Notas iniciais
Oi amores. Preparem o coração, porque dessa vez... EU chorei escrevendo o final. Sério. Desculpa se tiver algum erro, mas eu estou tão empolgada com ele que nem revisei. Sorry... Qualquer coisa avisem nos comentários que eu arrumo. É isso. Aproveitem.

You look so dumb right now,
Standin' outside my house,
Tryin' to apologize,
You're so ugly when you cry,

Please, just cut it out.

Take a Bow — Glee Version

— Está na hora de levantar, querida. Vamos tomar café, sim?

Minha tia Paylor foi a mulher que me salvou do possível fim do poço. Como meus pais morreram quando eu já era casada a vi muito pouco, porém ao precisar de sua ajuda, ela me estendeu a mão sem pensar um segundo sequer. Não me cobrou nenhuma explicação quando liguei chorando e pedindo por um lugar para ficar. Viu que eu estava machucada, porém deixou-me ter meu espaço e abriu seus braços para mim quando precisei de carinho e cuidados. Viver numa casa de veraneio podendo dedicar todo meu tempo para meu bebê sem precisar me preocupar com a atividade de terceiros e trabalhos estressantes é a vida que qualquer um desejaria ter.

Se não fosse pela... Saudade.

Converso com Madge e Clove apenas por vídeos. Elas acompanham minha gravidez e fazem-me sorrir por uma tela de computador. Nesses seis meses só as vi pessoalmente uma vez quando conseguiram folgas em semanas diferentes no trabalho e puderam comprar uma passagem para me ver. Não é como se ficar com suas melhores amigas por singelos dois dias a cada três meses fosse algo saudável.

Pelo menos é isto que a médica diz. Como mudei toda minha vida para um estado novo, minha médica teve de ser outra. É uma senhorinha gentil e amável. Em todas as consultas ela diz que tenho estado triste, que não aproveito a gravidez de forma boa e que não tenho me envolvido totalmente no espírito materno.

Por isso minha tia fez-me pegar uma boa parte da quantia de dinheiro que trouxe comigo e, juntas, fomos às compras para montar o quartinho de minha menina. Sim, menina. Uma linda princesa. Jasmine Everdeen Mellark. Minha Borboletinha precisa ter um outro sobrenome.

Cato tem me surpreendido. Ajuda-me sempre que eu preciso de algo. Sorri para mim todos os dias em que nos falamos por vídeo – o que é uma obrigação. Precisamos nos falar todas as noites para que ele possa ver minha barriga – o loiro está realmente ansioso em ser tio e não vê a hora disso acontecer.

— Como vai nossa garotinha? — pergunta tia Paylor quando chego à cozinha para tomar café.

— Quieta e apertada. — sorrio com minhas mãos sobre a barriga coberta pelo tecido jeans da jardineira. Esta é uma das únicas roupas que me deixa confortável. As calças de elástico que eu tanto amo, marcam e machucam minha barriga saliente quando as uso.

Sento-me numa das seis cadeiras da mesa de vidro recheada de comida e sorrio vendo um mamão já cortado junto de rodelas grosas de abacaxi. Essas são as frutas que mais me arrancam água na boca durante toda a gravidez. Desde que meus desejos começaram, tudo se resumi a essas frutas e sempre que sinto vontade de comê-las, as duas estão prontas e aos postos para mim.

— Ainda sente os pés doloridos? — nota a moça da pele escura quando puxo uma das cadeiras para mais perto e deixo meus dois pés apoiarem-se no estofado.

— Sim. — meu rosto retorce numa careta dolorida. Ergo minha mão e puxo uma das rodelas amarelas do abacaxi para minha boca. — Parece que ficam mais inchados a cada vez que ando.

— Vou preparar uma compressa de água de água para você por neles. Vamos ver se diminui o inchaço. E vamos acalmar esse consumo de sal, mocinha. — aconselha fazendo-me rir envergonhada. — Pensa que eu não vi você comendo aqueles pães de salgados recheados de manteiga?

— Estava na vontade.

— Sei, mas Jasmine pode se contentar com o requeijão.

Logo depois de comermos, ajudo Paylor a tirar a mesa e paramos para pegar o sol leve da manhã. Aconchego-me na cadeira de balanço confortável e deixo-a ir para frente e para trás devagar. Fecho os olhos deixando o calor esquentar meu rosto e rodeio minha barriga de oito meses quando minha borboletinha chuta-me duas vezes. Ela gosta da tranquilidade tanto quanto eu.

— Oi, Mad. — sussurro radiante ao ver seu nome na tela de meu celular novo.

— Como vai a mamãe mais bela de todas? — posso senti-la animada.

— Cansada. — confesso. — Quando é que você vai conseguir aparecer aqui?

— Eu realmente não sei, Kat. Eu espero que em breve, mas estarei junto de você no dia em que nossa Jass nascer.

— Promete?

— Prometo. — sorrio. — Mas você está tranquila em relação a cirurgia, não está?

— Sim. Imaginar-me em parto natural apavora minha alma, então cesariana é, claramente, mas tranquila. Não me assusta em nada.

— Minha amiga é muito corajosa. — elogia ela. — Eu estaria terrivelmente nervosa só de pensar em uma agulha nas minhas costas.

— Já passei por coisas piores.

— Katniss...

— Que barulho é esse? — desconverso vendo minha tia olhar-me fixamente.

— Estou num lugar meio movimentado. — ela ri. — Nos falamos mais tarde, pode ser?

— Claro. Te amo, Mad.

— Também te amo, querida. Cuide da Borboletinha em sua barriga.

— Sempre.

Ao desligar o celular olho para minha tia. É acusatório, inquisitivo e desconfiado. Sorrio e a tranquilizo com o olhar. Está tudo bem agora e vai continuar deste jeito.

— O que vamos almoçar hoje? — pergunta minha tia segurando uma de minhas mãos.

— Eu não sei. — rio. — Jasmine não está pedindo nada de específico.

— É uma menina comportada.

Quando o sol deixa de iluminar a varandinha em que estamos, voltamos para casa. Tia Paylor teve três filhos que agora devem ter um pouco mais da minha idade e já estão vivendo longe das asas da mãe em outras cidades. Se mudaram para ter um futuro melhor e mais amplo e sempre que conseguem vem visita-la com suas esposas e filhos. Já o marido dela morreu no mesmo acidente de carro que matou meus pais. Ficamos unidas pelos primeiros meses de luto, mas cada uma tinha sua vida, precisávamos cuidar do que ainda tínhamos e foi isso que fizemos.

Percorro o corredor estreito do segundo andar e paro na porta branca de madeira com uma plaquinha rosa pendurada e os dizeres: ‘’Princesa Jasmine’’ rodeada por quatro borboletas pequenas e médias de tons claros e diversos. É engraçado pensar que meses atrás cheguei nesta casa dizendo que só ficaria por uns dias, mas acabei me instalando aqui com muitos esforços de Paylor. Eu precisava ter minha própria casa para estabelecer-me e cuidar de minha menina porém a mulher de pele escura jogou em meus braços, com convicção, o fato de que esta é minha casa. Eu já fazia parte de sua rotina, tinha meus costumes e tarefas. Poderíamos ser como mãe e filha uma para outra já que afinal só tínhamos à nós mesmas a quem recorrer.

Ao me sentar na poltrona estofada de cor creme sinto-me satisfeita, acolhida, esperançosa e bem ansiosa. Imaginar minha Borboletinha em meus braços é mágico, mas sei que nada irá se comparar ao momento em que eu puder, realmente, tocar seu corpo diminuto, cheirar sua pele lisa e segurar suas mãos pequenas nas minhas. Estou animada em pensar que faltam apenas uns pares de dias para poder tirá-la de dentro de mim e acolhê-la em meu calor, dar de mamar e vesti-la com as menores e mais fofas das roupas como se fosse uma boneca. Minha Jass.

Mamãe mal consegue se conter! Logo poderei te abraçar. Você será parecida com seu pai, Borboletinha? Herde os olhos lindos dele, por favor. Nada me acalmava como as pedras azuis de seu pai e mesmo que ele seja um monstro agora, sei que em você será como um dos mais puros dos anjinhos.

Depois de pedir demissão, consegui um emprego de revisão de textos. É algo simples e que faço em casa pelo computador. Como eu trabalhava como coordenadora de língua inglesa há anos, consegui o emprego com muita facilidade. Sem contar que revisar livros é algo muito mais leve. Não é o emprego dos sonhos, mas é algo que possa fazer tranquila, sem preocupações e sem me locomover de um lugar para o outro. O que contou muito em minha decisão final já que terei que cuidar de um bebê em breve.

Quando termino de cantar uma das músicas de ninar para que minha menina se acalme em minha barriga, vejo que algumas poucas horas já se passaram. É muito fácil se perder no tempo.

— Katniss! — chama tia Paylor quando termino de arrumar a bolsa que levarei para a maternidade. — Preciso que venha aqui. Mas desça devagar.

— Já vou. — grito para ela deixando a bolsa branca e rosa de lado.

Saindo do quarto e apoiando-me no corrimão das escadas passo pela cozinha e assim que chego na sala tomo um susto com o que vejo.

— Surpresa! — grita Madge junto de Clove. As duas estão bem na minha frente.

— Ai meu Deus. — sussurro pondo as mãos na boca. Tia Paylor ri e abraça-me de lado antes que Clove e Mad o façam. — O que vocês estão fazendo aqui?

— Viemos te ver ora essa. — brinca a morena beijando minha bochecha enquanto a loira faz a mesma coisa.

— Era para chegarem só no mês que vem. — sinto os olhos encherem-se de água quando elas acariciam minha barriga e falam com minha menina como se ela pudesse responder. E ela pode. As duas riem ao sentir Jasmine chutar e optam por beijar minha barriga no lugar que elas acham próximo do ponto que estão os pés dela.

— Sentem-se meninas. Sei que vocês têm muita coisa para conversar. — tia Paylor aconselha e nos empurra levemente para os sofás da sala de estar. — Vou lhes dar licenças.

— Nós trouxemos presentes. — anuncia Mad tirando de sua mala algumas sacolas. Clove abre sua mochila e coloca um enorme urso de pelúcia à minha frente.

— Que graça.

Pego o urso de pelos brancos nos braços e o abraço. É macio, cheiroso e amável. Minha menina irá se perder no meio do urso, mas será lindo o dia em que ela conseguir ergue-lo.

— Veja essa roupa. Quero que ela esteja na bolsa do hospital. — exige Mad passando-me uma sacola preta. De dentro puxo uma roupa branca e quando a desdobro vejo que é um macacão sem manga com a frase ‘’Presente da mamãe’’ em rosa.

— Obrigada. — agradeço morrendo de amores. — Vocês estão me deixando cada vez mais ansiosa, mas não me enrolem e expliquem-me porque vieram aqui.

— Te ver não é um motivo bom o suficiente? — Clove foge do assunto.

— Nós tínhamos combinado de vocês virem no dia treze. Dois dias antes da cirurgia.

— É, mas conseguimos uma folguinha no trabalho e decidimos vir mais cedo para passar um tempo com você e mostrar uma coisa. — Clove diz enquanto Mad procura alguma coisa em sua mala.

Algo está por vir.

Suspiro soltando uma das alças da jardineira e colocando meus pés para cima na mesinha de centro.

A loira pega um conjunto de papeis e o coloca numa folha especifica e Clove levanta-se para se colocar atrás de mim.

— Você está oficialmente divorciada. — anuncia Madge mostrando-me o papel com a assinatura de Peeta. Respiro fundo. — Que cara é essa?

— Nada, eu só... — Jass se remexe em minha barriga. — Não achei que fosse me sentir desse jeito.

— Que jeito? — sua testa cria rugas. Mad está confusa.

— Destruída. — respondo. Vejo que ela vai objetar, mas corto-a antes disso. — Desde que meus pais morreram tudo o que eu sei fazer é amá-lo, Madge. Não importa o que tenha acontecido. Parece que é meu dever continuar amando-o porque eu sei que ele só teve à mim e à Cato para confiar.

— Você estava muito confiante no dia em que decidiu se mudar. — relembra.

Concordo com a cabeça e mordo minha língua para não deixar algum par de lágrimas rolar por minhas bochechas. Já chorei tanto por essa situação que quanto mais tempo o divórcio levava para sair mais livre eu me sentia. É confuso, mas tudo na minha vida se resume à essa palavra: Confusão.

— Ele assinou só porque foi obrigado pela justiça, não é? — pergunto sentindo as mãos de Clove em meus ombros.

— Na verdade, ele assinou por saber que era isso que você queria e... — ela respira fundo. Clove enrijece. — Não é como se ele tivesse muitas opções na clínica.

— Clínica? — Como assim? — De reabilitação?

— Não. Clínica Psiquiatra.

Que merda é essa?

— Eu não estou entendendo. Ele pode ter feito o que fez, mas não é maluco.

— Sim, ele é. — confirma Madge. Começo a suar e sentir calor. Algo está errado. Não pode ser. — Depois que você foi embora, Peeta começou a ter fases. Oscilava entre sorrisos exagerados e deprimência. Ele perdeu dezesseis quilos, Katniss. Nós vimos que algo estava errado e quando o médico disse o que estava acontecendo, nós o colocamos numa clínica o mais rápido possível. Ele está internado vai fazer quatro meses.

— Porque vocês não me disseram isso antes? — pergunto sentindo uma bola se formar em minha garganta. — Vocês não podiam ter feito isso sem me contar.

— Katniss...

— Não, Clove! — repreendo tirando suas mãos de meus ombros. — Não é como dizer que alguém está com gripe. É uma doença mental!

— Escute — pede Madge segurando meus dedos nos seus. —, o médico que está cuidando dele disse que tem tratamento. Vai ficar tudo bem, você não precisa ficar nervosa.

— Quem está com ele?

— Ninguém.

— Porque?

— Não é aconselhável que fiquem perto. — franzo as sobrancelhas.

— Que merda, Madge. Como você pode dizer que vai ficar tudo bem com Peeta se não é, ao mínimo, aconselhável ficar com ele?

— Relaxe... — escuto Clove sussurrar.

— Como vocês puderem fazer isso com ele?! Já pensou em como ele pode estar se sentindo? — brigo com elas sentindo meu coração disparar.

— Katniss, nós queríamos poder acompanha-lo lá. — Madge diz. — Mas Peeta que não quer nossa presença. Nem a minha, nem a de Clove e nem a do irmão. Ele acha que nós somos os culpados por você ter ido embora. A noção da realidade que ele tem é ridícula. Os remédios tomaram conta dele praticamente.

Suspiro fundo. Não dá para acreditar.

— O que ele tem? — pergunto.

— Transtorno de personalidade Borderline. — conta Clove acariciando meus cabelos. — É, basicamente, uma instabilidade emocional. Às vezes uma felicidade extraordinária e outras vezes pensamentos mórbidos. O médico disse que é algo parecido com bipolaridade, só que mais violento. O psiquiatra ficou surpreso quando dissemos que ele nunca tentou se matar. É algo comum nas pessoas que portam essa doença.

— Porque? — pergunto com as lágrimas entaladas em meus olhos.

— Não se sabe exatamente. O cérebro é um mistério para os médicos.

— Me desculpe, Katniss. — Madge beija as palmas de minhas mãos. — Mas o Peeta de cinco anos atrás já era. Tudo que restou foi aquele monstro que te machucou. Agora ele está sob o comando de remédios e não o consideramos seguro.

— O que você quer dizer? — indago em meus últimos fios de voz.

— Quanto mais longe você e Jasmine ficarem dele, melhor.

É triste, é pesado, é cansativo e destruidor, mas é a realidade. Eu não pensava em esconder Jass de Peeta por toda uma vida. Até porque seu irmão é o padrinho de minha menina, uma hora ou outra pai e filha precisariam se ver. Nem que fosse uma vez. Eu jamais poderia esconder Jasmine de Peeta. Jamais.

— Alguém sabe o que foi que causou isso nele?

— Alguns dizem que pode ser genética. — sussurra Clove acariciando minha barriga. — Mas nossos sogros jamais aparentaram ter algo de diferente. Você sabe... antes de morrerem.

— Pode ter sido qualquer coisa. Ciúmes, problemas no trabalho ou algo de quando ele era pequeno. Essas doenças não aparecem assim do nada. Levam anos e anos para serem detectadas e infelizmente deu nisso. — Mad abraça meu corpo e coloca minha cabeça em seu ombro. Enxuga três leves lágrimas que escaparam sem permissão e beija minha testa. — Eu sinto muito, mas é para a sua segurança e a da Borboletinha.

— Eu sei. — falo balançando a cabeça afirmativamente. — Eu não quero mais falar sobre isso. Por favor.

[...]

— As malas já estão no carro. — anuncia Cato quando termino de arrumar meu cabelo. É um grande dia. O nascimento de minha princesa Jasmine.

— Quem é que está animado? — pergunta Madge quase pulando no lugar. Ela bate palmas, esbanja um belo e grande sorriso e pega seu celular para tirar mais algumas fotos minhas. A alegria dela chega a ser engraçada.

— Vamos, vamos. — apressa tia Paylor fechando as janelas de casa. Um arrepio cerca minha coluna e posso dizer o quão nervosa estou. Jass vai nascer, mas parece que vou assaltar o banco.

— Estou com fome. — digo quando Clove passa por mim e ajuda-me a levantar. Não demora dois segundos para todos estarmos do lado de fora de casa.

— Você vai comer depois. Agora não dá. — a morena diz abrindo a porta dianteira do carro preto de Cato.

— Mal começou o dia e eu já me sinto frustrada. — Cato ri ao postar-se do meu lado. Passo o sinto pela enorme barriga que carrego e fiscalizo as mulheres ansiosas nos bancos atrás de mim. Paylor e Clove nas laterais e Madge no meio. O dia está lindo. Não poderia ter um clima melhor para o nascimento de um anjo. O céu azul, o sol forte e bonito, barulhos de pássaros e uma brisa fresca.

— Bom dia. — saúda uma enfermeira por trás do balcão da maternidade. — Katniss Everdeen, certo?

— Isso mesmo. — concordo sorrindo. A ansiedade de saber que minha pequena logo estará nos meus braços é cada vez mais real.

— Não vamos perder tempo. — ela diz com um leve sorriso nos lábios. — O médico está a sua espera. Seu quarto já está pronto. Segundo andar, número treze. Pode colocar sua roupa que logo o anestesista passa lá.

— Obrigado. — Cato responde guiando a mim e meu grupo para o elevador.

Não demora muito e já estou confortável no quarto simples e branco. Um pequeno berço de cores claras está ao lado de uma cama composta de um lençol azul e um travesseiro macio. Enquanto alguns sentam-se no sofá de formato L creme, Paylor junta-se a mim no banheiro e me ajuda a trocar de roupa. É uma bata fina e desconfortável de cor azul e quadrados verdes, mas não me preocupo muito pois logo que saio do cubículo quadrado o médico que fará a cirurgia está cumprimentando Cato junto de um enfermeiro que julgo ser o anestesista que deixa um conjunto de equipamentos em cima da maca.

— Como vai a mamãe? — indaga o médico com os lábios curvados. Parece que hoje todos estão inclinados a sorrir.

— Com fome. — respondo arrancando-lhe leves risadas.

— Logo você poderá comer. Separou a roupa do bebê? — assinto quando ele pergunta. — Então vamos começar. A enfermeira já vem buscar a roupinha. Quem vai te acompanhar na cirurgia?

— Eu não...

— Deixe que a Madge vai. — tia Paylor responde com um olhar gentil. Confiro Clove e ela exibi a mesma reação. Recebendo um beijo na testa dado por Cato, deito-me na maca e agarro a mão da loira feliz ao meu lado.

— Boa sorte. Te vejo com a Borboletinha nos braços. — tia Paylor diz e em seguida a maca começa a ser arrastada para fora do quarto.

É tudo rápido e tranquilo. Madge já com a roupa apropriada não solta minha mão um segundo sequer. Faz-me perguntas para me distrair, acaricia meus cabelos e não desvia seus olhos dos meus. Sorrio quando ela indaga se sinto alguma dor, mas respondo apenas que meu coração fica cada vez mais acelerado. É então que os poucos minutos parecidos com a eternidade se finalizam. O choro de Jasmine se faz presente e seus fortes pulmões mostram o quão saudável ela é. O cirurgião não perde tempo e traz meu bebê coberto de sangue e envolto de uma manta azulada para perto de mim. Beijo a cabeça suja de Jass e logo a levam para longe de mim. Explicam que é o procedimento padrão e que assim que eu estiver voltando para o quarto, ela já terá feito todos os exames e estará pronta para a primeira mamada.

— Ela é perfeita, Kat. — constata Mad enxugando suas lágrimas enquanto eu seco as minhas. Embolo-me com os fios em meus dedos, mas acabo me encontrando e terminando a ação.

— Linda.

As luzes da sala cegam-me e deixo meus olhos fechados para controlar as emoções. Quando percebo já estou no quarto novamente. Alegre, vejo todos animados para receber minha menina e uma enfermeira baixinha e ruiva aparece trazendo um embrulho mediano nos braços. Ela deixa o bebê em meus braços e não perco tempo em analisar.

Pele lisa, cheirosa, bochechas avantajadas e pernas curtas. Cabelo ralo, claro e liso. Deixo que coloquem a touca em sua cabeça e fico passando as mãos em seu corpinho sem conseguir desviar minha atenção de Jasmine. Ela dorme tranquila, os lábios finos projetados levemente para frente me fazem ficar louca para tocá-los. Sinto a textura de seu macacão branco dado por Madge, agarro seus dois pés cobertos por uma meia rosa de lã e coloco meu dedo indicador direito por entre sua mão pequena fechada e a beijo.

— Eu te amo, Borboletinha. — sussurro em sua orelha gostosa. — E é impossível não amar seu pai por ter me dado você. Não importa como tenha sido, ter você é a melhor coisa desse mundo. Seu rosto é tão parecido com o dele... Mamãe te ama, viu? Muito mesmo.

[...]

— Será que você consegue dizer mamãe de novo? — pergunto para Jasmine que ri para mim. Ela bate palmas e exibi suas gengivas de poucos dentes para mim. — Você disse ontem de noite. Consegue dizer agora?

Ela nega com a cabeça sapeca e é impossível não rir disso. Puxo-a para meus braços e beijo sua barriga coberta pela blusa de malha rosa várias vezes. Jass gargalha e bate suas mãos leves em meu braço como se dissesse ‘’É gostoso. Não pare, mamãe’’.

É lindo como ela cresceu e se desenvolveu rápido. Não perdeu muitos traços e adquiriu uma covinha na bochecha. Seus cabelos continuam loiros, porém cacheados e cheios. Seus olhos que eram um mistério agora são lindamente azuis. Em seus onze meses de vida, a cor deles não mudou quase nada. O que me deixa feliz. Ela vai mantê-las por toda sua vida.

— Tatá. — grita ela jogando os braços para cima.

— Tatá? Que tal mamãe? — pergunto fazendo-a negar novamente.

Pequena teimosa.

Ouço alguns trovões e logo uma chuva forte começa a cair. Arrumo o pingente da letra J preso em meu cordão sentindo meu coração disparar e acabo abraçando minha Borboletinha. Ela beija minha bochecha segurando meus cabelos com suas mãos delicadas e isso me acalma.

— Alô. — atendo meu celular quando ele toca desesperado.

— Katniss! Você está em casa? — grita a voz de Madge e estranho seu nervosismo.

— Claro que estou. Só eu e Jasmine. — conto-lhe lembrando de Paylor que foi visitar uma amiga doente.

— Por favor, tome cuidado. Não abra as portas e se tranque no quarto! — pede ela agitada. Isso me apavora.

— O que? Madge, fale com calma.

— Não temos tempo para calma. Eu, Cato e Clove estamos na estrada. Acabamos de sair do aeroporto. Está um transito do inferno! Não vamos conseguir chegar. — conclui ela falando para alguém que não sou eu.

— Espera. — vistorio Jasmine engatinhando pela sala. — Do que você está falando? Eu não estou entendendo.

— Ele fugiu, Katniss. Peeta fugiu da clínica. — gelo. — Ele descobriu onde você está morando e sabe que Jasmine existe. Não abra a porta!

Meu coração para. Peeta está vindo. Ele está por perto.

— Quando? Quando ele fugiu?

— Pela madrugada. — conta chorando. — Ele deve estar muito perto. Não abra a porta, por favor. Ninguém sabe como ele está mentalmente. Pode estar mais violento. Peeta nunca tentou fazer algo assim. Tome...

— Mad! — interrompo ouvindo a campainha.

— O que?!

— Ele chegou.

Desligo o celular. Madge me deixará mais nervosa ainda.

— Katniss! — Peeta grita batendo as mãos na porta. Chove muito, trovoadas inundam o céu e é perigoso deixa-lo do lado de fora. — Abre a porta!

Não dá tempo de fazer nada. Nem de pegar Jasmine e nem de correr para me trancar. É como um dejavú. Meu coração bate forte, parece estar em minha garganta e na ponta de meus dedos. Entro em choque. Peeta agarra a maçaneta e a empurra, força a porta e ela se abre. Como num passe de mágica. Ele está encharcado, sujo de lama, com as calças jeans grudadas em seu corpo e a blusa fina empapada. Ele está péssimo. Tem o rosto machucado, olheiras gigantes e o cabelo todo para cima.

— Fique onde está. — mando firme atraindo sua atenção quando ele tenta andar até mim. — Eu juro que se chegar perto, você não sai vivo dessa casa.

— Porque fez isso comigo? — pergunta parecendo uma criança inocente. Ele não me engana. Sua voz fica agressiva de repente. — Você não podia! Não podia ter me deixado lá sozinho, monstra.

— O monstro aqui é você. — Deuses. Estamos a menos de cinco metros um do outro. Olho para o lado disfarçadamente e acho seguro onde Jasmine está. Escondida atrás da parede da escada. — Você é doente.

— Eu não queria ser assim! — briga puxando seus cabelos revoltados e chorando. Peeta está irreconhecível. Colocando sua mão em seu peito ele diz: — Não queria ter feito o que fiz, não queria ter te machucado e muito menos estar naquela clínica. Preso como uma experiência científica que é analisada vinte e quatro horas por dia! Você sabia que eu fiquei sem ver ninguém além do médico por mais de sete meses?!

— Para.

— Eu não gosto de estar lá. Não gosto de tomar remédios como se precisasse deles para viver. — conta ele. As lágrimas rolam por seu rosto. Peeta devia estar guardando seus sentimentos por muito tempo. É quase maníaco. — Mas eu sei que mereço. Eu sei que eu devia estar morto pelo que fiz com você, eu não deveria viver porque acabei com nós dois, Katniss.

— Peeta, calma. — peço quase vomitando meu coração. Sinto-me trêmula, preciso manter minha atenção nele e em Jasmine, mas vê-lo se desfazer a minha frente é aterrorizante.

— Eu estou tentando concertar a burrada que fiz. Por favor, me ajuda.

Ele está desesperado. Como uma criança perdida dos pais. Sua aparência é a mais deprimente possível.

— Você devia ter ficado na clínica.

— Não! — grita me assustando. — Eu não aguento mais. Parece que cada segundo faz eu me aproximar mais do abismo. Eu me sinto sufocado, Katniss.

— Tatá.

Não! Jasmine, não!

Minha filha engatinha até mim e isso não passa despercebido. Peeta logo a encara assustado como se não esperasse vê-la agora. Ele sabia que ela existe. Peeta está diante de sua filha de onze meses pela primeira vez e parece perdido com isso. Abaixo meu corpo rapidamente e a puxo para os meus braços.

Você devia ter ficado em seu esconderijo, Borboletinha.

— É a nossa filha, não é? — pergunta secando o rosto bruscamente.

— Peeta...

— Não é? — berra assustando Jass em meu colo. — Eu não... Desculpe.

— Você tem que ir embora. — peço lembrando de Madge que vem com Cato e Clove atrás dele. — Você tem que voltar.

— Não, Katniss. Eu não gosto de lá. Eu tenho medo. — sussurra como se fosse um segredo. — Me deixe ficar aqui. Eu quero ficar com vocês.

— Você precisa de ajuda.

— Não. Preciso de você. — chora ele antes de apontar para Jasmine alheia em meus braços. — Deixe eu tocar nela, Katniss. Pelo menos uma vez. Eu imploro.

— Você vai machuca-la. — nego apertando-a mais forte.

— Eu não seria capaz disso. — confirma caindo de joelhos. — Por favor.

Ele fica repetindo essas duas palavras várias vezes e sei que se quero que ele se afaste para poder se recuperar na clínica, vou ter que dar o que ele quer. Não posso jogar-lhe uma negativa. Estou sozinha com Jasmine em casa. Como posso saber o que isso causará nele?

— Cinco segundos. — restrinjo vendo-o concordar sonhador.

Aproximo-me dele. Passo por passo. Coração batendo como nunca. Vejo outras dúzias de lágrimas escorrerem em seu rosto quando ajoelho na frente de seu corpo. Abro os braços e deixo Jasmine se sustentar de pé sozinha. Ela vira para Peeta e fica o encarando, analisando-o e tentando reconhece-lo. Ele por sua vez, ergue as duas mãos e as retorce antes de depositar gentilmente alguns dedos sobre o rosto de Jass.

— Oi, filha... Escute, eu sei que você não me conhece, mas saiba que eu te amo. Tudo bem? — ele inclina a cabeça e eu libero algumas lágrimas. É doloroso demais. — O papai está tentando melhorar para ficar com você, mas dói. Eu não gosto. Machuca muito. Eu te amo e, por favor, nunca se esqueça disso. O papai precisa que você se lembre.

— Papa? — pergunta ela.

— Isso mesmo. — ele concorda sorrindo antes de dar um beijo em suas mãos. Ele sabe que eu não deixaria passar deste gesto.

Porém é rápido e logo depois disso, barulhos de sirenes rompem nossa conversa. Cato passa pela porta junto de dois caras vestidos de enfermeiro. Cato chamou a merda da ambulância. Com isso, os dois homens seguram Peeta pelos braços e o arrastam para longe de mim.

— Está tudo bem?! — pergunta Madge correndo até mim e abraçando meu corpo junto do de Jass.

Afirmo num leve sussurro e aperto Jasmine em meus braços. Ouço os soluços de Peeta do outro lado da porta se misturarem aos meus. Porque? Porque tão difícil?

— Katniss! Não! Por favor. Me ajuda. — Peeta pede desesperado.

— Papa. — chama Jass em meu pescoço.

— Cuida dela. — peço passando minha filha para os braços da madrinha.

Não presto atenção em ninguém que tenta me barrar ou impedir minha passagem. Só consigo me concentrar na chuva caindo sobre meu corpo e o de Peeta tremendo nos braços dos socorristas. Ele implora para que o soltem, mas os dois não prestam atenção em seu pedido. Estou perto dele quando tentam aplicar-lhe algo com uma seringa.

— Não! — grito impedindo o ato.

— Socorro. — Peeta pede deitado no chão frio da ambulância. Afasto as pessoas ao redor dele e sento-me sobre suas pernas.

— Shhh. Olha para mim. Peeta! — chamo ele agarrando sua nuca. Ele parece perdido quando foca seus olhos nos meus.

— Me ajuda.

— Você precisa se acalmar. — aconselho limpando seu rosto. — Eu vou te ajudar. Você vai para a clínica de novo e eu farei de tudo para te visitar. Se você ficar bem, nossa filha vai poder ficar com você. Entendeu? Nossa Borbolhetinha precisa de um pai. Você tem que melhorar, Peeta. Você precisa ir para poder ficar com a Jasmine.

— Tudo bem. — concorda ele chorando. Abraço seu corpo sentindo-o tremer.

— Precisamos leva-lo, moça. — anuncia um dos homens.

— Katniss... — chama Peeta sussurrando quando estou deixando-o sozinho. — É um lindo nome.

— É sim. — confirmo. — É sim...

Notas finais
Lágrimas? Sim. Muitas. LEMBREM que ainda temos mais 1 capítulo. Enquanto isso, comentem, recomendem, favoritem e apareçam lá no Facebook. Grupo do Facebook: https://www.facebook.com/groups/1454122631524474/