Māyā
5 V
V
Saga nunca foi de agradecer pelas pequenas bênçãos, mas estava reconsiderando seus conceitos.
Depois de ter se decidido a jogar o jogo que lhe impunha a ilusão, ele se dedicou a tentar se integrar com Aiolos e Aiolia e assumir o disfarce de sua projeção psíquica; agindo o máximo possível não como Saga de Gêmeos, mas sim como Saga Tiropoulos, que junto com Aiolos geria a Fundação Santuário — fachada administrativa dos muitos negócios que sua família aparentava ter.
E, encarnando seu ‘personagem’, nos dias que se seguiram aprendeu o que podia sobre seus ‘antigos’ hábitos.
Sim, ele era rico. Porém, ao contrário do que pregava o imaginário popular sobre os abastados, ele também era um workaholic; e sua única válvula de escape do trabalho parecia ser a prática regular e insistente de atividades físicas. E... Sim, sua condição psicológica aparentemente nunca fora muito boa, mas piorou sensivelmente em um passado recente – conforme Aiolos havia dito. Aparentemente, o que o segurava nos períodos onde estava ‘menos mal’ era praticar cada vez mais exercício. Vício em endorfina, foi o que o Aiolia disse...
Tão conveniente que ele tinha vontade de rir, mas continuava fiel ao seu plano.
E não podia dizer que não colhia resultados. Notou, por exemplo, que Aiolos podia ser bem mais tirânico do que aparentava sua docilidade inicial; e ficava particularmente estressado se notava que ele não dormia — ocasião onde costumava ‘ser forçado a’ medicá-lo. Então passou a fingir que dormia bem; e surpreendentemente Aiolos relaxou em seu controle.
E, pelo visto, o títere da ilusão também não estava interessado em continuar tratando-o como louco e perigoso. Desde, claro, que Aiolos continuasse pensando que ele estava conseguindo dormir.
Porque obviamente que ele não estava.
Saga sabia que dormir bem nunca foi seu forte. Especialmente depois de... Do que aconteceu com Kanon. E ele também sabia o quanto dormir mal – ou não dormir – lhe fazia mal; era justamente o primeiro sinal de que a possessão pela sua contraparte maligna estava por vir. Mas ali, naquela ilusão, ele já tivera a chance de comprovar que o sono não lhe fazia bem; era uma das principais portas de entrada para Kanon – seu oponente – em sua mente.
A cada noite, novos flashes de supostas memórias enchiam suas noites de imagens onde ele via a si, a Aiolos e a Aiolia como crianças normais em uma infância feliz, em muitos aspectos mais do que a infância de que ele originalmente se recordava. Por isso na maioria das noites ele tentava não dormir, embora não se aventurasse a fazer muita coisa além de ficar em seu quarto rememorando minúcias do seu dia.
Por enquanto funcionava, mas a privação de sono poderia vir a ser um problema quando seu cansaço ficasse aparente.
Aiolos podia estar mais relaxado em seus cuidados, mas ainda assim seguia quase onipresente dentro da maldita casa. Portanto, não podia facilitar. Teria que tentar ganhar o máximo de informações possíveis enquanto vasculhava a casa, nos parcos momentos em que ficava sozinho.
Uma parte dele seguia se perguntando: Numa ilusão como essa, o criador deveria ter todas as variáveis sob controle, não? Seria fácil lhe negar inclusive o acesso a esses parcos momentos; bastaria que o trancassem de vez em um hospício. Ou talvez o objetivo da ilusão não fosse aprisioná-lo, mas sim convencê-lo de aquilo era real. E, nesse caso, suas investigações poderiam muito bem sair pela culatra...
Mas não era como se ele tivesse opção.
Pensando nisso acabou entrando no outro quarto da casa – um quarto de hóspedes, esse claramente reformado e muito diferente dos outros três.
Sentiu seu peito se apertar, uma sensação inexplicável de urgência o fazia querer sair dali o mais rápido possível. Suprimiu-a, porém, posto que isso deveria ser um sinal claro de que aquele quarto escondia alguma coisa.
Procurou onde pôde: Abriu armários, gavetas, olhou embaixo da cama, revirou o banheiro. Nada de importante – era um quarto de hóspedes comum, absolutamente impessoal.
Certamente havia outros lugares a se explorar naquela casa. Por exemplo, numa das tardes em que Aiolos e Aiolia estavam fora, ele conseguiu entrar nos quartos de cada um deles. Não encontrou muito além do que encontrara no seu próprio: Fotos, livros, recordações diversas do que seu próprio quarto e as memórias plantadas já haviam lhe falado.
Um detalhe, porém, lhe chamava a atenção em um deles: O de Aiolia, que tinha um armário trancado a chave.
Alegoria clássica.
Tinha que abrir o bendito armário, mas não tinha ideia de onde Aiolia pudesse ter colocado a chave. Mas tinha um bom palpite: O molho de chaves de seu carro.
Saiu do quarto de hóspedes, notando o estômago revirado e uma boa dose de... cansaço? Como se fosse uma sensação de vazio.
Por quê? Não havia nada ali.
Era noite, e ele se recolheu para não levantar suspeitas. Não queria ver Aiolos ou Aiolia em casa e dar desculpas de seu momento de fraqueza. Precisava pensar, traçar estratégias...
Não fez nem uma coisa, nem outra.
OOO
— Mas vá, que ele ficou muito bonitinho vestido assim!
— Eu não quero ir pra escola desse jeito! Eu quero ir de pirata!
— Deixa de história, Olia. Me deu trabalho arrumar essa fantasia, está perfeita pra você!
— Eu não quero, eu não que-ro!
— Kanon, pelo amor de Deus, como tem hora que você fica mais criança que o Olia...
— Saga, pelo amor de Deus, como tem hora que você fica mais chato do que você já é... Dinda! Vem cá, olha só como ele ficou lindo! Eu vou tirar uma foto, ó!
— Não! Eu não quero foto, eu não quero foto!
— Está um perfeito leãozinho!
— Cala boca, Olos!
— Mas é, ué, até rugindo igual a ele você tá! É o próprio leão da Metro, três rugidos e o resto é fita!
— Cala boca!!!
— Vocês três, parem de implicar com ele! E Olia... Olha só você no espelho, olha. A fantasia está perfeita! Muito melhor do que ir de pirata, amor! Eu tenho certeza que você vai ser o único menino vestido de leão que vai ter lá!
— Não falei, Dinda? O Leãozinho vai ser o rei da festa!
— Vai sim, vai sim! Foi um ótimo trabalho, Kanon!
...
Saga se levantou suando frio.
Respirou fundo por vários minutos, tentando acalmar-se à força enquanto seu coração parecia querer pular para fora do peito. Funcionou, mas isso não diminuiu o terror que sentia.
Tinha dormido sem querer. Dormiu, e sonhou.
As imagens estavam cada vez mais nítidas: Conseguia claramente discernir Aiolia criança, na famigerada fantasia de leão que vira naquela foto. Estavam lá também Aiolos, a mãe deles, e Kanon. Rindo, feliz, com a câmera na mão e tirando a foto que, seguramente, era a que ele tinha em sua escrivaninha.
Era a primeira vez que Kanon se apresentava a si em sua projeção psíquica nesta realidade. Mesmo que numa recordação plantada, ainda assim era a primeira vez.
Tão diferente do que ele era, do irmão que sempre conhecera – para o bem e para o mal.
Não conseguiu mais conter seu nervosismo.
Saiu do quarto em que estava, decidido a andar pela casa novamente em busca de pistas. Não acendeu a luz para não acordar Aiolia ou Aiolos, sabendo que qualquer um deles poderia coloca-lo de volta na cama à base de drogas. Não permitiria isso, não mais.
Passou pela sala, viu a porta dos quartos onde os dois deveriam estar.
Abriu devagar a porta de um deles, já com uma desculpa esfarrapada na ponta da língua caso topasse com um deles acordado. Deu sorte, porém: Era o quarto de Aiolia, e ele não estava em casa.
Entrou no quarto.
Numa primeira olhada, nenhuma novidade. Olhou os porta-retratos mais uma vez, onde Aiolia aparecia adulto em todas as fotos, acompanhado de uma jovem moça ruiva que lhe lembrava a amazona de Águia. Como antes, nada dali lhe parecia útil; então começou a abrir as gavetas – coisa que não tivera tempo de fazer até então.
Na primeira, achou um molho de chaves, mas não as do carro. Uma delas tinha a cor e o tamanho da chave que estava procurando, para abrir o tal armário trancado.
Tomou-a nas mãos e tentou sua sorte.
O armário se abriu.
Nele, alguns brinquedos e algumas tranqueirinhas. Bonecos de brinquedo, carrinhos, naves espaciais, miniaturas de espadas e pedacinhos de metal dourado que se encaixavam no corpo dos bonecos — como as peças de suas armaduras.
Apertou os lábios, respirando devagar para conter o nervosismo.
Havia livros também: Mitologia grega, astronomia, física; revistas de curiosidades científicas sobre segredos do Universo. Duvidava que Aiolia as conservasse pelo valor material apenas – embora também não o imaginasse lendo sobre aquilo, mesmo naquela realidade.
Viu também vários álbuns de fotos. Abriu-os, e não pôde evitar o choque ao ver o conteúdo deles.
Ele, criança, do lado de outra criança exatamente igual a si; exceto pelas roupas e pelo corte de cabelo. Kanon, só podia ser ele. Outras fotos deles crianças, mas agora ele já conseguia diferenciar Kanon de si apenas pela expressão e pela maneira que usava o cabelo – quase sempre mais curto.
Já esperava cruzar com evidências de seu irmão nessa realidade alternativa; mas a maneira como ele se apresentava ali, naquelas fotos, era o que lhe chocava mais. Era Kanon, sim, mas um Kanon absolutamente diferente daquele que se lembrava. Os olhos claros eram sorridentes, o rosto denotava um menino alegre e travesso, o sorriso era franco e espontâneo...
...E ele parecia feliz e à vontade do seu lado.
Sentia os dedos formigarem à medida que engolia as lágrimas.
Pegou outro álbum, aparentemente mais recente. Mais fotos dele, mais fotos de Kanon; agora ambos adolescentes. A diferença de penteado continuava patente, mas era mais sutil: Seus cabelos estavam na altura do pescoço, como agora, mas sempre arrumados; os de Kanon pareciam mais rebeldes e repicados, apesar de manter quase o mesmo comprimento. Aliás, ele todo parecia mais rebelde e arredio – o que não era novidade, ele sempre fora assim. Mas, em sua rebeldia juvenil, Kanon tinha um olhar distante, melancólico; nunca com a agressividade e a maldade que lhe eram tão familiares em seu irmão.
Já nas fotos em que Kanon aparecia com Aiolia, os olhos dele pareciam sorrir de novo.
Olhou mais fotos, agora muitas de Aiolos, de Kanon e de si mesmo em plena adolescência, vestindo um kimono de judô com faixa preta em vários torneios que casavam com os troféus que vira na sala de estar Lá estava também Aiolia criança, ridiculamente fofo usando um kimono parecido com faixa branca e depois amarela, aparentando uma felicidade infantil que ele nunca vira no Aiolia real. Nas fotos seguintes... Aiolos adulto, Aiolia adulto, fotos de si mesmo recebendo o tal prêmio pela fundação Santuário.
Relaxou as mãos, na esperança de que o formigamento melhorasse.
Antes, tinha a certeza de que Kanon era o autor da ilusão, logo esperava que ele apagasse todas as evidências de sua existência. Agora... Não descartava a possibilidade, mas o que é que ele estaria planejando ao criar evidências de si mesmo em uma ilusão para aprisioná-lo? Ou então, seria possível que Kanon fosse também uma vítima, e estivesse usando uma espécie de linguagem cifrada para ajudá-lo? Ou pedir ajuda?
Deu-se uma reprimenda mental. O mais provável é que todo aquele mistério servisse para enredá-lo ainda mais na teia da ilusão que o prendia.
Ainda assim, não deixava de pensar – por que as fotos de família tiveram esse lapso temporal tão grande? Não havia nada no período que existiria entre sua adolescência e as fotos recentes. E onde a projeção de Kanon naquela realidade tinha ido parar?
O barulho da porta se abrindo interrompeu suas perguntas.
— Saga, você tá acordado a essa hora? – Aiolia perguntou, e então viu que ele tinha aberto o armário. Sua voz subiu de tom. – O que diabos você está fazendo no meu quarto?

OOO
Fale com o autor