! – e sorriu como se fosse uma criança.
-Pode deixar. – Alana desviou o olhar, envergonhada.
-Ah, agora que percebi! Você é a aluna nova!
-Alana. – apresentou-se, mesmo sabendo que, por conta do que tinha acontecido mais cedo na aula, ele já devia saber quem ela era.
-Pedro. – pausa – Você estava indo para onde, com tanta pressa?
-Um... Compromisso qualquer...
-Ah... – fez-se silêncio.
-Bom... Tenho que ir.
-Está bem mesmo?
-Estou, sim. Obrigada por me salvar!
-Tudo bem. Disponha!
Alana voltou para casa correndo, ainda reparando em tudo à sua volta, e, assim que chegou, foi direto para seu quarto. Jogou a mochila em cima da cama e pegou a pasta, e com o coração aos pulos, pegou os papéis.
Quando os viu, a vontade de Alana foi de gritar e chorar, apenas uma folha não estava em branco. Em letras negras e pouco trabalhadas, estava escrita a mensagem: “Olha como sou uma alma caridosa, estou te
dando outra oportunidade. Tem certeza de que quer continuar com isso?”
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