Eram quase 11 horas quando Cassandra avisou Thomas de que ela estava chegando ao condomínio em que ele morava. Como resposta, recebeu a mensagem “vou te buscar na portaria”. Desceu do ônibus e atravessou a rua, estranhando o tamanho do portão de entrada do Villaggio di Firenze. O nome italiano em letras metálicas também não ajudava a evitar seus pensamentos sobre aquele ser um condomínio de gente esnobe. Não precisou se identificar na portaria, porque haviam avisado da sua chegada. Logo passou para o lado de dentro, podendo admirar o grande jardim, a grama recentemente cortada, as casas sem muros entre si e que não precisavam dos malabarismos espaciais de seu pai.

Thomas se aproximava caminhando com as mãos nos bolsos, observando uma Cassandra curiosa e confusa com o espaço. Ele a achou bonita. O vestido xadrez amarelo e preto parecia um esforço, enquanto o tênis all-star parecia querer dizer que ela não havia se esforçado demais. Ela deu um sorriso mínimo e acenou, andando na direção dele.

— Chegou a pensar em me avisar que você é rico? – ela se aproximava para cumprimentá-lo com beijinhos no rosto.

— Eu não sou rico. – ele se defendeu, querendo rir, e a abraçando em boas vindas.

— Imagine quem é então.

— Imagino e ainda é bem longe do como eu vivo! Mas você chegou fácil?

— Sim, sua explicação foi decente. – ela usava essa palavra para se referir a algo realmente bom. Desde quando ele duvidou das capacidades dela na bateria, a palavra se tornou uma piada interna.

— Claro que foi. Mas então vamos, estão nos esperando.

Ele começou a caminhar pela calçada acompanhado de Cassandra, percebia os olhos dela observando tudo com atenção e os ombros tensos de quem não sabe o que esperar.

— Você disse aos seus pais que estava indo aonde? – ele puxou assunto.

— Ah, eu… – ela se interrompeu, o encarando com um sorriso de canto e juntando as sobrancelhas – Querendo acumular energia, né?

Ele sorriu, sem vergonha de ter sido pego.

— Bom, sempre me ajudaria.

— Sei. – ela fez um breve segundo antes de responder – Te digo se você me responder uma coisa.

— Mas você gosta de negociar, hein?

— Você quer sair ganhando sozinho?

Ele deu uma risada seca.

— Tá. Se não for o segredo de alguém…

— Não é. Pelo menos eu acho que não.

— Então pergunta.

— Para o que eu deveria ter me preparado ontem? Quando eu cheguei você disse “se prepara” e eu achei que eu ia entender para quê no resto da noite, mas…

— Ah! – ele tentava conter um sorriso, respirou fundo – Tem certeza que você quer saber? É que a explicação pra isso pode soar meio maldosa.

— Maldosa como? – ele estalava a língua, enrolando – Pode falar!

— Tá, é… – ele tentava evitar, mas sorria falando – Antes de você chegar, quando estávamos só eu, André e Lucas, eles estavam falando de você. Não exatamente sobre você, mas André estava muito empolgado, falando coisas tipo “nossa, hoje eu caio matando, ela não me escapa” e blá-blá-blá. Ele falou tanto que eu pensei “esse cara vai engolir a Cass inteira”!

— Ah… – a compreensão começava a alcançar e a deixar vermelha.

— E aí eu mandei você se preparar porque, diferente dele, eu sei que você é uma puritanazinha.

— Ei!

— E já estava pensando que vocês iam passar metade da noite no meio daquelas árvores. – ele ria enquanto falava – E no final eu tinha apostado alto demais, ele me decepcionou.

— Hein?Olha – ela riu, o achando desaforado -,quem não podia se decepcionar, não se decepcionou.

— É, não foi exatamente o que eu entendi por “cair matando”, mas já que vocês estão só começando…

— Você precisa mesmo ficar lembrando da minha experiência, é pra não pensar na sua?

— Eu te garanto que não passei oito anos de ensino médio sem ter ficado com alguém.

— Talvez eu só seja mais criteriosa! O que eu posso fazer? – Ele abriu e fechou a boca sem responder. Ela o encarava irritada, com seu orgulho se remexendo dentro dela. – Não quer me dizer o que você pensou?

— Não, você ficaria ainda mais brava. – ela girou os olhos, ele segurou uma risada tossindo de leve – Mas então, o que você disse para seus pais?

— Ah… Foi o acordo, né?

— Sim. Mas tudo bem se você não quiser falar.

— Eu disse que era seu aniversário, que você havia convidado todo mundo. E ele acha que as experiências sociais estão me fazendo bem.

Ele riu.

— Bom, finalmente vou ter um signo!

Ela não o respondeu, fez silêncio por um segundo antes de dizer:

— Achei que você ia parar de me irritar.

— Eu avisei que era uma explicação maldosa. E você mesma disse que não percebeu para o que teria que se preparar até o fim da noite. – ele deu sua resposta perspicaz. Ela abriu a boca para responder, mas corou percebendo que era verdade e não conseguia pensar em nenhuma nova resposta boa o suficiente. Ele apontou a próxima casa da calçada – É aquela ali.

Ela agradeceu mentalmente por poder mudar o assunto, observou a casa que era pintada em um tom sóbrio de lilás e adornada com detalhes em madeira escura. Era definitivamente grande, requintada e possuía dois andares.

— Ah, “eu não sou rico”!

— Eu não teria problema em dizer se eu fosse.

Ele a acompanhava até a porta, já estendia a mão para alcançar a maçaneta quando ela estendeu a mão tocando seu braço para impedi-lo. Pela primeira vez desde que se conheceram, houve um pequeno choque.

— Desculpa.

— Ai! – ele olhou para ela, a estranhando – Você tá nervosa?

— Tô, né? – ela respirava fundo.

Ele fez uma pausa, tentando tranquilizá-la.

— Lembra do que eu te prometi?

— Sim. Vocês são amigáveis. – ela riu, nervosa.

— Você vai ficar bem.

Ele colocou a mão na maçaneta mais uma vez e aguardou que ela parecesse pronta. Ela o observou. Não tinha mais motivos para desconfiar de Tom. Ele era petulante, mas, enquanto ela não sabia de sua verdadeira natureza, ele poderia ter acabado com ela se quisesse. Ela fez que sim com a cabeça.

Tom abriu a porta, deixando-a passar. A sala de estar era ampla e, a não ser pelos móveis, estava vazia. Ele avisou falando alto:

— Ela chegou!

Um pássaro azul celeste, que parecia um gavião pequeno, veio voando pelo corredor e entrou na sala, de repente se transformando em uma mulher adulta, negra, de cabelos presos e um pouco grisalhos. A semelhança do nariz e da cor dos olhos era inegável, aquela só podia ser a mãe de Thomas. Ela sorria alegremente ainda parada em pé do outro lado do cômodo. Cass estava impressionada, boquiaberta ainda sorrindo. Logo depois, outras duas figuras apareceram na sala. Um homem negro de cabelos raspados com um imponente cavanhaque prateado e uma senhora um tanto encurvada com cabelos brancos presos em uma trança.

— Que dourado maravilhoso! – a mulher mais jovem comentou se aproximando e estendendo a mão – Não é um dourado maravilhoso? – ela perguntava para o filho.

— É, é sim. – ele sorriu, sentindo-se um pouco incomodado em elogiar a cor de aura de Cass – Bom, mãe, essa é a Cass. Cass, essa é minha mãe, Ayla.

Elas apertavam mãos. Não houve choque, mas houve um reconhecimento daquelas duas energias. Para Ayla, era como se aquilo bastasse para ter uma boa ideia de quem era Cassandra.

— É um prazer te conhecer, Cass!

— E estes – Thomas continuava – são meu pai Yago e minha vó Ariela.

— É um prazer! – Cass sorria enquanto cumprimentava um a um, sentindo as diferentes energias.

— Ficamos tão extasiados quando Thomas falou de você. – Ayla sorria satisfeita.

— É verdade, Ayla não parava de falar de como era animador ver uma bruxa criativa depois de tantos anos. – Yago tinha uma voz grave e marcante.

— Eu também fiquei muito empolgada em conhecer vocês. – Cass mantinha um sorriso no rosto, corada, olhando para todos ali.

A avó de Thomas, Ariela, ainda não havia falado nada. Ela a cumprimentara, sorria, mas se manteve silenciosa e observadora, como quem apreciava uma nova paisagem.

A sensação era estranha para Cass. Estar fora de casa, na maior parte do tempo, era como um banho gelado: você se acostuma, mas não é necessariamente cômodo. Ao entrar na casa de Thomas e conhecer seus familiares ela pôde perceber o alívio na agitação de sua própria energia ao estar em contato com outros bruxos. Ela achava que esse alívio fazia parte da sensação de estar em casa, mas percebia que não era exatamente a mesma coisa. Aquela era a sensação de estar entre os seus.

*

Ayla guiava a apresentação da casa, a cozinha era ampla, o quintal nos fundos tinha uma parreira que fazia sombra em uma boa área de descanso, era no todo uma casa bonita, mas uma coisa específica encantou os olhos de Cass: uma biblioteca.

Cass parecia muito impressionada, analisando lombadas com títulos escritos em sua língua materna.

— Vocês trouxeram tudo isso? – Cass observava as duas estantes que cobriam duas paredes por inteiro.

— Não tudo. – Ayla a explicava. — Minha mãe gosta de fazer novos registros, muitos desses arquivos são de coisas que ela se lembra de seu antigo ofício. Ela era uma identificadora de talentos. Você conhece os seus?

— Na verdade não muito bem. – Cass olhava Tom do outro lado da sala, o olhar dele lhe dava apoio para falar. – Eu tenho uma certa facilidade com campos telepáticos, consigo encontrar a energia de uma pessoa específica que esteja perto de mim com certa facilidade…

— Perto quanto?

— Ah… Acho que na mesma casa, ou no mesmo quarteirão.

— Interessante! – parecia mais uma palavra de apoio do que uma expressão honesta dos pensamentos de Ayla.

— E recentemente eu tenho conseguido perceber as intenções das pessoas. É algo bem passivo na maior parte do tempo, eu sei o que elas intencionam, o que desejam e… acho que quase sei dizer o que elas sentem.

— Isso é bem interessante! – Tom se manifestou do outro lado da sala.

— De fato. – a mãe concordou.

— Você consegue fazer isso com outros bruxos? – ele parecia curioso.

— De forma passiva, não. – Cass respondeu honestamente – Mas eu ainda não tentei. É um tanto invasivo, né?

— É o tipo de coisa que eu adoraria! – Tom admitiu.

— Mas se for como minha telepatia, não funcionaria muito pra você. O outro bruxo tem que querer estar na conversa, digamos.

— E os mundanos? Conseguiriam evitar? – ele continuava curioso.

— Provavelmente nem perceberiam.

— E você não usa?!

— Você tem um grande senso moral, Cass. – Ayla parecia aprovar.

Cass sorriu timidamente, imaginando seu pai orgulhoso do elogio que recebeu. Yago se aproximou do cômodo, parando pela porta e interrompendo gentilmente:

— O almoço está pronto.

— Ótimo, vamos comer! – Ayla sorriu e desapareceu, seguida de Tom.

Yago continuava observando Cassandra, a esperando.

— Podem voltar aqui mais tarde. – ele disse sendo simpático.

— Ah! – Cassandra estava confusa, riu de si mesma – Estou desacostumada a fazer isso fora de casa.

A última coisa que viu antes de teleportar foi Yago dando risada. Ela se viu em seguida na sala de jantar, onde uma bela refeição os aguardava. Eles conversaram tranquilos, querendo saber de Cassandra, mas também com um enorme gosto por falarem da própria família. Ariela continuava muito quieta, falando apenas quando algo era perguntado diretamente para ela.

Cassandra, que antes estava ansiosa, agora estava impaciente consigo mesma. Quando conseguiria a oportunidade de falar sobre seu mundo de origem? Ela tinha tantas perguntas para fazer.

— Você falou de sua irmã e de seu pai – Ayla falava a tirando de pensamentos –, e sua mãe?

Para mundanos, ela respondia um simples “morreu quando eu era pequena”. Mas nesse caso, e depois do bilhete que recebeu na noite anterior, poderia tentar dar uma resposta um pouco mais sincera dessa vez:

— Ela… – ela se ajeitou na cadeira – a última lembrança que tenho dela é de antes de atravessarmos o portal para cá. Eu nunca soube o que aconteceu com ela, acho que meu pai também não sabe exatamente.

Houve silêncio na mesa. Thomas ergueu os olhos para Cass em uma expressão solidária e preocupada.

— Quando foi isso? – Ayla perguntou com a voz baixa, entendendo a sensibilidade da situação.

— Há vinte e seis anos terrestres.

— Foi logo no início. – Yago pensava, sua voz marcante também adotou um ar mais calmo e cuidadoso – Os portais eram muito ruins no começo, quando não sabíamos ao certo para onde estávamos indo.

— Eram? – Cassandra gostaria que continuassem.

— Sim. Era uma decisão muito mais arriscada. – Ayla parecia pensar nas condições necessárias para fazer alguém fugir.

— O portal chamava bastante atenção e tinha pouca capacidade. – Yago explicava. – Era necessário passar um de cada vez e não era possível levar bagagem. Você atravessava só aquilo que conseguia carregar.

— Eu me lembro do meu pai amarrando uma bolsa de roupas em mim. – Cass voltou a falar, esperando novos detalhes – E tinha uma luz bem forte.

— Eles emanavam muita energia. Chamava muita atenção, os inquisidores achavam com facilidade. – Ayla parecia triste pela garota em sua frente.

Cass se lembrava com muitos detalhes da noite em que fugiram. De ser acordada de madrugada, junto de sua irmã. Dos pais as aguardando com bolsas prontas e ela perguntando se era hora de ir para a escola. Não era.

Se lembrava de precisarem caminhar sob uma chuva fina até alcançarem um prédio antigo na cidade, de Agda estar no colo do pai, de entrarem no prédio e subirem escadas até encontrarem um relógio antigo. Se lembrava de seus pais amarrarem bolsas nas duas e neles mesmos, logo antes do relógio emanar uma forte luz.

Se lembrava de reconhecer seu tio Lazlo do outro lado da luz, de sua mãe olhar para trás notando que alguém se aproximava e mandar a família se apressar.

Se lembrava de ser a primeira a passar por um caminho estranho de luz e de ser recebida por Lazlo a chamando de menina corajosa.

Se lembrava de ver a irmã, com medo, e chamá-la com as mãos, a encorajando. Ela recebeu Agda a abraçando.

Se lembrava do pai passar em seguida, com pressa, e imediatamente olhar para trás. Seu pai tampava sua visão.

Se lembrava de seu pai gritar o nome de sua mãe.

Se lembrava de ouvir algo quebrando e da luz cessar de repente.

Nunca mais soube da mãe. Nenhuma notícia, uma mensagem, nada. Nada até ontem.

— Cass? – ouviu a voz de Tom, preocupado.

— Deixe-a. – Ayla falava baixinho.

— Desculpem-me. – ela ergueu os olhos balançando a cabeça – Eu me perdi.

— Está tudo bem. – a mulher sorriu para a garota.

— Quer tomar um ar? – Thomas ofereceu, Cass fez que não com a cabeça – Eu te acompanho, se quiser.

— Não precisa, obrigada. – ela olhou para as pessoas ao seu redor, todas com olhares preocupados – Eu não queria pesar o clima desse jeito, me desculpem mesmo.

— Imagina. – Ayla respondeu prontamente

— Por favor, nós sabemos o quanto é difícil. – Yago buscou a tranquilizar.

— E podemos conversar sobre isso quando você quiser, se você quiser. – a mulher se mostrou aberta.

— Obrigada mesmo. – Cass fez que sim com a cabeça – Só de estar aqui dentro eu já me senti bem mais confortável, lembra a sensação de estar em casa.

— Nós somos seres comunais. Precisamos de grupos para nos sentirmos bem. – Ayla explicava, esboçando um sorriso – Por isso é tão triste estarmos tão sozinhos, nos tranquilizamos quando estamos em grupo.

Ela pensou em quando ela e Tom se aproximaram na semana anterior, sob a sombra da árvore, e em quando cantaram juntos no dia de ontem. Realmente a proximidade lhe trazia certa tranquilidade, mas não era sempre só calma.

— Ah! – Tom interveio – Eu não posso manter um segredo com ela pra me fortalecer, mas você pode ficar colhendo energia ensinando coisas pra ela! – ele protestava em tom de brincadeira.

Ayla riu, Cass sorriu ficando curiosa e agradecida por Tom deixar o clima mais leve.

— É uma mestra? – Cass perguntava.

— Sim, me fortaleço ensinando. – Ayla sorria e olhava para o filho – E todos saem na vantagem assim, agora ela sabe algo novo!

— Injustiça. – ele respondia fazendo caretas.

Ayla ainda dava risada e Cass sorria, um pouco mais aliviada. Já teria o que contar para a irmã sobre aquele dia. Percebeu os olhos de Tom sobre ela, a verificando. Ele deu um sorriso simpático e voltou sua atenção para a mesa mais uma vez.

— E aí, vó, a sobremesa é aquela torta? – ele perguntou.

A senhora fez que sim com a cabeça, puxaram outro assunto na mesa, já pareciam uma família normal.

*

Os adultos deixaram os dois adolescentes voltarem à biblioteca após o almoço e, tão logo estavam sozinhos, os olhos de Tom buscaram os de Cass.

— Você trouxe? – ele estava curioso.

— Sim. – sua bolsa havia ficado no andar debaixo, mas fechando os olhos e com um gesto de mão, conjurou a folha em sua palma – Mas ela foi se desgastando com o tempo.

Ele se aproximou para ver. Ainda havia linhas douradas pela folha, a mensagem ficava mais difícil de ler conforme o tom metalizado desaparecia.

— Se importa se eu ler? – ele perguntava antes de tocar a folha.

— Ah… não, quem sabe até você consiga me ajudar.

Ele levantou uma sobrancelha enquanto pegou a folha e espremeu os olhos para conseguir ler o pequeno relevo. Depois pareceu surpreso, olhou para Cass esboçando um sorrisinho.

— Isso pode ser uma ótima notícia, não?

— Sim, mas… – a garota parecia ansiosa, resistente – eu não quero criar muitas esperanças, e se for uma armadilha?

Ele fez silêncio, pensativo.

— Minha intuição é boa, e eu não acho que é uma armadilha. Mas se eu fosse fazer uma, a protegeria o suficiente para passar despercebido da intuição de um bruxo inexperiente, então… você está certa em desconfiar. – ele disse e se jogou sentado em uma poltrona cor de oliva.

— Eu só gostaria de ter certeza de que foi ela que escreveu.

Um barulho chamou atenção de Cass, vinha do outro lado do cômodo, mas não sabia dizer de onde. Era o barulho de algo firme, mas não muito pesado, batendo na madeira. Continuou ouvindo o estranho som quando percebeu um livro se mexendo no topo de uma estante. Ele sacudia e se batia nos livros ao redor dele. Cass já ia perguntar o que era, quando percebeu Tom sair flutuando da poltrona que ocupava e alcançar o livro.

— Você voa? – Cass se mostrou curiosa.

— Eu flutuo. Você não? – Ele voltava para baixo, abrindo o livro agitado e reocupando seu lugar sentado.

— Não. E o que foi isso?

— Os livros sabem o que você procura. – ele folheava, passando as páginas rapidamente até encontrar o que parecia útil – Aqui, exatamente o que você precisa. Um feitiço para revelar autoria.

— Como é que é? – Cass deu passos rápidos e se sentou no braço da poltrona, posicionada para conseguir ler o livro com Tom.

— Precisa de um cristal específico e de um bruxo de conhecimento ou que lide com informações. – ele sorriu para ela – O que por acaso temos.

Ela segurou um sorriso, não querendo se empolgar demais.

— Deixa eu ver.

Ela se colocou a ler, era difícil recuperar seu antigo idioma, tão pouco usado em casa, mas conseguia ler. Havia uma versão completa e uma versão simplificada do ritual. Na completa, o cristal revelaria o autor seja lá quem fosse. Na simplificada, revelaria o autor apenas se o bruxo que fez o ritual o conhecesse.

— Você consegue fazer a versão completa? – ela perguntou.

— Pensei na simplificada.

— Mas você não a conhece.

— Você a conhece. Contar quem ela é não é suficiente, mas se você me transmitir essencialmente o que ela é telepaticamente, eu passo a praticamente conhecê-la.

Cass considerou o que ele disse. Passar a familiaridade com uma pessoa adiante era tão complexo! Ela, com certeza, nunca havia tentado algo do tipo. Poderia passar o nome, o jeito, o cheiro, o que se lembrava da energia que sentia da mãe. Ainda se lembrava de como era sua assinatura, não só a no final do bilhete, mas a de sua presença.

— Isso funcionaria? – ela o encarou.

— Pelo que eu estudei, sim.

Ela pensou mais um pouco, se levantou e fez sinal para que ele fizesse o mesmo. Ele deixou o livro sobre a poltrona e se colocou na frente dela.

— Vai ser a primeira vez que faço isso com alguém que não tenho tanta intimidade, então…

— Acha que não vai dar certo?

— Por algum motivo eu acho que consigo, mas peço desculpas se isso te assustar.

Ele deu uma risadinha seca, carregando um sorrisinho convencido.

— Você está me subestimando.

Ela girou os olhos e balançou a cabeça, firmando os pés no chão.

— Pensa em alguma música, alguma coisa pra me ajudar a te achar. – ela instruiu.

— Tem que ser uma música?

— Tem que ser de preferência um som.

— Tá. Estou pensando.

Os dois estavam frente a frente, ele a observava atento, ela fechou os olhos e se concentrou. Ouvia algumas mentes de longe, uma única mais próxima que revezava entre cantarolar e formar frases.

Será que vai demorar muito? – ouvia ao longe – Talvez eu devesse pensar em uma música mais fácil de ela saber que sou eu.

A energia mental de Thomas era forte, muito vívida, era fácil fazer sua mente se aproximar dela. Agora ela ouvia o riff inicial de Wish You Were Here se aproximando, cada vez mais nítido. Não era qualquer versão, era a performance de ontem, era o som de sua memória, e isso facilitou o contato quando ela pensou na própria visão da mesma ocasião.

Acho que consegui, você me ouve?

Caralho! – a música cessou.

Ao abrir os olhos, Cass viu um Thomas de olhos arregalados, quieto, mas com os olhos agitados.

Isso é normal? A sensação? Até que é bom.

Havia uma sensação no tocar das mentes. Para Cass, não parecia grande coisa.

Pra você parece mais intenso do que é pra mim. – ela observava.

Como isso pode ser assimétrico? É muito bom! Eu não queria que você soubesse disso.

Os pensamentos dele eram muito acelerados e engatilhavam os dela.

Quando você toca minha aura com a sua também parece muito melhor pra mim do que é pra você. Droga, eu também não queria que você soubesse.

E você me deixa tocar? Eu não esperava isso de você, Cassandra. Eu não queria que você ouvisse isso!

Ela interrompeu a conexão.

— Não dá. – anunciou.

— É muito intenso. – ele parecia preocupado – Até que parte você ouviu?

— Até você dizer que não queria que eu ouvisse, daí cortei. – ele ficou aliviado – A gente não tem intimidade o suficiente pra conseguir compartilhar sem ficar se envergonhando.

— Não é possível que não haja um filtro. É assim sempre? Com os pensamentos de todo mundo?

— Não. – ela respirou fundo – Eu acho que não conheço outra mente tão agitada quanto a sua. Você não consegue desacelerar um pouco?

— Eu… sou um bruxo de conhecimento, pensar é o que eu faço. – ele refletia – E subestimei sua habilidade.

Ela deu um meio sorriso.

— É, é decente. – ela provocou, mas seu olhar estava distante. Estava reflexiva.

— Bastante decente. – ele se jogou na poltrona de novo.

Thomas observava os olhos dela indo de um lado para o outro, ficou atento a livros tentando descobrir se algo ali se manifestava, mas nenhum sinal deles. Seus pais estavam fora de vista havia bastante tempo, o que parecia bastante suspeito. Talvez realmente só confiassem em Cass. E talvez, só talvez, seus pais imaginassem o que ele poderia estar prestes a descobrir. Balançou a cabeça afastando as ideias e pegando a folha com riscos dourados novamente. Vinte e seis anos terrestres sem notícias de um familiar parecia tão miserável, tão desesperadoramente triste. Conseguia entender por que Cassandra não queria falsas esperanças. E queria ajudar.

— Acho que já sei. – ela olhou para ele, que retribuiu o olhar esperando ela falar – Mas eu não sei explicar, vou precisar que você confie em mim.

Ele estalou a língua, mania que ela já começava a achar irritante.

— Tá… eu quero te ajudar. Me diz o que fazer.

Ela se sentou no braço da poltrona de novo, estendeu a mão para que se tocassem. Ele levantou uma sobrancelha, mas tocou a mão dela. A sensação de tranquilidade crescia em ambos.

— Eu preciso que você confie em mim, ok?

— Eu vou tentar.

— Eu vou tentar criar um espaço seguro. Quando você sentir que consegue, entre.

Ele não tinha certeza se havia compreendido, mas acreditava que saberia na hora certa. Dessa vez estava aguardando o toque de novo, a sensação que havia lhe causado uma espécie de arrepio nas costas, e sentiu uma aproximação mais cautelosa. Não ouvia nada dessa vez, era uma espécie de calor, ou de formigamento. O atingia na mente, tranquilizava seu corpo e o fazia acariciar a mão de Cass com o polegar. Ela respirava fundo, sua mente já alcançava a dele, mas não encerrava a distância imediatamente.

Thomas conseguia visualizar um cômodo, era branco e tinha paredes adornadas com linhas puras e planejadas. Apesar de saber como era o lado de dentro, estava do lado de fora. Ele girava lentamente e pôde ver Cassandra o aguardando no centro do espaço. Quando a porta passou em sua frente, ele entrou.

Consegue me ouvir? – Cass ouviu em sua mente.

Sim. – ela respondeu e o corpo físico dele sorriu – Como se sente?

Calmo. Sinto que posso escolher que pensamentos trazer a superfície.

É quase isso.

Então, eu gostaria muito de ficar explorando as possibilidades desse espaço. Mas preciso conhecer sua mãe, não é?

— Sim. – a figura de Cassandra dentro do cômodo respondia e dava um sorriso triste.

O teto se abria e uma risada escandalosa e divertida se aproximava, a cor laranja invadia o quarto e era possível ouvir música ao fundo. Uma mulher com os cabelos de Cass dançava, ela ocupava todo o cômodo, era muito maior do que eles, muito maior que qualquer pessoa, porque assim eram as lembranças. Ela falava, a voz era corajosa, furiosa, divertida, apaixonada, sua presença parecia a própria eletricidade. Anos de convivência resumidos em poucos segundos lhe causavam arrepios, tremores, espanto e encantamento. Ela girava em torno de si mesma, era encoberta por seus cabelos, e era puxada pelo teto para fora dali. Teto esse que agora voltava a existir.

Tom ouvia soluços baixinhos de choro. Sentia lágrimas pingando em seu braço, e seus dedos dolorosamente apertados entre os dedos de Cass.

Dentro do cômodo branco havia uma Cassandra criança, ela chorava.

— Está tudo bem. Não saia daqui. – ele disse para a Cassandra criança.

Ele abriu os olhos, viu o rosto vermelho de Cassandra e as veias saltadas de seu pescoço. Com a mão livre, tocou os cabelos da menina e guiou a cabeça dela para seu ombro, que ela aceitou sem receios. Ela soluçava e passava a segurar a camiseta dele, a puxando contra seu rosto. Ele esticou a mão e, com seu pensamento, fez um cristal transparente e redondo voar da mesa dentro da biblioteca até sua mão. Com cuidado, recuperou a folha que carregava a mensagem e juntou as duas em sua palma.

Cassandra abriu os olhos quando percebeu os movimentos dele.

Você foi brilhante. – ele dizia ainda em pensamentos.

Acha que vai dar certo? – ela respondia da mesma maneira.

Suas auras estavam bem misturadas. Ele via. E sentia o formigamento prazeroso no fundo de sua mente, se esforçando pra não tomar espaço demais. Deveria ser o suficiente.

— Se você continuar aqui, vai.

O feitiço simplificado era realmente simples, mas ele precisava operar tudo com uma mão só, já que um de seus braços estava servindo de apoio para Cass. Ele se concentrou no que queria fazer. O cômodo branco em sua mente ficou azul-escuro. A folha parcialmente dourada estava na palma da mão, a esfera de cristal era empurrada para girar com as pontas dos dedos.

Cass roía uma unha enquanto observava, a outra mão se segurava na camiseta de Tom. Depois de algumas voltas da esfera, ela brilhou amarelada. Depois de mais algumas voltas da esfera, era possível ver uma imagem dentro dela. E essa imagem era de Ariane mergulhando uma folha em um líquido dourado.

— Foi ela?! – a Cassandra criança voltava a ser adolescente dentro do cômodo.

— Foi sim. Sua mãe está viva, Cass. – Tom estava aliviado, sorria tanto pessoalmente quanto dentro do cômodo branco.

As duas versões da Cass o abraçaram, mas ambos deixaram o espaço mental quando ela começou a rir e soltar lágrimas de alegria.

*

Era fim da tarde. Cass estava em casa, o pai fazia o jantar, ela entrou no quarto da irmã.

— E aí? Como foi? – Agda perguntava, se sentava na cama ansiosa.

— Um sucesso! – Cass respondeu se sentando ao lado dela.

— Conta logo.

A irmã mais velha entregou a folha já quase sem partes douradas para a mais nova.

— O que é isso? – Agda perguntou examinando o objeto, percebendo um relevo, mas sem entender o que era de fato.

— Um bilhete. Um bilhete da mamãe.

Notas finais
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