Dia 22 de julho de 2010

O vento batia no meu rosto, forçando entrada nos meus olhos e me fazendo chorar.

Era estranho pensar, que num segundo você tinha tudo. Casa, carro, estudo, namorado, família e principalmente amor. E no outro segundo, você não tinha mais certeza se aquelas coisas te pertenciam ainda.

Começou quando minha mãe foi numa “vidente”, e ela lhe disse que as coisas estavam começando a desmoronar na nossa família. E que futuramente era para MIM, voltar lá. Ninguém acreditou. Mas aquele gostinho de duvida sempre esteve ali presente. Um mês depois, a empresa de meu pai fechou, e minha mãe foi despedida do emprego. Passamos um ano, com as contas apertadas e tendo que vender nossas coisas. Eu vendi meu fusquinha conversível. E meus pais venderam a casa na praia. E mesmo assim as coisas continuavam ruins.

Eu queria parar de estudar, mas meus pais falavam que estudo vem sempre em primeiro lugar. Então eu continuei.

Passados mais um ano, as coisas ainda não tinham melhorado. Nenhum de meus pais havia conseguido emprego. Por isso tivemos que hipotecar nosso ultimo objeto de valor, a nossa casa.

Christopher era meu namorado. Eu sabia dês do inicio que ele só estava comigo por fama e dinheiro. Mas pensei que gostasse um pouco de mim. Novamente enganada. Terminou comigo, logo que percebeu que as coisas estavam indo por água baixo. Minhas amigas da escola, da noite para o dia, fingiam que não me conheciam. Apenas Rose, ficou ao meu lado até o final.

Dois meses depois de concluir o ensino médio, eu estava me despedindo dela. Iríamos morar numa pensão em Ohio. Mas prometi que voltaria, e dessa vez seria permanente.

Foi ai que as coisas realmente mudaram. No caminho para Ohio, sofremos um acidente de carro, e meus pais morreram. Deixando nada versus nada para mim. Eu não me importava em ser pobre, ou morar num porão. Dês de que eu os tivesse comigo, eu ainda assim seria feliz.

Fui obrigada pela lei a morar com minha avó. Eu cuidei dela durante três anos. Até criar coragem, e voltar para onde tudo tinha terminado. Algo me dizia que eu devia fazer um novo começo lá.

Peguei o dinheiro que havia sobrado das coisas que vendi depois do acidente, e mais algum que minha bondosa avó me emprestou. E rumei para minha antiga cidade.

O vento teimava em bate no meu rosto, jogando meus cabelos para o alto, e resfriando minhas orelhas. Tinha recém chegado a Seattle, ainda não tinha visto Rose, e acima de tudo. Ainda não tinha visto lugar nenhum para me hospedar.

Eu caminhava pelas ruas já escurecidas do meu antigo lar, e notei como as coisas haviam mudado. Lojas que antes estavam lá deram lugar a parques e vice-versa. Eu já quase não reconhecia nada ali, com a escuridão da noite, e com apenas algumas luzes de postes ligadas. Mal enxergava as placas das lojas e das ruas. Todas estavam fechadas.

Caminhei mais um pouco tentando avistar alguma placa de hotel, mas novamente tornei a não enxergar nada.

Senti um pingo cair leve na minha bochecha e me apressei a colocar o capuz e achar um lugar coberto. Tirei os cabelos dos olhos e avistei na esquina, uma pequena luz acesa. Era uma loja. Corri com a esperança de ainda estar aberta, e abrigar-me lá dentro.

Antes de bater na porta, coloquei as mãos no vidro e enquadrei meus olhos entre elas. Para ver se conseguia enxergar algo lá dentro. Tinha uma luz fraquinha, dos fundos acesa. O som estava ligado e havia um homem dançando no centro da loja, com uma vassoura na mão. A chuva aumentou, me forçando abrir a porta.

Eu não sabia muito que dizer, então apenas fiquei olhando ele dançar e cantar com sua vassoura. Larguei minha bolsa encima da mesa calmamente, e tirei meu capuz. Sacudindo-me um pouco, para retirar os pingos de chuva.

O rapaz ainda não havia percebido minha presença ali. E tão logo não perceberia, por causa da chuva e do som. Olhei em volta e notei que estava numa loja de doce, ela era completamente escura e linda. Potes de balas para todo lugar, bife de chocolate e prateleiras cheias de guloseimas. Tirando aquele aspecto escuro da madeira marrom, e colorindo tudo ao redor.

A musica chegava ao fim, e o rapaz diminuía seu ritmo de dança-limpeza, e passava a limpar o chão do lugar. Quando a musica acabou ele foi até o som, e colocou play novamente, tocando uma musica calma. E da mesma forma de antes, ele dançou, só que de olhos fechados enquanto murmurava a letra da musica.

Eu estava me segurando para não rir dele. Não de engraçado, mas da maneira que ele se converteu num mundinho só dele, e não percebendo minha pessoa ali.

Eu ainda não tinha conseguido ver seu rosto, mas constatei pela altura e estrutura muscular, que tinha menos de 25 anos. Notei também que seu cabelo, estava com a parte de cima do cabelo, presa para trás.

Pendi o peso do corpo para uma perna só, e fiquei a observar-lhe.

Meus pensamentos voavam dele até meus pais, meus avós, Rose, etc. até que foram interrompidos por um clarão que tomou o céu, trazendo em seguida um trovão. Assustando-me e me fazendo soltar um pequeno gritinho.

O rapaz, de imediato virou para mim. Agora percebendo que eu estava ali. Foi até o som, desligando-o e voltando para o meio da loja, apoiando as mãos na vassoura e o queixo encima delas.

- A loja esta fechada. – ele disse calmo.

- Eu... Na... Bom... Eu prec... – parei de falar, ou melhor, gaguejar e respirei fundo, voltando a falar com clareza – Desculpe a minha invasão. Eu apenas precisava de um lugar para abrigar-me. Ate a chuva parar.

- É nova na cidade? – ele pediu ainda na mesma posição.

- Sou. – cocei a cabeça — Na verdade, eu já morei aqui. Mas voltei. – tentei explicar, mas acabei achando melhor deixar por assim, não seria bom explicar minha vida para um estranho – Mas como você sabe?

- Porque eu trabalho aqui há anos, e você nunca entrou na loja.

- Freguesia boa?

- Ótima.

- Que bom.

A chuva lá fora, agora caia mais fina e menos barulhenta. Mas o que realmente estava me incomodando era o silencio que havia impregnado aquele lugar. Eu balançava meu corpo calmamente, enquanto mordia os lábios de nervosa. E ele apenas ficou parado na mesma posição de antes. Agarrado na vassoura.

- Bom, acho que já vou indo.

- Quer alguma coisa?

Falamos ao mesmo tempo. Fazendo-nos rir, e me fazendo pensar em como aquilo tudo era idiota. Eu já era considerada adulta, sabia me cuidar sozinha. Apesar de todas as controvérsias. A chuva parava aos poucos, mas como eu ainda não tinha lugar para ficar, correr na chuva não seria uma boa idéia.

- Eu deveria ir embora. – eu falei pegando minha bolsa – Mas como eu não tenho lugar para ficar, acho que aceitarei sim, algo que você queira me dar.

Passei por ele, e me sentei nos bancos altos que ficavam na frente do balcão central de doces.

Ele largou a vassoura no chão, e ligou o som. Vindo em seguida para trás do balcão, parando na minha frente.

Agora sim eu podia ver seu rosto. Olhos verdes e expressivos, pele clara e cabelos castanhos e o sorriso mais lindo que eu já havia visto. Uma fileira de dentes brancos estampava seu rosto. Trazendo-lhe um ar de sinceridade e tranqüilidade. Resumindo, ele era belo demais.

Andou mais um pouco, e após uns minutos trouxe duas xícaras de café. Entregando-me uma.

- Prazer, meu nome é Jasper! – ele estendeu a mão para mim.

- É um prazer. – eu o cumprimentei – Alice.

- É um prazer conhece-la.

Tomei um gole do meu café, constatando que ele estava extremamente gostoso.

- Foi você que fez? – eu pedi apontando para a xícara.

- Digamos que metade fui eu, e a outra metade a máquina.

- Como assim?

- O café já vem pronto da maquina. Mas os ingredientes especiais, sou eu que coloco! – ele disse fazendo mistério.

- E eu poderia saber, quais são esses ingredientes?

- Quem sabe! – ele deu de ombros – Um dia, talvez eu possa te contar!

- Ficarei honrada!

Rimos e, eu tomei mais alguns goles daquela delicia. Ele estendeu o braço e pegou um pote, com alguns chocolates dentro. Fazia meses que eu não comia chocolate nenhum. Sempre estava em contenção de despesa.Olhei com certa duvida para o pote. Mas achei melhor não pegar nada.

- Pode pegar. O dono não esta aqui. – ele empurrou os chocolates para mim, enquanto comia uns também. Eu estava com um pouco de fome, mesmo achando que aquilo era errado, peguei alguns. Provando-os.

- Acho melhor eu ir. – eu falei, ao perceber que a chuva já havia parado. E que estava ficando tarde para andar sozinha na rua – Obrigada por tudo. Mesmo.

- Na verdade, eu que tenho que lhe agradecer. – ele disse se dirigindo para a porta, junto comigo. – Eu sempre fico aqui depois do meu expediente. Sozinho.

- Deve ser chato.

- Você me fez uma pequena companhia hoje. Foi legal!

- Então acho que estamos quites? – eu perguntei confusa.

- Acho que sim. – ele disse, estendendo a mão para mim. – Apareça qualquer dia desses. Será um honra ter sua ilustre presença nesta loja.

- Irei aparecei! – falei retribuindo seu aperto. – Tchau.

Sai da loja, e logo tratei de colocar meu capuz. Eu não queria pegar mais nenhuma chuva, apesar de não estar mais chovendo. E queria passar despercebida pelas ruas.

Escutei a porta ser fechada atrás de mim, e me virei. Vendo ele ainda parado na porta, com suas duas esmeraldas reluzentes, e um sorriso de canto. Agarrei minha bolsa e dei um tchauzinho, atravessando a rua e sumindo pela esquina.

Eu precisava achar um lugar, para passar pelo menos à primeira noite. Assim eu descansaria, colocaria os pensamentos em ordem e pela manhã iria achar um trabalho. E se desse, visitar Rose. Eu estava morrendo de saudades dela. Caminhei durante uns dez minutos, até achar um hotel meia boca aberto. Aluguei um quarto, e subi as escadas. Sentindo as ações, do dia, reagir em forma de dor muscular. Instalei-me rapidamente no quarto e tomei uma ducha bem quente. Eu não tinha nada, apenas minha maxi bolsa, onde eu levava até minha alma. E uma mala pequena de mão, onde coloquei algumas peças de roupas e meus bens mais valiosos. Mal sequei o cabelo e logo adormeci, sentindo meu corpo todo relaxar. Amanhã, seria um longo dia.

Notas finais
N/A: Oiieee GeenteM! E aii, o que acharam? *.*
Espero que tenham gostado (eu sempre espero né? -.-)
ENTÃO eu espero q comentem
Beiijooos