Chegou em casa completamente atordoada, correu para o banheiro e jogou água fria no rosto. O pânico ainda não a tinha abandonado e suas mãos tremiam muito. Jogou mais água fria no rosto e tentou respirar um pouco mais devagar. Levantou lentamente o olhar para o espelho e gritou quando viu o rosto de outra menina refletido no lugar onde deveria ser o seu.

Na tentativa se sair do banheiro, tropeçou no próprio pé e caiu, batendo o ombro no batente da porta. “Adriana, Adriana, Adriana”, passou a tremer ainda mais “de novo não, Adriana, sai, Adriana”. Sua mente estava uma completa confusão. Fechou os olhos com força e tampou os ouvidos. Mais do que nunca desejou ir embora e se sentiu angustiada
por saber que não podia, seus pais não entenderiam.

Seu celular começou a tocar e Alana hesitou, tinha medo de ver o número. Tocou mais cinco vezes até que ela, com dificuldade, levantou e caminhou até onde ele estava. Quando pegou o aparelho na mão, suspirou aliviada por ver quem estava ligando.

-Alô... – sua voz saiu mais esganiçada do que previra.

-Você não sabe o que aconteceu! Uma fofoca daquelas! – Alana sorriu fracamente, estava feliz por estar falando com Roberta, ela era
praticamente a sua irmã.

-E não vou saber até você me contar.

-Então, o diretor foi pego aos amassos com a professora de sociologia!

-Sério?!

-É! Tudo bem que todo mundo já desconfiava mesmo, mas, nossa! Foi na sala dele! E você não sabe o pior!

-E o que seria?

-A mulher dele pegou no flagra! Menina, foi um escândalo! – naquele momento, Alana desejou estar ali com Roberta, não pela fofoca, mas pela companhia da amiga.

-E agora? – perguntou indo para o seu quarto. O tremor já tinha diminuído e arte do pânico, passado.

-Agora está uma confusão só! Acredita que minha mãe quer me tirar do colégio? Ela disse que lá não tem moral e blá, blá, blá...

Assim que entrou no quarto, Alana levou um susto. A velha estava na janela e a encarava, dessa vez como se soubesse de algo.

-Alana?

Correu até a janela e antes de fechá-la, a mulher abriu um sorriso que revelava sua boa desdentada.

-Alana? Está tudo bem?

Alana se encostou na parede e respirou fundo, irritada com o fato de aquela velha gorda estar sempre de olho nela. Deixou-se escorregar e sentou no chão.

-Estou bem, sim. – respondeu.

-Sei. Cara, acho que essa cidade já está começando a te afetar. Falando nisso, como é aí?

-Chato. Me tira daqui? – pediu com voz chorosa – Quero ir embora! – Roberta riu.

-Sabe que, se eu pudesse, nunca tinha deixado você se mudar.

-Eu sei... – houve um breve silêncio.

-Bom... Eu preciso ir, mas prometo que nos falamos amanhã.

-Tudo bem... Tchau.

-Tchau.

Assim que desligou o telefone, ouviu o barulho de porta abrindo e, menos de cinco minutos depois, seus pais apareceram na porta do quarto. Após passar meia hora dizendo que estava tudo bem e que só não tinha fome por conta do cansaço, Alana pode finalmente ir dormir.



Se no dia anterior já não estava com vontade para ir ao colégio, naquele muito menos, principalmente por conta do que tinha sentido. E a ideia de ter que ficar ao lado daquela carteira também não a agradava.

Mas como não tinha um argumento convincente para faltar na aula, levantou e foi se arrumar. Ainda era de manhã e já estava fazendo um calor horrível, colocou uma das roupas mais leves que tinha e foi para a escola.

Como era o segundo dia e ela não era mais tão nova assim, a intensidade dos olhares tinha diminuído. Foi até a sua sala e encontrou apenas cinco pessoas ali, sendo três delas, Mila, Pedro e Gabriel. Segui para o seu lugar ignorando os dois e, enquanto deixava seu material na carteira, Mila se aproximou e sentou em cima da mesa.

-E então, o que achou do primeiro dia?

-Ah... Normal, acho. – Mila riu.

-Está detestando ficar aqui, não é? – pelo tempo que Alana demorou pensando quais eram as palavras certas para concordar com o que ela tinha dito, Mila logo soltou – Está! Não tem problema, pode falar a verdade! Deve estar sendo difícil para você.

-É... – Alana concordou, sentando na cadeira.

-Como era na sua cidade? Ah! Como eram os garotos da sua antiga escola? Eram bonitos? Sinceramente, não acho os daqui muito bonitos não... – Alana riu reconfortada pelo fato de ela lembrar Roberta.

Contou um pouco como era sua vida na capital e Mila ficou encantada com a quantidade de lugares que Alana já tinha ido. Algum tempo depois, o professor entrou na sala e Mila voltou para o seu lugar.

Quando chegou a hora do almoço, Mila arrastou Alana e Marcos para fora da sala, dizendo que estava morrendo de fome e que precisava comer. Depois de Mila comprar um sanduíche enorme, o qual Alana duvidava que a outra conseguisse comer inteiro, o que aconteceu,
os três foram para o pátio.

Enquanto conversavam, Alana viu uma figura loira e conhecida passar com alguns livros na mão. Ele não a viu, o que a decepcionou um pouco, e entrou no prédio onde ela tinha aulas.

-Conhece o André? – Mila perguntou.

-Ah, nos encontramos no meu primeiro dia na cidade. – respondeu, tentando parecer indiferente.

-Que legal! Ele é nosso professor no Laboratório de Física. Posso dizer que ele é o melhor dos dois mundos: inteligente e bonito!

Ao saber que André era seu professor, Alana ficou desanimada. Ele fora muito simpático e ela tinha gostado dele, e o fato de ser sua aluna significava que eles podiam não ser amigos...

-Nossa próxima aula é com ele! – Mila comemorou.

-Não sei o que vocês veem de mais nele. – Marcos reclamou e as duas riram. Mila acariciou o rosto dele e deu um beijinho em sua bochecha.

-Fica com ciúmes, não, você ainda é meu nerd favorito. – ele revirou os olhos e as duas riram mais.

Logo em seguida, o sinal bateu e Mila guiou Alana até o laboratório. Ao passar pela porta, ficou diante de André. A princípio, ele pareceu surpreso, mas logo relaxou e sorriu de uma maneira que fez Alana sorrir inconscientemente.

-Então quer dizer que você é minha aluna.

-Pois é, soube hoje também.

-Ótimo! Seja bem-vinda!

-Obrigada.

-Vamos, Alana! – Mila a puxou pelo braço.

Sentaram nas primeiras carteiras e Alana pode ficar observando André durante toda a aula. A maneira como ele falava, andava, gesticulava, tudo a encantava. Era a primeira vez que ela se deparava com um homem tão bonito e que a impressionava daquela forma, e ainda assim, sentia como se já conhecesse cada movimento dele.

Já ele quase não a olhava, o que era óbvio, afinal, ele não podia dar atenção extra à ela só porque tinham trocado algumas palavras.

Quando a aula dele acabou e ela voltou para a outra sala, seu olhar foi logo para a carteira. Aquilo era ridículo, já estava virando obsessão. Sentou-se no seu lugar e tentou ignorar a existência dela, mas parecia impossível. Para tentar acabar com aquela curiosidade, decidiu ver se Mila sabia de algo sobre ela.

Assim que o sinal da última aula bateu, Alana foi até Mila, que terminava de arrumar seu material. Marcos passou pelas duas e falou enquanto saía da sala:

-Encontro vocês duas no portão!

-Marcos não vai embora correndo hoje? – Alana perguntou.

-Pelo visto não, acho que ele vai te acompanhar na volta. – e sorriu.

-Onde você mora?

-No lado oposto ao seu, mas não é muito longe, qualquer dia você vai lá em casa.

-Tudo bem. – fez-se um breve silêncio – Mila... Aquela carteira ao lado da minha... – viu o corpo da outra ficar tenso – Está ocupada? Não está faltando nenhuma aluna? – não houve resposta. Alana deu uma rápida olhada na sala e percebeu que as pessoas que ainda estavam ali a olhavam de maneira estranha – Mila?

-Por quê? – ela gritou e bateu a mão na mesa com força, assustando Alana, que deu um passo para trás – Por que quer saber? O que você tem com isso? E que seria essa aluna? – levantou da cadeira – Me fala! – o rosto dela ficou vermelho – Por que quer saber? Há algum problema?

-Desculpa... – gaguejou – Eu...

-Que merda! – Mila gritou e saiu da sala, assim como os outros alunos, deixando Alana para trás.

Notas finais
E então, o que acharam??