Mágica - Livro I
9 Compreensão
Notas iniciais
Na manhã seguinte, a conversa começou cedo na mente das duas irmãs. Estavam ainda no ponto de ônibus perto de casa e Cassandra descrevia tudo o que conseguia do dia anterior, ou, pelo menos, tudo que se sentia confortável em compartilhar. E claro que algumas lacunas criavam perguntas na mente de Agda:
— Mas por que esse cômodo? Você não poderia fazer como faz comigo ou com o papai, por exemplo?
— Não. Foi muito constrangedor, nós não temos intimidade o suficiente pra compartilhar… tudo.
— Mas a gente tem certo controle. Quer dizer, tem níveis de pensamento que você acessa e níveis que você não acessa, não tem?
— Para nós sim, mas… a mente dele é diferente. Sabe quando você fica nervosa e eu paro de conseguir acompanhar o seu fluxo de pensamento?
— Sim.
— Ele é tipo isso. O tempo todo. Eu não consegui entender bem como eu deveria me conectar, e quando você acessa pensamentos que não deveriam ser acessados, é constrangedor.
— Tá, que seja. Mas como é o cômodo?
— Eu estou pensando em chamar de Antessala. É uma etapa prévia do que seria o contato direto das duas mentes. Mas ele é todo branco, vazio… Até um de nós usarmos nossos poderes. Quando eu consegui apresentar a mamãe para ele, a sala ficou cheia de imagens dela, sons, cores vivas que me lembravam dela. Agora quando ele se concentrou para fazer o feitiço, tudo ficou um azul bem profundo e… calmante. Foi bom, eu estava precisando de ajuda pra me recuperar.
— Você conseguiria fazer isso comigo?
— Como assim?
— Me apresentar à mamãe, por exemplo.
O pedido fazia mais sentido do que Cass gostaria de admitir, sua irmã pouco se lembrava de qualquer coisa de antes de fugirem para este mundo. E era assustador o como ela fazia essa pergunta como se não estivesse falando do fato de não se lembrar da própria mãe.
— Eu não sei. Eu poderia tentar, mas não estou com energia suficiente para isso.
— Não precisa, era só pra saber. Você vai aceitar a ajuda para descobrir seus poderes? Acho que essa é a parte mais importante.
— Mesmo?
— O que seria mais urgente que isso?
— Contar para o papai que a mamãe está viva, não?
— Você pretende contar pra ele que mentiu e foi pra casa de uma outra família bruxa sem avisar?
— Agda, a esposa dele está viva, isso é muito maior.
— Ela ainda está em outro mundo, no que isso muda exatamente? Não vai só reabrir uma ferida?
— Então isso resolve qual vai ter que ser nosso objetivo. Nós vamos abrir esse portal para trazer ela pra cá.
— Agora você endoidou de vez.
*
Cass recebeu o banho gelado da vida mundana ao entrar no colégio. No corredor de sua sala, Melissa e Laulau conversavam como de costume. As duas sorriam para ela enquanto se aproximava. Não era sequer necessário usar seus poderes para saber do que as garotas queriam falar.
— Você está bem, Cass? – Laulau perguntava segurando um sorriso.
— Estou. Bom dia para vocês. – Cassandra respondeu já levantando uma sobrancelha, esperando alguma piada.
— Não está se sentindo sufocada? – Melissa abria seu sorriso perfeito.
A bruxa quis rir. Suas desculpas, todas jogadas fora.
— Não… Mas não foi nada, né? – ela encolhia os ombros tentando evitar o sorriso.
— O que não foi nada? – Melissa se fazia de desentendida – Eu não estou sabendo! Aconteceu alguma coisa?
A esse ponto, Cassandra não conseguia evitar o sorriso e estava ficando corada.
— Ah, se fodam vocês duas. – ela riu, desistindo – Tá, eu beijei o André.
— Era questão de tempo, a gente sabia. – Melissa parecia vitoriosa – Suas desculpas eram péssimas.
— Se isso der certo mesmo, eu posso discursar no casamento de vocês. – Laulau fingia arrumar uma gravata.
— Espera também, vamos com calma. – Melissa freou a amiga.
“Ele vai me esquecer muito antes disso poder acontecer.” Cassandra pensou enquanto dava uma risada nervosa.
— Até agora foi só um beijo. – ela ainda ria – Quer dizer, alguns. Mas geralmente não é o suficiente para ser um namoro, vamos com calma…
— Isso a gente já vai descobrir, ele está chegando aí. – Mel sorriu vendo o amigo se aproximar pelas costas de Cassandra.
— Ele está vindo na nossa direção? – Cass não olhava para trás, mas buscava confirmar.
— Mais na sua do que na nossa. – Laulau fingia que tinha algo para ver no próprio sapato.
— Fala de outra coisa. – Cass pediu.
— De que? Ah, dos seus piercings! Eu gostei muito deles. – Mel inventava rápido, apontou a própria orelha e olhava para a de Cassandra. – Doeram muito pra fazer?
— Até que não! – Cass entrou no assunto imediatamente, fazendo seu melhor para disfarçar – Eu fiz já faz um tempo, fica dolorido ao toque depois enquanto está cicatrizando, mas é só.
— Eu já pensei em fazer um igual. – Laulau tentava contribuir.
— Se você cuidar certinho na fase da cicatrização, é bem tranquilo!
— Bom dia! – Cass ouviu a voz de André ao mesmo tempo que sentiu o toque da mão dele em suas costas.
— Bom dia. – ela respondeu se virando para vê-lo.
Ao virar o rosto, André a deu um selinho. Como se fosse rotineiro, normal. E Cass sorriu tentando não corar.
— As coisas só acontecem quando eu não estou presente, né? – Melissa sorria para o amigo.
— Se esse for o padrão, vou ter que parar de te convidar. – André riu.
— Nem ouse! Mas fico feliz pelo casal.
Enquanto falava com Melissa, André alcançou a mão de Cass. Seus dedos entrelaçaram nos dela e a baterista observava esse gesto com um sorrisinho no rosto que ela não conseguia evitar.
— Preciso falar com você. – ela percebeu que André falava com ela, o que a fez levantar os olhos para ver os dele.
— Tudo bem. – ela respondeu – Agora?
— É, acho que é melhor agora.
Os dois deixaram as duas amigas, ele a guiou para a saída de emergência, verificando se ninguém estava ocupando as escadas de incêndio enquanto saíam do prédio.
— Aconteceu alguma coisa? – Cass perguntou enquanto ele fechava a porta atrás deles.
— Não exatamente. – ele respondeu e deu um sorriso de canto.
Assim que ficaram só os dois, Cass sentiu as intenções de André como o perfume de alguém que acabou de chegar. Era impossível não sentir. Ele a queria, mas ela fingiria que não havia entendido ainda.
— Então…? – ela esperava ele dizer.
— São duas coisas. Primeiro, eu acho bom te avisar que não vou conseguir ficar te fazendo companhia hoje. – ele torcia a boca chateado e a puxava para perto pelas duas mãos.
— Poxa, algum compromisso? – ela o deixava guiar, a levando para a área ao lado da porta.
— Coisa dos meus pais, depois eu te conto com detalhes.
— Entendi. – André já não fazia mais questão de sequer disfarçar que tinha interesses não ditos, abraçava a garota pela cintura, tirava o cabelo dela da frente do rosto – E a segunda coisa? – e Cass também não conseguia evitar um sorrisinho de canto.
— A segunda coisa é que eu senti muito sua falta.
No instante seguinte, estavam se beijando. Ele a apoiava contra a parede atrás dela, seus corpos se tocavam frente a frente, ela suspirava entre os beijos sentindo o calor dos dois, e Cass estava feliz em se sentir tão normal.
*
O sinal já havia soado quando voltaram para dentro do prédio, ainda de mãos dadas e sorrisos cúmplices. Tiveram um dia de aula comum, o grupo se adaptava a ter um casal com eles com facilidade.
Depois do último sinal, arrumavam as coisas dentro da sala de aula para irem embora, quando Cass percebeu que a normalidade do dia se encerrava por ali e em breve precisaria agir.
— Eu tenho que me apressar. – ela ouviu a voz de André se aproximando, vindo do fundo da sala. – Você vai ficar no Jocão?
— Não sei ainda. – ela respondeu terminando de fechar a bolsa – Talvez eu fique na biblioteca, o Jocão às vezes enjoa.
— Tá bem. Eu consigo te responder por mensagem se você ficar entediada.
Ela sorriu.
— Você vai enjoar de mim assim.
— Besteira. – ele deu um selinho nela antes de sair – Até amanhã!
— Até!
Cass o esperou sair para olhar na direção de Thomas. Ele se arrumava de maneira calma quando percebeu o olhar de Cass. A garota baixou os olhos, se concentrando, parte da sua consciência entrou na Antessala e logo ele a encontrou lá.
— Pois não? – via uma versão cansada de Tom falando com ela.
— Pode ficar até mais tarde hoje? – ela perguntava.
— Posso.
Talvez não fosse cansaço, poderia ser mau-humor.
— Você está bem? – ela resolveu verificar.
— Por que não estaria?
— Isso é resposta de quem não está.
— Você quer que eu te espere onde?
— Na árvore. Pode ser?
— Pode.
Ele saiu da Antessala em seguida, sem prolongar qualquer conversa.
Thomas saiu primeiro da sala, Cass caminhou para fora conversando com Laulau e Lucas. Ela disse que ficaria por ali e esperou os dois amigos passarem pelos portões, deixando a escola, para ir encontrar Tom. Ele estava já sentado na grama e acenou quando a viu de longe. Parecia ser o Thomas de sempre, normal, com a mesma cara de todos os dias.
— Oi. Valeu por me esperar. – ela se sentou ao lado dele enquanto falava.
— Sem problema!
— E obrigada de novo, por ontem.
— Eu fiquei feliz em ajudar. Sério. – ele deu um sorrisinho pequeno – Quem me dera tivesse sempre alguma coisa assim pra fazer.
— É sobre isso mesmo que eu queria falar com você. – ele se inclinou para frente, intrigado – Eu quero trazer minha mãe pra cá.
Ele deu uma risada contida. Cass murchou um pouco, ela afastou o tronco para trás, o observando enquanto se sentia diminuída.
— Eu devia ter apostado que isso ia acontecer. – ele sorriu.
— O que?
— Eu virei a noite pensando nisso. Deve haver um jeito.
Cass sorriu aliviada.
— Que susto, achei que você estava me achando idiota! – Ela deu um tapa leve no braço dele.
— Uma coisa não exclui a outra, né? Mas vamos lá. – ela deu um segundo tapa, que o fez sorrir. – Um portal não é coisa simples, ainda mais um para outro planeta. Pelo que você me contou do seu pai, ele seria a melhor pessoa para conseguir fazer isso.
— Meu pai?
— Sim. Não sozinho, claro. É preciso ter outros bruxos maduros e fortes emprestando energia para estabilizar…
— Como você sabe disso?
— Como eu disse, virei a noite. Tem pouco na biblioteca dos meus pais, mas posso tentar me aprofundar. O que me preocupa são as questões políticas, eu não tenho ideia de como as coisas estão lá agora.
Houve silêncio. Thomas esperava que ela respondesse algo, mas via Cass ficando vermelha. Pensou em perguntar o que havia acontecido, mas a garota suspirou antes de dizer, cobrindo o rosto por vergonha:
— Eu não faço ideia do que você está falando.
Ele estranhou.
— Como assim? Você não sabe por que a gente tá aqui?
— Não sei! Eu era criança, meu pai não parece querer falar a respeito disso até hoje. – Tom parecia transtornado – Quando estávamos no estúdio e eu descobri que você era bruxo, você falou que achou que eu era uma inquisidora, e até agora eu não sei o que você quis dizer com isso!
— Não é possível. – ele batia na própria testa, desacreditado.
— Infelizmente é!
— Olha, eu não vou conseguir te explicar tudo. Minha mãe talvez sim.
— Eu tenho vergonha de perguntar…
— Para com isso! – Ele ria nervoso. Pegou a blusa de moletom que estava em seu colo e colocou sobre a grama, se deitando sobre ela em seguida – Você literalmente vai estar ajudando se simplesmente aparecer em casa e começar a perguntar coisas. E minha avó pediu para que eu te dissesse que você está com energias represadas, isso é por não conhecer ou utilizar corretamente seus poderes. Ela ainda está disponível se você quiser ajuda.
Cass o observava, o invejando por não ter uma jaqueta com ela para poder deixar na grama como ele.
— Eu… eu gostaria. E acho que Agda também, não sei porque ela não me pediu ainda.
— Quando minha mãe disse que quando você quisesse era só aparecer, ela realmente quis dizer isso. – os olhos dele encontraram os de Cass, ela divagava um pouco, olhando para o pedaço de grama ao lado dele.
— Só aparecer… São muitos aniversários para inventar.
Ele já estava se levantando quando riu com o que ela disse. Pegou o moletom e abriu o zíper, estendendo no gramado de novo para que coubesse os dois. Logo se deitou de novo em uma ponta.
— Por que você não conta a ele? Não que você não contar não seja conveniente para mim. – Thomas queria saber.
Cass sorriu e se deitou sobre a blusa ao lado dele, observando os galhos e as folhas da árvore contra a luz.
— Obrigada. Mas eu pensei em contar para o meu pai, até discuti isso com a Agda, e depois fiquei pensando e…
— Você não acha que ele ficaria feliz?
— Acho sim.
— Então?
— Mas meu pai me afasta de tudo que ele desconfia ter uma mínima chance de ser perigoso. Eu quero contar pra ele quando estiver tudo pronto pra gente tentar abrir o portal.
— Isso pode demorar.
— Então eu tenho que me apressar.
— Sim. Bom, você tem uma hora livre todos os dias. – Tom fechou os olhos, aproveitando uma brisa suave e o cheiro de grama.
— É, tirando o dia de ensaio da banda e quando André decidir me fazer companhia, já que eu não posso simplesmente dizer que vou todos os dias na sua casa sem parecer estranho.
— Se depender dele, você não vai ter mais essa hora livre.
— Ele não pode ficar todos os dias, é só eu ir quando ele não puder.
— Bom, vou avisá-las.
Houve silêncio. Os dois estavam próximos o suficiente para as auras se tocarem, já que o moletom estendido era o limitador do espaço, mas não interagiam. Cass estava com a mão sobre a própria barriga, mas a colocou na lateral do corpo, esbarrando com a mão de Thomas. Em resposta, ele recolheu a mão e a colocou atrás da própria cabeça. Ela estranhou.
— Você recuou por causa do que eu pensei ontem? – ela perguntou.
Ele estalou a língua, o que ela entendia já como um péssimo sinal.
— Um pouco, sim. – ele respondeu.
— Hum…
— Você podia ter me falado antes.
— Eu só percebi que era diferente pra você depois. Ainda nem consigo ter ideia do quanto, se é tanto assim…
Ele estalou a língua de novo.
— Tá, eu não queria soar feito um babaca, mas eu estou aceitando que esse deve ser meu papel às vezes. – ele ficou de lado, encarando Cass, que virou a cabeça para vê-lo – Por que você quer que eu te toque?
— Que? Quem disse isso? – ela franziu as sobrancelhas..
— Cass, em toda conversa que temos, nós acabamos de mãos dadas.
— Você sabe que não é só porque eu quero, nós somos diferentes, tem vários efeitos que só a gente se causa! E…
— Eu sei. – ele a interrompeu – É disso mesmo que estou falando...
— Então por que falar como se só eu quem quisesse? – ela também o interrompeu
— Você quer que eu entenda o que? Que você chega mais perto do meu toque porque quer que eu fique longe? – ele deu uma risada seca, ela já estava vermelha e desviou o olhar.
— Pra quem não quer soar como um babaca…
— E eu não estou dizendo que nas outras vezes você quis sozinha. Será que você consegue me ouvir sem ficar na defensiva?
— É difícil quando você começa do jeito que começou.
Ele suspirou, frustrado e se esforçando para controlar os próprios ânimos. Voltou a deitar sobre a blusa reparando no padrão sutil de ramos que saía de cada galho.
— Cass… – ele tentava ser cuidadoso – Eu não quero te ofender, te provocar, nada disso. Você pode olhar minhas intenções se quiser, eu deixo! Não te faço outra promessa porque aqui há muito risco de alguém ver.
Ela respirou fundo, ainda observando o desenho que o céu fazia entre as folhas.
— A resposta curta é que você me acalma. – era difícil dizer – Tudo sobre o nosso mundo, sobre quem somos, me deixa ansiosa.
— E o que você sente é só… calma?
Não era. Era também conforto, era também… prazer? Como o prazer de um carinho nas costas. Mas ela não tinha certeza.
— Não é mais fácil você me explicar o porquê está perguntando isso?
Ele ponderou antes de dizer:
— Nas minhas experiências com pessoas… No começo sempre era bom, mas depois de um tempo eu sentia falta de alguma coisa.
— O que isso tem a ver?
— Calma.
— Desculpe.
— Bom… Eu tenho uma irmã que foi adolescente ainda em Eivar. Eu posso consultar ela para alguns assuntos. E… você vai sentir essa falta também em algum momento. E aí acho que você vai ligar os pontos.
Ela já havia ouvido falar sobre isso na escola, e sua mãe havia comentado numa promessa de a explicar quando estivesse mais velha. A tal reação mágica necessária para fazer a magia dos bebês. Ela levantou as sobrancelhas, entendendo onde ele queria chegar.
— Entendi.
— Mesmo?
— Sim. Mas… Bom, eu tenho que te tranquilizar quanto a isso. Não é só calma, mas também nunca passou do que um amigo causaria. – ela considerava uma verdade, embora não tivesse amigos que fizessem carinho em suas costas.
— Está bem… Eu tenho que confiar em você.
O toque estava resolvido, mas havia outra parte em aberto.
— Quando eu toquei sua mente…
Ele respirou fundo.
— Sim?
— Acho que eu preciso de um pouco mais de prática para entender que partes eu devo conectar. Eu percebo que com minha irmã e meu pai isso acontece naturalmente. Me desculpe se eu…
— Esqueça isso, tá bom? O quarto branco funciona bem.
— Antessala. É o nome.
— Antessala. Faz sentido.
Os dois respiraram fundo. As mãos não se tocavam, nem braços, nem nada. Os dois sentiam que, com os ânimos mais calmos, as auras lado a lado se acalmavam sozinhas, mesmo que mais devagar. Ficaram ali em silêncio alguns minutos, mente e sentidos agitados sem dizer nada.
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