Não Conte Nossos Segredos
4 Capítulo 4
Assim que saiu do prédio, foi alvo de alguns olhares ameaçadores. Alana foi até o portão e procurou o Marcos, esperou cerca de dez minutos para ver se ele aparecia, mas isso não aconteceu. Assim que saiu do colégio, viu Mila e ele conversando, pelos gestos da garota, ela continuava nervosa e Marcos tentava acalmá-la.
Alana franziu o cenho se perguntando o que tinha de errado naquela carteira para ter deixado Mila tão descontrolada. Sem prestar atenção no caminho, acabou esbarrando tão forte em alguém, que só não caiu no chão porque a pessoa a segurou.
Quando se equilibrou e olhou em quem tinha esbarrado, perdeu o fôlego. Aqueles orbes verdes pareciam penetrar-lhe a alma, como se soubesse de tudo sobre ela. Ficou alguns minutos apenas o encarando, até que teve força para dizes:
-Desculpa, Gabriel... – ele não pareceu estranhar o fato de ela saber seu nome, apenas lançou um último olhar para ela e foi embora.
Alana ainda ficou olhando o nada durante alguns segundos antes de ir para casa. E assim que chegou, foi direto para o quarto.
Dessa vez, a velha não estava na janela, então Alana não viu motivo para fechar a sua. Passou a tarde fazendo lições e falando com a Roberta, que contou tudo o que tinha acontecido no colégio.
Mais para o final do dia, sua mãe ligou dizendo que chegaria tarde e pedindo para que Alana levasse o lixo para fora. Brava, já que era a tarefa que ela mais detestava fazer, recolheu todo o lixo e foi para o jardim.
Como sempre, a rua estava deserta, e ela se surpreendeu ao ser atingida por um vento fresco demais para aquela cidade. Foi até a calçada e jogou tudo no latão, e quando se virou para voltar para casa, deparou-se com a velha lhe encarando do seu jardim.
-Olha só... – Alana se aproximou, irritada.
-Mais uma vez. – a mulher falou com uma voz esganiçada e sombria, carregada de tristeza e cansaço.
-O que... – a velha suspirou.
--Começou. – e apontou para o outro lado da rua.
Alana seguiu a direção do seu olhar. A princípio, não viu nada, mas depois reparou que tinha algo atrás do tronco de uma árvore. Olhou um pouco mais detalhadamente, até que percebeu que era uma pessoa toda de preto, com capuz e usando uma máscara de palhaço toda deformada.
-Ai, meu... – deu dois passos para trás.
Sentiu seu coração descompassar e suas pernas a tremer, como se o restante do seu corpo fosse pesado demais para elas. Sua pressão despencou e ela estava a ponto de desmaiar. Olhou para a velha e, pela primeira vez, ela não estava sorrindo, sua expressão era de resignação.
Voltou sua atenção para a pessoa de preto, já quase sem ar, e a viu tirar um canivete do bolso. Quase pôde sentir a lâmina entrando em sua pele e, sem saber como, correu de volta para casa.
Trancou todas as portas e janelas do andar de baixo e, quando voltou para seu quarto, foi direto para a janela. Deu uma rápida olhada, mas foi o suficiente para ver que a pessoa ainda continuava ali. Trancou-a também e se deitou.
O ar parecia difícil de entrar e seu corpo todo tremia. Em sua mente, o nome Adriana não parava de aparecer e Alana foi entrando cada vez mais em pânico. Quem era Adriana, afinal? E por que a sensação de que já tinha vivido tudo aquilo não a abandonava?
Lágrimas começaram a sair de seus olhos e ela se permitiu chorar. Qual era o problema das pessoas daquela cidade? Só queria ir embora dali. Cogitou até fugir, mas algo em seu íntimo dizia que aquilo não daria certo, que algo aconteceria e ela seria obrigada a voltar para aquele lugar.
Como o passar dos minutos, seu corpo finalmente começou a relaxar. Um cansaço sem tamanho tomou conta e Alana acabou dormindo profundamente.
Na manhã seguinte, na hora de ir para o colégio, Alana ficou receosa em sair de casa. Se não estivesse tão confiante de sua capacidade mental, acharia que tudo o que tinha acontecido no dia anterior era fruto da sua imaginação. Respirou fundo e abriu a porta de casa.
A rua estava deserta, como sempre, mas aquilo não foi o suficiente para deixa-la mais aliviada. O vento gelado e o tempo nublado completavam o ar sombrio que aquele lugar tinha. Olhou muito bem para todos os lados antes de realmente pôr os pés para fora de
casa.
Passou o caminho todo reparando em cada lugar por onde passava, com a nítida impressão de que estava sendo observada. Tinha a sensação de que a qualquer momento, alguém surgiria trás de si e a apunhalaria, era como se isso já tivesse acontecido.
Quando chegou no colégio, suspirou aliviada. Não que se sentisse bem ali, mas pelo menos havia mais pessoas e a sensação de ter a vigiando tinha sumido. Lembrou-se de Mila, não sabia como seria recebida por ela e por Marcos, o que a deixou um pouco angustiada, já que eles eram as únicas pessoas que falavam com ela.
Perdida em seus pensamentos, Alana andava pelo corredor rumo à sua sala, e só parou quando sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se sobressaltada, só se acalmando quando, por fim, notou que era o André.
-Desculpa! Não queria te assustar, de novo... É que eu estava te chamando e... – ele deixou a frase morrer no ar e ficou olhando para ela com preocupação – Tudo bem? Você parece pálida.
-Ah! Não... Eu estou bem sim... Só estava longe nos meus pensamentos. – André sorriu de uma maneira que fez Alana se derreter toda por dentro.
-Que bom! E então, o que achou da minha aula?
-Muito boa! Mesmo. Só que não fica decepcionado se eu tirar notas baixas na sua matéria, sou péssima em exatas. – ele riu.
-Isso a gente muda. – e deu uma piscadela.
-Professor! – outro aluno o chamou.
-Já vou! – respondeu – Te vejo depois. – e bagunçou um pouco o cabelo dela, saindo logo depois. Alana se sentia nas nuvens, era a primeira vez que ele a tocava. E o que significava aquela piscadela? Sentia-se feliz e ridícula ao mesmo tempo por ter se impressionado com atitudes tão pequenas. – Ah, Alana! – ouviu-o chamar do meio do corredor – A coordenadora quer falar com você!
Perguntou-se o que ela tinha feito de errado para a coordenadora a chamar. Desviou o caminho e seguiu para a secretaria. Chegando lá, uma senhora de meia-idade, alta e um pouco magra, chamou-a para a sua sala com um sorriso simpático no rosto.
Assim que entraram, Alana se sentou em uma cadeira de frente para a mesa da coordenadora. Ana sentou-se de frente para ela e, com uma voz suave, disse:
-Senhorita Alana! Tudo bem?
-Tudo... – respondeu, sem saber onde ela queria chegar.
-E o que está achando do colégio?
-Ah, legal... Estou gostando. – mentiu e sorriu um pouco.
-Mas que maravilha! E quanto aos alunos, já fez amizades?
-Sim. – será que podia considerar Mila sua amiga?
-Excelente! – houve um breve silêncio.
-O professor André disse que a senhora queria falar comigo...
-Ah, sim! Acho que deu algum probleminha na sua matrícula, espera só um momento que vou pegá-la.
-Claro.
Assim que Ana foi para outra salinha, Alana deu uma olhada no ambiente. Havia várias janelas grandes de vidro que davam para o corredor da escola, um sofá de dois lugares, algumas estantes, e o que mais chamou a atenção de Alana, dois arquivos, estando o primeiro deles aberto.
Naquele momento, uma vontade incontrolável de ir até lá e ver se encontrava a pasta de Adriana, tomou conta de si. Não tinha maneira melhor de saber quem era ela senão pelo registro do colégio.
Olhou para Ana, que parecia concentrada em achar os papéis da sua matrícula, e depois para as janelas. Pouquíssimos alunos estavam passando por ali e aquilo a incentivou. Voltou-se para a porta por onde tinha entrado, certificando-se de que não tinha ninguém do outro lado e, em um momento de coragem, foi até o arquivo.
Com a adrenalina correndo pelo seu corpo e as mãos trêmulas, Alana procurou pela letra A, e não demorou para acha-la. Torceu, então, para que as pastas estivessem separadas pela primeira letra do nome e não sobrenome, caso contrário, seria mais trabalhoso e exigiria mais tempo.
Para a sua sorte, elas estavam separadas por nome e logo ela começou a procurar por Adriana. Não achou. Pensou que, devido ao nervosismo, tinha deixado a pasta passar, então procurou outra vez, e, novamente, nada. Já irritada, procurou de novo, tentando
se acalmar um pouco.
E foi então que viu uma pasta surrada ao fundo da gaveta. Pegou-a nas mãos e sorriu ao ver o nome. Adriana Golveia. Voltou correndo para a cadeira e guardou a pasta em sua mochila.
-Aqui está! – Ana apareceu na sala de novo – Desculpa a demora.
-Imagina. – Alana sorriu.
-São alguns dados que estão errados, como o número do seu RG e seu endereço. Será que você podia arrumar?
-Claro. – arrumou o que estava errado.
-Obrigada. Pode voltar para a sua sala.
Quando saiu da secretaria, suas mãos estavam suadas por conta do nervosismo, e Alana estava tão ansiosa para saber o que estava escrito nos papéis que tinha pegado, que não notou a presença de duas pessoas.
Como a aula já tinha começado, ela foi direto para o seu lugar e começou a copiar a matéria que estava no quadro. Seu celular vibrou, indicando que tinha recebido uma mensagem, e assim que ela leu, sentiu um calafrio percorrer seu corpo.
“A curiosidade matou o gato.”
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