My Tragedy
4 Epílogo
Notas iniciais
Time stands still
Beauty in all she is
I will be brave
I will not let anything take away
What's standing in front of me
Every breath
Every hour has come to this
A Thousant Years — Christina Perri
Conviver com Peeta doente foi mais difícil e complicado do que eu jamais achei que fosse. Por estar em casa, ele achava que podia burlar todos os remédios receitados pelos médicos.
— Eles não estão vendo, Katniss. — sussurrava ele pela noite. — Ninguém vai saber que eu não tomei esse hoje.
— Mas eu sim. — dizia. — Se não tomar o remédio eu te levo de volta para a clínica.
Isso o fazia engolir os comprimidos rapidamente. Eu não gostava de ameaçá-lo, mas era necessário. Fiz algumas tentativas e deixei-o dormir sem os medicamentos para ver como seria sua noite. Eu sabia que a função de alguns deles era como a de calmante. Só mais forte e rápido, o que o fazia dormir em minutos, mas eles têm sua eficácia e quando não os coloquei no organismo de Peeta foi assustador.
Numa das noites ele entrou no quarto em que eu dormia com Jasmine, sentou-se no chão ao lado da cama e ficou nos observando até amanhecer. Quando acordei assustei-me claro, mas ao perguntar-lhe o porquê de estar ali em não e sua cama, Peeta surpreendeu-me.
— Eu não quero ficar no escuro sem vocês. Eu gosto do dia onde posso estar com as duas. — contou.
Eu expliquei que ele precisava dormir pela noite, mas isso não o impediu de passar as escuridões seguintes encarando a paisagem vinda da janela de seu quarto por horas a fio. Ele não se cansava e não parecia ter sono algum. Como se os calmantes dados tantas vezes para ele na clínica, os que davam sonos artificiais, fossem expelidos para fora de seu corpo a cada hora que passava e ele pudesse ter, finalmente, controle de seu ser.
Podia ser perigoso deixa-lo sozinho e acordado por tanto tempo sem minha supervisão, porém ele não fazia nada que pudesse prejudicar a ele, Jass ou a mim. Peeta parecia uma criança inofensiva que se distraía com qualquer coisa. A mínima que fosse. Pela manhã ele até contava-me sobre suas descobertas noturnas. As borboletas que pousavam no batendo do vidro que ele encarava, os acidentes de carro que aconteciam e os jornais noticiavam e até a bolsa de valores que sofria variações.
Percebi então que eu precisava fazê-lo dormir quando ele ficou agitado demais ao lutar contra o sono e fez riscos profundos na mesa de madeira na hora de jantar com a faca. Peeta necessitava de fazer coisas normais como pessoas comuns fazem. Sendo ao tomar os remédios por sua vontade própria ou não.
Porém notei algo que fazia Peeta dormir bem sem usar aquelas cápsulas. Jasmine. Deixei que ela dormisse com o pai depois de pedir por isso e os dois ficaram abraçados diante do enorme colchão por toda a noite. Pareciam tranquilos em seu momento de descanso e senti uma pequena vontade de me juntar à eles. Mas eu não podia fazer isso. Seria ultrapassar os meus limites. Dormir na mesma cama que Peeta era demasiadamente difícil para mim.
Cato e eu tivemos uma bela discussão quando foi de seu conhecimento a retirada de Peeta da clínica. Ele bateu em minha porta e gritou em minha cara o quão precipitada eu estava sendo, que era loucura tirar alguém doente de um lugar especializado para tal coisa e que ele podia voltar a se rebelar e machucar não só a mim, mas a minha filha também.
— Você não tem o direito de chegar na minha casa e dizer o que eu posso ou não fazer.
— Katniss, é para a sua segurança. — brigou. Eu não o deixei passar da porta. — Nós vamos leva-lo de volta.
— Desde quando você tem o direito de decidir?
— Eu sou o irmão dele!
— Não parece. Você o jogou naquele lugar horrível e não se deu ao trabalho de ir visita-lo.
— Ele não me queria lá. — contou. Um vento forte passado por nós dois.
— Foda-se o que ele não queria. Peeta não estava em condições de querer nada. Você que foi um cara fraco que não criou coragem para ajudar a única pessoa que tem o mesmo sangue que o seu. — falei. — Seus pais sentiriam vergonha de você se ainda estivessem vivos. Só crie vergonha na cara agora e vá se redimir com seu irmão. Ele precisa de ajuda, companheirismo e carinho, não de alguém que fique lhe dando ordens.
— Me desculpe.
— Não sou eu que tenho que escutar isso. — saí de sua frente para que ele entrasse na casa. — Suba. Ele está vendo filme com a Jasmine.
Os irmãos se acertaram e Cato até o convenceu a voltar para o trabalho. A família Mellark tinha uma empresa que passou para os dois assim que meus sogros morreram. Claro que Peeta não conseguia e nem podia ter o mesmo nível e quantidade de responsabilidades como antes já que isso poderia acabar acarretando uma enorme carga de estresse sobre ele. Isso não podia acontecer até que ele aprendesse a lidar com tudo.
Em compensação ele parecia cada vez mais habituado a sua rotina. Ajudava a mim e Paylor com a casa, brincava com Jass e até se oferecia para leva-la para a escola. Todos tinham uma boa relação com ele e vice-versa.
Peeta até me chamou para assistirmos a um filme juntos enquanto Paylor está com nossa Borboletinha num parque próximo. O clima é agradável e eu não consegui negar o pedido dela de ir na rua um pouco.
— Ela cresceu muito rápido. — o pai comenta quando notamos que faltam menos de três meses para que ela complete seus dois anos.
— E continuará nesse ritmo. — sorrio. — Mal posso esperar pelo dia em que ela chegará aqui para nos apresentar seu primeiro namorado.
— Ela não vai namorar. — ele diz parando de acariciar meus cabelos. Nossa posição super confortável no sofá amplo e extenso. — Será sempre uma Borboletinha. Nossa e de mais ninguém.
— Que ciumento. — brinco colocando meus dedos sobre sua barba. Ele tem que tirá-la o mais rápido possível. O pelo pontiagudo coça minha pele.
— Não é ciúmes e sim precaução. Nossa menina é muito bonita. Não posso deixar qualquer um ficar com ela.
— Pode ter certeza que ela vai saber escolher na hora certa. Agora ela é só uma menininha. Fique preocupado apenas quando ela disser que não quer mais que a chamemos de Borboletinha.
— Esse será um sinal para nós ficarmos atentos?
— Com certeza.
Neste mesmo tempo, meu celular toca para me lembrar que está na hora de dar a Peeta seu remédio da tarde. Olho inquisitorialmente para o loiro que apenas revira suas lindas orbes azuis para mim. Ele me puxa para seu colo e abraça-me. O Peeta de anos atrás aflorando e me mostrando que ainda existe, que não desapareceu como Madge disse que faria.
— Você sabe que eu não preciso desse. — fala passando seus braços ao meu redor.
Sim, eu sei.
— Mas tem que tomar, foi o acordo que fizemos com os médicos.
— Ah, Katniss. Eles nem devem estar se importando mais comigo. Você acha que eles irão se preocupar se eu deixar de tomar esse comprimido de agora em diante?
— Acho que se eles descobrirem, vão vir te buscar. — brinco.
— Você não vai deixar eles me levarem.
— Porque não? Quais são os motivos que fariam minha escolha ser a de te deixar aqui comigo? — pergunto com seus olhos grudados nos meus. A cor me hipnotizando e me tirando de órbita.
— Porque nós somos uma família. — fala me deixando sorrir. — Não somos nada sem o outro.
E não somos mesmo. Não sou completa se Peeta não estiver junto. É como se faltasse algo e sei que acontece o mesmo com Jasmine. Enquanto ele não aparece para jantar conosco ficamos em silêncio, o garfo parece muito interessante e a comida não é servida até que ele chegue, traga sorrisos e aquele lindo calor para o meu peito.
— É. Talvez eu não te deixe ir nunca mais.
É então que ele coloca sua boca na minha. Depois de tanto tempo sem tê-lo assim comigo, percebo que somos novas pessoas. Um Peeta e uma Katniss totalmente novos e reconstruídos. Sua língua dançando com a minha apenas confirma que toda essa reviravolta que tivemos em nosso caminho tortuoso foi uma forma do destino nos testar. Foi um jeito que encontraram para garantir que fomos feitos um para o outro. Estamos entrelaçados e não importa o que aconteça, Peeta e eu estamos fadados a sermos do outro, a respirarmos o mesmo ar e colocarmos nossos corações na boca ao ver o sorriso e o brilho no rosto do parceiro. Eu sou de Peeta e ele é igualmente meu.
Quando Jasmine chegou pulando em nossos colos eu tive a certeza de que nós estávamos retomando nosso caminho de volta para o lugar e linha certa. Estávamos fazendo nossa vida de um jeito bom. Recriando nossas tendências, paixões e família. Peeta, Jasmine, eu, Paylor, Mad, Clove e Cato nos refizemos e aprendemos com nossos erros. Cruzamos a linha da perfeição e não podia ser melhor.
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