Māyā
8 Viii
VIII
Os dedos de Saga continuavam apertando a terra, não só pela tontura que o mareava.
Suas memórias de santo caído e redimido agora eram misturadas a uma torrente de imagens daquela realidade.
Eram tantas, todas juntas; um fluxo incessante de imagens, sons e sensações que lhe contavam uma história em que ele fora uma criança amada por uma tia que o criou como mãe, junto com seu irmão e seus primos. Contavam-lhe o quanto ele a amava, do quanto ele lhe era grato, do quanto ele foi feliz e, também, amado dentro daquela família. Contavam também a dor de vê-la perder seu tio, o homem que lhe criou como um pai, para um acidente de carro quando Aiolia tinha menos de dois anos. E da dor ainda maior de vê-la adoecer e perder a luta contra um câncer; e de como ele, Aiolos e Kanon se dedicaram para cuidar do pequeno Aiolia enquanto Shion e seus outros parentes assumiam os negócios da família.
Mas mesmo naquele tempo ainda era feliz, isso ainda havia sido antes de...
Aiolos se sentou ao seu lado, e ele seguia tentando achar ordem no caos de memórias de duas realidades que se misturavam, tendo como único ponto em comum a dor surda pela tristeza raivosa que ele sempre sentira em seu peito, replicada pelas memórias que borbulhavam sem controle em sua mente e que finalmente parecia ter resposta dentro delas, se encontrar dentro das imagens de uma vida que ele via como uma ilusão, um sonho.
Ou será que sua vida como cavaleiro é que fora um sonho?
— Eu nunca mais tinha vindo aqui. – A voz de Aiolos parecia distante, nostálgica. E Saga tinha agora as recordações de ter vindo naquele lugar várias vezes. Muitas delas com Kanon porque...
— ...Esse era o lugar preferido dele... – Viu seus lábios sussurrarem quase que contra sua vontade.
— Sim. – Um sorriso pálido, triste, brincou nos lábios de Aiolos. – Era aqui que ele vinha sentar, relaxar, espairecer, pensar, ver o sol se pôr, ver o sol nascer. – Ele fechou os olhos, seu queixo tremia enquanto ele engolia seu choro. – Você se lembra?
Saga levantou os olhos para olhá-lo, mesmo que as lágrimas escorressem. A dor surda agora se misturava à raiva, ciúme, tristeza, revolta, culpa. Todos os sentimentos que o levaram àquela briga, e todos os sentimentos que vieram depois.
Tão iguais aos que sentira na briga que se recordava, na qual trancara o irmão na cela do Cabo Sounion por alta traição.
Ele já não sabia mais dizer o que era real.
As imagens continuavam borbulhando sem controle em sua mente.
Os olhos de Aiolos estavam perdidos na linha do horizonte. Ele, aquele Aiolos que não morrera como traidor; mas que ele sabia — ele sentia – que tinha morrido um pouco por dentro porque foi seduzido por Kanon, naquela adolescência conturbada que ele também se lembrava.
Sim, lembrava, porque ele agora também tinha as memórias do adolescente confuso que não podia mostrar suas fragilidades para ninguém; e se debatia entre os deveres de mais velho da família, os exemplos que tinha que dar, e a vontade de ser livre, de se aventurar, de trilhar seus próprios caminhos...
Mas esses caminhos acabaram se tornando tão escuros, tão assustadores... Cheios dos desejos que nunca, nunca tivera a coragem de sequer admitir para si mesmo.
— Aqui, na beira desse penhasco, aconteceu tanta coisa... — Aiolos seguia falando, os olhos fixos no horizonte onde o sol já apontava. — Eu mesmo já vi com ele um nascer do sol assim, como esse, bem aqui. Logo depois da festa do Natal. A última dele. Você estava com uma menina, uma das que te achavam lindo, o galã da escola...
A visão veio à sua cabeça, simultaneamente às palavras de Aiolos, clara como se estivesse acabado de acontecer. A festa de Natal, no píer próximo ao mirante onde estavam agora. Aiolia brincando com garotos de sua idade, onde ele reconhecia Milo, Camus, Shaka, Mu. Shura num canto, conversando com uma garota, seu nervosismo oculto numa fachada de naturalidade que se parecia tanto com a que ele mesmo usava. Lembrava também da menina que estava ali com ele, uma das garotas de sua classe, ele sabia que ela gostava dele.
Ele se lembrava de como queria gostar dela, ou de alguma outra. E de como estava disposto a fazer isso acontecer. Porque era o certo, era o melhor.
Shion mesmo havia dito, ele e Aiolos tinham que cuidar da família que lhes restara. E Saga entendera que isso também significava que ele tinha que servir de exemplo; um exemplo de retidão de caráter digno de sua madrinha.
Por isso ele queria fazer o correto, se encaixar. Era a única opção válida que tinha, porque... A outra era impensável. Impensável.
Kanon o viu com a menina, não disse nada. Mas seus olhos disseram. Lembrava-se da incredulidade de Kanon ao vê-lo com ela, ali, diante de todos os seus amigos e membros da família. Kanon, que andava tão estranho, e que despertava coisas tão estranhas — e escuras — dentro de si.
Ele jamais disse uma palavra sobre isso a alguém. Mas os olhos de Kanon, a maneira como ele o olhara ali, naquela noite...
Seu peito voltou a arder, a raiva e a culpa misturadas à tontura das memórias que vinham aos borbotões.
Antes daquele dia, antes do dia em que o surpreendeu naquele banheiro... Antes. Antes ainda, quando o via dormir, quando pedia a ele um espacinho na cama para que conseguissem juntos conciliar o sono... Seu coração se aquecia de felicidade em estar perto dele, em sentir o cheiro dele. Em passar os dedos no cabelo dele, em rir com ele de alguma besteira que só eles dois entendiam. Os olhos dele, o carinho com que ele acariciava seus cabelos...
Mas ele teve o valor de não ceder. Ele resistiu, resistiu o quanto pôde.
Ele resistiu a Kanon.
Kanon entregou-se a Aiolos.
— Kanon sumiu da festa logo cedo, pegou escondido uma garrafa de uísque e veio até aqui. Todo mundo achou que ele estava querendo bancar o adolescente birrento pra não ficar na festa e ninguém deu muita atenção, mas ele estava tão bravo, tão mexido... Eu sabia que ele não era de beber, então que eu vim atrás dele, como eu sempre ia atrás dele. — Aiolos deu de ombros, olhando para o horizonte como se nele visse uma tela para o passado. — Eu achei ele, aqui, sentado bebendo no gargalo, resmungando e praguejando contra alguma coisa. Eu pedi licença pra sentar do lado dele, tomar uns tragos também. Sabe como é, aquela janela do ano em que nós temos a mesma idade. Se ele podia beber porque roubou a garrafa, eu também queria um pouco, não? Mas ele não queria deixar, eu tive que insistir muito pra ele acabar deixando eu pegar a garrafa também. Aí a gente começou a beber junto, porque eu também queria beber, sabe? As pessoas dizem que se bebe pra comemorar ou pra esquecer... Eu tinha o que querer esquecer.
O aperto em seu peito piorou, Aiolos o viu se encolhendo, mas não se intimidou e continuou falando.
— Eu não sei quando foi que começou. Não sei quando foi que eu comecei a vê-lo desse jeito. Não sei. E também nós nunca conversamos sobre isso, Saga. É um tabu, eu e você jamais tocamos nesse assunto. Não sei se você fez isso pelo Olia, ou porque também te doía demais. Não interessa, não mais. Hoje sou eu quem vai te falar o que aconteceu, o que começou naquela noite. Eu preciso.
Aiolos piscou, algumas lágrimas pularam de seus olhos. Mas ele estava, estranhamente, em paz. Menos alterado do que ele, sem dúvida. Porque o aperto no peito agora já era um formigamento em todo o corpo, uma sensação de ódio, ciúme agudo, raiva e dor que ele já sentira antes, ele sabia.
Ele já tinha se lembrado, porque sentira tudo isso bem ali onde estava.
— Eu o amava, Saga. O amava. Nunca o esqueci, nunca deixei de amá-lo, eu nunca consegui. Talvez até nem tenha tentado, sabe. O Olia tá errado, mas ele não sabe de tudo, não pode saber. Nunca pôde. É meu fardo, meu. Ele também tinha o dele, Saga. E não era me amar. O dele... O dele era mais pesado. Tão mais pesado.
Saga se encolheu, a garganta fechada e o coração aos pulos no peito.
Aiolos sabia, como soube no dia em que o surpreendeu tentando matar a bebê Atena. Ele sabia seu segredo mais escuro. Seu monstro no armário. Kanon sabia também, ele sempre foi capaz de lê-lo como uma precisão assustadora.
Como irmão, como cavaleiro, os dois sempre souberam, mesmo ali onde sua vida de santo não era real. Aquela parte da história não mudara, não mudaria nunca, ele sabia.
— Foi naquele dia que eu entendi, sabe? Foi sim. Ele estava ali, praguejando, já meio alto, porque estava se mordendo de ciúmes. Dizendo que você era um cínico, que não gostava daquela menina, não podia gostar daquela menina. Eu perguntei o porquê, ele disse que você devia gostar de meninas tanto quanto ele gostava... Ele ficou branco quando se deu conta do que ele tinha acabado de falar. — Aiolos sorriu, os olhos ainda presos no mar. — Eu conseguia ver a vergonha no rosto dele, Saga, mas eu fiquei feliz... Por mais que ele não me amasse, eu não estava sozinho, eu não era o único. Eu também sabia o que era gostar do que não podia ser, do que era impensável, do que não era o certo. Mas ali... eu não sei, não me importava, porque era ele quem estava ali do meu lado. Eu não sei de onde eu tirei coragem, mas eu disse que eu entendia. Que eu sabia o que ele queria dizer. Ele não se mexeu, não se levantou, nada. Olhou pro mar, pra lua, os olhos cheios de lágrimas, ele todo tão cheio de medo.
Sim, Saga sabia, também entendia.
Shion os vira uma noite, no quarto, quando ele deitava abraçado com Kanon e brincava com seus cabelos. Estar perto de Kanon era algo que ele amara desde sempre. A madrinha os via juntos assim; ela sorria e fechava a porta lhe mandando um beijo. Eram então crianças, eles dois.
Mas naquele dia Shion o tirou dali, disse que ele precisava dormir em sua própria cama. Que não era adequado que dois rapazes dormissem juntos na mesma cama daquele jeito.
Ele tinha catorze anos. Foi a primeira vez que entendeu.
Foi a primeira vez em que realmente sentiu medo.
Ele não queria mais ouvir. Mas sabia que Aiolos não ia parar.
— Ele não me disse nada, eu não disse nada. Eu só levantei minha mão pra pegar no rosto dele, e ele não me recusou. Eu já tinha beijado uma menina antes, num dos encontros do pessoal do judô no ginásio de esportes. Pra ver se eu tirava ele da minha cabeça, sabe? E, bom, não funcionou. Eu não sei de onde eu tirei coragem, talvez tenha sido do uísque. Eu beijei ele naquela noite, não foi meu primeiro beijo. Mas foi o dele. Isso sim era a cara dele, e ele ainda ia justificar falando que não era um "pau-mandado" que nem você. Tão metido a sabichão, tão metido a rebelde, a ovelha negra da família... Tudo da boca pra fora.
Saga sabia. Sabia que Kanon não beijaria uma menina a esmo, não como ele mesmo fez, beijando uma menina enquanto tentava crer que era aquilo que ele tinha que fazer. Não por rebeldia, e sim porque ele nunca fez muita questão de ceder para se encaixar.
Sabia que Kanon queria que seu primeiro beijo fosse fruto de amor, não do medo.
Ele beijou Aiolos. Que agora chorava, e falava aos sussurros.
— Ele percebeu no meu silêncio que eu o amava. E eu percebi no silêncio dele que ele não me amava. Eram nos silêncios que as nossas grandes verdades foram ditas. Foi no silêncio dele que eu entendi que ele não me amava, não me amaria nunca; mas que ele jamais teria o beijo que ele me deu. Ele sabia. Ele sempre soube, Saga. E ainda assim ele me deu aquele beijo, e os outros. Ele me deixou descobrir nele, no amor que eu sentia por ele, que eu podia sentir prazer, que eu podia amar, beijar e tocar outro garoto. Sem pudores, sem vergonhas. Você não sabe, não tem ideia do quanto eu sou grato a ele por isso. A gente não fazia planos, a gente sequer falava disso, sabe? Simplesmente acontecia. Eu buscava um beijo dele, a gente se beijava, se abraçava, se descobria um no outro. Um dia depois do outro, cada dia podia ser o último. E um dia foi, o em que você achou a gente.
Aiolia estava certo. Seu lado escuro que lhe custara a sanidade. Que custara a vida de Kanon. Aiolos não soube manter a distância necessária, foi engolfado pela tragédia também. Como Sagitário, como o Aiolos de agora. Não importava mais se era realidade ou fantasia. O que era realidade ou fantasia.
— Eu... Eu só não fui atrás de vocês dois porque ele me pediu. Ele me pediu, ele queria falar com você, eu não pude negar. Eu não pude. Aí... Eu vi ele aqui, de novo. No chão, chorando, eu quis pular a cerca e abraçá-lo, proteger ele da dor que eu sabia que ele estava sentindo. Porque ele não teria nunca o que ele mesmo me deixou ter, sabe? Ele sabia. Ele queria só tentar te fazer entender, e... Ele olhou pra mim, parou de chorar. Os silêncios dele, os malditos silêncios onde ele falava mais do que com palavras. Ele então andou até a cerca, fechou meus olhos e me deu um beijo. O último. E ele me pediu pra que eu cuidasse de você, que você ia precisar de mim. Foi a última coisa que ele me pediu. Eu queria tanto que ele ficasse, queria tanto que um dia nós conversássemos sobre essas coisas que gente apaixonada conversa, isso de fugir, enfrentar o mundo, foda-se que a gente era primo, criado junto como irmão. Eu queria que ele me amasse mas... Mas eu sabia desde o começo, não sabia? Eu não podia, eu não tinha como pedir pra ele não ir embora...
Saga olhou em volta, enxergando pouco pelo véu de lágrimas que obnubilava sua vista. O mirante agora lhe parecia escuro e úmido como a prisão do Cabo Sounion, onde ele condenou o irmão pela traição de sugerir a morte da Deusa.
Uma ilusão?
Não.
Uma metáfora.
Uma metáfora de como ele também condenou seu irmão pelo que viu naquele dia. Porque ele também sabia que Kanon não amava Aiolos, não o amaria nunca. Mas ele jamais fora capaz de aceitar; não o que ele sabia que Kanon sentia por ele... Mas principalmente o que ele sentia por Kanon.
E ele não tinha ideia do que tinha acabado de fazer. Tanto como quando se separou de seu irmão para deixá-lo preso na cela dos traidores...
Outra metáfora.
Ele estava levando Aiolia pelo braço, a mãozinha trêmula e gelada dele agarrada à sua. Aí, veio o grito de Aiolos, quase um urro de um animal ferido. E ele soube. Nem sequer registrou o que dizia quando falou mecanicamente a Aiolia que ficasse ali, não sentia as pernas quando subia as escadas do mirante e ouvia Aiolos chorando alto, agarrado à cerca que ele não pulou.
Do outro lado, o vazio.
O vazio que foi o que lhe restou.
Aiolos, que como Sagitário perdera a vida e ganhara o nome de traidor por sua própria boca... Outra ilusão, outra metáfora. Uma metáfora de como parte de sua alma o odiou naquele momento, o ódio primal que queria puni-lo não só por tê-lo tocado, mas por... Tê-lo deixado ir. Ele queria Aiolos punido como traidor, como pecador... Por um pecado que na verdade era seu.
Assim como a morte de Shion, a maneira como o matou... Foi ele quem primeiro lhe mostrou o monstro que tinha guardado dentro de si, quando disse ruim o que ele sentia pelo seu irmão, quando lhe mostrou o pecado que era o que sentia. Saga também o odiou, e em outra metáfora também o quis morto. E também foi ele quem encarregou a ele e a Aiolos de guardar sua família, o legado de sua madrinha. Athina. Atena.
Mas sua raiva... Seu ódio apenas ganhou corpo nas ilusões que criava para escapar do vazio. Por isso, mais do que ele odiava Aiolos ou Shion, ele odiava Kanon... Porque ele não resistiu e o deixou sozinho.
Por isso se recusava a falar dele, a lembrar dele, a deixar que o lembrassem dele. Foi ele mesmo quem criou e manteve a farsa de que se ninguém se lembrasse dele, se ninguém mencionasse sua existência, ele desapareceria. As fotos de Kanon sumiram dos porta-retratos; uma exigência muda que Aiolos acatou, mas encheu o coração de Aiolia de revolta. Aiolia tinha razão, ele e Aiolos o deixaram sozinho com sua dor porque Aiolos foi conivente.
E mais do que ele odiava Kanon... Ele odiava a si mesmo.
Por isso não se permitira chorar quando viu Aiolos chamando por seu irmão, agarrado à cerca de joelhos no chão. Não se permitira sentir a dor lancinante do vazio em sua alma nem quando o chefe da Guarda Costeira anunciou que suspenderia as buscas pelo corpo. Não se permitira sentir nada quando o colégio celebrou uma homenagem em memória dele, enquanto Aiolia empapava a camisa de Shura com lágrimas e soluços. Não se permitia sentir nada enquanto via as feridas na alma de Aiolos apodrecerem atrás da fachada de heróico cuidador do que restou de sua família – uma tarefa que o enterraria ainda mais na dor que ele também negava.
Saga sequer enxergava o quanto o vazio lhe devorava por dentro.
O vazio estava lá, ele sabia, mas não queria pensar nele. E o negou. O negou na maneira como ele cercara as memórias de Kanon com um silêncio impenetrável. O vazio não deixou que ele enxergasse a crueldade sem tamanho que ele impingia a Aiolia, a Aiolos; ou talvez se ele a enxergasse ele não se importava. Aiolos merecia. Kanon merecia. E Aiolia... Mais uma vez sozinho, tanto na bênção de sua ignorância como na maldição de suas memórias solitárias do primo-irmão que se foi.
Porém mesmo essa farsa não funcionou, porque Saga o via todos os dias. Não só no espelho, no seu rosto igual ao dele; mas principalmente no quarto desmontado para se tornar um impessoal quarto de hóspedes, no banheiro que ele mandou reformar inteiro. Mesmo com as mudanças, a imagem dele o perseguia, as memórias eram implacáveis, e não havia como negociar com as memórias. As histórias que ele contava, os olhos mornos e amorosos, como o mundo parecia sorrir quando ele também ria...
Uma parte de si seguia se agarrando no que se lembrava dele durante as noites insones, os longos períodos de silêncio olhando para o nada.
Eventualmente, até isso ele se recusou a sentir.
O estudo e o trabalho serviram bem por um tempo. Trabalhava e estudava quando tinha que ficar acordado e quando tinha que estar dormindo. Vieram os louros de bom estudante, de profissional competente que poderia gerir – junto com Aiolos – a Fundação que herdaram da família, as muitas posses atreladas ao bom nome dos Tiropoulos.
A insônia persistia, o cansaço aumentava, vieram as ausências. Os períodos onde ele de repente abria os olhos e não sabia onde estava, não sabia como chegara até ali. Os mesmos que via em seus delírios, quando seu lado escuro tomava conta do meu corpo... Mas ele não era possuído para fazer as coisas horríveis, inomináveis que ele fizera. O que ele fazia nas suas ausências? Via flashes do que ele antes chamava de realidade: A armadura dourada, a glória, a traição, seus pecados e suas dores recontados em metáforas elaboradas de sonho e fantasia que o abduziam do vazio que o engolia. Foi nessas ilusões que ordenou a morte de Aiolos, matou Shion com suas próprias mãos, odiou Kanon a ponto de deixá-lo preso para morrer, traiu o mundo e foi derrotado pela deusa a quem servia, e por ela humilhou-se em vergonha em busca da redenção de que necessitava tanto... E que conseguiu aos pés do Muro dos Lamentos.
Seus piores pecados, porém, foram reais. Cometidos por si próprio, quando ele gozava de suas perfeitas faculdades mentais. Os que o levou até ali. Onde ele realmente abandonou seu irmão porque não conseguia encarar nele o que via em si mesmo.
As ilusões eram melhores que o silêncio do vazio. O vazio de que era feito seu mundo.
Aiolos lhe dizia que ele precisava ver alguém, um terapeuta. Não dizia em palavras, mas deixava claro que ele precisava lidar com a dor. Mas quem era ele para lhe dizer isso? Uma pessoa que, a sua própria maneira, fugia tanto quanto ele...
Os lapsos aumentavam, as fantasias ficavam cada vez mais frequentes. Foi quando a ilusão se tornou sua realidade. Ele finalmente se esquecera dele. Mas também se descolou de todo o resto, substituindo toda sua vida por uma fantasia onde ele era uma espécie de mártir e seu irmão um algoz. Uma paródia de quem ele realmente foi.
Sentiu os braços de Aiolos o segurando quando os soluços rasgavam sua garganta; ele chorava alto, quase aos gritos.
Tentou se separar dele, mas acabou aceitando o abraço que ele lhe ofereceu. Chorou como não chorara naquele dia, amaldiçoando Aiolos por deixa-lo morrer, por não impedi-lo nem que fosse aos golpes; e a si mesmo por ter dito tudo o que disse, por não ter entendido... Por não ter feito, nas tantas chances que teve, o que fez Aiolos na noite em que esteve aqui, com ele.
Abraçou o vazio para então – enfim – encontrar a dor.
Ela é quem era real.


OOO
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