Mystic Forks

5 Capítulo Quatro: Everything Is Not What It Seems


O relógio marcava 20h, os convidados já começavam a chegar. Pessoas que eu nunca havia visto na vida adentravam a minha casa, era impressionante o que essa gente fazia por uma boca livre. Alice fazia questão de dar-lhes as boas-vindas e dizer “aproveitem a festa”, mas convenhamos, eles não estavam nem aí para isso, seus únicos pensamentos eram: “comida e bebida grátis” e “sexo”. Ninguém precisa ser nenhum leitor de mentes para deduzir isto. Isso não é para mim, não mesmo. Decidi voltar para o meu quarto e ler qualquer coisa que ocupasse meu tempo ou fazer sei lá, qualquer coisa. No caminho para meu quarto, encontrei pelo menos uns dois casais de adolescentes “conversando”, sinceramente, minha vontade era morder todos, será que não percebem que não estão sem suas casas?

Sentei no pufe de frente para a janela e pus meus pés na cadeira, acompanhada de meus fones de ouvido no volume máximo escutando Nirvana. Minha única alternativa de passar meu longo e tedioso tempo. Não havia nem dez minutos que eu tinha me acomodado e já vinha um infeliz bater na minha porta, devia ser Alice perguntando o porquê de eu não estar na droga daquela festa. Só vou abrir porque não quero que ninguém entre pela minha janela.

– O que você quer? – grunhi, não estava olhando diretamente para pessoa.

– Desculpa, achei que fosse o banheiro. Seu irmão não me informou muito bem.

– Ah Stefan... Não, tudo bem, desculpa pela minha ignorância. – falei tirando os fones de ouvido preferindo continuar com eles. Eu estava me sentindo uma idiota, não sabia onde enfiar minha cara.

– Não precisa se desculpar. – ele tentava amenizar a minha grosseria.

– O banheiro é no fim do corredor, bem no centro, não tem como errar. – disse eu tentando levar a situação para o lado cômico.

– Valeu, pode deixar que dessa vez eu não vou entrar no quarto de ninguém. Ei, você não vai descer para ir à festa?

–Não curto muito esse lance de festa.

– Uma pena, porque Elena e eu estamos meio perdidos nesse mundaréu de gente, seria legal conhecer alguém da nossa idade.

– Com nossa idade você quer dizer séculos de vida ou adolescentes?

Ele deu de ombros.

– Foi mal Stefan, mas não. Toda vez que Alice dá esse tipo de festa, algo sempre sai errado e eu tenho que consertar.

– OK, então eu vou indo... Ah e obrigado pela informação do banheiro.

– Não há de que. – respondi.

Stefan Salvatore estava apenas sendo gentil, todavia, a minha ignorância era bem maior do que a minha simpatia. Senti-me mal por isso. Eu não tinha amigos, não tinha namorado, não tinha colegas e, rejeitava qualquer um que demonstrasse querer um laço de amizade comigo. Quem sabe, Stefan, Elena e eu não nos tornamos amigos? Ou até mesmo melhores amigos? Fui atrás de Stefan para ver se ele ainda aceitava minha companhia.

– Stefan! – gritei, ele estava prestes a adentrar o banheiro – Ainda aceita minha companhia para ir à festa?

– Claro! A Elena está me esperando na escada.

– Ótimo, vou esperar com ela.

Stefan assentiu.

Eu não os conhecia direito, para mim ambos ainda eram estranhos, mas se tem uma coisa que eu aprendi durante anos de convivência com a família Cullen, era que você não pode sair por aí julgando as pessoas, você sabe o nome delas e não as suas histórias. Eles pareciam ser pessoas honestas, de boa índole, porém está aí mais uma coisa que eu aprendi com os Cullen, JAMAIS confie em vampiros... Ou lobisomens, híbridos, bruxas, humanos, que seja, não confie em ninguém. Fui confiar no Aaron e deu no que deu, nem tudo é o que parece.

Elena estava sentada no penúltimo degrau da escada, os cabelos perfeitamente lisos caíam sobre a jaqueta de couro preta que usava, as calças jeans extremamente apertadas entravam em perfeita harmonia com os tênis pretos estilo all star.

– Elena? – a chamei com insegurança.

Ela virou para trás e deu um sorrisinho.

– Selena... Não é? – ela também não parecia recordar muito as minhas características.

– Sim. Se não for incômodo, vou com vocês para festa.

– Não, não é incômodo nenhum e fico feliz te conhecer oficialmente.

– Igualmente. – dei um meio sorriso.

– Sei que é falta de educação, mas... Quantos anos você tem? – Elena estava tentando quebrar o gelo entre nós.

– Como humana ou como vampira?

– Como humana.

– Dezessete.

Ficamos numa situação desconfortável, por mais que tentássemos quebrar a barreira que existia entre nós, era difícil conversar com alguém por mais de 5 minutos sem ser alguém da minha família, pelo menos para mim. Stefan surgiu em meio ao comprido corredor que agora parecia vazio. Salva pelo gongo, pensei.

– Vamos? – perguntou ele.

Stefan era o tipo de cara que puxava a cadeira para você sentar, pagava a conta no final, essas coisas envolvendo cavalheirismo. Elena tinha sorte de namorar alguém como ele, já eu quando se tratava de homens, só me ferrava. Chegamos à sala de estar, o lugar onde estava acontecendo a festa, tinha gente para todo o lado, sejam elas bêbadas, sóbrias, tentando se divertir. O cheiro de cachaça era insuportável e ainda somava com o cheiro peculiar dos humanos. Meu eu interior gritava por dentro pedindo para ir embora, mas eu não estava dando a mínima para essa vozinha (in)consciente.

– Vocês querem alguma coisa? Eu pego. – eu não falei? Cavalheiro, Stefan Salvatore era um cavalheiro.

– Só um copo de água. – Elena pediu.

– Estou bem obrigada. – falei.

Depois que Stefan voltou e trouxe a água para Elena, nós três ficamos numa conversa bem sincronizada, estávamos bem entrosados. Olhando de fora, parecia até sermos amigos de anos e anos. Elena me contou como conheceu Stefan e eu como me transformei em vampira. Já que estávamos conhecendo uns aos outros, decidi perguntar da vida social de cada um.

– Você tem algum irmão ou irmã, Elena?

– Tenho um irmão chamado Jeremy. Ele ficou com a namorada dele em Mystic Falls, que por acaso é minha amiga, Bonnie.

– E você, Stefan?

Ele hesitou. Se tinha um irmão ou uma irmã, com certeza não queria tocar no assunto, mas mesmo assim ele desengasgou algumas palavras, a voz falhava.

– Sim, eu tenho um irmão e, no momento ele está bem longe daqui. Bom, não quero ser grosseiro, mas será que podemos mudar de assunto?

– Claro! Você segue algum tipo de dieta especial? – perguntei sem mais delongas.

Ele hesitou novamente.

– Sim, me apodero da mesma dieta que você e sua família.

Dois assuntos que pareciam incomodar com frequência o Sr. Salvatore, o tal irmão e a tal dieta. Stefan era um cara muito misterioso, não deixava escapar nada, somente o que lhe era perguntado, era respondido. Sobre esse tal irmão, não vou ponderar nada, pois sei exatamente como é ter problemas familiares, já a tal dieta me faz deliberar um pouco. Será que estava mentindo? Mas por qual razão? Será que ele achava que fingir ser alguém que não é só para agradar os outros, seria uma ótima maneira de se ganhar a nossa confiança ou será que ele achava que espalhar por aí que era um monstro que atacava pessoas não era do feitio de um jovem fundador educado?

Elena estava me contando mais sobre sua vida em Mystic Falls, porém algo estava desviando a minha atenção. Um homem alto, com uma jaqueta de couro preta estilo anos 80, loiro e com o topete mais ridículo que já vi na minha vida. Aaron Summers. Eu reconheceria aquele topete retrô em qualquer lugar. Droga! Pensei... Acho que alto até demais.

– O que houve? – perguntara Elena.

– O babaca do meu ex-namorado. – apontei Aaron para eles.

– Se você quiser, posso dar um jeito nele! – gosto cada vez mais do Stefan.

– Não, não Stefan. Obrigada, mas eu mesmo cuido dele. Eu já tenho problemas demais e, ter o corpo de um vampiro morto dessecando sem ter onde enterrar, não parece uma ideia muito boa.

Deixei Elena e Stefan conversando e fui atrás de Aaron. Eu sabia exatamente o que ele viera fazer aqui, ele viera me provocar, me tirar do sério, é só o que ele sabia fazer. Aaron tomava um copo de whisky enquanto dava em cima de algumas garotas que estavam tolamente encantadas com seu topete ridículo. Intrometi-me no meio da conversa.

– Ah nossa que legal. VOCÊ NÃO DEVIA ESTAR AQUI. – grunhi, interrompendo a conversa.

– Ah olá, docinho. Nossa, mas você é mal educada. Desculpem essa velha ranzinza, meninas. – falou ele me empurrando para o canto – Como vai o pescoço? – ele dava um sorrisinho sacana.

– Você não presta! – gritei.

– Presto para muita coisa, você quem não soube me aproveitar, docinho.

– Se manda daqui!

– Desculpa, mas não vai dar. Eu fui convidado, se é que você me entende. – ele sussurrou em meu ouvido.

Droga. Aaron foi convidado, não só para a festa, mas para entrar na casa. Quando um vampiro é convidado a entrar em alguma casa, você está dando a ele passagem livre, a partir daí ele pode entrar quando bem entender, sem as ordens de ninguém. Um vampiro só pode ser convidado a entrar pelo dono da casa e se por acaso o dono morrer, vampiros possuirão livre acesso, já em lugares públicos não se é preciso convite para entrar. Se eu realmente quisesse ver-me livre de Aaron Summers, eu teria que me mudar ou então matá-lo!

– Desgraçado! – disse eu.

– Ah, docinho, assim você até me magoa. – disse ele enquanto passava um pente naquele topete cheio de gel.

– Já que você gosta tanto de uma conversa a sós, por que não vem comigo? – basicamente, a minha ideia era conseguir levá-lo embora, afastá-lo dos humanos.

– Danadinha! Claro que vou, docinho! – na mosca! Ele havia caído feito um patinho.

O levei para o lado de fora da casa, nos fundos, próximo à trilha da floresta. Não era o longe que eu precisava, mas era longe o bastante. Encostei-o na parede, prendendo-o com minha perna, possibilitando uma chance de defesa se ele tentasse me atacar.

– Tá legal, o que você quer para sumir da minha vida? Dinheiro, joias, passagem? O quê?

– Querendo me subornar, docinho? Baixo, golpe muito baixo.

– Já chega Aaron, eu cansei de você e de seus trocadilhos sem graça. Se manda daqui senão eu te mato! — não sei se eu realmente tinha coragem parar executar tal ato, mas se isso me trouxesse paz, eu não hesitaria.

– Hoje é Halloween, docinho, não o dia da mentira, você não teria tanta coragem. Não mata nem uma mosca.

Eu estava morrendo de raiva, eu queria matá-lo, queria por fim nessa situação, estava prestes a mordê-lo quando um garoto vestido de Batman passou ao nosso lado e disse “fantasia maneira”, aquilo me irritou profundamente, eu agora teria que apagar a memória do senhor morcego.

Em frações de segundos, Aaron virou seu corpo e libertou-se de mim fazendo com que agora eu seja a vítima e ele o assassino. Ele me enforcava com intensidade.

– Estamos cof em cof público – balbuciei.

– Hipnotizo todos mais tarde, não se preocupe! – ele me enforcava ainda mais – Oh, estão usando verbena, mas que pena, não é mais problema meu. – o reservatório da cidade fora complementado com verbena, pessoas metidas a detetives suspeitam da existência de vampiros.

Enquanto Aaron tentava me matar a todo custo na frente de várias pessoas – ou ele iria apagar suas memórias ou iria matá-las mais tarde por serem testemunhas de uma tentativa de assassinato-, Elena surgia em meio a um grupo de garotas loiras que estudavam na escola da cidade. Provavelmente viera tomar um ar, só que no momento e na hora errada, Aaron poderia matá-la em questão de segundos diante de meus olhos e mesmo assim eu não iria poder fazer nada. Ele é bem mais ágil, forte e sagaz do que eu, sua fonte de alimentação é o que lhe proporciona isso.

– Selena, você está bem? – perguntava ela confusa, afinal quando mencionei que meu ex-namorado era um babaca, esqueci também de mencionar que ele era um psicopata.

Aaron por um momento parou de comprimir minha jugular, aproveitei então para gritar o mais alto que pude:

– Corra Elena, corra!

Mas antes que ela pudesse o fazer, Aaron rapidamente quebrou um galho de uma árvore e enfiou em meu abdômen. Ele agora estava cara a cara com ela, deu uma volta de 360 graus para olhá-la de cima a baixo, depois acariciou seu rosto delicadamente.

– Oh, vejo que trouxe o lanchinho. Afinal, reunião sem banquete não é reunião. E veja só, sangue degustador. E olha queridinha, você é o tipo de comida que nos deixa ansiosos para comer só pelo cheiro. — Aaron roçou seu nariz no pescoço de Elena para capturar ainda mais o cheiro de seu sangue – É realmente frustrante eu ter que fazer isso porque você é muito linda, mas não me deixo enganar por beleza. Sua amiguinha ali é linda, mas não vale um centavo e por isso tem que morrer, só que dela eu cuido depois!

Aaron aproximou sua boca do pescoço de Elena e a mordeu sem hesitar. Ele não estava se importando com o fato de haver pessoas olhando, ele só queria se alimentar, para ele Elena não passava de uma bolsa de sangue, mas se tem uma coisa que eu aprendi durante anos como vampira é que sangue humano é como uma droga para os vampiros. Bastava uma gota, apenas uma gota para não conseguir parar mais e levar sua vítima a óbito. Aaron havia enfiado um galho em meu abdômen, só que a sua verdadeira intenção era enfiá-lo no meu coração e assim me matar, eu realmente não sei o porquê dele não ter feito tal ato. Eu estava tentando me livrar do galho, mas a dor era intensa demais, eu não estava conseguindo me concentrar. Elena agora estava caída no chão com o pescoço ensanguentado, Aaron olhou para mim e deu uma risadinha como quem dizia “1x0 para mim”.

– Canalha! – gritei olhando diretamente em seus olhos.

– Bom, agora que já estou alimentado, vou indo. Muito obrigado pelo lanche, docinho. Ah e como conselho digo para você também experimentar um pouquinho. A gente se vê por aí. – dissera ele enquanto saltava para a copa das árvores e desaparecia em meio às folhas e a escuridão.

Com muito esforço consegui me livrar do maldito galho, Elena continuava imóvel, sem dar nenhum sinal de vida. Pessoas olhavam assustadas, queriam entender o que havia acontecido com a garota. Aproximei-me de Elena e verifiquei seus sinais vitais, estava sem pulso, quase morta. Mordi meu pulso e coloquei na boca dela para que ela pudesse beber meu sangue, sangue de vampiro cura qualquer coisa.

– Droga, Elena por que você tinha que estar aqui justo agora? Vamos beba! Você vai ficar bem. – falei sem saber se ela podia me ouvir.

Pessoas corriam apavoradas dali, eu no lugar delas faria o mesmo. Stefan vinha correndo ver o que havia acontecido, ele chamava por Elena, mas Elena não respondia.

– Elena! O que houve? Elena! – ele perguntava aflito.

– Aaron a mordeu. Eu sou uma inútil que não pode fazer nada para impedir. – disse eu com os olhos cheios de lágrimas

– Calma, ela vai ficar bem! Vem, vamos levá-la para o quarto, assim seu pai vai poder examiná-la. – mesmo quase tendo perdido a namorada para um vampiro faminto, Stefan parecia seguro e sensato, uma mini cópia do Dr. Carlisle eu diria.

Notícias correm feito um vento, mas notícias ruins correm feito um furacão. A festa tinha acabado literalmente, os convidados estavam indo embora – uns por terem presenciado um quase assassinato, outros porque souberam do quase assassinato e outros porque já estava na hora deles caírem fora -, até minha família já estava sabendo o que tinha acontecido. Depois que todos foram embora, meu pai examinou Elena e disse que o sangue ingerido foi crucial para sua salvação, isso quer dizer que um minuto a mais que eu levasse para me livrar do galho, Elena estaria morta e seria tudo culpa minha. Elena ficou repousando deitada, Stefan e eu ficamos sentados na beirada da cama, calados, sem dirigir a palavra um ao outro, até Stefan romper o silêncio.

– Não foi culpa sua, não fica se torturando com isso.

– Ela poderia estar morta! – disse eu.

– Mas não está! – disse ele otimista.

– Por que você é assim? – perguntei.

– Assim como? Bonito? Cheiroso? – brincava Stefan.

– Não, seu bobo. Assim... Quer dizer, sei que só estamos algumas horas juntos, mas você é incrível. Podemos estar na lama e mesmo assim você continua sendo desse jeito, otimista e vendo o lado bom das coisas. – elogiei Stefan, dando um meio sorriso depois.

– Puxa, eu nem sei o que dizer. Acho até que estou corando. – ele tirava sarro da minha cara.

– Engraçadinho! – dei um soco em seu braço.

– Está fortinha. – Stefan levantou-se da cama e começou a andar em círculos – Jeito estranho de se começar uma amizade, não acha?

– Acho. — eu estava meio sem jeito de falar o que eu realmente queria. Se eu pudesse pelo menos implantar falas na mente de Stefan seria mais fácil – Hã... Stefan... – minha voz falhara.

– Sim? – Stefan franziu a testa.

– Quando você se ofereceu... – eu realmente não conseguia terminar uma simples frase.

– Já entendi você está querendo me perguntar se eu ainda posso dar um jeito em Aaron, não é? – brilhante, ele era brilhante.

– É! Exatamente isso. Você ainda pode?

– Claro que sim!

– Perfeito!

Eu estava determinada a fazer isso, não estava nem um pouco preocupada com carma ou arrependimento depois, isso não era do meu feitio, mas era minha única chance de ter paz e sossego novamente. Eu ficava assustada com a ideia de ter que matar alguém, seja ele um monstro ou não, isso é desconfortante. Ninguém precisava saber disso além de Stefan e eu, se alguém perguntasse era só inventar uma mentira bem elaborada e pronto. Essa pedra no meu sapato iria ser arrancada de uma só vez, sem deixar nenhum rastro sequer.

Estou disposta a isso.

Irei matar Aaron Summers.