Agda escrevia sobre qualquer coisa. Sua ficção, seu dia, um poema sem rima nem métrica, mas não conseguia pensar em nada para escrever a sua mãe. Estava em seu quarto, sentada em frente a sua escrivaninha e encarando um papel em branco enquanto Cassandra lia a atualização da história que estava escrevendo, sentada em sua cama.

Estava tentando apenas porque parecia importante para seu pai e sua irmã. Sabia que Ariane não quis deixá-los, mas o fato era: por 26 anos terrestres, ela não esteve lá. Esta era a única noção de tempo que tinha, o português era a única língua da qual se lembrava, a vida mundana era a única que conhecia. O que poderia escrever que uma eivariana aerita, adjetivos que sequer possuíam significantes, poderia entender?

— A Cordélia vai desafiar os cavaleiros?! – Cass perguntava assustada.

— Termina de ler. – Agda não gostava quando ela fazia perguntas antes de chegar ao final.

A mais nova se virou para ver as expressões da mais velha lendo. Cassandra roía a unha do polegar direito enquanto seus olhos passavam pela página.

— Ah, esse maldito do Roy! Ele tem que estar preso ou morto pra sumir numa hora dessas. – a leitora continuava comentando enquanto lia.

— Sério que você não vai ficar preocupada com ele?

— Ele sempre resolve tudo, como eu ficaria preocupada?

A mais nova se levantou e tomou o caderno da mais velha.

— Então vou reescrever.

Cass riu.

— Não! Não precisa, está ótimo!

— Mas se não gerar preocupação, a próxima parte deixa de fazer sentido.

— Bom, se você diz…

Agda guardou o caderno junto de outros vários. Se sentou em sua cadeira giratória de novo, percebendo que a irmã não estava com pressa para sair de seu quarto.

— Achei que você ia ver o Tom hoje.

— Vou mais tarde. Tenho que encher minha parte das baterias ainda. – Cass se sentou na cama enquanto falava – Inclusive reparei que você não tem feito sua parte das tarefas.

— Nossa, sério?

— Tem que fazer, Agda. Eu não vou fazer sua parte, não gosto nem de fazer a minha! Quando a lata de lixo começar a transbordar eu vou pôr aqui no seu quarto.

A mais nova girou os olhos enquanto a mais velha levantava uma sobrancelha.

— Disse a dona do quarto mais organizado do mundo.

— É desorganizado, mas não é sujo!

As duas continuaram se encarando por alguns segundos até Cassandra se levantar.

— Vamos, eu vou tocar pra carregar as baterias, você tira o lixo, depois a gente pode ver um filme.

A mais nova não queria se mover, mas lá estava a mais velha a encarando como quem não vai a deixar em paz até que se mova. Se levantou por fim arrastando os pés, desejando o poder de decidir não fazer simplesmente.

*

O dispositivo de Tom foi analisado por Yago e Cícero. Era simples o suficiente para não chamar atenção, apenas um leitor de ambiente que seria capaz de avisar quando Ariane estivesse buscando a carta ou enviando uma resposta. As cartas passaram por Ariela, que ensinou a Tom um feitiço para que o objeto se destruísse caso chegasse em mãos erradas. Foi assim que a noite da tentativa chegou.

Cass apareceu no centro do Coliseu, entre o palco desmontado e a arquibancada de pedra, segurando os braços de seu pai e sua irmã. Cícero imediatamente observava a arquitetura curiosa do lugar. A mente de Cass buscou outra presença perto deles e logo encontrou quem queria.

— Chegamos. – pensou.

— Estou pegando o dispositivo, já encontro vocês. – a mente de Thomas respondeu.

— Curioso. – Cícero continuava examinando o lugar ao redor – O que é aquilo? – ele apontava a estrutura mais recente.

— O bar. – Cass respondeu. – E os banheiros ficam no fundo.

— É uma vergonha. Se houvessem recuado alguns metros e ao menos respeitado o semicírculo… Tsc! Não. – ele suspirou – Mesmo assim seria desastroso.

— Eu sabia que você notaria. – Cass riu.

O som de passos sobre a grama chamou a atenção da família, que reconheceu Tom saindo do meio das árvores com seus dispositivos em mãos.

— Boa noite! – ele se aproximou buscando se colocar ao lado de Cass – Houve uma pequena alteração no exato instante em que chegaram, consegui pegar que isso enviou uma informação.

— Isso significa que minha teoria está correta? – Cass abraçou Tom o perguntando.

— Deixa mais perto de confirmar, sim. – ele respondeu observando o sorriso orgulhoso da garota – Metida.

Ela riu.

— O que fazemos agora? – Cícero perguntou.

— Agora é esperar. – Tom suspirou em resposta.

Os quatro se sentaram na arquibancada, conversavam para matar o tempo. Se foram alguns minutos e, enquanto Cícero e Tom discutiam as condições necessárias para um portal, Cass notou a irmã mais nova quieta e desconfortável, olhava os arredores, parecia entediada.

— Está tudo bem? – a mais velha perguntou através de sua mente.

— Agora não, Cass.

— Só me diz o que aconteceu.

— Se não é óbvio, não houve nada.

Agda deixou o campo telepático desviando o olhar da irmã. Cass conhecia a irmã, não precisava ler sua vibração para saber que não gostava de qualquer ideia ou processo que os aproximasse de Eivar.

— Isso não pode ter sido mesmo um teatro. – o comentário de Cícero chamou atenção, ele continuava: – O material do piso no que seria o palco não ajuda a espalhar o som, o som das árvores também interfere muito. E…

Uma brisa o fez parar de falar. Havia algo diferente, uma energia que ele conhecia intimamente e o permitia reconhecer antes de qualquer um. Ele olhou para a mata, de onde o vento vinha, como se pudesse esperar que ela aparecesse dali. O cheiro de castanhas veio em seguida.

— É ela? – Cass perguntou, mas já sabia a resposta.

— É sim.

A brisa diminuiu, e foi algo intencional, que Cass sentia.

— Continua falando. – a jovem bruxa disse – Ela quer te ouvir falar.

Cícero sorriu, ainda que seus olhos estivessem quase transbordando de saudade que sentia. Ele limpou a garganta e voltou a falar:

— E aqui não seria um lugar para se escolher ser um teatro, por que colocariam um espaço de entretenimento longe de tudo e todos? E sem iluminação. Os eventos poderiam ser à tarde, mas o sol deve se pôr atrás no palco no verão, isso machucaria os olhos da plateia. Então, provavelmente, esse lugar devia ser um observatório.

Ele concluiu, a brisa voltou. Cícero sorriu, se lembrando da voz de Ariane quando ela ria e dizia “Adoro quando você fala do que gosta”.

Cass sorria. Ela via traços de emoções no vento. Felicidade. Saudade. Alívio. Amor. Todas essas coisas juntas.

— A carta! – ela lembrou.

Cícero tirou o envelope bem cheio que carregava dentro do casaco. A deixou sobre a palma da mão, esperando que Ariane entendesse o que fazer.

Thomas se aproximou de Cass e a abraçou enquanto a adolescente torcia. Assistiram juntos quando pequenas luzes douradas vieram com o vento. Pareciam vagalumes, mas percebiam se tratar de outra coisa.

As luzes cercaram o envelope e, aos poucos, aderiram ao papel. Cobriam toda a superfície e faziam o embrulho que carregava algumas páginas flutuar da mão de Cícero. Cass sorria, empolgada. Logo reconheceu a mesma cobertura dourada que carregou a folha com a frase de sua mãe até ela. A luz foi ficando mais sutil, os pontos de luz de apagavam, e quando mais nenhum brilho vinha da película dourada ao redor da carta, o envelope desapareceu.

Tom conferiu a leitura de seu dispositivo imediatamente.

— Enviado! – ele confirmou – A carta deixou a Terra.

Cass riu o abraçando apertado. A família se entreolhou dois terços satisfeita e esperançosa, um terço feliz pelos outros. O vento continuou soprando e o cheiro de castanha ficou mais forte quando uma folha dourada fez o caminho das árvores até o peito de Cícero, que pegou a folha com pressa.

— Faça alguma luz aqui. – ele disse se aproximando de Cass e Tom.

Thomas usou a luminosidade do dispositivo para clarear, Cass leu em voz alta:

— Vamos nos ver. E… Eu não sei o que são esses símbolos.

Cícero espremeu os olhos.

— É uma data estelar. – ele disse, guardando a folha com cuidado – Vamos decifrar isso.

O vento soprou ainda mais forte, fazendo os cabelos de Cass e Agda entrarem na frente do rosto.

— Ela está feliz. – Cass disse ao sentir.

O aroma doce de castanhas enchia os pulmões e confortava uma parte de suas almas. Até de Agda que, embora não soubesse dizer como, percebia algo familiar na sensação da presença de Ariane. Foram mais alguns segundos o aroma perder intensidade e, de repente, a ventania cessou.

— Ela precisou sair com pressa. – dessa vez foi Cícero que disse. Não porque sentiu, mas porque reconheceu esse hábito.

*

Cass estava em um galpão cinza com outros bruxos de sua idade, ou até mais jovens do que ela. Uma voz masculina contava:

— Trinta e um!

E ela fazia um agachamento.

— Trinta e dois!

E ela fazia outro, junto de todos os outros jovens, a cada vez que ele contava.

Observou suas roupas, eram um uniforme pesado que cobria todo seu corpo. Seus braços estavam esticados para frente, mas lentamente cediam a dor e ao cansaço. Ela rapidamente os corrigiu.

— Eu estou observando, Penélope! Trinta e quatro! – o dono da voz masculina a observava de longe.

— Desculpe, sur! – ela respondeu falando o mais alto que podia.

— Trinta e cinco! – o homem se aproximou, Cass não conseguia ver seu rosto – Depois que todos acabarem, você faz mais vinte. Trinta e seis!

Suas pernas ardiam e tremiam. Aquele não era o primeiro exercício do dia, todos ao redor estavam cansados, o suor encharcava seu rosto. Os agachamentos seguiam e sua vista ficou turva. Cass achou que desmaiaria.

Ela abriu os olhos. Reconheceu a cadeira ao lado de sua cama. Estava em casa.

*

Os dias a seguir vinham com um otimismo que diminuía a cada nova chance frustrada de desvendar a data estelar do encontro com Ariane. Cícero não demonstrava, mas Cass percebia pela pose do pai, debruçado sobre a folha dentro de seu ateliê dia e noite, que não havia tido muito progresso.

A adolescente estava em seu quarto de roupão e com os cabelos presos levemente molhados após sair do banho. Sentada frente a bateria, mantinha um ritmo ligeiro e suave no chimbal enquanto pensava, quando ouviu alguém bater em sua porta.

— Entra! – ela disse e se surpreendeu ao ver Thomas abrindo a porta, já vestindo sua camisa xadrez azul – Que horas são?

— Seis e meia. – ele respondeu sorrindo e levantando uma sobrancelha.

— Eu não vi o tempo passar, me perdoa. – ela se levantou deixando as baquetas e indo cumprimentá-lo.

— Eu sabia que você ia esquecer.

— Não, eu não esqueci, só perdi hora.

Ela dava a volta na bateria, mas ele a flutuou sobre o instrumento até perto da porta, onde ele a abraçou e beijou seus lábios.

— Tá tudo bem. – ele a tranquilizou terminando de entrar e fechando a porta atrás dele – Eu sei que você está nervosa com um monte de coisas, mas você não quer perder a festa, quer?

— Não. – ela riu – Minha roupa já está separada, me dá um minuto.

Ela se apressou em atravessar o quarto e entrou em um closet, Thomas se sentou na cadeira ao lado da cama, de onde não podia vê-la, mas ficou a esperando.

— Seu pai conseguiu avançar no cálculo? – ele perguntava enquanto observava pequenos cacarecos que decoravam o lugar.

— Da data? – Cass o respondia de dentro do armário enquanto se arrumava.

— Isso.

— Ele ia pedir ajuda para os seus pais.

— Sim, mas eu acho que não conseguiram ajudar muito.

— Essa era a última coisa que eu sabia.

Tom reconhecia pela voz de Cass que isso a decepcionava. Era um tom preocupado de quem começava a perder as esperanças.

— Mas eles vão conseguir! – ele dizia para animá-la – Eu tenho certeza que seu pai vai fazer o impossível pra isso.

— O que me preocupa é ele tentar de tudo e a gente não conseguir! É frustrante, porque nunca estivemos tão perto de ver minha mãe e agora tudo depende de entendermos uma data estelar.

— Bom, ela precisava…

— Eu sei que ela não tem como saber a data daqui. Era o único jeito de apontar o mesmo momento em dois planetas diferentes.

Cass pegou brincos de dentro de uma caixinha de bijuterias, encarava a insígnia em bronze de Lazlo que havia ficado dentro de outros acessórios. Se concentrou por um instante. Ela entendia a assinatura, já o encontrava, fraco, em um lugar distante, mas ele nunca parecia sozinho.

— Eu acho muito sexy quando você banca a sabichona.

A voz de Thomas a desconcentrou, sentia o rosto esquentar e tentava evitar um sorriso mesmo que ele não estivesse olhando.

— Pra quem está sempre bancando o sabichão, isso diz muito sobre seu ego. – ela respondeu.

— Aham, às vezes eu fico admirando minha própria inteligência.

— Babaca. – ela ria.

— Mas é meio injusto, não é? Você já era bonita, sensível, afrontosa…

Enquanto ouvia Tom, Cass também percebia que ele tentava algo com os pratos de sua bateria, já que eles ressoavam.

— Eu? Afrontosa?

— Sim. E aí agora você também fica sendo toda esperta, como eu fico?

As bochechas de Cass já doíam de tão vermelhas que ficavam, ela sentia toda sua cabeça esquentar enquanto prendia o cabelo em duas tranças.

— Então é assim?

— O que?

— Que é se sentir “insuperavelmente fantástica”?

— Você nem viu o altar que eu ergui pra você ainda.

Ela riu.

— Essa foi boa.

— Eu não estou brincando.

Havia um pequeno desespero eufórico, o chiar dos pratos aumentava.

— Para, Thomas!

— É sério!

Cassandra tentava engolir o sorriso bobo que carregava no rosto, pegou a bolsa que levaria consigo e, sem pensar, pegou a insígnia de Lazlo para levar consigo. Saiu do closet segurando um lenço vermelho da cor de seu vestido nas mãos e estranhou quando viu Thomas longe de sua bateria. Ele olhava para os pratos, que ressoavam sozinhos, e Cass, conhecendo seu par, entendia que experimento estavam fazendo naquele momento.

— Eu fiz isso? – ela perguntou.

— Sim. – ele olhou para ela – Você ainda está cor-de-rosa.

— Não vou nem precisar da maquiagem.

Ela se aproximou dele, que se levantou. Ela colocou o lenço no bolso da camisa dele, sorrindo ao perceber que ela havia se preocupado com isso.

— Eu acho que estou começando a entender. – ela disse enquanto arrumava o lenço em uma forma triangular.

— E eu quero muito que você me explique, mas a gente realmente precisa ir. – ele a olhou rapidamente de cima a baixo, observando a saia curta do vestido – Você não vai passar frio?

— Estou de meia-calça.

— É que… Eu não estou reclamando, claro, mas está ventando muito.

— Você não trouxe minha blusa?

— “Sua”? – ele riu enquanto os dois deixavam o quarto.

*

A festa junina no dia de Santo Antônio tinha um investimento pesado em temas românticos e no correio elegante, mas outras atrações como a barraca da pesca e a brincadeira da cadeia também tinham seu destaque. Cass estava um tanto enjoada de ver os cartões em forma de coração, já que ela mesma havia cortado vários, mas as bandeiras e balões de papel colorido tinham um charme inegável.

Agda logo encontrou algumas amigas e foi gastar alguns trocados em barracas para ganhar prendas, a família de Thomas já havia chegado e escolhido uma mesa perto da fogueira. Os adolescentes ficaram com os pais e comeram quitutes juninos antes de se afastarem e encontrarem os amigos. Melissa foi a primeira que encontraram, sua roupa de noiva caipira facilitava. Lucas, surpreendendo a todos, veio com uma batina completa. E era estranho observar um padre aos beijos com uma fada ruiva.

O grupo foi se juntando aos poucos. Laulau se vestia como uma boa emo, usando xadrez preto e roxo, e tinha um pedido importante:

— Eu preciso encontrar a Ana Clara lá na frente, mas se eu tentar ir sozinha meus pais vão junto.

— Onde eles estão? – Cass quis saber.

— Ali. – Laulau apontou discretamente com a cabeça para um casal comprando cartelas de bingo. Eles transpareciam conservadorismo.

— A gente vai com você. – Lucas dava de ombros.

— Não. – Laulau respondeu com um sorrisinho no rosto – É irônico, mas eles não confiam em garotos, se formos todos eles vão achar ruim.

— Já entendi, Maria Laura. – Melissa gesticulava enquanto falava – Eu e a Cass vamos com você.

— Exatamente!

— Mas eu não vou passar a noite segurando vela! – a patricinha alertou, arrumando sua bolsa no ombro para irem.

— O que a gente não faz pela amizade, né? – Cass fez o mesmo.

— É rapidinho, eu assisto você e o garoto misterioso se pegando direto! – Laulau protestou.

— Eu percebo. Mas o que você tanto gosta de ficar olhando, hein? – Cass sorriu provocando a amiga.

Laulau engasgou antes de responder:

— Cass?! Você não era assim! – a emo olhou para Thomas – Isso é culpa sua.

— Gosto de pensar que sim. – o jovem bruxo respondeu dando de ombros, com as mãos nos bolsos.

— Vamos! Ou você vai deixar sua namorada esperando? – Cass disse.

As garotas se afastaram caminhando. Melissa liderava:

— Você viu o vestido da Larissa?

— Não vi. – Laulau respondeu.

— Ela teve a coragem de vir de branco! – Melissa explicava.

— No seu casamento?! – Laulau ria.

— Que desaforo… – Cass ria por perceber que para Melissa isso realmente era importante.

— Eu não sei o que vocês estão achando engraçado.

— A gente compra um vinho quente e joga na roupa dela. – Laulau dava a ideia – Depois que esfriar, claro.

Enquanto discutiam se colocariam ou não este plano em prática, Cass observou de longe a mesa onde seu pai e a família de Thomas estavam. Cícero tinha um semblante preocupado, falava e gesticulava com as mãos. Ela sabia qual era o assunto: com certeza uma certa data estelar. Infelizmente, não tinha esperança de que um arquiteto, um pesquisador de cristais, uma professora de história e uma analista vocacional, se é que podia chamar Ariela assim, poderiam calcular uma data estelar. Por isso verificava a assinatura energética da insígnia o tempo todo.

*

— Daí ela me chamou pra conhecer a casa que ela divide com as amigas dela. – Lucas contava para Thomas e André.

Os três estavam perto da quadra onde dançariam em breve e tomavam quentão para se esquentarem.

— É, parece que você não vai ter que esperar muito mais. – André o respondia sorrindo.

— Eu não tô contando com isso, cara. – o garoto vestido de padre respondia.

— Não tô dizendo que você precisa ter certeza, mas…

— Mas é bom você estar pronto. – Thomas complementava e acenava para uma garota que passava com uma cesta cheia de cartões de correio elegante e pedia para ela se aproximar.

— Lá vai o romântico. – Lucas riu ao ver a garota com a cesta se aproximar.

— Certo ele. – André riu – Sua namorada tá andando por aí sozinha, você acha que ela não vai receber uns desses?

— Ela acha brega, ela me disse. – Lucas dava de ombros.

— É brega, mas se proibirem isso agora… Tom concorda comigo.

— Eu ainda vou voltar no outro assunto. – Thomas respondeu enquanto terminava de escrever.

— Mas você concorda, tanto que está aí marcando território. – André insistiu.

— Nunca é demais, até você que é meu amigo já quis sair com ela. – a resposta fez Lucas dar uma risada aguda e engraçada o suficiente para que os outros dois começassem a rir.

Tom explicou quem era Cass para a garota do correio elegante e esperou a menina se afastar para voltar a falar:

— Quando você vai lá conhecer a república?

— Hoje ainda. – Lucas respondeu.

— Hoje?! – André se surpreendeu.

— Você tem camisinha? – Tom era prático.

— Não, eu não estava esperando isso. Mas cara, eu tenho certeza que não vai rolar, ela não vai querer.

— Se depender do seu preparo, ela não vai querer mesmo. – André não acreditava no quanto o amigo parecia lento só porque estava saindo com uma garota dois anos mais velha.

Thomas simplesmente tirou a carteira do bolso, sacou uma camisinha de dentro e entregou para Lucas.

— Pode pegar.

— Não, cara. – Lucas negava – Aí você vai ficar sem?!

— Eu tenho mais na minha mochila, pode pegar. – Thomas insistia.

— Caralho, vocês tão fodendo pra porra então!

— Cala a boca, Luquinhas. – André batia a mão no próprio rosto.

De uma forma mais discreta que Lucas, Thomas esperava que esse dia chegasse.

Eles continuaram conversando por mais vários minutos até a garota do correio elegante voltar. Ela entregou um cartão vermelho para André, que se esforçava para ler com a baixa iluminação do lugar.

— Ela gostou? – Thomas perguntou a garota.

— Olha, eu procurei sua namorada em todo lugar, mas não encontrei em lugar nenhum!

— Como? É a loira, vestido vermelho, bota até o joelho… – ele repetia a descrição que já tinha dado, gesticulando.

— Eu lembro, mas não encontrei! – a garota o respondeu e estendeu para ele o cartão que havia acabado de escrever – Fica com o cartão, aí você entrega pra ela! Eu tenho que me arrumar pra quadrilha.

Thomas aceitou o cartão um pouco decepcionado, mas o guardou no bolso.

— Se ela estiver lá na entrada com a Laulau, ela não deve ter achado mesmo. – Lucas parecia compreender. – E esse aí? – ele se virou para André.

— Da Helena. Eu nem vi ela aqui.

— Mas faz tempo que elas saíram… – Thomas olhou na direção dos pais, Cass não parecia estar com eles, não a via em nenhum lugar.

— Elas devem estar roletando nas barraquinhas. Daqui a pouco aparecem! – Lucas estava despreocupado, dava um passo para o lado para tentar ler o cartão que André recebeu.

— Se liga. – André o afastava com um braço.

Foram mais alguns minutos dos três sozinhos até que Laulau se aproximou com Ana Clara e Melissa.

— O bolo de amendoim tá sensacional. – a emo falava terminando de limpar a boca com as pontas dos dedos.

— Será que dá tempo de pegar antes da quadrilha? – Lucas perguntava olhando em direção das barraquinhas de comida.

— Não, é daqui a pouco já. – Melissa respondeu um tanto azeda.

— Cass não estava com vocês? – Tom interrompeu a conversa perguntando.

— Ué, achei que ela ia estar aqui! – Laulau olhava para os lados procurando a amiga – Ela se separou da gente faz um tempo, acho que foi ver uma coisa com a irmã dela.

A intuição de Tom de repente se manifestou. Algo não estava bom. Olhou ao redor, não via nem sinal do vestido vermelho. Procurou o campo telepático da namorada e então teve certeza de que algo estava errado. Não havia campo telepático ali.

— Procura ela pra quadrilha, Tom. Vai começar já já. – André também estranhou a ausência.

— Eu vou lá. – o bruxo respondeu mais para si do que para qualquer outro, se afastando do grupo em direção da mesa onde a família estava.

Seus passos se apressaram enquanto calculava possibilidades. Cass poderia ter fechado seu campo telepático por qualquer motivo. Mas não havia muitos para isso. Ela poderia ter voltado para casa buscar alguma coisa? Era improvável, mas possível. Parou ao lado da mesa causando o silêncio dos adultos, que notaram a preocupação em seu rosto.

— Eu não estou achando Cass. – ele disse suprimindo o pequeno desespero que queria se manifestar.

— Eu vi ela passando com as amigas. – Yago disse apontando o caminho para a entrada da escola.

— As meninas já voltaram, Cass não está com elas. Elas disseram que ela se separou delas já faz tempo.

Cícero teve a mesma reação de Tom. Primeiro buscou o campo telepático, não encontrando Cass. Uma rápida consulta de localização denunciava que sua mais nova estava na fila para uma brincadeira da festa, mas não havia nem sinal de sua mais velha na escola ou em qualquer uma das quadras mais próximas. Ele se levantou.

— Encontre Agda pra mim. – Cícero disse segurando o braço de Tom – Ela está na penúltima barraca, a traga para cá. Eu vou ver se ela está em casa.

Tom não respondeu, apenas foi na direção de Agda enquanto Cícero procurava um canto escuro de onde poderia desaparecer. Os adultos da família de Thomas se entreolharam, compreendendo o perigo.

— Eu vou com Thomas. – Ayla se levantou indo atrás do filho.

Tom dava passos largos na direção de Agda, que o percebeu se aproximar. A menina reconheceu pelo rosto de bruxo que, seja lá qual fosse a notícia, não poderia ser boa coisa.

— Que foi? – ela deu um passo se afastando das amigas para perguntar.

— Venha comigo, por favor.

Agda olhou para as amigas acenando e dizendo que voltava mais tarde. Passou a seguir Thomas de volta para a mesa.

— O que está acontecendo? – ela perguntava se esforçando em acompanhar o passo do bruxo tão mais alto que ela.

— Ainda não sabemos. – ele respondeu engolindo a seco.

Ayla os alcançou, passando a acompanhá-los de volta para a mesa.

— Você está bem, querida? – ela perguntou para a criança.

— Por que eu não estaria?

— Apenas verificando.

Eles puderam ouvir a voz da professora de artes vindo de um auto-falante distante, na quadra coberta, que avisava:

— E logo mais começa a grande quadrilha do terceirão! Encontre seu par e venha fazer o caminho da roça!

Foi quando Agda entendeu.

— Onde está Cass?

Ninguém respondeu, chegaram na mesa em poucos segundos de silêncio.

— Tom, onde está a Cass? – a mais nova insistiu.

— Seu pai foi ver se ela voltou para sua casa e pediu pra você ficar aqui com a gente. – Ayla explicava com um tom gentil.

— Por quê? – a garota não entendia – Eu quero acompanhar ele.

— Não. – Tom disse seco.

— Ele pediu para que você ficasse aqui, querida. – Ayla se sentava e oferecia uma cadeira a Agda.

— Mas… – a mais nova olhava para os bruxos, nenhum tão familiar, e todos pareciam terrivelmente preocupados – Vocês estão me dando medo, eu prefiro ir.

A garota deu uma passo para longe, mas logo a mão de Thomas segurou seu ombro.

— Você não pode ir. – a voz de Thomas parecia robotizada de tão apática – Sua casa pode não estar segura porque nós não sabemos onde Cass está. Nem se ela está com alguém.

Agda se sentou, de repente, com uma aura muito mais retraída que de costume.

— Às vezes nem foi nada. – disse para si mesma.

— Sim, tenho certeza que é apenas um desencontro. – Ayla disse sorrindo. – Quer um chocolate-quente?

Thomas se sentou, os ombros se encurvaram para frente, derrotado. Seu amuleto não havia funcionado? Alguém a teria encontrado? Se alguém estivesse com Cass agora, esse alguém saberia que Cass é uma oráculo?

*

O chão era frio, as paredes eram lisas e o tom de cinza de tudo que conseguia ver seria reconhecido por Lazlo em qualquer lugar que fosse, se é que um dia deixaria esta cela. Quantos dias havia passado ali? Não sabia. Havia parado de contar no seiscentos ou no quinhentos, algo assim. A comida era pouca, a água era morna, pelo menos teria algumas horas de silêncio enquanto inquisidores faziam suas rondas externas.

Se enrolou em uma manta velha que cheirava ao próprio suor e se colocou nos fundos da cela, pronto para fechar os olhos e dormir. Estava quase dormindo quando pensou que havia começado a sonhar bem rápido. A estatura, os cabelos loiros, ali ao seu lado nesse lugar frio. Estava mesmo a vendo?

— Ari? – ele chamou baixinho, mesmo pensando que estava delirando.

— Tio Lazlo?

Arregalou os olhos, assustado. Delírios não costumam responder. Permitiu que seus olhos focassem, desacreditado.

— Cassandra?!

Ele se levantou rápido, a adolescente tinha um sorriso preocupado no rosto.

— Você está enorme! Mas o que está fazendo? – ele estava com medo.

— Eu vim te buscar! – ela respondeu – Eu tenho te monitorado faz um tempo, foi difícil te achar sozinho.

— Você não sabe onde está?! – e agora se desesperava.

— Eu… não identifiquei bem. Mas não tem problema, vamos embora agora.

— Menina… – antes que terminasse de falar, a garota tocou o braço do tio, pronta para teleportar, mas percebeu que não conseguia – Você não devia estar aqui.