Não Compre meu Amor
1 Prólogo
– Você quer que eu o quê?! – O jovem de compridos cabelos castanho-violáceos perguntou, enquanto uma expressão assustada desenhava-se em seu rosto sereno. Encarava o melhor amigo em perplexidade, perguntando-se de onde teria saído uma ideia tão absurda.
– Mu, presta atenção, — Afrodite, ou Dite, o rapaz andrógino de cabelos loiros, o sacudiu. – Nós precisamos de dinheiro! Você entende o significado da expressão fodidos até a alma?
Mu não tinha certeza se tal expressão existia.
– Mas eu não posso fazer isso! Eu nem gay sou! Por que não alguma mulher, ao menos? Por que um homem? – Exclamou a pergunta em um tom trêmulo. Dite suspirou, desejando que, ao menos daquela vez, os olhos verdes de Mu não lhe parecessem tão adoráveis. Era difícil lidar com a inocência do amigo quando tentava convencê-lo de fazer algo condenável.
– Porque nem eu, nem você somos másculos o suficiente para seduzir uma mulher! Essas ricaças gostam de homens grandes, fortes e gostosos. Claro que somos lindos. – Dite empinou o nariz, jogando os cabelos longos ao vento. – Mas não daria certo. Agora, um ricaço jovem, impulsivo e gay, cheio de testosterona...
Mu tremeu de cima abaixo, olhando mais uma vez para as fotos jogadas entre os arquivos que Dite trouxera dentro de uma pasta, repleta de informações. Ali estava um rapaz de apenas vinte anos, de nome proeminente, que acabara de perder os pais num acidente de carro, e herdara todo o dinheiro e posses da família do dia para a noite.
Passou os dedos finos por uma das fotos.
– Ele deve estar sofrendo tanto... – Murmurou Mu, com um aperto no coração.
E recebeu um tapa de Dite na cabeça.
– Hei!
– Não é hora para sentir-se penalizado! Você vai enganar esse mané e arrancar, no mínimo, um milhão dele. É o suficiente para quitarmos nossa dívida e não acabarmos mortos! – Dite praticamente o sacudiu. Estava desesperado. Ele e Mu, desde que haviam fugido juntos, há três anos, viviam de pequenos furtos. Ainda lhe era surreal como haviam acabado tão encrencados. Estariam mortos se não conseguissem toda a grana, e logo!
– Por que você não tenta conquistá-lo, então? Você sabe que eu não tenho muita experiência com essas coisas... – Mu o encarou com aqueles doces olhos perdidos. Dite suspirou, estremecendo.
– Mu, você sabe que eu... – Começou a falar, mas parou ao ver o amigo mordendo o lábio, em expectativa. Então percebeu que estava louco. Mu nunca conseguiria fazer aquilo! Ele já sofria por causa dos pequenos roubos, o que dirá de enganar um rapaz que recém havia perdido os pais e arrancar tanto dinheiro dele! – Está bem, tem razão, eu faço.
Dite riu quando Mu se jogou em seus braços, abraçando-o com força.
– Ah, Dite! Eu não sei o que seria de mim sem você! Você sempre me protegeu... – Escondeu o rosto na curva do pescoço do loiro, que considerava como um irmão mais velho. Dite tinha vinte e um anos, enquanto Mu recém havia completado dezoito. De posse, tinham basicamente um carro, com o qual viajavam pelo país, nunca ficando muito tempo num mesmo lugar. Tanto por medo da polícia, quanto por medo do conselho tutelar. Felizmente ambos eram maior de idade agora.
Dite conseguira que os dois fugissem há tempo antes que Mu acabasse passando pelo mesmo que ele. Se ele soubesse o quanto já me sujei ao longo dos anos, não pediria isso. Não tenho condições de conquistar o amor de alguém... Dite pensou, agoniado. Mas não posso destruir ainda mais a inocência dele. Não mais do que já destruo todos os dias, com essa vida miserável que levamos.
Dite apertou os olhos para segurar as lágrimas e abraçou Mu com mais força, dando-lhe um beijo entre os cabelos cheirosos. Mu era a coisa mais cheirosa naquele quarto de pensão sujo e barato onde passariam a noite. Esse plano precisa dar certo, Dite pensou desesperado, além do que devemos para os grandes, ainda teremos de gastar mais dinheiro para colocá-lo em prática.
– Amanhã criaremos uma história. Você é mais criativo do que eu, terá de me ajudar com isso. – Dite disse, afastando-se do amigo em direção ao banheiro pequeno do quarto.
Mu assentira lentamente, apreensivo com aquela história. Ainda se sentia culpado e seus olhos se desviaram para as fotos do rapaz alto, de cabelos cor de cobre e sorriso fácil. Ele deve ter perdido esse sorriso agora, Mu refletiu com tristeza.
Conhecia a dor de perder os pais, mesmo que os houvesse perdido muito novo. Eles não morreram... Tem gente que diz doer mais quando a gente é abandonado, mas eu acho que dói da mesma maneira.
Notas finais
Amanhã já devo postar o cap.1! :]
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