“Dizem que para seguirmos em frente, temos que deixar o passado para trás. Mas como fazemos quando o passado se torna mais presente do que nunca? Estar de volta naquele lugar me fazia sentir como se eu estivesse estagnada no tempo, um tempo que eu á tinha vivido. Eu tinha certeza, lá estava eu, de volta ao meu inferno particular.”

*****

-Chegamos, Alana! – seu pai falou com entusiasmo.

Passaram pela placa de “Boas-vindas” da cidade e ela pode ver pelo reflexo do retrovisor que seu pai sorria. O sonho dele sempre fora morar em uma cidadezinha de interior, e agora isso estava finalmente
se realizando.

Por ela, continuariam na capital, onde moravam desde que nasceu, estava bem lá. Mas Alana sabia que com a empresa na qual seu pai trabalhava mudando de cidade, isso seria impossível. A ideia de ir para aquele lugar em especial não a agradava, e enquanto passavam pelas pequenas ruas, teve uma desconfortável sensação de dejavu.

-O que você acha? – a mãe perguntou.

Olhou as casinhas, as vendinhas e as pessoas que andavam pela calçada. Tudo parecia lento demais, quieto demais para alguém com seus dezessetes anos. Voltou sua atenção para o céu e viu um bando de pássaros voando, e até eles pareciam ter um ritmo mais devagar.

-Parece que estamos em lugar nenhum. – balbuciou.

-Alana, para de ser tão rabugenta!

-Rabugenta?! Fala sério, mãe, o que tem para fazer aqui?

-Fiquei sabendo que tem um shopping grande...

-Puxa, que ótimo! – carregou a voz com ironia. Depois, bufando, completou – Lugar nenhum, uma cidadezinha esquecida por Deus.

Sua mãe abriu a boca para chamar sua atenção, quando o carro parou e seu pai anunciou que tinham chegado. Alana ficou olhando para a casa diante de seus olhos. Dois andares, com a pintura não muito nova e um pequeno jardim na entrada.

Seus pais soltaram o cinto e desceram do carro, já se preparando para pegarem as malas. Como ela queria ir embora, algo em sua mente gritava para que assumisse o banco do motorista e saísse dali o mais rápido possível.

Estava tão perdida naquela estranha sensação de ameaça, que se assustou ao ouvir seu pai batendo no vidro e fazendo um gesto para que ela descesse do carro. Revirou os olhos e, muito a contra gosto, abriu a porta.

Uma lufada de ar quente a atingiu em cheio. Claro que por ser uma cidade do interior, a probabilidade de fazer mais calor do que onde morava era grande, só que não imaginou que a diferença de temperatura fosse tão grande. E isso era um problema, pois nunca tinha gostado de temperaturas altas.

-Pegue suas coisas e leve para o quarto, Alana. – sua mãe falou.

-Tá. – respondeu mal-humorada.

Foi até p porta-malas e pegou duas grandes malas de viagem. Subiu, com certa dificuldade, as escadas que levavam ao segundo andar e, assim que entrou em seu quarto, jogou-as na cama. A última coisa que queria fazer naquele momento era arrumar suas coisas, mas sabia que não podia deixar para o dia seguinte, já que seria o primeiro dia de aula e ela não teria tempo.

Procurou seu celular para que pudesse ouvir musica enquanto desfazia as malas, mas não o achou. Lembrou-se de que o tinha deixado no banco do carro. Irritada, decidiu que só o pegaria depois e começou a guardar suas roupas no guarda-roupa.

Quando virou-se para abrir uma das malas, assustou-se ao ver, na janela em frente à sua, uma senhora de cabelos brancos, tão magra que mais parecia um cadáver e com olhos sem brilho que pareciam estar mortos.

Aquela mulher lhe passava uma má impressão sem tamanho. Levou alguns segundos para fazer seu coração voltar a bater no ritmo normal. Para que não parecesse sem educação, sorriu fracamente para ela, e, em resposta, recebeu um sorriso de escárnio.

Estranhou aquela expressão, aproximou-se lentamente da janela e, com mãos trêmulas, fechou a cortina. Em seguida, ainda um pouco assustada, voltou a desfazer suas malas.

Cerca de duas horas depois, quando tinha acabado de arrumar suas coisas, a campainha tocou e em poucos segundos sua mãe já berrava lá de baixo para que ela descesse.

Assim que chegou à sala, Alana se deparou com dois estranhos. Um casal de meia-idade, vestidos de maneira simples e com um sorriso simpático no rosto, traziam uma torta e um saco que cheirava a pão.

-Alana, esses são nossos novos vizinhos, o senhor e a senhora Campbell. – seu pai os apresentou.

-Prazer. – Alana sorriu amigavelmente.

-Filha, será que você pode me ajudar a arrumar a mesa? Eles vão jantar conosco. – pediu a mãe.

-Claro.

Sua mãe pegou a torta e o saco e as duas seguiram para a cozinha. Enquanto terminava de fazer a sopa, Carmem cantarolava e Alana não pode deixar de revirar os olhos diante de tanta animação por conta da mudança.

-De que casa eles são? – perguntou se referindo aos Campbell.

-Da frente, por quê?

-Nada, é só que... Você já viu nossa vizinha da casa ao lado? Ela é estranha!

-Alana, não começa a implicar com os vizinhos!

-Não é implicância, é sério! Juro que fiquei até com medo.

-Pare com isso, menina! – sua mãe brigou – Já está pronto! – chamou.

Logo seu pai e os Campbell apareceram na cozinha e se sentaram à mesa. Alana pegou um pouco de sopa e um pedaço pequeno de pão, estava sem fome. Ficou indiferente durante quase toda a conversa, sem dizer nada, até que uma pergunta foi feita diretamente para si.

-Então, Alana, quantos anos você tem? – perguntou à senhora Campbell.

-Dezessete. – respondeu tentando não parecer desanimada.

-Oh! E está no terceiro ano?

-Sim...

-Que ótimo! Então, provavelmente, você vai conhecer nosso filho! – a cidade tinha apenas um colégio – Ele também está no terceiro ano!

-Que bom! – Alana sorriu fracamente, não estava nem um pouco interessada em conhecer o filho dela.

-E já sabe que curso que fazer? – perguntou o marido da mulher.

-Talvez Designer, algo assim.

-Puxa, que interessante! Sabe, meu filho Marcos...

Alana parou de prestar atenção na conversa, quando se lembrou do celular no carro. Pediu licença e se levantou, dizendo que voltava em cinco minutos. Assim que abriu a porta de casa, um vento frio passou por ela e Alana riu sem humor. “Ótimo” pensou “de dia faz um calor infernal e de noite parece que vai nevar!”.

Respirou fundo e foi até o carro. A rua estava deserta, apesar de ainda serem sete horas da noite, já estava tudo escuro e não se via uma alma viva sequer. Alana olhou para casa daquela idosa esquisita e viu que a luz do quarto estava acesa.

Pegou o celular e, quando se virou, deu de cara com um homem alto, loiro, de olhos castanhos e muito charmoso. No susto, quase jogou o celular longe, mas o homem o segurou a tempo.

-Desculpa, não queria te assustar. – falou com certa diversão no olhar.

-Não tem problema. – Alana balbuciou envergonhada. Aquele homem era um verdadeiro deus grego.

-Nova na cidade? – perguntou depois de analisa-la dos pés a cabeça, o que deixou Alana ainda mais constrangida.

-Nos mudamos hoje por conta do emprego do meu pai.

-Ah! E de onde você era?

-Capital. – respondeu com um sorriso.

-Sério? – pareceu surpreso – E o que você acha de morar aqui?

-De verdade? Muito chato! – os dois riram e ela ficou maravilhada com o sorriso dele.

-No começo é um tédio, mas depois você se acostuma.

-Você não é daqui?

-Não, assim como você, eu vim da capital. – foi a vez dela se surpreender.

-Nossa! Que coincidência!

-Pois é. – houve um breve silêncio.

-Bom, é melhor eu ir. Tchau. – deu meia volta e começou a andar em direção à sua casa.

-Hey! Não está esquecendo de nada, não?

Alana olhou para o rapaz e viu que ele balançava seu celular. Sorriu sem graça, achando-se um pouco tonta por ter se esquecido do principal motivo para ir até o carro. Voltou e pegou seu celular.

-Obrigada.

-Disponha. A propósito, sou André. – ele sorriu.

-Alana. – retribuiu e foi embora.

Ao entrar em casa, encontrou o casal Campbell de saída. Despediu-se deles e, sob o pretexto de estar cansada por conta da viagem, subiu para o seu quarto. Antes de colocar o pijama, viu que aquela velha da janela da frente a encarava. Alana sentiu um calafrio e resolveu trancar a janela. Mas antes que o fizesse, viu um sorriso sádico nos lábios da mulher.

Notas finais
E então, o que acharam??