Não Conte Nossos Segredos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordou com o despertador tocando. Não queria sair da cama, sempre fora tímida e o fato de que teria que se apresentar para a classe não a agradava nem um pouco. Estava prestes a dormir novamente, quando sua mãe abriu a porta e brigou com ela por ainda estar na cama.
Contrariada, levantou-se e foi fazer sua higiene pessoal, quase se assustando ao ver seu reflexo no espelho. Seus olhos castanhos estavam com olheiras, seu cabelo, de mesma cor, tinha armado e estava todo bagunçado, e o seu rosto tinha marcas do travesseiro. Demorou algum tempo para conseguir melhorar a aparência e aquilo a deixou um pouco irritada.
Voltou para o quarto, colocou uma roupa qualquer e desceu para tomar café-da-manhã. Quando chegou na cozinha, não viu seus pais, e presumiu que eles já tinham ido para o trabalho. Comeu um pouco e logo saiu de casa.
Graças ao Google, Alana sabia como chegar ao colégio, o que não era muito difícil, uma vez que o caminho era praticamente uma linha reta. Enquanto andava pelas ruas pouco movimentadas, reparava nas atitudes das pessoas. Todas pareciam alegres e bem-dispostas, além de comportadas, gentis e caridosas, e Alana quase sentiu medo daquilo, como se aquelas atitudes fosse apenas fachada para esconder algo horrível.
Chegou em frente ao colégio e se surpreendeu com o tamanho e a quantidade de alunos. A estrutura não era muito grande: apenas dois prédios de dois andares cada e um pátio médio. Os alunos também eram poucos, considerando que aquela era a única escola da cidade. Alana imaginou que aquele fim de mundo devia ser pequeno mesmo.
Enquanto andava pelo pátio, sentiu os olhares curiosos em si e teve a sensação de já ter passado por aquilo inúmeras vezes, ainda que só tivesse mudado de colégio duas vezes. Entrou em um dos prédios e foi atingida por uma nostalgia deprimente. Paralisou. Uma sensação de cansaço a abalou e ela respirou fundo. Perguntava-se o que estava acontecendo. Respirou fundo mais uma vez e pegou sua grade de horários, sala trinta e seis.
Não demorou para acha-la. Quando entrou, todos olharam para ela, inclusive o professor. Ele deixou seu material sobre a mesa e fez um gesto para que Alana se aproximasse.
Com passos inseguros, ela foi até a frente da sala e ficou olhando para o chão. O professor se aproximou e colocou a mão em seu ombro, o que a fez olhar para a classe.
–Turma, hoje temos uma nova aluna. – ele anunciou e, com seu olhar, pediu para que Alana se apresentasse.
–Eu sou... – limpou a garganta – Alana.
–E de onde você veio, Alana? – perguntou o professor com um sorriso simpático.
–Da capital...
A sala soltou um uníssimo “Oh!” e então começaram a encher Alana de perguntas do tipo: como é morar lá? O que tem para fazer? É realmente tão violenta como o noticiário diz? As pessoas são mal educadas como falam? E ela ficou um pouco atordoada.
Em meio àquela confusão, Alana passou rapidamente os olhos pela sala, mas quando encontrou duas pessoas em particular, sentiu seu coração descompassar, e não foi de uma maneira boa. Dois garotos. Um de cabelos castanhos, olhos verdes, pele levemente bronzeada, com músculos bem visíveis e um olhar sedutor. O outro, ruivo, de olhos verdes também, carregados com maquiagem preta, pele muito clara, piercing no lábio inferior e dois na orelha esquerda e mais dois na direita. Seu olhar era de extrema indiferença em relação ao mundo.
Enquanto encarava os dois, simplesmente deixou de ouvir o que os outros alunos perguntavam. Naquele momento, era como se no universo só existissem aqueles dois pares de olhos que, diferentemente dos demais da turma, olhavam-na com certa intimidade.
–Chega, pessoal. – foi despertada quando sentiu a mão do professor novamente em seu ombro – Depois vocês fazem essas perguntas. Pode se sentar ali. – ele indicou um lugar ao fundo da sala que ficava ao lado de uma carteira vazia e o qual, para chegar, passava entre os dois garotos. Alana suspirou e foi.
O trajeto foi bem até ela ter que passar por aqueles dois. Sentiu o peso do olhar deles em si e sua pele ficou quente. Eles eram bonitos, sem dúvidas, mas tinha a impressão de que não era por esse motivo que ela se sentia assim perto deles.
Chegou no lugar e ficou quieta ali durante toda a aula. Em um dado momento, Alana se virou e ficou fitando a carteira vazia. Primeiro, pensou que algum aluno tinha faltado, afinal, era o primeiro dia de aula. Mas depois, veio o pensamento esquisito e triste de que talvez aquele lugar não seria mais ocupado durante muito tempo.
Balançou a cabeça tentando esquecer do assunto e teve uma grande vontade de votar para casa, na capital. Era apenas seu segundo dia ali e tivera mais sensações estranhas do que em todos os seus dezessete anos.
Assim que o sinal bateu e que o professor saiu, todos os alunos, com exceção dos dois rapazes, aproximaram-se da mesa dela e recomeçaram a fazer um monte de perguntas. Alana olhou para cima e, vendo todos aqueles rostos desconhecidos e familiares ao mesmo tempo, sentiu-se sufocada.
–Assim não! – brigou uma menina loira, de olhos castanhos escuros – Poxa, é só o primeiro dia dela aqui e você já estão assustando a pobre coitada!
–Ah, vai dizer que não está curiosa, Mila. – um dos garotos reclamou.
–É claro que estou! Mas, como uma boa pessoa civilizada que sou, vou me sentar ao lado dela e, com muita calma, farei as perguntas. Até porque, tenho a impressão de que Alana vai ficar conosco durante muito tempo. – a voz e o olhar da menina foram tão sombrios nessa última frase que Alana sentiu um calafrio percorrer lhe a espinha.
–Até parece que você é assim! Quem ouve até pensa! Mila, admite, você está louca para fazer um monte de perguntas e quer estar sozinha com ela para que ninguém te atrapalhe! – Mila bufou.
–Vocês não têm classe mesmo, é nítido que são dessa cidade nojenta.
Ao ouvir isso, Alana se sentiu um pouco mais feliz por saber que tinha alguém ali que também não gostava da cidade. Outro professor entrou na sala e os alunos voltaram para seus respectivos lugares. E antes de Mila fazer o mesmo, Ala sussurrou um “obrigada”, recebendo como resposta uma piscadela.
As aulas passaram tranquilamente. De vez em quando Alana se pegava perdida em pensamento olhando para a carteira ao seu lado, ou então, via que alguém a encarava de maneira discreta. Durante as trocas de aula, alguns alunos faziam algumas perguntas, e tudo o que Alana fazia era responder da forma mais simplificada que podia.
Quando chegou a hora do almoço, os alunos saíram da sala em disparada. Algumas alunas de outras turmas cercaram o garoto de cabelos castanhos e o ruivo saiu da sala sozinho com passos despreocupados.
–Gostou? – perguntou Mila. Alana, que continuava sentada, não respondeu – Não fique envergonhada, eles são lindos! – Mila puxou uma cadeira e se sentou, Alana sorriu com o jeito espontâneo da garota.
–Quem são? – perguntou.
–O moreno é o Pedro, o garoto mais popular e cobiçado do colégio. Tenho certeza de que ele já comeu quase todas as meninas do ensino médio.
–Você também gosta dele? – assim que fez a pergunta, Alana se arrependeu, não tinha intimidade com a menina. Mas Mila pareceu nem se importar, riu e logo tratou de responder.
–Imagina! Digamos que meu gosto seja um pouquinho diferente, sinto uma grande atração por nerds! – Mila fez uma expressão engraçada e foi a vez de Alana rir.
–E o ruivo?
–Ah! – ela usou um tom malicioso – Gosta de caras misteriosos como o Gabriel, não é?
–Não! – Alana se apressou e percebeu que respondeu rápido demais. Mila riu – Quero dizer, ele é bonito, mas... – atrapalhou-se com o que ia dizer e Mila riu ainda mais.
–Desculpa. – falou, enquanto se acalmava. Normalmente, Alana ficaria irritada com pessoas como Mila, mas se surpreendeu ao perceber que não estava se importando com aquele comportamento – Não queria te deixar constrangida. – respirou fundo – Aquele é o Gabriel... Ele é sempre calado, sabe? Nunca o vejo conversando com ninguém, e sempre que possível, faz os trabalhos que deveriam ser em grupo, sozinho. Acredita que ele é irmão do Pedro?!
–Diferenças grandes. – comentou Alana.
–E como!
Um garoto de cabelo preto, com corpo bem magro e óculos entrou na sala. Ele foi até sua mesa procurar algo e pareceu não ter notado a presença das duas garotas até Mila grita.
–Marcos! – ele se assustou e deixou as coisas caírem no chão, as duas riram. Só então Alana notou a familiaridade no rosto dele. O rapaz se aproximou e as cumprimentos com um aceno – Alana, esse é o...
–Marcos Campbell? – completou.
–Já se conhecem? – tanto Mila como Marcos estranharam.
–Mais ou menos. Conheci os pais dele, somos vizinhos.
–Puxa, que legal! – comemorou Mila, olhando para o Marcos.
Os três conversaram mais um pouco e logo as aulas recomeçaram. Pedro e Gabriel entraram na sala juntos e encararam Alana durante alguns segundos. Mila voltou para seu lugar e Alana reparou que ele ficava ao lado do Marcos.
Quando as aulas acabaram, Mila e Marcos se despediram, os dois disseram ter coisas a fazer e Alana desconfiou que eles tinham alguma coisa, principalmente por conta da maneira como Mila olhava para ele. Pedro e Gabriel também logo saíram e, quando se deu conta, estava sozinha na sala.
A claridade de final de tarde invadiu o lugar e seus olhos voltaram mais uma vez para a carteira. Tinha alguma coisa naquele objeto que a chamava, como se ela soubesse de algo sobre ele. Aproximou-se e deu uma boa olhada. Não viu nada além de um nome rabiscado, um nome que fez seu estômago embrulhar e sentir um pânico tão grande que achou que fosse desmaiar. Um único nome. Adriana.
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