Māyā
7 Vii
Notas iniciais
VII
O sol do amanhecer ainda não tinha aparecido, mas já tingia as águas da península Ática de um tom que ora lembrava dourado, ora prateado – como se o mar fosse feito de metal líquido.
Saga já vira esse nascer do Sol algumas vezes.
Sabia onde estava. Mas até mesmo o local – o Cabo Sounion, próximo às ruínas do templo de Poseidon – era diferente do que se lembrava. Não havia resquícios do Santuário. Nem dos postos de vigília no Templo de Poseidon.
O que havia era um balneário de luxo – onde ficava a casa que ele parecia morar.
Aiolia estacionou o carro que usou para percorrer uma distância que lhe pareceu ridiculamente pequena. Pararam na entrada de um sopé de escadaria, que dava para um antigo mirante próximo às ruínas do Templo.
– Faz tempo que ninguém vem aqui. – Aiolia disse, enquanto subia as escadas puxando-o pelo braço. – Já era um lugar meio largado na época, porque fizeram o mirante novo nas imediações do Templo. Sabe como é, ponto turístico, ia ter mais movimento, podiam capitalizar o mirante. Acabou virando um lugar onde a gente vinha matar aula de manhã, fumar escondido à tarde, dar uns amassos à noite, fazer umas festas à luz da lua. O point da vadiagem, diriam alguns. Mas ainda assim é aqui que se tem a melhor vista de todo o Cabo.
Ao fim das escadas, estava a área construída do mirante. E, mais próximo da falésia, um portão de grade fechado com cadeado que isolava o barranco de areia e rocha. Aiolia segurou o portão, apoiando os pés para saltar por cima dele.
– Pula o portão, Saga.
– Hã?
– Você já fez isso inúmeras vezes, vai logo.
Saga imitou o outro, e eles passaram para a área mais próxima da borda. Sentiu uma vertigem que quase o levou ao chão quando viu o que havia abaixo, onde o mar quebrava. Não tanto pelo que viu, mas pelo que não viu, mas deveria ver: Era o mesmo ponto do Cabo onde ficava prisão do Cabo Sounion, onde ficavam os traidores de Atena. A maré estava baixa e a prisão deveria estar descoberta pela maré, mas não havia nada. Nada além de uma falésia íngreme, onde o mar quebrava com fúria.

– Quando eu era menor, eu era mais gordinho, não conseguia pular o portão como vocês pulavam quanto tinham a mesma idade. – Aiolia andou em direção ao barranco, levando-o pela mão. — Como não consegui, naquele dia. Eu vim porque me falaram que ouviram vocês dois gritando enquanto subiam até aqui. Não que vocês dois não brigassem, mas em público? Difícil. Fiquei curioso, queria ver, perguntar o que tava acontecendo, pra variar. Aí eu cheguei, e precisei gritar muito pra que vocês parassem de brigar e me vissem ali. Você pulou de volta, me levou pra casa... Disse que ia ficar tudo bem.
Pararam ambos na borda da falésia; Saga lutava para controlar sua tontura. Aiolia não parecia afetado. Olhava para baixo, vendo a espuma branca das ondas que se quebravam contra o paredão de rocha.
– Eu não ouvi tudo, mas vi vocês dois brigando. Brigando mesmo, pra valer. Você parecia possuído, até chegou a bater nele. Também disse um monte de coisa: que ele era sujo, que ele não prestava, que nunca mais queria ver a cara dele, que ele só servia pra trazer dor e tragédia pros outros. – A voz de Aiolia soava distante. – Você foi até o portão e pulou, me levou pra casa. – Saga sentiu suas pernas bambearem, mas o agarre de Aiolia o sustentou de pé, ali, olhando para a borda do barranco. – Eu pedi pra que ele viesse junto, mas ele não veio. Você tinha dito antes que não queria mais ver ele dentro de casa, nunca mais, e parece que ele escolheu justo aquela hora pra te obedecer. A gente encontrou o Aiolos no pé da escada, e ele subiu feito uma bala pra falar com ele. Eu esperava que o Olos convencesse vocês a pararem de brigar, porque eu não queria que ele saísse de casa... Eu achava que era só uma briga feia, que ia acabar passando, que você ia acabar pedindo desculpas, ele ia aceitar e tudo ia ficar bem até a hora da janta. Aí ele ia vir me contar uma história, dessas de princesas, deuses e cavaleiros que lutam pela bondade e pela justiça, tão parecidas com os delírios que você tem. Não é a toa, Saga. Você também gostava delas, até as recontava pra mim. Ele era ótimo pra inventar histórias. Só que ele gostava mais dos vilões. Dizia que os mocinhos eram chatos...
Uma sensação de urgência, forte como jamais havia sentido, fez com que ele andasse vários passos para trás ao se soltar. Sua cabeça pulsava como se fosse se partir ao meio; num crescendo que culminou com um estalo de dor que o levou ao chão, de joelhos.
Aiolia permaneceu no mesmo lugar, mas agora olhava para ele.
– Foi aí, Saga, onde você está, que eu vi ele pela última vez, há treze anos. E é aqui, no fundo desse penhasco, que ele deve estar. A gente nunca conseguiu encontrar o corpo.
OOO
– Como você teve coragem?... Como foi que você teve coragem?!
A raiva. Ela queimava seu peito, e nem mesmo a visão do rosto do irmão banhado em lágrimas conseguia evitar que ela se retroalimentasse de si mesma. Raiva, dor, raiva, dor, raiva, dor...
Ciúme.
– Saga, espera, me escuta... não é isso que você tá pensando, eu não...
– Acha que foi pra isso que a Dinda aceitou a gente na casa dela? Acha que foi pra isso que ela criou a gente como se fosse nossa mãe? Pra você, seu pervertido, fazer isso depois que ela morresse? O que foi que você disse pra ele, hein? Como foi que você convenceu ele a fazer parte disso?
– Não foi assim, Saga, aconteceu! Claro que a gente não planejou isso, você acha que alguém planeja uma coisa ass-
– CLARO QUE PLANEJA! VOCÊ PLANEJOU! VOCÊ SEDUZIU ELE, SANGUE DO TEU SANGUE, FILHO DA MULHER QUE TE CRIOU COMO SE FOSSE DELA!!!
– Não, olha, não foi assim, você não entende...
– É ÓBVIO que eu não entendo. Tem como entender uma coisa assim? Tem? Tem como entender uma indignidade dessa? O tamanho da traição que você fez à memória da nossa família?
– Saga-
– Cala a boca!!! — Seu punho acertou o rosto do irmão, que não fez nada para se defender. Ele estava derrotado antes mesmo de cair no chão. Mas ele não conseguia prestar atenção em como seu irmão implorava uma chance para se explicar. Tudo que conseguia ver era a raiva, a urgência de fazê-lo pagar por aquele pecado asqueroso.
Ele iria pagar, ele iria pagar. Ah, ele iria pagar.
– Cala essa boca! Tá vendo o que você me fez fazer? Seu degenerado, imundo, puto desgraçado! E ainda tem a coragem de dizer que ele sente o quê por você? Amor? Você é que é louco, você é que não presta!
– Eu não planejei isso, eu não queria que isso acontecesse! Você não entende, não vai entender nunca! É essa a sua sorte, Saga, você não sabe o que é isso, o que é sentir isso, o que ele sente por mim, o que eu sinto por v-
– Por quem, hã? Por ele? Vai ter a pachorra de dizer na minha cara, na cara do teu irmão, que você ama ele? Que essa merda é amor? Que você ama o cara que foi criado contigo como se fosse teu irmão?
– Não, não é isso. Você não entende...
A voz dele vinha abafada pelos soluços, mas ele não se importava. Como Kanon pôde fazer isso com ele? Como eles dois puderam fazer isso com ele, como? Aquilo não podia ficar sem punição, Kanon não poderia tê-lo traído assim. Kanon não tinha o direito. E ele sabia que era culpa dele. Sabia, porque... Era isso que ele fazia, ele mesmo viu no dia que abriu o banheiro e o viu fazendo o que fazia enquanto fingia que tomava banho. Era isso que ele provocava nos outros, ele sentiu, ele também sentiu.
Será que ele já pensava no outro?
Seu coração se encheu de ódio de novo.
– Não entendo, não quero entender. Seu sujo, pervertido, imundo! Só serve pra trazer dor e desgraça, pra mim e pra todo mundo que te cerca! É por isso que eu te quero longe, ouviu bem? Longe! Pega tuas coisas e some da nossa vida, some da nossa vida, some! Eu nunca mais quero ver a sua cara na minha frente!
– Sag-
– NÃO ME CHAMA NUNCA MAIS PELO NOME, SEU PUTO INFELIZ! – Outro safanão, outro, e mais outro; os cabelos de Kanon balançavam à medida que ele o golpeava. — EU NÃO QUERO OUVIR SUA VOZ, EU NÃO QUERO VER SUA CARA, EU QUERO QUE VOCÊ SUMA DA MINHA VIDA, EU QUERO QUE VOCÊ MORRA!!!
Kanon não disse mais nada. Ficou ali, sentado no chão, enquanto ele cravava as unhas nas palmas das mãos para não jogá-lo penhasco afora. A raiva ainda o comia por dentro porque ele sabia o que Kanon tinha feito, ele sabia do que o irmão era capaz porque ele também sentiu, ele deve ter feito o outro sentir a mesma coisa.
A memória o queimava, queimava tudo em que tocava como rastilho de pólvora, todas as outras memórias de seu irmão obliteradas pela visão em sua mente. Saga ouvira os gemidos abafados detrás da porta; abriu com a chave-mestra para ver o que Kanon fazia; lá estavam os dois. Seu coração ardia pela traição de ver Kanon com Aiolos, Aiolos, de todas as pessoas do mundo, Aiolos. Dentro do banheiro, o cabelo despenteado e a camiseta levantada porque as mãos de Kanon o tocavam. O rosto de Aiolos afogueado, o volume intumescido no meio das suas pernas, a mão dele estava dentro da calça de Kanon. Como não podiam, como nunca deveriam, ele não podia aceitar.
Mas não. Desde aquele dia, aquele maldito Natal, eles não se desgrudavam, não foi isso que Shura disse? Não se desgrudavam, ele deveria saber, ele deveria ter pensado nisso, não pensou. Claro, como pensaria?
– Nunca mais, ouviu bem? Nunca mais me dirija a palavra, nunca mais chegue perto de mim, do Aiolia e até do Aiolos, seu imundo desgraçado! Some, desaparece!
Quando terminou a frase, ouviu Aiolia gritando. Não conseguia pensar em ter vergonha, em checar o quanto o menino tinha ouvido, não queria sequer imaginar que uma criança fosse testemunha de tamanha indignidade. Mas Aiolia pedia que eles saíssem dali, saíssem eles dois.
Kanon não se levantou do chão, e se ele o tivesse feito ele o empurraria de novo. Andou até a cerca, esperando que Kanon ficasse lá. Ele ficou.
– Calma, Olia, calma... Eu vou te levar pra casa. Vai ficar tudo bem, foi só um susto, a gente já vai.
Pulou a cerca, pegou Aiolia pela mão e andou em direção à sua casa, sem olhar para trás.
...
– Quem te deu o direito de fazer isso, Olia?
A voz de Aiolos era calma, pausada, mas a reprovação em seu tom era clara. Saga não levantou o rosto para olhá-lo, porque as lágrimas continuavam escorrendo do seu rosto sem que ele pudesse fazer nada para segurá-las.
– Por que o Saga merece saber, ele precisa se lembrar do que aconteceu. – Aiolia disse, a voz embargada pelo choro. – Do que ele fez.
– O Saga não teve culpa. – Aiolos respondeu, pausando cada palavra. – O Kanon fez uma escolha.
– Escolha? Você acha que ele, logo ele, escolheria isso? – Apontou para a beirada da falésia. — Que foi uma escolha dele o que aconteceu, o que nós perdemos, o que eu perdi?
– Todos nós perdemos, Olia... Todos nós perdemos tanto, mas...
– Foi aqui que minha infância acabou, Olos. Foi aqui, bem aqui. Porque naquele dia eu perdi tudo: Eu perdi o Saga que eu amava, eu perdi você também. E eu perdi o Kanon. O direito de olhar para as fotos dele, de lembrar dele com o carinho que ele sempre me deu. Porque o Saga esqueceu na loucura, você esqueceu na sua obsessão de controlar o incontrolável, e eu? E eu, Olos, o que ficou pra mim? Vê-lo ser varrido para debaixo do tapete, não poder nem falar dele como se ele não existisse, fosse indigno de existir? E ele era, ah, como ele era. Mas eu sou o único aqui que realmente se lembra dele, porque eu me recuso a me esquecer dele.
– Você não ouse dizer isso. – Aiolos falou entre os dentes. – Eu nunca esqueci dele, nunca.
Saga crispou os dedos no chão de terra.
– Não? Então onde estão suas memórias dele, Aiolos? Onde? Como que você está aqui, dizendo que ele faria isso por uma escolha? Eu nunca entendi... – Aiolia disse, entre as lágrimas. – Eu nunca entendi isso vindo de você, logo de você. Então me fala: O que aconteceu? O que é que eu não sei nessa história? O que foi isso que aconteceu e que custou a vida do Kanon, a sanidade do Saga, e te aleijou emocionalmente pelo resto da tua vida?
Aiolos não disse nada; apenas mantinha os olhos fixos no chão.
– Por favor, Olos... – Aiolia sussurrou, entre lágrimas. – Eu preciso saber. Eu mereço saber.
– Olia... Vai pra casa. – Aiolos disse, pausando cada palavra numa calma fingida. – Deixa que eu levo o Saga. Lá, depois, a gente conversa. Eu prometo que...
– Tá, Aiolos. – Aiolia o cortou num riso seco carregado de ironia, apesar dos olhos ainda estarem cheio de lágrimas. — Eu já ouvi isso antes, esqueceu? Mas tudo bem, eu vou pra casa. Depois você me enrola com alguma coisa, não é isso que você vai fazer? Na sua cabeça você já decidiu que era melhor que eu ficasse na santa ignorância, então não adianta.
Aiolia deu as costas e foi embora. E, nesse movimento, Saga viu a si próprio quando fazia o mesmo, deixando o irmão para trás.
OOO
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