Notas iniciais
Capítulo novo gente. O mais longo até agora, mas isso é porque contém pistas e conteúdos cruciais para o entendimento da história a partir de agora, então fiquem atentos ao ler. Agradecendo a Brownie e a Sofhi-chan, depois respondo seus comentários propriamente meninas,muito obrigada por comentarem mais uma vez.Aqui vai o capítulo novo.

Sinto cada milímetro da pele da pessoa que estou tocando agora. Cada pedaço de seus lábios, cada partícula de sua boca. Eu sinto tudo. Não calculo o tempo que passo conectada a essa pessoa pelo ato de um beijo, apenas sinto o momento.

Não quero julgar minha ação como certa ou errada, porque agora, eu não sinto nada além de Len conectando-se a mim dessa maneira. Normalmente, eu estaria mole e a ponto de explodir de tanto nervosismo, mas agora, eu me sinto mais tranquila do que nunca. A única coisa que sinto além dos lábios do loiro é a leve brisa que entra pela janela.

Ao nos separarmos, nossas bocas se afastam, mas continuo segurando suas roupas com minhas duas mãos. Aí sim, sinto meu corpo amolecer e meu coração acelerar, tento não olhar para seu rosto de primeira, mas lembro do que Kaito disse sobre sorrir depois de beijar alguém, então decido arriscar.

Levanto minha cabeça lentamente vejo que Len também está com sua cabeça baixa, então digo:

–Vai ficar no silêncio outra vez? Vai me deixar sozinha de novo?

–Não tenho essa intensão. –ele levanta a cabeça sorrindo- Foi só que... Você me pegou de surpresa.

Ele está sorrindo, ainda bem.

–Então... –procuro por algo para dizer — Desculpe, isso deve ter sido constrangedor. Mas eu falo sério, não quero desistir. E você me deve muito por ter me deixado tanto tempo no vácuo.

–Ah, então está se aproveitando de mim? Garota atrevida. –seu sorriso muda de forma e seus olhos ficam um pouco opacos- Mas quero que você saiba que não é apenas você que pode jogar desse jeito.

–Jogar? Do que está falando?

–Você me beijou Rin, acha que não posso beijar você? –ele diz pondo sua mão em meu rosto- Não me entenda mal, não é porque eu disse que não podia sair com você, que eu não queira fazer esse tipo de coisa com você.

–Ei Len... Aonde você quer chegar? Eu não estou entendendo...

–Você já vai entender. –ele se aproxima de mim novamente.

Recosto-me na cabeceira da cama da enfermaria e ele vem por cima. Logo ele volta a me beijar, o que me deixa surpresa. Nunca imaginei que ele fosse querer algo do tipo depois de tudo que me disse.

O beijo vai cada vez mais profundo, me deixando sem ar... É diferente de antes, é diferente de tudo que já vi em Len... Afinal, isso é outra parte desconhecida dele?

Ao nos separarmos, ele se afasta um pouco, continua com sua mão esquerda em meu rosto, enquanto sua mão direita vai de encontro a minha coxa, ele começa a acariciar a região, o que me provoca arrepios e me faz encolher as pernas.

–Len, o que está fazendo? Não parece você! –digo assustada.

–Não parece comigo? Suas atitudes também não. Você estava tremendo quando se declarou para mim, mas está completamente tranquila agora. Você gosta de mim, não gosta? Então por que está assustada?

–Porque sua mão está aí...

Ele toma um susto e retira sua mão da minha perna, seu rosto volta a ficar vermelho e seu sorriso deixa a forma pervertida de lado.

–Desculpe, deixei-me levar. –ele diz sorrindo meio sem graça.

–Eu não me importo se você me beijar, mas é que esse toque foi estranho. E... Eu não imaginava que você fosse querer algo assim depois de dizer que não me via desse jeito e que não podia sair comigo. E o que quer dizer com “só porque eu disse que não podia sair com você, não quer dizer que não possa lhe beijar”?

–Quero dizer que beijos não são coisas que só namorados trocam.

–Mas eu quero trocar beijos com você como sua namorada. Se você pode me beijar, por que não pode ir além? Se continuarmos nossa amizade e continuarmos nos tocando desse jeito, não vai ser como um relacionamento de verdade?

–Você sabe que relacionamentos de verdade vão além dessa superfície rasa. –ele olha para baixo e aperta os lençóis.

Mesmo estranhando seus atos, tento entender o que ele quer dizer. Algo o impede de ir além comigo, mas isso não quer dizer que ele não me queira. Quero fazer algo para tirá-lo dessa tensão, porque sei que isso é constrangedor. Caminho com minha mão pelo colchão até alcançar a sua, mas isso não ocorre, pois ele levanta a face e leva sua mão para meu rosto novamente.

Dessa vez, seu toque é diferente. Ele toca meu rosto com o dorso da mão, fazendo uma leve carícia. Sinto minha bochecha arder e percebo que é um toque mais do que diferente do anterior, esse é carinhoso, mas não mais carinhoso do que ele diz:

–Você... É linda Rin... –ele mostra um sorriso constrangido- É bonita, talentosa, inteligente... Muitos ficariam loucos por você, e eu devo admitir que é difícil me controlar perto de você. Isso deve ser meio contraditório do que te disse ontem, mas meio que completa... Eu sou um cara cheio de problemas, cheio de defeitos. Tenho tantos problemas para resolver, que você nem imagina...

–Len... Isso quer dizer que...

–Não tire conclusões precipitadas. Desde que comecei a ficar mais próximo de você, claro que senti algo diferente, mas não posso dizer se é amor por que... Não sei se amo a mim mesmo.

–O quê? –pergunto confusa e assustada.

–É uma longa história, mas vamos resumir da seguinte maneira; deixei-me resolver meus problemas antes, assim eu terei tempo de desvendar o que sinto por você e lhe responder propriamente. Até lá, será que você pode...

–Espere! Nem mais uma palavra! O que você me disse ontem, que não tinha o que era preciso para corresponder meus sentimentos, e agora fala de seus problemas...

–Acredito que cada um tem sua vida e sua missão. A minha é meio complicada, mesmo que não pareça e eu não quero envolvê-la nas loucuras das raízes da minha alma. Então se você puder esperar até que eu resolva tudo, talvez depois disso eu possa pensar em nós dois como algo além de amigos.

Meu Deus, isso é uma esperança!

–Mas você disse antes que relacionamentos davam trabalho e que tinha preguiça de sair com alguém, além de ser tímido demais para encontros...

–Então, o que acha que originou tudo isso? Essas coisas, além da falta de vontade de estudar e fazer coisas úteis vem de lá de trás. De problemas enraizados que preciso resolver. E além do mais... Creio que por você, vale a pena.

–Len, você não precisa resolver nada seu por mim. Tem que resolver por você.

–Mas é por isso que não posso sair com você enquanto não resolver minha vida. Se não posso cuidar de mim, como posso cuidar de outra pessoa? E antes que você diga que em relacionamentos tudo é dividido, eu sei disso, mas existem pesos que preciso carregar sozinho.

Nada disso parece com o que Len costumava dizer. Sempre fugindo de suas obrigações e responsabilidades, agora quer voltar atrás de seu passado e consertar as coisas, além de ter uma atividade extracurricular que possa ajudá-lo a pensar numa carreira, mesmo que pensar no futuro sempre fosse torturante para ele.

Não sei se isso é algo que vem de alguma parte dele desconhecida, ou se ele está simplesmente mudando, mas a única coisa que posso dizer é que estou gostando disso. Não só porque há uma possibilidade dele me dar uma chance, mas dele se dar uma chance. Ontem ele me disse que não era capaz de inspirar minha paixão, e agora está tentando voltar atrás disso. Se fui eu que o fiz voltar atrás de tudo e quiser se tornar uma pessoa melhor, fico honrada, mas eu ficaria mais ainda se soubesse que isso vem de dentro dele próprio.

–Nossa, eu fico surpresa e feliz ao mesmo tempo em saber que você está dando tantos passos à frente.

–Não são exatamente passos para frente. Ou melhor, alguns são, como o clube de música, mas outros são uma volta ao passado.

–Bem, eu não sei quais são seus problemas, e também sei que não me interessam, mas torço para que tudo se resolva para você. E desejo-lhe boa sorte. Não só porque te amo, mas porque sou sua amiga, e amigos torcem uns para os outros. E você não precisa se preocupar em ser rápido, use o tempo que precisar para resolver sua vida, porque eu estarei aqui, esperando por você. E também estarei sempre disponível se precisar de ajuda. –digo sorrindo.

–Obrigado Rin! Fico feliz em saber que posso contar com você! –ele diz tentando deixa a cama da enfermaria, mas o impeço.

–Quem disse que você pode sair? – seguro seu pulso e dessa vez, eu que traço um sorriso pervertido.

–O que foi? Não está mais com vergonha? – seu sorriso também muda.

–Quero mais... –desvio o olhar envergonhada.

Ele volta e segura meus ombros, olha bem nos meus olhos e diz:

–Eu posso ficar viciado nisso.

–Essa é a ideia.

–Você é realmente atrevida.

–Você não fica atrás. E eu nem sabia que você era assim.

–Tem muita coisa sobre mim que você não sabe. –ele se aproxima mais.

–Eu quem deveria estar dizendo isso.

Mesmo não sendo namorada de Len, fico mais do que contente em beijá-lo, porque em meses, era tudo o que eu queria. Estou afogando-o em meus sentimentos e talvez, eu possa conhecê-lo melhor apenas conectando-me a ele dessa maneira. Quero dizer, ele estar certo sobre pessoas que não namoram poderem se beijar. Kaito e eu somos um bom exemplo disso, mas ainda usando o exemplo do azulado, nós ficamos mais próximos depois que começamos a trocar esse tipo de afeto. Passei a conhecer mais suas fraquezas e ficamos mais próximos um do outro, mesmo que a gente não tenha mais esse tipo de relação.

Então, beijar Len, mesmo fora de um compromisso, é uma maneira de conhecê-lo mais, saber suas fraquezas, seus segredos, suas técnicas para beijar... Como Kaito se abriu comigo depois de alguns beijos e assim o fiz com ele, Len fez comigo. Mesmo não tendo falado de seus problemas literalmente dizendo-me quais são, ele ainda assim explicou tudo o que queria, tudo que sentia sobre mim, ou quase tudo, mas mesmo dessa forma, ele falou mais do que quando conversamos ontem.

Ou seja, beijos resolvem problemas.

Sua respiração próxima de mim, suas mãos que descem dos meus ombros e vão até minha cintura, enquanto meus braços entrelaçam seu pescoço, puxando-o para mais perto de mim. Seus lábios roçam os meus, deixando-me mais desesperada pelo seu toque completo, o que não ocorre, pois a enfermeira chega e logo temos que nos separar antes que ela nos veja.

–Ah, eu acho que ela já não está mais com febre... –Len tenta dizer, tropeçando nas palavras.

Nessa altura do campeonato, eu já havia esquecido o motivo de estar na enfermaria. Por incrível que pareça, minha febre realmente baixou e nós somos liberados de lá. Saímos ambos em direção à sala de aula.

–Seu cabelo está bagunçado. –Len me avisa.

–Ah é? Deixa assim, estou com preguiça de arrumar.

–Desleixada.

–Falou o cara que tem preguiça de cortar o cabelo.

–É meu charme. Vai dizer que não?

–Cala a boca. –digo rindo- Então, quantas aulas nós perdemos?

–Você perdeu a aula de educação física e duas aulas de história. Mas relaxa, a outra aula foi de artes e agora é hora do almoço.

–E você perdeu essas aulas? Não vai lhe prejudicar?

–Eu estudo depois.

–Você? Estudar?- começo a rir ironicamente.

–Ei, eu disse que ia mudar. Os professores disseram que eu podia ficar com você. Na verdade, era para a Neru ficar contigo, já que ela é a presidente da turma. Mas ela me mandou no lugar dela porque não queria perder aula.

–Essa Neru... Então, como fica nossa situação? Vamos fingir que nada aconteceu na frente das pessoas e continuamos nos pegando em segredo?

–Uau, gostei do termo “nos pegando”. Se quiser contar para alguém, vá em frente, mas seria mais legal se isso fosse um segredinho nosso.

–Gostei do termo “segredinho”. –digo rindo- Mas eu não quero atrapalhar sua resolução de problemas, então não vamos ficar nos pegando em segredo.

–A menos que um de nós queira descarregar alguma tensão. Tipo como foi agora a pouco. –ele retribui o sorriso.

–Fechado! –digo fechando a mão em um punho e direcionando a ele para que ele me cumprimente com um soquinho, e assim ele o faz.

Reúno-me com minhas amigas, colegas de classe. Elas (principalmente Teto) parecem estar muito preocupadas comigo, mas explico tudo e digo que não é nada sério. Neru começa então a me interrogar:

–Len ficou lá com você?

–Ele me fez companhia.

–Do tipo das boas? –Neru pisca para mim.

Percebo que ela esconde algo. Sei que ela quem mandou Len ficar comigo na enfermaria, mas ela não pensaria nisso de graça. Ela sabe de algo que não sei, ou algo que não percebi. Decido então perguntar a ela longe de Teto e Haku, chamo-a para comprar um suco na máquina de vendas perto da escada que nos leva ao terraço. Ela percebe minhas intenções e decide me seguir sem fazer perguntas.

Chegamos ao local e eu pego uma garrafa de suco de morango, enquanto Neru pega uma soda. Decido então, a começar o diálogo:

–Então, por que a grande ideia?

–Len me contou tudo. –ela diz abrindo a lata- Desde o momento que você se declarou, até o quando vocês voltaram a se falar.

–Isso eu sei. –tomo um gole do suco.

–Ele me disse, enquanto vocês não estavam se falando, que se sentia o maior idiota do mundo por ter feito isso com você, mas ele se sentia nervoso demais para chegar perto de você e pedir desculpas. O Len não é a melhor pessoa quando se trata de relações sociais. Eu disse que era para ele voltar a falar com você o quanto antes, porque sabia que de certa forma, você estava sofrendo.

–Ele disse que se sentia nervoso?

–Sim. Ele ainda se sente. Na verdade, quando ele começou a ser seu amigo no início do ano, ele me perguntava muito sobre você e sempre elogiava dizendo que você é um gênio. Mas isso não vem ao caso agora. Ele foi pedir um conselho ao Rinto, não só sobre você, mas sobre como aumentar as notas dele sem esforços.

–E então eles tiveram uma briga ou algo do tipo? –pergunto.

–Exatamente. –ela diz depois de um gole do refrigerante- O Rinto disse muitas verdades ao Len. Acabou que chegou a um momento que tocou numa ferida do Len eles partiram para cima um do outro com papos mais pesados, quase saíram na mão. Mas aqueles dois idiotas além de primos são melhores amigos. Não demorou muito para Len cair na real e reparar que Rinto estava certo e agradecer e também Rinto pedir desculpas pelo que disse.

–Desculpa perguntar, sei que não é da minha conta, mas o que o Rinto disse exatamente ao Len?

–Disse que se ele continuasse fugindo dos problemas que causa com aquilo que é importante para ele, ele acabaria sozinho, sem propósito e sem ninguém. O Len sempre contou muito conosco, Rinto, eu, Lenka, irmã mais nova do Rinto. Ele é um cara meio solitário e tem medo de lidar com o mundo, então toda vez que algo vai acabar com ele, ele nos pede conselhos.

–Entendo... Ele me disse que precisava resolver uma série de problemas antes de me responder propriamente.

–Quando ele disse isso? –Neru pergunta.

Começo a contar toda história para Neru. Fico um pouco triste, já que havia prometido a Len que manteria isso como nosso segredinho, mas se for para descobrir mais sobre ele, eu faço qualquer coisa.

–Ah sim. –Neru suspira- Os problemas do Len. Sim ele é um cara meio problemático. Ele tem umas coisas com o passado e precisa resolver. Ele diz que vai acertar essas questões todo ano e nunca faz nada. Mas agora que ele está até no clube de música, é capaz de que ele esteja levando isso mais a sério.

–Desculpa Neru, eu não quero parecer fofoqueira, mas estou confusa. O que são exatamente esses problemas do Len?

–Diversos. –ela diz depois de um longo suspiro- Acho que não tenho o direito de contar-lhe. Talvez fosse melhor para você saber dele diretamente. A única coisa que posso lhe dizer é que isso é com o Len e somente com ele. É algo que vem de dentro dele, algo que o destruiu no passado e deixou cicatrizes incuráveis, mas cicatrizes essas que ele tenta fechar até hoje.

–E esses problemas são as causas pelas quais ele não sente vontade de se dedicar a nada? –pergunto.

–Basicamente. Ele era muito mais vivo antigamente. Mas agora que ele está em outro clube, imagino que ele vai voltar a se sentir vivo de novo.

–Ainda estou curiosa, mas obrigada por dizer tudo o que pode Neru. Mesmo não dizendo tudo literalmente, ajudou muito.

–De nada, mas se isso lhe serve de consolo, vou lhe dizer algo muito importante sobre o Len. Muitos dos sorrisos que ele dá diariamente são falsos, desde que sua vida mudou para uma nuvem negra e pesada. Mas desde que ele te conheceu, ele parece mais vivo e seus sorrisos mais verdadeiros.

–Está falando sério?

–Eu sei que costumo brincar deliberadamente, mas dessa vez falo mais sério do que nunca. Len é do tipo de pessoa que se tranca, mas ele tem se aberto muito com você, ele lhe leva a sério e por isso te deu aquele gelo, ele ficou com medo de lhe levar a sério demais de uma forma que isso fugisse de controle. Ele odeia ser tirado de sua zona de conforto, mas quando isso acontece por algo que ele gosta, ele acaba ficando confuso e foge da maneira mais difícil.

–Espera, quando você fala algo que ele gosta, você quer dizer que...

–Bem, não posso dizer que ele gosta de você da maneira que você gosta dele, mas que você é especial para ele, disso eu tenho certeza. Por isso que investi em você quando soube que estava afim dele.

–Nossa Neru, você que sabia de nós dois o tempo todo. –digo sorrindo.

–Ei, eu não sei nada de “vocês dois”, eu sei que você gosta dele e que ele lhe respeita. Não sei se ele gosta realmente de você, pode ser uma atração louca, já que ele te beijou, mas lembre-se, o Len pode ser lerdo, mas ele ainda é homem.

–Eu sei, mas tudo isso me deixa com uma esperança maior de que eu posso ter algo com ele. E fico ainda mais feliz de saber que você está torcendo sinceramente por nós. –começo a gargalhar, mesmo mantendo a seriedade do meu discurso.

–Ei, não é como se eu estivesse torcendo por vocês nem nada. –ela nega mesmo sabendo que é exatamente isso, incorporando uma verdadeira tsundere– Eu só quero o melhor para o meu primo que é como um irmão para mim.

–Sei... Sei bem. Obrigada Neru-chan.

–Sem “chan” sua idiota!

Brincamos de brigar rapidamente na escada do terraço, mas fico feliz em saber que ela confia em mim. Assim também fiquei sabendo algumas coisas a mais sobre Len, mesmo não sendo informações literais e concretas, são o suficiente para que eu ligue algumas coisas e possa tomar minhas próprias deduções.

Mas de uma coisa eu sei, e fico feliz por saber; Len me leva a sério e me acha especial. Isso já basta. Hoje poderia ser o dia mais feliz dos últimos dias, mal vejo a hora de chegar em casa, deitar em minha cama e pensar tudo sobre isso.

–Ah Rin. — Neru me chama quando já estamos perto da sala.- Amanhã é sábado e estávamos pensando em formar um grupo de estudos na minha casa, já que as provas estão chegando e já estudamos na sua casa, na da Haku e na da Teto, parece que agora é a vez da minha.

–Ok, obrigada por me falar, mas eu não sei onde é sua casa.

–Encontra a Haku na estação, ela sabe onde é. Vocês podem ir todas juntas. Amanhã a tarde está bem para você.

–Claro. Eu até havia esquecido que logo teremos provas, como o tempo passa rápido.

Isso me lembra de que logo será verão e as férias de verão nos aguardam... Imagino como serão. Mas antes de pensar nas férias, tenho que me concentrar para alcançar as médias e não pegar nenhuma aula de verão.

Logo que as aulas terminam, Haku, Teto e Neru vão para o clube de literatura enquanto Len e eu vamos ao clube de música juntos. Talvez demore um pouco para que eu me acostume com isso, mas por enquanto, estou faiscando com esse fato.

–Poxa, hoje eu vou ver seu baixo pela primeira vez. –digo enquanto subimos as escadas para o clube.

Len morde o lábio inferior, segura ar em suas bochechas e fica vermelho, segundos depois explode em risadas.

–Qual foi à graça? –pergunto confusa, mas acho engraçada sua risada.

–O que você falou soou estranho.

“Hoje, vou ver seu baixo pela primeira vez”

Espera... Isso realmente foi estranho.

Fico com vergonha e sem palavras por ver até onde seu pensamento foi com uma simples frase. Deixando a vergonha de lado, começo a rir no mesmo ritmo e parecemos dois retardados rindo no meio do corredor.

–Você entendeu seu pervertido. –digo batendo nele- Hoje também vamos ver a Luka-senpai com seu teclado pela primeira vez.

Quando chegamos à sala, todos já estão lá. Vejo Luka arrumando seu teclado. É um Yamaha preto e é até aí que consigo classifica-lo, não entendo muito de instrumentos de tecla, só sei que a partitura é completamente diferente de instrumentos normais. Não quero dizer apenas a parte da clave e escala que usa, mas ao ler a partitura pela primeira vez, tem-se a impressão de que as notas foram duplicadas em todas as linhas.

Len também tira seu baixo do compartimento, ele é marrom e adaptado para canhotos, a surpresa que tenho é que é um baixo de cinco cordas. Claro que sei que há baixos de até sete cordas, mas nunca imaginei que o de Len fosse de cinco cordas, levando em conta o quão preguiçoso ele é.

–Bem, parece que você é oficialmente um membro, Len-kun. –Luka diz batendo no ombro do novato.

–Bem-vindo Len. –Kaito diz bagunçando o cabelo do loiro.

–Contamos com você! –Miku diz fazendo um sinal de aprovação com o polegar.

–Espero que possamos tocar juntos de agora em diante. –digo sorrindo.

–Obrigado por me aceitarem. Todos vocês. –Len sorri na mesma proporção que nós.

Nossas atividades voltam ao normal. Luka chama Len para entregar-lhe as partituras e cifras das nossas músicas que ela tem da parte do baixo para que ele possa treinar. Miku e eu começamos a afinar nossas guitarras enquanto Kaito limpa os pratos de sua bateria.

Enquanto afino meu instrumento, ouço meu telefone tocar. Pegando o aparelho e visualizando sua tela, percebo que não é um número conhecido. O código de área também não é daqui, parece ser de Tóquio. Passo alguns segundos ponderando se devo atender ou não, como tenho tias em Tóquio e uma delas pode ter mudado de número e estar me ligando justamente para dizer isso, é obrigação minha atender.

Peço licença a todos e vou para o corredor atender ao telefone. Quando ponho o aparelho ao ouvido, ouço algumas falhas na ligação, alguns sons de estática e algo parecido com som de chuva. Uma voz masculina, um pouco longínqua chama meu nome.

Não reconheço a voz e logo a ligação cai. Acho estranho, pois não tenho nenhum primo ou parente em Tóquio que tenha o timbre de voz de um jovem. O único amigo que tenho em Tóquio é Mikuo, irmão de Miku e eu conheço seu tom de voz.

Esqueço-me disso e volto para o ensaio. Quando as atividades do clube acabam, lembro de que vou para a casa de Neru amanhã estudar e que eu precisarei de um livro de referências para estudar. Despeço-me de todos e corro para uma livraria no centro da cidade, livraria essa que é enorme e que passo um grande tempo admirando suas prateleiras cheias de livros que eu nunca tenho dinheiro para comprar.

Chego à livraria e logo acho o livro que quero, mas passo muito tempo observando suas prateleiras e vendo os livros que nunca comprarei. Quando me dou conta já é de noite e ainda tenho uma fila enorme para pagar e pagar pelo livro.

Meu Deus, eu mereço.

Depois de quase uma hora interminável na livraria, tento ligar para meu pai, para ver se ele pode me dar uma carona para casa, mas meu celular descarregou. Parece que toda aquela sorte do início do dia foi-se embora junto com o sol.

Aventuro-me com medo para o caminho de volta para casa. Sei que essa hora é perigosa para sair, mas arrisco mesmo assim, afinal, preciso chegar logo em casa. Quando estou para chegar à estação e pegar um trem para casa, sou abordada por dois rapazes. Esses caras parecem ter entre vinte e vinte e cinco anos, estatura mediana, usam ternos de aparência barata, cabelos grandes e deixam a barba por fazer. São exatamente a imagem dos delinquentes que minha mãe sempre me mandou evitar.

–Ei lindinha, está sozinha? Quer se divertir? –um deles pergunta tomando minha frente.

–Não, obrigada, mas tenho que ir para casa. –nego a oferta tentando me sair. Mas não nego internamente que estou com medo.

–Qual é ainda é cedo. – o outro diz atrás de mim- A noite é uma criança. Você deve ser do ensino médio. Tem certeza que não quer vir com a gente? Você pode ganhar uma grande recompensa.

Tarados nojentos

–Desculpa, mas eu tenho mesmo que ir para casa.

–Não seja careta. Vamos, vai ser divertido. –um deles agarra meu braço. –Uma menina bonita como você devia vir conosco.

–Me solta! Eu vou gritar.

–Opa Shin, parece que essa é brava. –o que não me segura diz para o comparsa que está tomando meu braço.

–Você pode gritar a vontade, mas só se for na minha cama. –ele sussurra em meu ouvido.

Minhas pernas já não têm firmeza, não consigo me livrar dele. Se eu gritar, eles podem fazer algo comigo. Desespero-me, fico com medo, tudo que eu quero fazer é sumir daqui. Mas enquanto agonizo psicologicamente, ouço uma voz que me salva tanto por dentro quanto por fora:

–Rin! Estava procurando você! –Len grita aparecendo do nada.

Seu maluco, o que está fazendo aqui? Apareceu em boa hora, mas isso é coincidência demais.

–Len, por favor me ajuda. –imploro com meus olhos molhados.

–Ei, vocês dois, soltem ela! O que pensam que estão fazendo com a namorada dos outros?

–Ei Shin, parece que a garota tem namorado. Solta ela. –o comparsa diz para o que está me segurando.

–Droga. –ele solta meu braço e praticamente joga-me na direção de Len. – Se ela é realmente sua namorada, por que a deixou sozinha numa rua dessas?

–Primeiro, eu não devo satisfações a você, segundo, eu pedi para que ela me esperasse, mas ela insistiu que ia comprar um lanche para mim antes de ir para casa.

–Seu moleque. Acha que pode me responder desse jeito. Acha que vou acreditar numa ladainha dessas? Você parece mais o irmão dela! – o tal de Shin adquire um tom de voz mais violento.

–Irmãos fariam algo assim? –Len vira meu rosto e beija-me na frente dos delinquentes, os deixando com raiva e constrangidos.

–Seu moleque idiota! – o tal de Shin grita frustrado- Vamos Shun, vamos atrás de outra garota.

–Ainda vou denunciar vocês por assédio! –Len grita, mas peço para que pare, para que isso não vá adiante.

Quando os delinquentes finalmente vão embora, abraço Len e agradeço sua ajuda, sinceramente, não sei o que aconteceria caso ele não aparecesse naquela hora. Ainda estou trêmula de medo e Len percebe isso.

–Passou, eu estou aqui. –ele diz abraçando-me e acariciando minha cabeça. –Está tudo bem.

–Eu fiquei com tanto medo. –digo chorando.

–Sim, eu sei. Mas está tudo bem. Eu estava na lanchonete na frente da livraria quando vi você sair. Eu meio que estou tentando arrumar um emprego lá para as férias de verão. Tentei seguir você, mas ainda estava falando com o gerente. Mas agora está tudo bem

–Sim. Obrigada.

–Fica tranquila Rin. Estou aqui.

–Sim, você está. Eu te amo, Len.

–Sim...

–Você sempre me ajuda.

–Sim...

–E você está apenas dizendo sim...

–Porque você confia muito em mim, não é?

–Sim!

Eu ainda não sei como agradecer. Isso só me fez amá-lo ainda mais.

E que esse “sim” se repita mais vezes...

...

Continua...