Māyā
6 Vi
VI
Saga endireitou-se num pulo, com as mãos formigando de nervoso.
Aiolia avançou em sua direção, afastando-o com um safanão cuja força mal medida denotava sua raiva. E, feito isso, recolheu nervosamente todos os álbuns e as fotos que ele antes olhava.
– Quem te deu o direito, Saga? – Aiolia se virou para ele, a raiva mal contida por ele era claramente desproporcional ao delito simples de estar mexendo nas coisas de um irmão de criação. – Quem te deu o direito de entrar no meu quarto e mexer nas minhas coisas?
– Quem me deu o direito? – Saga retorquiu. – O fato de vocês seguirem mentindo continuamente para mim, talvez?
– Mentir? – Aiolia, pese sua raiva, parecia surpreso. – E no que é que estamos te mentindo, Saga?
– Mas o que é que... – Aiolos entrou pela porta, atraído pela comoção. – Aiolia, o que diabos vocês estão fazendo de pé a uma hora dessas?
– Ele estava bisbilhotando meu quarto, Olos! – Aiolia rebateu, e o tom de agressividade com o qual ele se dirigia ao irmão soou estranho a Saga. – Mexendo nas minhas coisas, porque a gente está ‘mentindo’ pra ele!
– Como assim?... – Aiolos se aproximou dos álbuns, e ao abri-los seu rosto perdeu a cor.
Isso não passou despercebido a Saga, que decidiu aproveitar o momento para tentar desfazer a ilusão.
– Como assim digo eu! Vocês dois estão mentindo pra mim desde que eu acordei depois do ataque ao muro! – Aiolos olhou para ele, tão perplexo e entristecido que parecia estar sentindo dor física. Mas Aiolia mantinha a raiva nos olhos, e ela parecia aumentar ainda mais. – Estão me mantendo aqui, escondendo a verdade de mim!
– E que verdade estamos tanto te escondendo, hã? — Aiolia cedeu à provocação. – Que verdade é essa que nós escondemos, quando é VOCÊ que se esforça tanto pra mantê-la escondida de você mesmo?
– Aiolia! – Aiolos tentava parar o irmão, sem sucesso. – Chega!
– Chega digo eu, Aiolos! – Ele rugiu. – Então vamos lá, Saga. É a verdade que você quer? Pergunte. Pergunte, Saga, o que é que você tanto quer saber.
– Eu quero saber o que é que eu estou fazendo aqui, quem são vocês, onde está ela e onde estão os outros! Eu exijo!
– Você está aqui porque finalmente ficou doido demais para seguir funcional! – Aiolia gritou entre os dentes. – E eu e o Olos é quem temos que ficar aqui cuidando de você enquanto você se isola no seu mundinho de fantasia para salvar a preciosa deusa da justiça! Há, sério que você acha que a gente nunca ouviu essa história de ‘cavaleiro’ antes?!
– Aiolia, por favor! Você sabe que não adianta, por favor...
– Isso NÃO é uma ilusão! – Saga gritou, acuado. – E você é um deles! Por que é que você não consegue se lembrar? Por que é que vocês dois não conseguem se lembrar?
– Ah, quer saber? Eu não aguento mais. – Aiolia se exasperou. – Olos, seguinte: Eu estou ligando pra urgência vir buscar o Saga porque ó, ele tá descolado da realidade, entendeu? Ele está em surto! Ou melhor, ele está em surto desde antes de jogar o carro no muro. De qualquer jeito, nós não temos mais como lidar com isso. Eu sei que eu não tenho, e se você acha que tem é porque está tão doido quanto ele.
– Não ouse, ouviu bem? – Aiolos tentou ir na direção do irmão, que pegava o telefone. Foi, porém, interceptado por Saga.
– Aiolos, por favor. – Saga o olhava nos olhos, que pareciam carregar ainda mais dor do que antes. — Você é um homem bom, você é um homem valoroso. Você é... Ela precisa de você, Aiolos. Por favor, Aiolos, tente se lembrar, tente...
– Já CHEGA, Saga! – Aiolia tirou o irmão de perto de si. – Quem tem que se lembrar é VOCÊ! Quem tem que colocar os pés na realidade é VOCÊ! Pra que FINALMENTE você encare o que aconteceu!!!
– Ah é? E o que foi que aconteceu então? O que é que ele implantou na cabeça de vocês? Qual foi a memória fabricada que ele jogou na cabeça de vocês? – Saga andou para trás, tentando fugir dos olhos doloridos de Aiolos e da fúria dos olhos de Aiolia. – Eu soube, há, eu SOUBE quando eu o encontrei que ele jamais poderia ser um aliado! Sempre foi a natureza dele mentir, enganar, trazer dor e tragédia e...
Saga foi interrompido pelo agarre de Aiolia em seus pulsos.
– De quem é que você está falando, Saga? Diga, de quem é que você está falando?
– Aiolia, solta ele agora!
– CHEGA, Aiolos! Agora eu quero ouvir. – Aiolia gritou de volta, sem recuar um milímetro. – Fala, Saga.
– Do Kanon. – Saga sussurrou. – Do meu irmão. É ele quem está nos mantendo presos nessa ilusão...
Um golpe seco atingiu seu rosto; ao cair no chão Saga via que Aiolia agora precisava ser contido por Aiolos.
– CALA A PORRA DESSA BOCA!!! – Ele berrava, mal contido por Aiolos. – Você não ouse, entendeu bem? NÃO OUSE falar dele assim!
– E onde ele está, então? – Saga gritou de volta, ainda no chão. – Onde ele está?
– CHEGA! – Aiolos finalmente fez jus à sua força, afastando Aiolia e pegando Saga pelo braço. – Chega, os dois. Saga, você vem comigo.
O tranco que sentiu ao ver que Aiolos o puxava pelo braço não o impediu de ver as lágrimas no rosto de Aiolia. Aiolos também viu, mas apenas acenou a cabeça para o irmão e continuou puxando Saga até seu quarto.
– Você não vai me drogar de novo! — Saga gemeu, mas Aiolos o empurrava para seu quarto. — Eu não vou tomar remédio nenhum, e você não vai me dar outra injeção pra me apagar!
– Pelo amor de Deus, não faz isso mais difícil do que já é! — Aiolos mantinha o braço de Saga preso em seu agarre, e por mais que se debatesse, o geminiano não conseguia se soltar.
Mas ele não estava disposto a desistir. E, por mais que lhe doesse ter que fazer isso, não lhe restava outra opção.
Usou o próprio punho de Aiolos como alavanca para tentar torcê-lo, e depois de solto tentou neutralizá-lo com um soco. Os reflexos do outro o alertaram a tempo de impedir que o golpe o atingisse com força total, mas ainda assim conseguiu que seu punho o acertasse de raspão. Aiolos não caiu, mas seus olhos aparentavam tanta dor que parecia que o golpe o acertara com força total.
Seu coração também doeu, mas isso agora não importava — ele estava livre. Virou-se para correr para fora daquela casa, mas sentiu seu braço ser puxado para trás num solavanco. Em segundos, os braços de Aiolia envolviam seu pescoço num mata-leão.
– Olos, pega o remédio, corre! — A voz de Aiolia não admitia recusa. — Pelo amor de Deus, não enrola e pega logo!
O terror de ser novamente sedado voltou, mas quanto mais ele se debatia, mais os braços de Aiolia se fechavam em torno de si.

Aiolos tinha a seringa na mão, um hematoma no lado de seu rosto e lágrimas nos olhos. Aiolia seguia gritando para que ele o sedasse logo, mas ele continuava sem se mexer, olhando para ele com tanta tristeza nos olhos que ela até parecia genuína.
– Se você não der o remédio, eu faço ele apagar por falta de ar. — Aiolia disse num tom raivoso, enquanto sua vista escurecia na medida que ele o privava da capacidade de respirar. — Escolhe, Olos, e não brinca comigo. Hoje ele passou de todos os limites, e se cê me deixar pra resolver essa merda eu mato esse filho da puta.
– Ele é um homem doente, Olia. — A voz do outro soava abafada. — Ele não tem culpa, você sabe que ele não teve culpa…
– Dá o remédio nele, Olos. — O agarre de Aiolia ficou ainda mais forte. — Porque cê sabe que eu quero fazer com ele agora. Então anda logo.
Aiolos continuava parado.
Mas logo o ar lhe faltou de vez e ele não viu mais nada.
OOO
– Kanon, abre essa porta! Eu sei que você tá aí no banheiro de chuveiro ligado há mais de uma hora! Não tem pena de gastar energia, não?
– ...
– Kanon, se você não abrir a porta eu pego a chave-mestra pra abrir ela na marra!
– ...
– Eu avisei!
– ...
– Taí, ó, eu disse que eu- Mas o que é que você está fazendo???
– Mas que merda, Saga! Mas será possível que eu não posso ter cinco minutos de privacidade nessa casa?
– Ei-
– Me deixa sozinho, sai do meu quarto!
– Pra quê, pra você ficar batendo punheta o dia inteiro? Tá ficando louco? Tá perdendo o juízo?
– Ué, não quer me ver fazendo isso não destranca a porta do meu banheiro por fora!
– Mas é que você passa o dia fora de casa e quando tá aqui tá fechado dentro do quarto! Onde foi que você esteve o dia todo?
– Tava treinando.
– Mentira! Eu estive no ginásio de judô, e lá você não tava!
– Mas... Mas que diabo, Saga! Deu pra ficar no meu pé agora?
– Dei sim! Você sabe que as coisas não são mais como antes! Não dá mais pra cê ficar nas suas crises de adolescente, a gente tem que cuidar da casa, cuidar do Olia!
– Eu cuido mais do Olia do que você, então não me vem com essa.
– E tem o Natal que a gente tem que ajudar o Shion a organizar! A festa é em dois dias, e nisso você não tá ajudando em nada que eu sei.
– ...Eu não quero ir em festa nenhuma, Saga.
– Como que não quer?
– Não quero, ué! Não quero... Eu não acho que a gente tenha o que festejar.
– A Dinda jamais iria permitir que não tivesse festa no Natal, Kanon. Você sabe disso.
´- É, eu sei, mas eu não quero ir assim mesmo.
– Kanon... Você tá muito esquisito, eu nunca te vi assim. Tem um tempo que eu ando reparando, você tá muito diferente... O que é que está acontecendo?
– Nada, Saga... Não tá acontecendo nada.
– Kan- Ei, pera aí, eu tou falando com você! Onde você vai?
– Me deixa, Saga, me deixa!...
...
– Shura, oi!
– Fala, Saga!
– Vem cá, você viu o Kanon? Ele me falou que ia ter um treino extra hoje à tarde com o Dohko...
– Treino extra?
– Isso.
– Olha, ele teve aqui sim; mas acho que não veio pra treino, não... Ele veio buscar o Olos pra fazerem alguma coisa, depois não vi mais.
– O Olos?
– É. Cê sabe como eles andam grudados ultimamente. Desde a festa do natal, né? Tá de um jeito que eu inclusive acho que teu irmão tá querendo trocar você pelo Olos!
– É, né...
– Ei, calma, não precisa ficar chateado, é uma piada...
– Eu não tô chateado.
– Ceeeerto. Mas então, aconteceu alguma coisa que cê precisa encontrar o Kanon?
– Não... Não é nada, não.
...
Os flashes, agora, vinham um atrás do outro. Não confusos como antes: Agora eles eram cenários, diálogos, imagens tão vívidas que, caso ele não soubesse que eram uma ilusão, juraria que eram lembranças reais. Conseguia rememorar até mesmo da textura da porta de madeira do banheiro onde Kanon – ou a projeção ilusória dele – estava. Conseguia sentir suas bochechas ardendo ao vê-lo seminu e meio molhado no banheiro, seu belo corpo de adolescente mostrando indiscretas evidências do que ele fazia, a vigorosa excitação que ele interrompera. Conseguia perceber o quanto ele ficou vexado e apreensivo, e como o fato de Kanon escapulir de seu escrutínio o irritava. Conseguia reconhecer uma raiva mal-contida em seu tom de voz ao perguntar o paradeiro de seu irmão a Shura – então um jovem muito diferente de suas memórias do cavaleiro de capricórnio e dolorosamente parecido com um rapaz normal. E conseguia recordar com apreensão da pontada de ciúmes que queimava seu peito quando ouviu dele que Kanon lhe mentira para ficar com Aiolos.
Eles o drogaram de novo, só podiam tê-lo drogado de novo. E, fraco como estava, ele não conseguia lutar contra as ilusões – porque é o que elas são, ilusões – que invadiam sua mente.
E ainda tinham a coragem de usar a figura de Kanon daquela maneira, de sexualizar a imagem de seu irmão diante dos seus olhos... Porém ele jamais olharia para seu irmão dessa forma. Jamais. Ele arrancaria seus olhos fora se fosse preciso, mas nunca olharia seu irmão com desejo nos olhos, por mais que Kanon fosse capaz de tentá-lo...
Porque até mesmo isso lhe parecia bem característico de seu irmão, que tanto zombava de si ao desmentir a pureza de seus votos para Atena. Saga sabia que seu irmão poderia descer a esse ponto. Sim, porque Kanon era imoral, perverso, depravado, ele sabia, ele sempre soube – só houve um bom tempo em que ele não queria acreditar.
Por isso nunca se arrependera de tê-lo trancado na cela do Cabo Sounion, nunca.
Nunca.
– Acorda, Saga.
Fez um esforço hercúleo para abrir os olhos, e viu Aiolia ao lado de sua cama. Estava novamente no quarto que chamavam de seu naquela casa maldita, naquela ilusão horrorosa de onde ele não conseguia achar saída.
– O Aiolos saiu, o Shura levou ele pra dar uma volta, ele tava muito nervoso. Não é pra menos. – A lembrança do mata-leão o deixou perturbado, e Aiolia leu essa apreensão em seus olhos. — Não precisa ficar com medo, eu não vou tentar te matar nem nada. Cê sabe, pelo menos devia saber que eu nunca seria capaz. Mas... Agora a gente vai conversar um pouco. Eu e você.
Os olhos de Aiolia seguiam sobre si, inchados e cansados ao ponto de ficarem quase irreconhecíveis. Tentou se levantar, mas ainda se sentia fraco.
– Tem um ditado popular aqui na cidade que diz que nossa família é marcada pela tragédia. Eu nunca duvidei. – Aiolia dizia num tom monocórdico. – Nunca me faltaram motivos pra não acreditar. A morte da tia, a morte do pai, a morte da mãe. Mas ainda naquele tempo a gente tinha alegria, bem ou mal a gente meio que sabia que tudo ia acabar dando certo...
Saga levantou o tronco para então se sentar na cabeceira da cama, devagar. Como se testasse os reflexos do seu próprio corpo, tão embaralhado pelo mar de ilusões que invadira sua mente.
– ...Era no que eu acreditava, sabe? Até aquele dia. – Aiolia continuava falando, os olhos fixos no nada. – Aquele dia, Saga. Eu sei que você não esqueceu, você só não quer se lembrar. – Ele fechou os olhos, engolindo pesadamente. – Até nisso você é um covarde, Saga.
– Do... que...
– Do que eu estou falando? – Aiolia soltou um riso seco, mas seus olhos estavam duros como nunca. – Será possível que você realmente esqueceu? Esqueceu daquilo? De antes?... Dele?
– Aiolia... As coisas não são o que parecem ser, as...
– Eu sei o que me lembro, Saga. Eu nunca tive a bênção de me perder na loucura ou no esquecimento. Fui o único, sabe? Porque o Aiolos... – Outro riso seco. — ...O Aiolos enlouqueceu junto com você. Não do mesmo jeito, mas não deixa de ser uma forma de loucura. Ele se desdobra e dá o que tem e o que não tem pra cuidar de você, pra que nada lhe falte. Mesmo que você mesmo se jogue uma, duas, mil vezes na ilusão que você mesmo cria. É nisso que ele se perde, é nisso que ele ocupa a cabeça dele pra não pensar. Não lembrar o que aconteceu, o que ele viu acontecer.
Suas mãos formigavam, ele estava preso. Sabia que sua situação estava piorando, o cerco da armadilha psíquica se fechando em torno de si, usando suas fraquezas mais secretas para isso.
– E pode ser que... Eu acho que pode ser que você esteja pronto, porque em toda sua ilusão de "cavaleiro que protege uma deusa da bondade”... – Ele hesitou, e a memória onde contava a Aiolia uma história de criança voltou à sua mente. — Você nunca tinha falado dele, nunca tinha incluído ele diretamente no seu delírio. Ou então eu estou errado e você não está pronto porra nenhuma, mas eu tou pouco me fodendo.
Tentou dizer alguma coisa, mas foi sufocado por um aperto inexplicável no seu peito.
Sua fraqueza, ele, sempre ele.
– ...Então você quer saber onde está o Kanon, não é? – Saga arregalou os olhos, fixos na expressão vazia de Aiolia. – Vem comigo.
OOO
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