Não Compre meu Amor
14 Reencontro - Parte II
Notas iniciais
Aiolia esfregou os olhos e suspirou, sentado à mesa de seu escritório. Sentia-se exausto, e não era nem quinta-feira. Nesses momentos lembrava-se dos amigos ralhando, dizendo que estava trabalhando demais. Aiolia, agora com 22 anos, largou a faculdade de administração e tomou posse dos negócios do pai. Desde os quinze se interava na empresa, e a partir dos dezoito começara a estagiar. A faculdade era um acréscimo, pois desde novo pegara o jeito, fora treinado e ensinado pelo pai, e tinha um talento natural para os negócios, para administrar e comandar.
E depois da morte dos pais, e do sumiço de certo alguém... A frieza que tomara conta de seu interior contribuíra para torná-lo ainda mais racional e crítico, além de ajudá-lo a se transformar em um chefe tão respeitado quanto o pai havia sido. Havia algo de perturbador em seu semblante e olhar que parecia deixá-lo mais velho, maduro. Raramente alguém contestava suas decisões.
Mas às vezes Aiolia se sentia com mais do que trinta anos, em vez de com apenas 22. Sentia falta de ser irresponsável vez ou outra, ou tirar alguns dias de férias com os amigos. Nunca mais havia ido à casa de campo, e algumas vezes pensava em vendê-la. Festas, nunca mais. Fora em uma festa que conhecera ele. Fora para a casa de campo que o levara. E fora na casa na árvore que o pintara e...
Aiolia reprimiu aqueles pensamentos, mas, depois de alguns minutos recostado à grande cadeira estofada em couro preto, sua mão agiu por conta própria e abriu a gaveta da mesa larga, puxando um papel escondido em baixo dos demais. Pegou-o, permitindo-se olhá-lo e usá-lo como uma fonte de energia para enfrentar mais um dia, uma semana, um mês. Deus, como queria poder esquecê-lo. Sim, queria. Ele havia fugido quando mais precisara dele, deixando-o para lidar com psicólogos, remédios, uma vida sem significado. Ele era a pessoa que mais confiava, e traiu sua confiança. Dissera que o amava, mas fugiu em vez de dizer-lhe pessoalmente tudo que acontecia, buscar em si ajuda...
Aquele desenho...
Aiolia admirou por alguns instantes o desenho que havia feito de Mu há dois anos. O desenho erótico, perfeito, a expressão corada, perdida e excitada do ariano... Mas com raiva, Aiolia voltou a guardá-la, perguntando-se novamente por que não rasgava aquilo. Não iria atrás dele. Não quando ele sabia onde estava e nunca viera... Saga poderia perdoar Dite, estar com ele nesse exato momento... Mas Dite e Mu haviam sido perdoados por Hyoga. Havia a tal Frame, e Hades. Mas e daí? Isso impedia-o de mandar um mísero email? Fazer uma ligação em dois anos?
Mas era porque Saga estava lá, na Holanda, com Dite, que Aiolia revolvia e ruminava esses pensamentos novamente. Havia conseguido enterrá-los por um bom tempo, colocá-los em um lugar esquecível, distante. Mas agora sabia onde Mu estava. Que poderia vê-lo, caso vencesse o orgulho e esquecesse a mágoa apenas por um único dia...
Com irritação, Aiolia se levantou e foi para a reunião que teria dali dez minutos.
Mas durante o percurso...
XxX
Mu levou a mão à testa, limpando o suor que escorria de sua pele. O dia estava úmido e o céu nublado. Por sorte estava perto do chalé e caminhou até lá. Assim que colocou os pés lá dentro, a chuva começou a cair. O chalé estava vazio àquela hora. Dite devia estar na floricultura, com Saga. O moreno tentava convencê-los para que voltassem juntos, mas Dite relutava em deixar sua preciosa floricultura, e Mu... voltaria para o quê?
Mais do que nunca tinha certeza de que Aiolia não o perdoara. Pior, que o esquecera. Agora ele sabia de tudo. Sabia por que fugiam, de quem fugiam, o quanto era perigoso darem sinais de vida. Ele sabia por que haviam tentado o golpe. Mas nada justifica uma atitude errada. Mu disse a si mesmo. Mesmo que tivessem motivos de vida ou morte... Não justificava. Nada justificava, e era por isso que o havia perdido.
Definitivamente.
Mu não aguentou e sentou-se à pequena mesa da cozinha, interligada à salinha confortável. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e escondeu o rosto entre as mãos, colocando para fora tudo que sentia através de lágrimas. Pensar que ele o havia esquecido doía demais.
“Admito que não esperava nenhuma recepção calorosa. Mas também não imaginava encontrá-lo aos prantos.”
A voz gelou e fez o coração de Mu doer no peito pelo susto. Ergueu o rosto cheio de lágrimas e ofegou de medo ao ver Hades sentado no sofá. Por Deus! Sequer o havia visto ao entrar no chalé! Mu ergueu-se, trêmulo, olhando em direção à porta, mas o homem de olhar cruel e cabelos negros ergueu a arma, apontando diretamente para seu peito.
“Sente-se, Pallas. Não tente fugir de mim novamente ou posso ficar irritado de verdade.” Ele se ergueu da poltrona, caminhando até Mu com a arma erguida.
“N-Não... Hades, por favor. N-Nós... Fui tudo minha culpa. Eu instiguei o Christen a fugir comigo. Você não precisa ir atrás dele.” Disse, sentindo-se débil. Hades nunca o escutaria. O homem acabou com a distância que existia entre ele e Mu, e agarrou os cabelos do ariano pelas raízes, puxando-os para baixo e torcendo-os, fazendo Mu soltar um lamento enquanto se curvava de lado.
Hades encostou o cano da arma contra a têmpora de Mu.
“Não preciso ir atrás dele, Pallas? Você o instigou?” Perguntou, cínico. “Toma-me como idiota?!?” Praticamente gritou, gélido, e Mu apertou os olhos. Não caíram novas lágrimas de seu rosto; se teria de morrer pelas mãos de Hades, não daria a ele o gosto de seu desespero. “Vocês achavam que podiam se esconder por muito tempo, não é? Admito que enquanto ficavam menos de uma semana em um lugar diferente era difícil localizá-los, mas dois anos parados no mesmo lugar? Acharam mesmo que eu não os encontraria?”
Mu não respondeu, apenas encarou o homem com olhos tranquilos, que irritaram Hades ainda mais. Ele forçou a arma contra a cabeça de Mu.
“Você vem comigo agora. Vamos à cidade, para que eu faça uma pequena limpeza. Depois disso irei pegar o dinheiro que teus pais te deixaram e me livrarei de você também.” Deixou a arma acariciar o rosto do ariano. “E eu ainda te dei uma boa vida, Pallas. Cuidei de você, contratei professores para te ensinar. Você tinha tudo, mas me retribuiu fugindo com aquele traidor.”
“Você matou meus pais.” Mu sussurrou. Dite achava que ele não sabia, mas é claro que sabia. Como poderia não saber? Hades o mantivera cativo dentro de uma mansão. Lhe dera luxo, sim, e uma educação, não havia como negar. Mas o tratava como um objeto que em breve usaria para ganhar dinheiro. E Mu nunca nutriria amor ou carinho pelo homem que assassinara sua família.
Por um bom tempo Mu acreditou que os pais o haviam abandonado. Que não estavam mortos. Que Hades o adotara depois de ser abandonado. Levou essa crença consigo por anos. Até descobrir tudo através de uma conversa entreouvida entre Hades e outro homem, um pouco antes de decidir fugir. Mesmo assim se negou a acreditar, dizia a si mesmo que os pais estavam vivos, em algum lugar. Só aceitou o fato quando conheceu Aiolia... Ver a dor dele por perder os pais o fez compreender a própria dor que sentia, fundo em seu coração. Parou de negar, de fugir... Aceitou. Tornou-se mais forte. Aiolia lhe dera isso. Ele lhe dera tanto...
Hades não pareceu surpreso ao escutar aquilo.
“Matei. É o que a Frame faz, garoto. Uma pessoa tem inimigos, ela nos contata para matá-los. Fomos contratados para eliminar seus pais e o fizemos. Eu fiz o serviço. Poderia ter te matado, garoto, mas te mantive vivo.” Hades deu uma boa olhada em Mu e deslizou o cano da arma pelo pescoço do ariano. “Posso te manter vivo ainda, se for um garoto obediente.”
Mu se arrepiou com aquele tom, e não de uma maneira positiva. Queria gritar que ele apenas queria o dinheiro. Pois que o levasse! Que o matasse! Mas Hades o puxou com ele pelos cabelos, a arma firme na mão, sempre apontada para Mu.
XxX
“Você pode abrir uma floricultura fora daqui, Afrodite.” Saga falou pela vigésima vez. “Eu ajudo com o capital inicial, se você quiser.”
“Eu gosto daqui...” Afrodite suspirou, enfadado. “Me dê mais um dia. Estou pensando sobre isso.”
“Eu já passei todos os dados que você me contou sobre a Frame para meu conhecido da Interpol. E ele também mandou alguns homens ficarem a postos aqui por perto, caso Hades resolva aparecer.” Saga contou, mas sem entrar em grandes detalhes.
“Você sabe que eu não gosto de ser vigiado, mas...” Dite parou subitamente, sentindo as orelhas se erguerem como as de um gato ao entreouvir algo à distância. “Abaixe-se.” Demandou, assustadoramente sério.
“O quê?” Saga não entendeu, mas Dite nem esperou. No segundo seguinte já estava pulando agilmente o balcão e caindo em cima de Saga, derrubando ambos no chão. Foi no exato momento em que uma bala trespassou o ar exatamente onde estivera a cabeça de Saga.
Saga arregalou os olhos, e seu olhar se encontrou com o de Dite, mas o loiro imediatamente o levou consigo para trás do balcão.
“Hades está aqui.” Dite sussurrou. Saga se assustou ao ver o loiro pegar uma arma de um compartimento escondido atrás do balcão e carregá-la com familiaridade. “Eu só espero que ele não tenha ido atrás do Mu primeiro...”
“Se escondendo agora, Christen?” Dite ouviu a voz que conhecia muito bem. “Você já foi melhor do que isso. Mas há muito tempo... Antes de passar cinco anos se escondendo e fugindo tal qual um rato.”
Saga discretamente discou um número no celular, enquanto Dite trincava os dentes com a provocação.
“O que fez com Mu?” Dite perguntou, ignorando a provocação.
“Você diz esse garotinho assustado a quem estou apontando a minha arma? É bom que se levante, Christen. Junto com o seu amantezinho. Ou senão mato seu amigo.” Hades falou e, para comprovar que estava com Mu, deu com a arma contra o estômago do ariano. Mu arfou e Dite reconheceu a voz do amigo, sentindo um nó se formar no estômago. Também colocou a mão no bolso e fez uma discagem rápida.
“Dite... Não se levanta. Ele vai te matar.” Mu pediu, agoniado.
Mas Afrodite conhecia Hades. Teria de levantar ou o homem, nada paciente, mataria Mu. Fez um sinal para que Saga ficasse parado e se levantou, escondendo a arma sob o balcão.
Hades dificilmente estaria sozinho. Agentes da Frame deviam estar escondidos do lado de fora, e até mesmo do lado de dentro. Dite conseguia farejar a presença deles, cercando-os...
“Você continua igual.” Hades sorriu. “Ainda te manteria na minha cama se não virasse um traidor covarde.” Hades puxou mais os cabelos de Mu. “Mas agora acho que encontrei alguém mais interessante.” Sorriu, sádico.
Dite arregalou os olhos.
“Você não seria capaz-“ Começou a dizer, mas mordeu o lado interno das bochechas quando Hades riu. O homem o havia praticamente obrigado e deitar com ele... Hades fizera ameaças sutis a Afrodite para levá-lo para a cama, e Dite viu-se praticamente obrigado a entregar a virgindade para aquele homem. Até toda a situação se tornar insustentável e fugir com o ariano.
“Você acha que não?” Hades perguntou. “Bem, terei de experimentar antes de dizer com certeza, não acha?” Segurou a cintura de Mu com mais força. “Não posso descartar boa mercadoria tão fácil. Talvez o venda para o tráfico de jovens atraentes depois de conseguir o dinheiro.”
Dite rangeu os dentes.
“Você é podre, Hades. Algum dia terá o que merece, deveria saber disso.” Dite avisou, com uma expressão sombria. Hades gargalhou, em deboche.
“Palavras corajosas, Christen. Mas já chega, está na hora de acabar com isso.” Hades ergueu a arma para Afrodite. “Últimas palavras?”
Dite viu através das vidraças que Giovanni lhe fazia um sinal, antes de desaparecer. Ele devia ter abatido os homens ao lado de fora... Dera sorte, Giovanni devia estar perto da floricultura quando ligara. E o homem sempre andava armado.
Olhou para Hades, esperando alguns segundos preciosos, antes de dizer:
“Apenas essas: vá se foder.” Dite ergueu rapidamente a arma e atirou.
E dois tiros soaram quase no mesmo instante...
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Aiolia olhou o desenho novamente. Não tinha nenhuma foto de Mu... Aquela era a única. Mas podia lembrar dele perfeitamente. Ergueu o olhar do desenho para a floricultura do outro lado da rua. A rua, aliás, estava estranhamente quieta. Não havia uma alma viva por vários metros, ao que parecia, mas era uma cidade pequena, talvez fosse algo normal.
O leonino havia tomado a decisão. Fora algo, como sempre, impulsivo. Antes de chegar à sala de reuniões, seguira outro rumo e, quando deu por si, estava dentro do avião para a Holanda. Durante o caminho viera remoendo a atitude, recriminando-se por ser um fraco. Mas... Quando pensava que estava a alguns passos de rever Mu, o coração se agitava.
Aiolia atravessou a rua, mas a cada passo sentia algo de suspeito no ar.
E ele jamais imaginaria que levaria um tiro assim que abrisse a porta da Vinha de Rosas.
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Tudo havia acontecido muito rápido. Antes que Dite conseguisse erguer a arma, Hades viu Giovanni mirando-o dos fundos da floricultura, por trás das plantas mais altas, e moveu o braço, atirando contra o homem antes que ele atirasse em si. Porém no segundo antes que conseguisse atirar precisamente, alguém abriu a porta às suas costas, e o choque da porta fez Hades cambalear alguns passos. O tiro da arma de Hades pegou na mão de Giovanni, e o tiro de Dite, que mataria Hades, pegou em Aiolia...
Hades não se abalou, tentou voltar a atirar em Dite quando se estabilizou, vendo que o loiro parecia chocado demais para fazer qualquer coisa. Mu gritara e começara a chorar, num desespero que não havia demonstrado ao vê-lo. Hades teria atirado contra Dite e o matado, mas Saga viu que Dite estava estático e o puxou, protegendo-o.
“A Interpol está aqui...” Sussurrou, e foi quando o lugar foi tomado.
Giovanni, com a mão ferida, já havia escapado. Os três mortos que foram encontrados mais tarde, ninguém soube dizer quem os matara... Apenas Afrodite sabia, mas ele jamais diria.
Hades foi tomado pela surpresa. Cerca de dez homens armados tomaram a floricultura e, pego de surpresa, ele ainda tentou fugir. Poderia ter conseguido, profissional como era, porém Mu surpreendentemente deu-lhe um soco na boca do estômago e uma joelhada entre os joelhos, o que foi o suficiente para que se desestabilizasse e os homens da Interpol surgissem para abatê-lo.
Mu ajoelhou-se, deixando os joelhos baterem no chão, ao lado do corpo caído de Aiolia. Sangue enchia o peitoral dele, empapando a camiseta de vermelho. Mu não conseguiu ver mais nada ao redor, sequer ouvir. Os olhos se embaçavam pelas lágrimas, os ouvidos, com os próprios soluços. As mãos tateavam, cegas, tentando estacar o ferimento, e sussurrava palavras estranhas aos próprios ouvidos. Tentava dizer para que ele não morresse, que aguentasse firme.
“Você veio... Você veio...” Falava, mas agora preferia que ele não houvesse vindo. “Ah, meu amor... Fica comigo, meu amor...” Murmurava e chorava, até que braços o afastaram dele e paramédicos ergueram Aiolia, colocando-o sobre uma maca. Havia uma confusão gigantesca na floricultura, som de sirenes, vozes, gritos, ordens... Mu tentou correr para acompanhá-lo, mas foi impedido.
“Mu, me desculpa. Me desculpa, Mu.” Dite tentou falar, mas foi levado também por homens da Interpol. Todos, na realidade, foram levados.
Estava na hora de prestarem algumas contas.
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As pálpebras pesadas se abriram e deixaram a claridade machucar-lhe as retinas.
O teto era branco...
E havia um forte cheiro de hospital invadindo suas narinas. Aiolia perguntou como havia parado ali, e por que estava com um respirador no nariz. Tentou se levantar, mas uma dor o atingiu no peito e imediatamente empurrou-o de volta para a cama.
“Senhor, ainda não pode se mover.” Ela avisou. “É melhor que fique deitado. A cirurgia é recente.”
Aiolia a olhou abismado. Cirurgia? A última coisa de que se lembrava era de abrir a porta da maldita floricultura. O que havia acontecido, diabos? Num rompante, a visão um tanto apagada e confusa de olhos chorosos e o som de um choro desesperado veio-lhe entre as lembranças. Mu... Pensou, sem entender nada.
Tentou falar, mas demorou a encontrar a voz.
“Cirurgia...?”
“Você foi atingido por uma bala no peito. Ela perfurou um de seus pulmões. Teve de passar por um procedimento bastante complicado e por um pneumotórax. A bala por pouco não atingiu a artéria aorta. Você teve sorte, senhor.” Informou a enfermeira.
“Oh, eu imagino. Muita sorte.” Aiolia resmungou, voltando a olhar para o teto. Acabou por adormecer em poucos minutos.
Passou-se um tempo assim, acordava, mas logo voltava a dormir, sem entender direito o que lhe falavam. Mas em certa vez, em que conseguiu acordar por mais tempo, não estava mais sozinho com a enfermeira. Havia alguém ali com ele.
“Saga?”
“E aí, parceiro. Como se sente?” Perguntou Saga, colocando uma mão sobre o ombro de Aiolia.
“Enjoado, com fome, confuso, meio tonto e com dor de cabeça. Diga-me o que se passou.” Pediu, direto.
“Afrodite atirou em você.” Saga mordeu o lábio, segurando uma risada. Aiolia o encarou como se ele fosse maluco.
“Mas o que diabos...! Ele me odeia tanto por quê? E por que raios você está rindo, idiota?” Perguntou, irritado, sentindo uma pontada no peito.
“Ele está até agora se desculpando com o Mu...” Saga suspirou. “E se desculpando da cadeia. Ele foi julgado pelos crimes passados, mas como ajudou a destruir a Frame, ele pegou apenas um ano de prisão, e eu consegui que ele ficasse numa cela especial... Mas ele quer até agora minha cabeça.” Saga murmurou infeliz. “Um ano é muita coisa, mas se ele parar de se fazer de difícil, nós poderíamos aproveitar bem as visitas que ele pode receber e-“
“Há quanto tempo eu estou aqui no hospital?” Aiolia perguntou, miserável. Queria ver Mu... Sempre sonhava com os olhos chorosos do ariano. Nesses momentos sentia necessidade de confortá-lo.
“Há três semanas. Você está num dorme, acorda interminável. Os médicos disseram que você pegou uma pequena sepse, e entrou num estado febril. Mas que está bem melhor de ontem para hoje. Ou algo assim.” Saga suspirou. “Você nos preocupou bastante. Até teu irmão esteve por aqui.” Ele torceu o nariz. “Você está com bafo. Aqui, pegue uma bala de menta.”
Aiolia revirou os olhos e colocou a bala na boca.
“E o Mu?” Finalmente perguntou depois de alguns segundos, ainda que não quisesse. Ou melhor, queria, mas isso acabava com um pouco do orgulho que lhe restava.
“Ele foi a julgamento também... Mas como ele era menor de idade... Acabou saindo com apenas alguns serviços comunitários a prestar e... Ele resgatou ontem todo o dinheiro da herança dele. Então o motivo de ele estar no corredor esperando uma chance para falar contigo não deve ter nada a ver com dinheiro. Ao menos não dessa vez.” Saga sorriu de lado. O coração de Aiolia deu um salto.
“Ele está lá fora?” Perguntou, entreabrindo os lábios. “E por que você está aqui comigo, e não ele?”
Saga rolou os olhos.
“Quanta consideração com o teu melhor amigo. Bem, ele não queria entrar sem o teu consentimento...” Saga explicou. Aiolia balançou a cabeça. Havia praticamente levado um tiro pelo ariano. É claro que queria vê-lo!
“Peça para ele entrar, por favor.” Aiolia pediu.
Saga assentiu e saiu e, segundos depois, Mu entrava no quarto, quase timidamente. Aiolia não saberia explicar as emoções que o tomaram, só sentia que o corpo finalmente voltara de vez à vida. E não após o tiro, mas após dois anos sem sentir absolutamente nada. Mu continuava lindo, adorável, os cabelos compridos como se lembrava, o rosto ligeiramente mais maduro agora com 20 anos. Mu se aproximou alguns passos, sem desviar os olhos do leonino.
E as lágrimas começaram a cair. Quando Aiolia percebeu, Mu estava caído ao lado da cama, inclinado sobre seu corpo, abraçando-o.
“Me perdoa.” Pediu, soluçando. “Eu sei que havia dito que não iria pedir teu perdão, que eu não o merecia, mas me perdoa, Aiolia. Eu... Eu não queria te deixar. Eu pensei em você desde o momento que parti da casa de campo.” Abraçou-o com mais força, fazendo Aiolia sentir os pontos no peito, um mar de sentimentos tentando abri-los. “Nesses dois anos, Aiolia... Eu me arrependia tanto. Às vezes eu queria voltar, explicar tudo, pedir para que você não me odiasse. Em outras eu me sentia um idiota, porque não podia colocar a tua vida em risco ao associá-lo comigo. Você quase morreu... Fiquei com tanto medo.” Voltou a chorar e não conseguiu dizer mais nada.
Mu sentiu carinhos suaves em seus cabelos, os quais foram acalmando-o aos poucos. Aiolia ouvira tudo, via o mais novo chorando, e pensava que era impossível continuar brabo com ele.
Ao final de alguns minutos, Mu apenas soluçava fracamente. Aiolia então segurou o queixo do ariano e ergueu-lhe o rosto. Mu fitou-o com aqueles olhos chorosos que o leonino não gostava de ver. Com o polegar, limpou as lágrimas dos olhos dele.
“Eu queria estar com raiva de você. Deus, eu queria. Mas nem em pensamentos, em nenhum momento, eu consegui pensar que te odiava. Tudo que eu sentia era um vazio enorme, um desespero que não queria me abandonar.” De algum modo, Aiolia fez com que Mu sentasse na cama, e enlaçou-o pela cintura. Mu se inclinou, e a testa dos dois se tocou. Os cabelos de Mu formavam uma cortina clara ao redor de seus rostos. “Tentei ignorar tudo... Tentei te esquecer, Mu. Tentei com todas as minhas forças. Mas lá estava eu indo te encontrar naquela floricultura no pior momento possível.”
“Quando eu vi você caindo no chão por causa do tiro, Aiolia, eu-“
“Shhhh.” Aiolia pediu que ele ficasse quieto. Ainda mais porque Mu parecia prestes a cair em prantos novamente. “Não foi culpa sua.”
“Foi sim! Tudo isso foi culpa minha! Eu nunca deveria ter me aproximado de você pensando em arrancar teu dinheiro. Foi errado, terrivelmente errado! Eu me aproveitei da tua fragilidade, da... da...” Mu se engasgou.
“Morte dos meus pais.” Aiolia completou, sério. “Pode falar. Eu já superei.”
“Foi errado.” Mu voltou a choramingar, fechando os olhos, e tocou o rosto do leonino. “É tão bom te sentir assim, quente... vivo...”
“Também gosto de me sentir vivo.” Aiolia sussurrou. “Estou me sentindo vivo agora, que você está aqui na minha frente.”
“Aiolia...” Mu abriu os olhos. “Você... A pessoa por quem você se apaixonou... Ela não existe. Havia tanta coisa que eu dizia apenas para te agradar, Aiolia. Eu nunca gostei de clube da luta, nem o poderoso chefão, ou Star Wars. Eu nunca tive um labrador, nunca comi em nenhum dos teus restaurantes favoritos, meus conhecimentos de astronomia são rasos, e eu nunca tinha visitado a Holanda antes de vir para cá com o Dite.” Olhou-o com culpa.
Aiolia riu de leve, bem de leve.
“Você acha que foram por esses detalhes bobos pelos quais me apaixonei? É verdade que é interessante encontrar alguém com quem a gente compartilha vários interesses, mas Mu... Foi muito mais do que isso. Eu sei que você não estava fingindo o tempo todo. Aliás, eu sei que você atuou muito pouco. Ninguém seria tão bom ator. Deus! Eu sabia disso e mesmo assim demorei a vir atrás de você. Eu sou mesmo um idiota.” Aiolia brigou consigo mesmo. Agora que estava na frente do ariano, tendo-o em seus braços, nada mais parecia importar. Nenhuma mágoa, nenhuma decepção.
“Aiolia...” Mu sentiu vontade de chorar de novo, mas fungou, impedindo-se. “Eu te amo tanto... Me desculpa por tudo. Me desculpa por mentir, por fugir, por não ir atrás de você também...” Mu escorregou e acabou deitado na cama, abraçado ao leonino, com o rosto escondido no pescoço dele.
Aiolia o abraçou em retorno.
“Eu não te disse em nenhum momento naquela época... Mas eu também te amo.” Sussurrou contra o ouvido do mais novo e beijou-o na testa. Mu fungou mais alto, mas o choro convulsivo parou. Uma felicidade sem igual se espalhou por seu peito por estar daquela maneira com Aiolia. “E chega de desculpas. Você estará completamente perdoado depois do sexo de reconciliação.”
Mu riu de leve.
“Safado...”
“Não mudei quanto a isso.”
“Senti tanta saudades...” Mu ergueu o rosto. Os olhos estavam avermelhados e os cabelos bagunçados, mas Aiolia continuava achando-o lindo. “Eu ainda não acredito que você me perdoou tão fácil. Eu não merecia...”
“Mu... Eu sei sobre tudo. Sobre tudo que você passou, sobre os teus motivos... Saga me contou tudo. Eu seria muito estúpido se não compreendesse. Você o Dite estavam desesperados, seriam assassinados se não entregassem o dinheiro, e mesmo assim você não quis ir até o fim. Eu posso ser meio ruim em perceber algumas coisas, Mu, mas também não sou um completo intransigente. Sou teimoso, sim, por isso relutei em vir com o Saga. Eu queria vir... Mas fiquei com medo que você tivesse me esquecido, que tudo tivesse significado pouco para você. A dúvida era melhor do que a certeza, mas então o Saga me mandou esse email...”
“Email?” Mu o olhou com adoráveis orbes inocentes e curiosos.
“Sobre como você nunca parecia sorrir, e que Afrodite havia contado a ele que você vivia triste, que murmurava meu nome durante o sono...”
“Ele disse isso?” Mu corou, tentando desviar o olhar.
“Mu...” Aiolia chamou e voltou a erguer-lhe o rosto. “Olha para mim.”
“Estou olhando...” Mu sussurrou.
“Agora diz que me ama.” Demandou, brando.
“E-Eu te amo.”
“Isso é o suficiente para mim.” Voltou a abraçá-lo, finalmente sentindo aquela carga que sustentava nas costas dia e noite ir embora, deixando-o leve. Não iria permitir que Mu jamais o deixasse novamente. Certificar-se-ia disso. E dessa vez recomeçariam do zero, sem mentiras, sem ameaças de morte, sem ninguém perseguindo ninguém.
Agora, poderia dar certo.
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