Não Conte Nossos Segredos
20 Capítulo 20
Uma mão puxou delicadamente Alana de volta para a sala, longe da porta. Assim que teve a boca livre, virou-se para trás depressa, deparando-se com uma mulher morena, de estatura mediana, que devia estar na meia-idade. A julgar pelas roupas que ela vestia, deduziu ser uma empregada.
-Não faça isso. – ela disse em um sussurro e em tom de aviso.
-Fazer o quê? – Alana fingiu não ter entendido.
-Garota, há certas coisas que é melhor não sabermos.
-Mas eu não sei de nada. – Alana falou baixo, como se contasse um segredo e deu um sorriso sem humor.
-Então é melhor continuar assim.
-A senhora sabe o motivo da discussão. – Alana afirmou, enquanto ainda ouvia as vozes alteradas.
-Preferia não saber. – a mulher olhou para baixo – Ouça o que eu digo, deixa isso para lá.
-Tarde demais. – ela olhou de maneira incrédula para Alana.
-Respeite os outros, menina. Gostaria que ficassem observando a sua vida? – Alana se aproximou.
-Já fazem isso. – naquele momento, o olhar da empregada foi tomado pelo pavor – Então, por favor, me conta o que sabe. O que Adriana Golveia tem haver com Pedro? – a outra balançou a cabeça negativamente – Por favor...
Levantando o olhar para o rosto de Alana, a mulher entreabriu os lábios.
-Tudo bem? – Gabriel perguntou, aproximando-se com um gato preto no colo.
-Tudo. – a outra se apressou em responder – Só estava perguntando se ela queria alguma coisa.
-Não, obrigada. – Alana respondeu com um sorriso forçado.
-Então, se me dá licença. – sem dizer mais nada, ela se retirou.
-Mas que porra! – ouviu Pedro gritar e algo caiu no chão, quebrando-se.
Alana se assustou com o barulho e se voltou para Gabriel. Ele estava parado, tenso, com o maxilar trincado, olhando na direção de onde vinha a gritaria. Ela se aproximou um pouco e tocou levemente no braço dele.
-Gabriel...?
-Vem. – ele enroscou seus dedos nos dela e a puxou delicadamente.
Eles subiram um lance de escada e logo estavam em um corredor. Gabriel guiou-a até a quarta porta e, assim que a abriu, Alana se viu dentro do quarto dele.
O lugar era grande. Havia uma cama de casal, pôsteres de bandas de rock e heavy metal na parede, um baixo azul no suporte, um aparelho de som, uma estante com vários CDs e uma escrivaninha cheia de livros e com um computador. Não era tão organizado, mas por ser o quarto de um garoto, estava ótimo.
-Sinta-se a vontade. – Gabriel falou, pegando a mochila de Alana e colocando-a em cima da cama junto com a sua.
Ela deu mais uma boa olhada pelo cômodo. Parecia conhecer cada objeto que tinha ali, sentia que já passara por algumas experiências naquele lugar, mas não conseguia se recordar quais foram, e o principal, parecia estar completamente segura.
-Onde prefere estudar? – ele perguntou, tirando o tênis.
-Onde você quiser. – respondeu tímida. Era a primeira vez que estava no quarto de um garoto e não sabia exatamente o que fazer. Sem contar que havia a presença de Gabriel ali, algo que realmente mexia com ela.
Ele riu e depois se jogou na cama, batendo a mão ao seu lado.
-Vai dizer que está constrangida! – olhou-a de modo provocativo. Alana revirou os olhos e se sentou ao lado dele – Prometo que não mordo. – e sorriu – A não ser que você me peça.
Alana não pôde deixar de se assustar com as palavras dele. Não parecia ser do feitio de Gabriel dizer aquele tipo de coisa. Notando o espanto dela, Gabriel riu ainda mais, e Alana achou aquela risada infantil e gostosa. Nunca tinha visto Gabriel tão leve como aquele momento.
-Mas já que eu decido... Pode ser na cama mesmo? Acho mais confortável. – o sorriso dele foi diminuindo aos poucos, até voltar à sua aparência séria de sempre.
-Claro.
Gabriel pegou o material, assim como Alana. Ela também tirou o tênis e, depois de muita insistência de Gabriel para que ela ficasse o mais confortável possível, apoiou suas costas no encosto da cama.
-Quer começar por qual? – perguntou e ele deu de ombros.
-Pode ser história.
Gabriel se sentou de frente para Alana, próximo a ela. As explicações começaram, ela tentava dizer da maneira que julgava ser a mais fácil e Gabriel se esforçava ao máximo para conseguir entender.
Ficaram assim durante duas horas e depois passaram para a matemática. Por mais que Gabriel explicasse com calma e o mais detalhado possível, Alana simplesmente não conseguia entender nenhum daqueles números. Na sua cabeça, eles não faziam sentindo algum e se perguntava em qual momento da sua vida usaria aquilo.
Uma hora e meia mais tarde, Alana simplesmente desistiu. Deixou livro e caderno de lado, encostando sua cabeça na parede e fechando os olhos.
-Desisto! – bufou e ouviu uma risadinha – O que foi? – perguntou, olhando feio.
-Nada... Qual é, Alana, você está quase entendendo!
-Não estou não! – ele revirou os olhos e se levantou.
-Acho que precisamos de um tempo.
Gabriel foi até a estante e, após escolher um CD, ligou o parelho de som. Logo Hyonotise começou a tocar e a voz de Serj apareceu. Ainda de olhos fechados, Alana sentiu quando Gabriel voltou ao seu lugar na cama.
Ambos ficaram ouvindo as músicas durante algum tempo, sem trocarem nenhuma palavra.
-Gabriel! – ouviu uma voz feminina e conhecida chama-lo do andar de baixo. Era a mesma voz que pedira para ele tirar o gato de cima da árvore. Ele respirou fundo.
-Já vou! – respondeu – Cinco minutos. – falou para Alana.
Depois que Gabriel saiu do quarto, Alana ainda ficou na cama por mais alguns minutos. Vendo que ele demorava, resolveu olhar melhor o quarto. Sem levantar da cama, observou cada canto dali, e cada objeto que via, era como se tivesse certeza de que ele estaria onde se encontrava. Menos um deles.
Na primeira gaveta da escrivaninha, Alana viu um pedaço de papel amarelo preso para fora. Ela não teria dado importância se ele não parecesse muito conhecido. Cismada com aquilo, levantou e foi até o móvel.
Analisou o papel e depois virou-se para a porta. Aquilo era errada, mas sentia uma imensa necessidade de fazer. Respirou fundo e, criando coragem, pegou o papel. Era a pasta, e no alto dela, estava escrito com letras bem grandes: Adrian Golveia.
Com o coração aos pulos e as mãos tremendo, Alana leu várias vezes o mesmo nome. Ela não entendia porque Gabriel ainda estava com aquilo, mas ao invés de desconfiar dele, ela deu lugar a outra sensação. Era como se há tempos ansiasse por aquele momento. Pegou os papéis de dentro dela e começou a ler.
O histórico escolar era impecável, as médias eram altas e não havia uma advertência sequer. Adriana parecia ter sido o tipo de aluna exemplar. Se tivesse visto apenas aquilo, Alana não dariam importância ao documento, mas mais abaixo, algumas frases chamaram sua atenção.
No espaço para observações do último ano, algo tinha sido escrito. “Anda um pouco mais quieta do que o normal.” “Há um certo distanciamento em relação ao restante da turma.” “Parece não dormir há dias e, segundo laudos médicos, desenvolveu a Síndrome do Pânico.” “Dificuldade para se relacionar com aqueles que costumava chamar de amigos.” “Perda de vontade em querer fazer qualquer coisa.” “Uma pena.”
Ao ler aquilo, Alana simplesmente não sabia o que pensar. Adriana parecia ter mudado bastante, a ponto de pequenas atitudes terem sido relatadas pelos professores e pela própria Ana.
-O que está fazendo? – aquela voz grave e dura ressoou pelos seus ouvidos e a fez paralisar – Alana? – respirou fundo e se voltou para Gabriel.
-O que ainda está fazendo com isso? – perguntou, agradecendo por sua voz ter saído séria.
-Estava mexendo nas minhas coisas? – ela ignorou a pergunta.
-Acho que isso não te pertence.
-Nem a você. – rebateu, entrando no quarto. Em um gesto rápido, tomou os papéis da mão dela de forma grosseira – Conseguiu ler o que está escrito? – Alana notou a raiva e a ironia na voz dele e não respondeu – Está satisfeita agora? – provocou-a.
-Tanto quanto você! – ele pareceu bravo e confuso – Não fui eu que roubei isso da sala da coordenadora para satisfazer minha curiosidade! – apesar de ter dito aquilo, tinha a nítida impressão de que aquilo não era verdade, e ela só se intensificou quando ele falou:
-Nem eu! – Alana engoliu em seco e arregalou os olhos.
-O quê?
-Eu não peguei essa pasta, Alana! – ela riu sem humor.
-Sei.
-É sério, Alana! Mas se não quer acreditar, o problema é seu! – ele falava com tanta convicção e olhava tão fundo em seus olhos, que era quase impossível acreditar que ele estava mentindo.
-Então, como a conseguiu? – ele respirou fundo.
-Estava caída no chão, próxima à nossa sala. – ele falou um pouco mais calmo – Não tenho ideia de quem a pegou. – sentou-se na cama.
-E por que ainda não devolveu? –perguntou, levemente mais calma.
-Ah, claro. Vou chegar na Ana e falar: “olha, eu achei a pasta de uma aluna morta no meio do corredor e resolvi devolver. Mas não fui que a peguei, tudo bem?” – ele fez uma voz cínica e, se não fosse pela situação, Alana teria rido – Agora, presta atenção, Alana, esquece o que você leu, e esquece quem foi ela. – a irritação de Alana começou a voltar.
-Por quê? – perguntou seca.
-Só esquece.
-Não! – ela falou mais alto e ele a olhou com leve surpresa.
-E por que não?
-E por que sim? – ela devolveu – Por que esse assunto é tão proibido? Por que ninguém que falar sobre ele? Quem foi essa garota, afinal? Por que vocês têm tanto medo dela? – falou ainda mais alto e com voz esganiçada.
-Porque sim! E pela sua segurança, é melhor ter também! – ele ficou mais irritado do que ela e Alana teve certeza de ver ódio em seus olhos.
-Por que eu tenho que tomar cuidado?! Ela não está mais aqui!
-Mas a sombra dela está! E vai te pegar, Alana! – Gabriel falou tão alto e imponente, que Alana se calou. Estava cansada daquele joguinho de segredos. Tudo o que ela mais queria era chorar muito, dormir e, quando acordasse, descobrir que tudo aquilo não tinha passado de um terrível pesadelo.
-Hey, o que está acontecendo aqui? – Pedro apareceu na porta, mas nenhum dos dois olhou para ele – Alana?
-Eu vou embora. – ela disse, segurando o choro, fazendo sua garganta doer. Queria fica sozinha. Aproximou-se da cama e começou a arrumar suas coisas.
-Mas por quê...?
-Alana. – a voz de Gabriel a fez olhar para ele. Os orbes verdes que antes pareciam raivosos naquele momento estavam suplicantes – Me ouve, por favor... Para... – ele a segurou pelo braço, assim que ela foi para a porta.
-Me solta! – falou e se desvencilhou da mão dele, correndo pelas escadas até chegar na porta da frente.
Abriu-a sem hesitar e foi para fora da casa. Enquanto andava pela calçada, permitiu que algumas lágrimas rolassem pelo seu rosto. Não se importava com o fato de já ter escurecido ou a rua estar deserta, ela só queria ir para casa.
Sentiu o celular vibrar, enxugou um pouco o rosto e leu o e-mail.
“Você suportaria uma traição?”
“Isso tem algo haver com Pedro e Gabriel?”
Perguntou brava. Esperou alguns segundos.
“Mais do que você imagina.”
Notas finais
E então, o que acharam?? Alguma sugestão??
Fale com o autor