Não houve tempo para pensar duas vezes. Cass inventou uma desculpa, se afastou das meninas, entrou no banheiro e teleportou assim que sentiu que Lazlo estava completamente sozinho. Era a chance de encontrar sua mãe e, por simples intuição, sentia que era o que precisava fazer.

Não imaginava que sua intuição a trairia tanto.

— Menina… você não deveria estar aqui. – a frase a assustou.

Foi quando começou a prestar atenção às condições. Lazlo parecia ter alguma vaidade para manter os cabelos presos, mas seu rosto estava magro, a barba estava desgrenhada, as roupas eram velhas. E o lugar não apresentava melhores condições. Paredes e piso eram cobertos por pedras na cor cinza, a luz que entrava vinha das costas de Cass. Ela olhou para trás.

Barras de ferro.

Havia um pequeno pátio para o lado de fora onde ela conseguia ver várias outras celas, mas todas estavam vazias.

— Por que só tem você aqui? – ela perguntou.

— Estão desativando a operação. Alguns foram executados, outros foram levados de volta para Eivar, mas ainda não sabem o que fazer comigo. – Lazlo respondeu já agitado, andando de um lado para o outro na cela.

Cass se concentrou. Tentava encontrar seu pai, Agda ou Thomas mentalmente, mas seu campo telepático não conseguia passar da cela onde estava.

— Telepatia não vai funcionar. – Lazlo disse quando sentiu o campo se formar – Quais são seus outros poderes?

— Eu ainda não desenvolvi todos, me livrei de uma trava faz poucos meses. – Cass respondia com a voz começando a tremer.

Lazlo não poderia deixar que Cassandra aceitasse a derrota. Ele pouco se importava com o próprio destino, mas aquela era a criança de Ariane.

Ciclos atrás, quando aquela menina nasceu, ele fora visitar sua melhor amiga. Um nascimento era o oposto de tudo para o que militares como ele e Ariane se preparavam. Bateu na porta, Cícero a abriu e aceitou seu abraço e felicitações. Lhe pediram para falar mais baixo. Ele se aproximou de Ariane e da bebê que tinha uma bela carinha rosada, na época uma cópia loirinha de Cícero.

— Tenho uma coisa para te pedir. – Ariane o disse.

— Claro, o que quiser. – ele respondeu, se sentando ao lado dela e da bebê.

— Seja o salvaguarda dela.

Era uma tradição militar que estabelecia quem olharia por seus filhos na possibilidade de morrerem em combate um dia.

— Sério? Eu vou até poder escolher um nome?

— Claro que sim.

Lazlo parou de andar na cela e olhou para Cassandra, essa adolescente que nascera ainda ontem. Ele cruzou os braços e olhou para a garota.

— Você é a única pessoa que consegue se tirar daqui, Penélope.

Houve um frio na espinha de Cass.

— Se você não conseguiu, o que eu vou fazer?! – a garota se desesperava.

— Você precisa estar um pouco mais preparada do que isso, mesmo sem saber. – ele se aproximou das barras enquanto falava, olhando para o lado de fora – Os alarmes daqui são obsoletos, mas é estranho que ainda não tenham detectado sua presença. Tem qualquer ideia do por quê?

Cassandra engoliu a seco, mas se colocou a pensar. Havia algo realmente estranho, uma forte intenção de protegê-la. Não demorou até conseguir sentir de onde vinha, puxou o pingente que Tom lhe dera de baixo da gola do vestido e percebeu que seu cristal estava um tanto morno.

— Foi isso. – ela disse.

— Um amuleto. Ótimo. – ele olhou ao redor – Agora me diga, quais poderes você já conhece?

— Não sei se tenho algum que vá ajudar. – ela massageava a própria testa

— Penélope, escute bem. Sugaram toda minha inspiração antes de me prenderem aqui, e aquele dispositivo ali – ele apontou um objeto retangular na parede que cercava o pátio – é uma invenção sádica que suga qualquer energia que os bruxos presos geram para manter o selo que nos impede de teleportar e de nos comunicar com qualquer um fora daqui. A cada minuto que passar, você ficará mais fraca e a chance de sairmos vai diminuir. Então deixe para desistir mais tarde.

A adolescente respirou fundo observando a caixa do lado de fora. Conseguia perceber sua energia se movendo lentamente para lá.

— Eu… Consigo manter minha ligação mental com alguém mesmo de longe. Eu vejo intenções e emoções. Eu consigo seguir uma assinatura mesmo que não a sinta há anos e inclusive me teleportar para onde essa assinatura aponta, mesmo que eu não conheça o lugar. E tem… Tem algo que não controlo ainda.

— Diga.

— Quando eu estou com raiva ou com vergonha ou… depende da intensidade da emoção, eu produzo uma vibração e isso afeta as coisas.

— Afeta como?

— Eu já quebrei objetos de vidro, os pratos da minha bateria ressoam…

— É isso! – ele olhou para a caixa novamente – Você conhece carvão azul?

— Eu lembro de algo a respeito…

— É um minério frágil, tanto quanto o vidro. E a parte principal dessa invenção é uma pequena lasca de carvão azul que fica ali dentro, sugando energia ao redor. Com sua vibração, é possível fazer quebrar.

— Mas eu disse que não controlo bem.

— Penélope, se você depende da intensidade da sua emoção, está na hora de se desesperar.

*

Foram minutos de silêncio na mesa. Ayla havia desistido de tentar manter uma conversa leve, Yago pensava se era seguro ir embora ou se era melhor ficar onde aparentemente nada havia acontecido. Nada, exceto o desaparecimento da namorada de seu filho.

Thomas não sabia o que sentir além de medo. A música da quadrilha começou, eles deviam dançar juntos naquela hora, e estava um tanto empolgada para esse dia, então não faria sentido se ela simplesmente tivesse ido embora.

Agda sentia que havia sido vítima do próprio veneno, como se alguém houvesse roubado a parte de sua memória que explicaria o sumiço da irmã. Só poderiam estar se enganando. Nada acontecia nos últimos anos. Mas o risco a gelava o estômago, esfriava seus pés. Olhando para os lados, viu a única coisa que lhe trazia alívio naquele momento. Seu pai vinha na direção da mesa de novo, o que a fez saltar da cadeira e correr em sua direção.

Cícero abriu os braços assim que viu a mais nova vindo em sua direção.

— Pai! – ela chamava.

E ele a abraçou forte, tentando não pensar no quanto gostaria de ouvir a voz da mais velha também. Pai e filha caminharam juntos até voltarem para a mesa. Thomas e seus pais esperavam, apreensivos, por uma notícia.

— Ela não está em casa. – disse Cícero – Mas não tem nada de errado por lá, ela continua perfeitamente segura.

— Tem algum lugar aonde ela possa ter ido? – Ayla perguntou, torcendo pelo melhor.

— Não que eu saiba. – Cícero respondeu e olhou para Tom em seguida – Tem?

— Não, e eu não estou mantendo nenhum segredo dessa vez, eu não sei mesmo. – o olhar do adolescente era desolado – Mas eu posso procurar!

— De jeito nenhum. – Yago o interrompia. – É melhor irmos para casa.

— Nós também vamos, Cass é instruída a aparecer em casa quando algo acontece.

— Eu posso ir com vocês? – Tom se levantou, pronto para acompanhar Cícero e Agda.

— Não, Thomas. – Yago proibiu o filho.

— Mas-

— É melhor você ficar com a sua família, Tom. – Cícero interrompeu gentilmente – Seus pais vão ficar menos preocupados.

As famílias se dividiram e foram embora. Havia um silêncio desconfortável entre Cícero e Agda, a falta de alguém se comunicando em suas mentes. Estacionaram o carro em casa, abriram a porta esperançosos para encontrar alguém, mas a sala continuava vazia e silenciosa.

— Não tem nada que a gente possa fazer, né? – Agda perguntou baixinho.

— Nós vamos descobrir o que fazer. Com certeza tem alguma coisa. – Cícero ainda tentava se convencer dessa resposta.

*

Cass não sabia quanto tempo havia se passado. Havia tentado chorar, andava de um lado para o outro dentro da cela, bateu no próprio rosto tentando se concentrar e acreditava que algo estava quebrado dentro de si. Como não estava surtando de ansiedade nessa situação? Por que não conseguia manifestar nenhuma vibração ainda?

Percebendo uma movimentação, Cass olhou para trás. Lazlo estava nos fundos da cela, com os joelhos flexionados, treinando movimentos de luta. A sequência a lembrava algo que um praticante de karatê faria, mas era diferente. E não entendia porque ele havia começado a fazer isso agora.

— Pra que isso? – ela perguntou.

— Se o carvão absorver minha energia, vai demorar um pouco mais para absorver toda a sua. – a resposta veio calma.

— Quanto tempo você acha que eu tenho?

— Só você poderia saber. Mas não tanto, a ronda deve acabar logo, os guardas vão perceber que tem mais alguém aqui.

— Puta merda!

Cass fixou seus olhos na caixa do dispositivo do lado de fora da cela. Tentava ouvir o cristal, por estranho que fosse.

— Estranha mudança de planos! Você sempre mantém a calma em situações desse tipo?

— Eu não sei! Um pouco? Talvez?

Na verdade, sim. Se lembrava de quando André conheceu Felipe e sua reação também não foi exatamente desesperada, ao menos não externamente.

— Isso é coisa da sua mãe, sabia?

— É? – Ela não sabia como algum tipo de papo furado ajudaria.

— Sim.

Ela não respondeu, pensou que com o silêncio conseguiria se concentrar, mas estava travada. Sentia medo e medo era apenas paralisante, diferente do que sentia em todas as outras vezes que seu poder se manifestou.

— Eu não consigo. – Cass se agachou segurando nas barras, pensando que sua vida havia chegado ao fim.

— Você estava ao menos tentando?

— Claro que estava!

— Você não pode desistir, Penélope.

— Há quanto tempo estou tentando aqui? Eu não consigo sentir nada daquele cristal, eu não o alcanço!

— Garota, seus bloqueios estão só na sua cabeça. Você tem energia, use-a!

Lazlo terminou sua sequência de movimentos e se aproximou, analisando o espaço.

— Eu gostaria, eu estou tentando! Mas…

— “Mas”! – Lazlo a imitava com ar de chacota. – Pense, o que você acha que está faltando?

— Eu não sei!

— Acha que senso de urgência pode ajudar?

— Já funcionou, mas não precisa deixar nada pior do que já está!

Cass respondia rindo de nervoso e se assustou quando as mãos de Lazlo a seguraram pelos dois ombros, a colocando de frente para ele. A pouca energia dele se esvazia, mas ele sentia o pouco dentro dele queimando e a aterrando na situação de certa forma. Não era um toque acolhedor, os dedos eram firmes e causavam dor em suas articulações.

— Penélope, não haverá um depois. – ele apontava com a cabeça para o piso superior a cela de frente para a deles, havia uma luz acesa – Eles chegaram! Podem descer aqui a qualquer momento, use seu maldito poder agora!

Cassandra sentia o desespero de Lazlo, ele queria tirá-la dali a qualquer custo, mas se irritava com ele a cobrando como se ela tivesse pleno domínio sobre seus poderes.

Ela olhou de novo para o aparelho do lado de fora, manipulava suas emoções e até as de Lazlo, sentia o leve tremor que saía de sua aura, mas nada que alcançasse o aparelho.

— Eu não consigo! – apesar do que dizia, ela não desistia.

— Foco, Penélope! Como você se negligenciou tanto?

A pergunta feria. Ninguém pensaria que suas travas, ou que o cofre colocado pelo governo aerita eram pouca coisa, ele sequer sabia o que ela havia passado. Estava ali para salvá-lo, para conseguir contato com sua mãe depois de anos, e ele menosprezava seu desenvolvimento?

— Eu estou tentando!

Ao exclamar, raivosa, Cass empurrou Lazlo para trás e uma estranha onda se expandiu saindo dela e destruindo o que que encontrou de frágil. As grades da cela ressoaram como se tivessem sido acertadas ao mesmo tempo e a trava que os mantinha trancados fez um som particularmente interessante: um estalo de algo que se quebrou.

Cass ouviu um alarme soar ao longe ao mesmo tempo que viu Lazlo abrir a grade e correr para fora. Ela o seguiu e se espantou com a velocidade do ex-militar, que com um impulso conseguiu escalar a parede e alcançar os dispositivo que estavam tentando destruir.

Dois guardas vestidos de cinza, farda mal arrumada e rosto coberto por uma máscara negra desceram apressados uma escada caracol de metal, imaginando o que o velho e decrépito Lazlo poderia ter feito para conseguir abrir a cela e como o castigaram, mas o que estava a frente se assustou quando viu que ele não estava sozinho.

— Tem mais alguém! – ele exclamou em eivariano para outro guarda.

Alcançando o dispositivo, Lazlo rapidamente o jogou para Cass enquanto viu o primeiro guarda se apressando em direção ao pátio.

— Quebra isso! – ele gritou para Cass enquanto voltava para o chão e se colocava entre ela e o primeiro guarda.

Cass conseguia ver o pequeno pedaço de carvão azul dentro do dispositivo, protegida por duas chapas finas de metal moldado separadas por uma fresta ornamentada e que agora ela tentava destruir. O primeiro guarda o levou um golpe de Lazlo, mas estava plenamente carregado e usava seus poderes para fazer o prisioneiro sufocar. As mãos de Cass tremiam, ela sentia sua energia agitada e quente, calor que passava para o metal que começava a amolecer deixando que ela abrisse o dispositivo.

O segundo guarda apareceu atrás de Cass. Foi no momento em que ela sentiu os dedos dele alcançando seu braço que sua energia se expandiu e deixou que os instintos da bruxa agissem.

— Não! – Cass gritou.

O guarda não se assustou, mas estranhou a perda repentina de sua audição. Tentando se soltar, Cass derrubou o dispositivo no chão, o carvão azul rolou para fora da caixa de metal, mas Cass olhava para o segundo guarda. Ele conjurava uma espada de fogo, que se formava na mão que não segurava Cass. A garota, assustada e ainda tentando se soltar, achou que havia gritado mais uma vez, mas percebeu que estava calada. Sentia uma onda de energia saindo dela em direção ao guarda. Logo a espada se desfez e o homem se encolheu sobre o chão, sentindo o próprio cérebro vibrar e aquecer.

Lazlo estava sem ar, o guarda a sua frente era um sádico conhecido e havia errado ao torturar o antigo astronauta gratuitamente tantas vezes. A sensação de estar sem ar o assustaria se fosse a primeira vez, mas não impediria Lazlo de agir agora. Assim que viu o carvão no chão, conseguiu acertar um soco em seu opressor, se desvencilhou e correu para trás, pisando sobre o pedaço de carvão e o reduzindo a pó.

Mesmo assim, estava sem ar, caiu de joelhos no chão.

A energia que estava acumulada no carvão azul agora se espalhava pelo ar e bagunçava as auras dos presentes. O guarda que atacava Lazlo recuou, sentindo a própria energia arder. Lazlo conseguiu tomar ar, mas se sentia tonto. Cass ia na direção de Lazlo, mas foi derrubada pelo guarda que ainda estava no chão sentindo a própria mente cozinhar. A adolescente deu de queixo no chão, sentiu gosto de sangue, e se sentia embriagada pelas energias diferentes, intenções divergentes e pensamentos conturbados espalhados pela sala. Percebeu o vulto de Lazlo passar sobre ela e acertar o guarda que a segurava. O primeiro guarda, que antes segurava Lazlo, agora vinha na direção deles. Ela estendeu sua mão e percebeu que fez de novo: a mente do guarda esquentava. Conseguia ouvir o desespero mesmo que não gritassem nada e se assustava por conseguir fazer isso.

O acúmulo de energia começou a se dispersar, aquele voltava a ser um lugar comum. Mais três guardas apareceram no pátio. Cass havia parado de ouvir os dois que ficaram no chão, não tinha tempo para pensar se estavam vivos ou mortos. Ela tentou se levantar, Lazlo a estendeu a mão e, assim que ela tocou a mão dele, eles desapareceram.

“Se transporte para longe, depois para casa.” Essas sempre foram as instruções.

Primeiro apareceram na madrugada de uma cidade grande e movimentada, uma viela estranha e mais movimentada do que deveria, mas onde ninguém os notou aparecer. Atravessando até o fundo dela, ouviram comentários estranhos, alguém mencionava as roupas da quadrilha, mas ninguém notou quando viraram a esquina e desapareceram também.

Caíram sobre o tapete da sala de estar. Ela sentiu o cheiro de casa.

— Cass! – Cícero exclamou quando viu a filha. Corria pra ver se a menina estava bem.

— Pai! – a menina respondeu e abraçou o pai assim que se levantou.

— Cícero. – Lazlo o cumprimentou com um gesto de cabeça – Não há tempo!

— Cass? – Agda veio dos quartos quando ouviu o barulho.

Cass correu abraçar a irmã, profundamente aliviada de ver Agda.

— Lazlo! O que aconteceu? – Cícero estava confuso.

— Ela me encontrou. Eu estava preso. Virão atrás de nós. – Lazlo era sucinto.

— Quantos? – Cícero quis saber.

— Três. Essa casa está preparada? – Lazlo dava pequenos pulos no lugar e começava a fazer sua sequência de golpes de novo.

— Está. – Cícero correu olhar para fora pela janela, fechou cortinas depois de não ver nada. – Cass, leve Agda para o seu quarto. Não saia de lá até que eu te chame.

— Pai, eu… – a adolescente tentou responder, mas todos sentiram um tremor vindo do teto. Algo estava tentando entrar, passar pelas barreiras mágicas que Cícero construiu.

— Agora, Cassandra! – o pai ordenou.

Cass pegou a mão de Agda e a puxou para o quarto. Assim que fecharam a porta, Cícero tirou o dispositivo com três cristais que ficava preso nela, o encolheu em um gesto e o guardou no bolso da calça que usava.

— Você ainda se lembra? – Cícero perguntou.

— Claro que sim. – Lazlo o respondeu.

— E vai ter energia se precisar?

— Se eu precisar me defender lutando, sim.

Era uma vantagem de bruxos de movimento. Cícero flutuou e também tirou Lazlo do chão. O arquiteto gesticulava e o cômodo mudava aos poucos, os móveis eram absorvidos pelo chão, portas apareciam em paredes que antes estavam nuas, as dimensões mudavam, agora pareciam estar em um corredor de hotel.

Houve um segundo tremor, Cícero juntou as mãos mantendo a barreira em pé.

— Quanto estiver pronto. – disse, forçando as mãos a ficarem juntas.

Foram mais três movimentos de Lazlo e ele se colocou ao lado de Cícero.

— Pronto. – ele respondeu.

Quando veio o terceiro tremor, Cícero separou suas mãos e desapareceu. Os três guardas apareceram na frente de Lazlo, estranhando o lugar onde se encontravam.

Devia ter ficado óbvio que era uma armadilha quando Lazlo disse, sorrindo:

— Bem-vindos!

E o chão entre eles passou deformar, aumentando a distância entre o fugitivo e os oficiais.

De seu estúdio, Cícero observava o labirinto em uma maquete e assistia o pequeno Lazlo correndo para dentro de um dos quartos daquele corredor. Os guardas o seguiam e quase se aproximavam de Lazlo, mas Cícero moldava o quarto como se fosse feito de um material elástico. Redefinia tamanhos e estruturas conforme os guardas se moviam, garantindo que Lazlo sempre estava a frente o suficiente.

Lazlo, enquanto corria, encontrava as portas certas à sua frente. Um dos guardas tentava o acertar com raios atirados das mãos, e Lazlo saltava, dando giros no ar, dispersando os ataques com a energia que acumulava enquanto corria. Os guardas tentavam ainda se transportar para mais perto do fugitivo, mas sempre que se aproximavam o chão abaixo deles se deformava e deixava Lazlo fora do alcance novamente.

Apesar de saber que tinha alguém o protegendo, o ex-militar se preocupava. Estava fora de forma, os inquisidores já haviam se aproximado muito duas vezes e com certeza não escaparia de uma execução depois de uma tentativa de fuga. Foi quando finalmente entrou em um corredor com papel de parede florido em bege e verde. Horroroso, mas o trazia alívio. O corredor fazia uma curva aberta a esquerda, por onde ele continuou a correr, e na parede direita haviam portas enumeradas como em um corredor de hotel. Passou pelas portas 15, 14, 13, até que viu a porta identificada como “A” e foi na direção dela que correu.

Passou pela porta e a fechou ouvindo os gritos de um guarda atrás dele. Então estava em um quarto escuro, onde só uma porta branca de destacava. Correu até ela e atravessou entrando no estúdio de Cícero a tempo de vê-lo retirar da maquete a porta por onde havia acabado de passar e então desaparecer a porta que estava atrás de si. Ouviu:

— Você está bem?

Cícero não teve resposta, apenas observou Lazlo se abaixar para recuperar o fôlego. Se ainda era o mesmo Lazlo de antes, diria que estava bem, mesmo vendo o vapor que saía de sua pele e as marcas vermelhas deixadas pela proximidade com os raios.

Na maquete, ainda era possível ver os guardas andando por um corredor em formato de anel. Abriam e fechavam portas que levavam a lugar nenhum. Se entreolharam, percebiam que não sabiam onde estavam e, mais do que isso, que o cômodo onde estavam estava suspenso em lugar nenhum. Além disso, o bruxo que deixou aquele espaço não fez isso simplesmente desaparecendo. Não havia rastro de transporte para seguir.

Não sabiam por quanto tempo ficariam ali.

*

A porta do quarto de Cass abriu e a adolescente olhou assustada para saber quem entrava. Se tranquilizou quando viu seu pai, que entrou e buscou abraçar as duas filhas. Cass sentia o queixo doer, mas não se incomodaria com um abraço apertado agora.

— Nunca mais, Cassandra, nunca mais… – falava o pai chorando de alívio e beijando sua cabeça.

— Eu sei! Eu errei, me desculpa! – a adolescente também chorava de alívio – Mas foi por um bom motivo…

— Não interessa agora..

O pai apertava as duas filhas nos braços.

Lazlo assistia da porta, recuperando o fôlego. Parecia que estava assistindo aos próprios sonhos, mas acordado. Faltava apenas o que o conectava a essa família. Se perguntava se saberia viver em um lugar de afetos como este novamente. Observou Cassandra, o potencial inexplorado, os poderes negligenciados. Ao menos poderia ter alguma utilidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.