My Tragedy
3 Capítulo 3
Notas iniciais
My head's under water
But I'm breathing fine
You're crazy and I'm out of my mind
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
All Of Me — John Legend
— Você tem certeza que quer fazer isso? — Madge pergunta quando estamos na porta da clínica que Peeta está.
— Eu prometi, Mad.
— Mas não precisa ir até lá.
— Eu não vou mentir para ele. — falo convicta. Levei duas semanas para conseguir perder o medo de vir até aqui. Não vou voltar atrás agora. — Não vou deixa-lo achar que estou o enganando quando ele precisa de mim.
— Tudo bem. — ela suspira. — Vamos logo com isso antes que o horário de visita termine.
A clínica parece um imenso castelo dos séculos antigos. Janelas redondas de estilo gótico, vitrais esquisitos, escadas gigantes e paredes acinzentadas. Peço informação no balcão e uma das mulheres por trás dele coloca em nossas roupas uma etiqueta de visitante. Procuramos o andar que ela nos informou que Peeta está e o médico responsável por ele nos atende antes que possamos entrar no quarto.
— Posso ajudar? — pergunta ele usando um jaleco branco sobre uma roupa de mangas azuis. O lugar parecendo frio demais para o meu sobretudo de lã.
— Viemos visitar Peeta Mellark. — Mad responde.
— Sério? — ele indaga com uma das sobrancelhas erguidas. — Nunca fizeram uma visita para esse paciente. Nem sei se posso permitir a entrada de duas pessoas juntas.
Peeta ficou tão isolado por esses meses que nem mesmo seu médico acredita que ele tenha uma vida fora daqui. Como podem tê-lo deixado tão sozinho? Como Cato pode deixar que isso acontecesse?
— Eu gostaria de visitá-lo sozinha mesmo. — informo para ele.
— Claro. — ele puxa a prancheta de uma das paredes do seu lado. Um suporte de prancheta? Legal. — Preciso anotar seu nome. Pode me dar sua identidade?
Abro a bolsa que carrego transversa no corpo e retiro minha documentação. Estendo para o médico que antes de anotar o nome no papel, encara-me de lado.
— Everdeen Mellark. — constata. — A senhora é esposa do paciente?
— Mais ou menos. — sorrio de lado sentindo o olhar de Madge em mim.
Não tive tempo para mudar os documentos novamente. Jasmine tomou meu fôlego desde que nasceu e deixei meu nome de casada onde estava.
— Entendo. — ele fala anotando com a mão esquerda algumas informações necessárias. — Pode ir, Katniss. O quarto é o segundo a esquerda neste corredor.
— Segure. — peço dando a bolsa para Madge.
— Logo mais terei que levar um remédio. Isso vai encerrar a visita, tudo bem? — pergunta o médico arrumando o crachá em seu jaleco. Gale.
— Claro. Nenhum problema. Você fica bem aqui, Madge?
— Sim. — ela responde.
— Posso acompanha-la num café. — Gale convida sorrindo. — É um dia frio e eu posso fazer companhia enquanto espera sua amiga.
A loira fica envergonhada, mas aceita. Eu, por outro lado, deixo os dois sozinhos e passo por entre algumas outras pessoas para chegar até o corredor. Conto um e dois para encontrar o quarto. Número mil e quinze. Respiro com força antes de segurar a maçaneta da porta, mas enfim, a abro devagar.
A cor branca inunda minha visão. Encontro uma televisão desligada grudada na parede, um pequeno frigobar no chão e uma elegante e ampla janela do chão ao teto de vidro mostra um lindo parque esverdeado. Pode ser uma clínica, mas ter esses pequenos privilégios devem gastar uma fortuna.
Pong. Pong.
Escuto um barulho e olho para o lado. Peeta está sentado de costas para mim numa maca. Uma câmera está acima de sua cabeça, mas ele parece acostumado com ela. Ele segura uma bola de tênis verde em suas mãos e a joga no chão para que ela ricocheteie na parede e volte a cair em seus dedos. Uma simples brincadeira que deve ocupar todo o seu tempo e tirá-lo do tédio de viver num lugar tão morto quanto esse.
Seus cabelos loiros estão jogados para cima, seu corpo está coberto por uma grande blusa fina cinza junto de uma calça de moletom da mesma cor. Um lençol azul está em sua cintura, mas ele não parece ligar para o frio do quarto e continua jogando a bola no chão.
Retorço meus dedos e tomo ar. Peeta está tão perdido nas coisas que não escutou meus barulhos.
— Peeta. — chamo.
Ele para. A bola cai de sua mão e bate seguidas vezes no chão até parar. Seu corpo treme algumas vezes antes de virar sua cabeça em minha direção e saltar da maca. Seus pés estão descalços e batem num barulho leve no piso frio. Peeta olha para mim e eu para ele. Logo ele chora como se não acreditasse em minha presença, corre até mim e com força me abraça. Soluçando e tremendo. Mais sensível do que nunca.
— Eu pensei que você não ia vir. — confessa soluçando com o rosto em meu pescoço. Esfrego suas costas com uma das mãos e aliso seu cabelo revolto com outra.
— Eu disse para você que viria. — sussurro. — Não te enganaria assim.
— Me leva embora, Katniss. Por favor. Eu quero sair daqui.
— Eles te tratam mal?
— Não, mas eu fico sozinho tomando remédios o dia todo e ninguém conversa comigo. — confessa apertando minha cintura em seus braços. — Eu não quero mais ficar aqui.
— Calma. Vamos acalmar um pouco, tudo bem?
Ele concorda e afasta-se um pouco de mim. Limpos suas lágrimas com meus polegares e o tomo pela mão para poder leva-lo até sua maca de novo.
— Onde está a Jasmine? — pergunta quando sento-me com ele. Cruzo minhas pernas para que ele cruze as suas.
— Ficou em casa. Achei melhor vir sozinha dessa primeira vez.
— Você está escondendo ela de mim?
— O que? Não, Peeta. — nego antes que ele fique acuado. Afago seus joelhos. — Eu queria te ver sozinha, mas vou trazer Jasmine para ficar com você.
— Promete?
— Prometo sim, Peeta. — sorrio. — Não vou separá-la de você. Não quando ela me pergunta todos os dias sobre o papa dela.
— Ela diz isso? — ele sorri feliz.
— Diz. Ela fala tatá também, mas eu não sei o que é.
— E mamãe?
— Ela não gosta de falar. Sabe, mas não fala. — conto meio frustrada. — É teimosa assim como você.
Ele sorri rapidamente porém logo fica sério. Joga-se em minhas pernas dobradas e deita sua cabeça no meio, estica suas pernas em cima do travesseiro branco e puxa minhas mãos para as suas. Peeta entrelaça nossos dedos e fecha os olhos.
— Você não gosta mais de mim.
— Eu gosto sim, Peeta.
Como consegue se distrair do assunto tão rápido?
— Não gosta, não. Está aqui só porque disse que viria e porque não quer viver com nossa filha perguntando sobre o pai. — conclui fazendo-me prender a respiração. — Você podia muito bem ter me deixado aqui sozinho para toda a eternidade até eu morrer. Quem precisa de um encosto como eu na vida?
— Não fale isso. Não é a verdade.
— Você sabe que é.
— Olha... Muita coisa aconteceu este ano em que ficamos separados. Coisas que você não sabe. — falo vendo-o abrir seus lindos olhos azuis. Olhos tristes e recheados de expectativa. — Passamos por muitos momentos juntos antes do seu ataque. Momentos que não podemos esquecer e que me fizeram te amar. Você me presenteou com a Jasmine e, mesmo que tenha sido da forma que foi, eu não posso deixar de te agradecer por tê-la me dado.
— Você vai trazê-la para me ver na próxima vez? — ele pergunta receoso. Os olhos quase enchendo-se de água com minha possível negativa.
Deuses, Peeta! Que diabos essa doença fez com você?
— Com certeza. — garanto acariciando a parte a mostra de sua mão com meus dedões livres dos seus. — Semana que vem é o aniversário dela. Vou trazer a Borboletinha para vocês poderem brincar juntos, tudo bem?
— Sim. — sorri animado.
Ficamos em silêncio por uns minutos. Peeta olha para mim sério e puxa nossas mãos entrelaçadas para sua boca pra, depois, beijar meus dedos. Vejo nossa aliança de casamento ainda em seu anelar e respiro fundo quando ele começa a sussurrar uma música infantil totalmente perdido no movimento do ar invisível.
— Você está morando aonde? — indaga de supetão.
— Na minha casa, Peeta. — responde sem entender. Onde mais eu moraria?
— Porque você não volta para cá? Digo, pra nossa casa?
— Não estamos mais juntos.
— Estamos sim. Temos uma filha. — briga soltando minhas mãos e tirando sua cabeça de meu colo para poder sentar-se de frente para mim.
— Peeta. — acalmo-o tomando suas mãos nas minhas novamente. Ele não pode mudar de humor. — Nós não estamos mais juntos. Somos pai e mãe de Jasmine, mas apenas amigos.
— Mas você vai morar longe e como é que vai conseguir me visitar? Como é que Jasmine vai poder me ver? Vocês vão ficar longe e vão me deixar sozinho aqui, Katniss! — ele desespera-se começando a respirar mais rápido e mais forte. Solto minhas mãos e as coloco em seu rosto. Trago sua atenção para mim e acaricio suas sobrancelhas quando elas curvam-se de aflição.
— Respire. — peço.
— Porque você não fica na nossa casa, Katniss? Fique lá, por favor.
— Aquela casa não é mais minha.
— Mas você tem a chave. Fiquem lá. — pede. — Assim vocês podem ficar mais perto.
— Do que? — indago vendo seus olhos focarem-se nos meus.
— De mim.
— Peeta...
— Só vai.
— Eu não tenho nada do que preciso lá. As fraldas da Jass, as papinhas, mamadeiras... Para cuidar de um bebê muitas coisas são necessárias numa casa. Coisas que lá não tem. — conto para ele e seus lábios logo se projetam para frente. Ele vai chorar.
— Tudo bem. — Peeta sussurra rebaixando seus olhos.
A porta se abrindo nos desperta e Gale aparece com um belo sorriso no rosto. A conversa com minha amiga deve ter sido boa.
— Hora do remédio. — ele conta com um copo de café em uma mão recheado de comprimidos e um copo com água na outra.
Rapidamente Peeta tira minhas mãos de seu rosto e corre para longe de mim. Ele senta-se no chão e se encolhe perto da parede que suporta a câmera. O loiro tem uma cara assustada e cheia de medo. Ele abraça suas pernas e esconde o rosto em seus braços.
— Peeta. — chama Gale. — Se você não sair daí para tomar os remédios, eu terei que chamar os enfermeiros. Você sabe que eles são malvados.
— Não! Eles não. — Peeta grita soluçando.
Meu Deus. Que diabos?
— O que está acontecendo? — pergunto confusa levantando-me da maca.
— Alguns enfermeiros amarram os pacientes na cama e os fazem engolir os remédios. — ele faz uma careta. — Não é nada legal de se ver. Traumatiza vários pacientes pela violência e muitos adquirem medo deles.
— É o caso de Peeta?
— É o caso de quase todos os pacientes, Katniss. — ele conta.
Peeta vive numa prisão. Um lugar em que o vigiam e o tratam mal muitas das vezes. O encaro encolhido no chão e... Nossa. Ele está acabado. Com cara de cansado tanto físico quanto psicologicamente. Uma doença não devia deixa-lo deprimido desse jeito. Talvez a culpa seja do isolamento. Talvez a culpa de Peeta parecer uma criança desesperada que vive presa num pesadelo eterno seja desta maldita clínica.
— Ele não precisa disso. — alerto sobre os remédios antes que Gale chame os tais enfermeiros.
— Não quero dormir. — Peeta sussurra balançando a cabeça de um lado para outro violentamente. — Não. Eles querem que eu durma, mas eu não quero. Não quero, Katniss!
— Ele tem que tomar os comprimidos, Katniss. É preciso. — Gale fala indo até Peeta.
— Não! — o homem grita quando vê o médico ameaçando puxá-lo do chão.
— Espera! Deixa que eu faço isso.
Interrompendo Gale, agacho-me de frente ao meu ex-marido e tomo seus braços nos meus. Digo calmamente para ele que os remédios são necessários e sinto meu coração apertado quando ele implora para que eu não deixe que o façam toma-los. Peeta está morrendo de medo e uso Jasmine como desculpa para que ele aceite engolir os comprimidos. Prometo mais uma vez que a trarei para ficar com ele o dia inteiro e que se ele tomar o remédio, farei isso mais de um dia. Levo-o de volta para sua maca e coloco as cápsulas coloridas em suas mãos mostrando que ele tem total liberdade de medicar-se. Peeta precisa de confiança e é isso que darei à ele.
— Vou lhes dar licença, mas o horário de visita chegou ao fim. — Gale avisa quando acaricio os cabelos do loiro. Vejo o médico sair e Peeta se aconchega no meado da maca. Cubro seu corpo deitado de lado com o lençol da cama e em poucos segundos ele começa a ter seus olhos pesados, suas piscadas ficam mais lentas e questiono-me se o dopam com tarja preta.
— Me abraça. — ele pede quase dormindo.
Passo meu braço esquerdo por baixo de seu pescoço apoiado no travesseiro e o direito por baixo do braço que ele coloca em minhas costas. Afundo meu rosto em seu pescoço e sinto o cheiro hospitalar. Beijo aquela área lisa e passo meus dedos por seus fios lindos. Uma centena de lágrimas começam a se formar atrás de meus olhos e não as detenho quando estas decidem descer por minhas bochechas.
— Ver que nada disso foi sua culpa apenas traz de volta todo o amor que eu sentia por você. — discurso quando tenho a certeza de que ele já dorme. — Eu não gosto de te ver assim, amor, mas não sei o que fazer para deixa-lo melhor e me desculpe por ter estado longe quando você mais precisou. Eu não sei como te ajudar, não sei...
Beijo seu pescoço novamente e desenrolo-me de nosso aperto, seco o rastro d’água em minha pele e corro para longe do quarto. Longe da pressão psicológica exercida em quem está nesse castelo sombrio e nojento.
[...]
— Você não pode fazer isso! — Madge grita enquanto coloco Jasmine na cadeirinha presa ao banco traseiro do carro. Passo o cinto de segurança pela frente de minha menina no momento em que ela começa a bater palmas.
— É óbvio que eu posso.
— Ela é minha afilhada. — briga fechando a porta dianteira quando eu a destravo e abro. — Você não vai coloca-la em perigo, Katniss.
— Não é perigo. É o pai dela, Mad. — a loira empurra meu corpo e minhas costas batem com força no carro.
Que porra?!
— Ele é louco! Como você pode sequer considerar a possibilidade de levar um bebê para aquele lugar? — grita.
— Ele está doente! — tiro com um tapa o dedo que ela coloca em meu rosto. — E a culpa de parecer perigoso é toda sua, de Cato e Clove! Nenhum de vocês teve a consideração de cuidar dele quando descobriram que Peeta tem problemas. Vocês apenas o jogaram lá e o deixaram sozinho, dopado de remédios e sob observação de pessoas que ele nunca viu. — brigo. — Se ele é considerado por você alguém perigoso é porque você não teve o mínimo de vontade de ir até a clínica e ver como ele estava. Jasmine vai até o pai sim, pois eu quero leva-la até ele. É o aniversário da minha filha e você não vai impedir nada.
— Katniss...
— Com licença. — dito isto afasto-me dela e entro no carro batendo a porta com força e ligando-o rapidamente. Deixo-a sozinha na calçada ao tempo em que Jass volta a bater palmas e cantar alguma música em seu linguajar atrapalhado e iniciante.
[...]
— Segure bem firme na mamãe. — peço para Jasmine apoiada no osso do meu quadril e presa com a força de um único braço meu. Com o outro eu seguro um pequeno bolo para que nós possamos dividir com Peeta na esperança de fazê-lo se sentir mais envolvido no clima de aniversário da filha.
— Olá, Katniss. — Gale cumprimenta quando alcançamos o andar do quarto que queremos. — Essa é a Jasmine?
— Sim. — sorrio inclinando o corpo levemente para frente a fim de chamar atenção da menina dispersa. — Diga oi, Jass.
— Tatá.
— Ela não para de falar isso. — sorrio revirando os olhos para o médico. — Nossa entrada está liberada?
— Está sim. Tem certeza de que as duas vão entrar?
— Tenho, Gale. Peeta precisa disso. — sorrio confiante. — Você pode abrir a porta, por favor?
Mostro minhas mãos ocupadas e ele concorda com um leve aceno guiando-se a nossa frente. Viramos no corredor e logo estamos na porta que Gale trata de abrir rapidamente. Sussurro um leve agradecimento e fecho a porta com um empurrão de pé.
— Papa! — grita Jasmine batendo palmas e chamando a atenção de Peeta que antes brincava com a mesma bola de tênis da semana passada. — Papa!
— Jass. — ele levanta-se sorrindo como eu nunca vi antes. — Olá, minha menina.
Nossa Borboletinha estica os braços para o pai e o mesmo não perde tempo em tomá-la em um abraço apertado e forte. Fico feliz diante a cena e coloco o embrulho do bolo em cima da maca observando os dois numa envolvente conversa de sílabas incompreensíveis por parte da mais nova. Cheguei a perguntar ao pediatra se Jasmine estava com algum tipo de atraso na fala, mas ele disse que cada criança tem seu tempo. Não é necessário extrema preocupação, pois os casos tornam-se preocupantes apenas depois dos três anos de idade.
— Posso me encaixar neste abraço? — indago percebendo que falta apenas eu para que a família fique completa. Sim, família.
— Claro que pode. — Peeta estende sua mão para mim e eu logo envolvo a cintura dos dois puxando-os para perto de meu corpo.
Suspiro tombando minha cabeça no ombro de Peeta e o vejo beijar a testa da filha com um belo rasgo de felicidade e animação em seu rosto. Ninguém conseguiria dizer que é o mesmo homem que vi assustado até o último fio de cabelo em minha última visita.
— Eu trouxe algo para nós comermos. — informo trazendo-nos para maca. Peeta encosta-se na parede dobrando suas pernas como um índio para conseguir colocar Jasmine em seu colo. — Que tal cantarmos o primeiro parabéns do bebê?
A menina gargalha animada e eu desembrulho o bolo em nosso meio. É algo simples de apenas um andar coberto de fondant lilá e borboletinhas cor de rosa. Ascendo rapidamente uma única vela temendo que fiscalizem na câmera e venham barrar nossa diversão. Peeta acolhe as mãos diminutas da filha nas suas e os dois começam a bater palmas ao tempo em que canto a música tradicional. Juntos, ajudamos a menina loira a assoprar as velas e mais umas dezenas de risos aparecem provenientes disso. Uso um conjunto de guardanapos para nos servir de pequenos pedaços e um saco plástico para guardar toda a sujeira que fazemos. Ponho tudo de volta na pequena bolsa que trouxe comigo quando terminamos e deixo as coisas no chão limpo para que nada fique entre nós três.
— Eu.... Eu consegui algo. — Peeta conta com o nariz entre os fios claros da filha.
— O que? — pergunto-lhe.
Ele vira um pouco do corpo e procura com a mão algo atrás de seu travesseiro. Retira sem pressa um embrulho prateado mediano de lá.
— É um presente. — explica. — Pedi para o médico Gale fazer um esforço para conseguir comprar algo e ele comprou.
Inacreditável.
Peeta coloca o saco nas mãos da filha que fica animada ao bater no papel e ouvir o barulho. Os dois desamarram o fio que mantinha o conteúdo fechado e logo tiram de lá uma linda borboleta de pelúcia colorida.
— Tatá! — Jass grita apontando para a bela borboleta em seus braços.
— Então isso que é tatá? — compreendo vendo-a sorridente com a pelúcia.
— Quando nos reencontramos, você disse que precisávamos cuidar da nossa Borboletinha. Isso ficou na minha cabeça e achei que daria um bom presente. — ele diz tímido.
— É incrível, Peeta. Amei o que você fez.
Tem como não amar? Mesmo que ele tenha se mostrado muito sensível na semana passada, Jasmine parece trazer toda a tranquilidade e equilíbrio necessário para o pai. Ele parece realmente capaz de se manter são. Então na saída, quando encontro o médico Gale, digo à ele:
— Precisamos conversar.
[...]
— Tenho algo para te contar. — digo a Peeta que brinca com meus dedos em minha terceira visita. Hoje, Jasmine ficou em casa com Paylor. Tenho que fazer algo somente com Peeta e ver como ele irá reagir.
— O que é? — indaga curioso trazendo seus olhos para os meus.
— Conversei com alguns médicos na semana passada e nós entramos em um acordo. — Peeta olha-me sem piscar. — Posso leva-lo para casa, te tirar daqui se você comprometer-se a continuar com os remédios.
Ele fica em silêncio. Seu corpo não se mexe e Peeta parece estático até o momento em que seus lábios repuxam-se num lindo sorriso.
— Sério? — pergunta. — Então o que estamos fazendo aqui ainda? Vamos logo.
— Calma, calma. — rio de sua ansiedade quando ele quase levanta-se da cama. Peeta quer tanto sua liberdade quanto os animais viventes em cativeiro quando seus lares são as belas e verdes florestas. — Precisamos esperar o médico liberar sua saída.
— Já cheguei. — Gale entra no quarto com sua famosa prancheta e seus alinhados dentes brancos a mostra.
— Vai me dar alta? — Peeta pergunta fazendo o médico rir.
— Sim. Vamos chamar isso de alta.
Abraço meu loiro de lado quando nos levantamos para que ele posso se conter no lugar e não sair pulando. Não é uma animação extrema proveniente de sua doença, mas, sim, o Peeta feliz que quer se ver livre de todo esse ambiente maníaco e hospitalar. É o meu Peeta querendo sair de um lugar que ele não gosta e voltar para sua vida normal e natural.
— Pode ir buscar suas coisas no vestiário e ir. Fico feliz de liberá-lo, senhor Mellark.
— E eu mais feliz em sair, Gale.
Não levamos mais de vinte minutos para estarmos no carro e na estrada. Peeta fica ao meu lado brincando com o cinto de segurança e fazendo-me rir a cada pergunta ansiosa que me faz sobre sua casa. Porém ao estacionarmos na garagem, Peeta se fecha.
— O que houve? — pergunto.
— Quero voltar para a clínica?
— O que? Porque? — preocupo-me.
— Não quero ficar nesse lugar gigantesco sozinho. — diz. — Pelo menos no meu quarto, os médicos vinham falar comigo.
— Pare de ser bobo. — rio quando noto que ele acha que ficará nesta mansão sozinho, que ninguém virá visita-lo ou que eu o largarei aqui e sumirei de sua vida. — Você não vai ficar sozinho aqui. Vamos entrar que eu te explico, tudo bem?
Ele parece meio contrariado, mas aceita. Por fim, ao abrimos a porta de casa, Peeta recebe Jasmine em seus braços surpreso. A Borboletinha estava ansiosa para receber o pai.
— Como?
— Você disse que queria que nós ficássemos. — começo. — Se eu pretendia trazer você para casa, eu não poderia, simplesmente, trazer e te deixar aqui. Foi por isso que nós nos mudamos para cá. Jasmine precisa de um pai, você precisa de mim e eu de vocês dois. Todos precisamos um do outro e nada mais junto do que deixar pai e filha viverem juntos. Somos uma família, lembra?
Ele sorri com algumas lágrimas em seus olhos e Jasmine em seus braços antes de puxar-me para perto dele, enlaçar minha cintura e plantar um beijo no canto de minha boca. Peeta apaixonante aflorando em seus poros e fazendo-me derreter por se mostrar um ser tão puro. Posso ter passado pelo inferno com Peeta, mas se ele precisa de mim agora eu estou disposto a enfrentar um outro furacão por ele e nossa filha. Ninguém poderá desestabilizar minha família. Ninguém, pois eu estou dando todo o meu amor por ela. Todo o meu amor para esses dois.
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