My Songs, My Life
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Notas iniciais
Len acaba tendo a ideia maravilhosa de não me deixar ir para casa sozinha. Estou tão assustada que só tenho a concordar. Mesmo estando ligada a ele pelo seu braço esquerdo, que, abraça-me parcialmente, ainda estou trêmula e chorosa. O ataque daqueles dois homens... O que teria acontecido comigo se Len não tivesse aparecido?
Eu não faço ideia...
–Ainda está chorando? – Len pergunta ao entrarmos no trem e procurarmos um lugar para sentar- Já passou, eu estou aqui. Você está segura agora.
–Desculpa- digo entre soluços causados pelo choro- E também, mais uma vez... Obrigada...
–Já disse, não precisa agradecer. Só fiz meu dever.
–Mas você até me beijou... E disse que era sua namorada.
–Esses caras sempre se afastam das garotas quando um homem aparece. Mas muitas das vezes eles não se intimidam tanto por um simples garoto. Então dizer que era seu namorado era algo necessário. E eu faria mais vezes se precisasse. Faria até mais.
–Você é incrível. –digo limpando minhas lágrimas.
–Uma vez eu salvei a Neru assim. –ele diz.
–Sério? A Neru? E você a beijou?
–Claro que não. Ela me cobriria de porrada depois. Mesmo eu tendo salvado sua vida. Você não a conhece? – o loiro diz rindo.
–Verdade. Ela é bem assim mesmo.- um sorriso surge do nada no meu rosto.
–Você finalmente sorriu. Mas falando sério, você tem que tomar mais cuidado. É justamente à noite quando esses malandros saem para aliciar garotinhas. – a face de Len fica séria- Passe a prestar mais atenção nos horários.
–D-Desculpe... –Digo voltando a chorar.
–Ah droga! Chorando de novo? –ele me abraça mais uma vez – Vem cá... Passou... Poxa, assim você parece uma criança.
–Você foi tão corajoso... E eu fui tão burra...
–Calma, não é nada disso. – o loiro assume um tom de voz constrangido.
–Desculpa Len...
–Eu é que tenho que me desculpar. –ele separa o abraço.
–Mas você me salvou...
–Sim, salvei. Mas precisei falar uma mentira... Uma mentira que você provavelmente queria que fosse verdade...
Ele se refere ao fato de se autoproclamar meu namorado naquele momento. E também pela razão disso não ser verdade.
–Está tudo bem. Você tem assuntos a resolver, não tem? Leve o tempo que precisar. Eu vou esperar por você.
–Nossa, você deve gostar muito mesmo de mim. –seu rosto fica rubro e com um semblante de envergonhado.
–Você não sabe o quanto. –sorrio de maneira sincera, desvio o olhar para minhas pernas e depois volto a olhar para ele – Queria que você se sentisse assim também.
Seu rosto toma uma forma ainda mais envergonhada, estando perto dele posso sentir que seus batimentos estão mais acelerados do que quando me beijou. Ele coça a bochecha um pouco, desvia o olhar e depois volta seus olhos para mim. Engole seco e diz:
–Bem... Não é como se eu não sentisse...
–Ei, o que foi isso? –pergunto traçando um sorriso feliz em meus lábios.
–V-Você sabe... É difícil para mim.
–Quê? Mas eu não estou entendendo Len-kun.
–Droga, como você é lerda.
Len segura meu queixo e chega mais perto, como se fosse me beijar, mas antes que sua boca encoste-se à minha, ponho meus dedos na frente e digo:
–Não faça isso agora. Não entenda mal, não é como se eu não quisesse lhe beijar. Eu quero muito, gosto muito disso. Mas só quero que me beije novamente quando tiver resolvido tudo que tiver para resolver. Só faça isso quando se sentir confortável o suficiente para me beijar acompanhado de uma resposta.
Seu olhar surpreso vem acompanhado de um suspiro e um sorriso. Parece que ele estava nervoso e tenso até agora, mas não podia deixar isso passar, até porque, ele estava tentando me acalmar depois do susto. Mas o deixei nervoso com esse último diálogo, porém, parece que o que eu disse, apesar de ser algo surpreso e contraditório, serviu para deixa-lo confortável.
–Você é incrível Rin. –ele diz ao chegarmos à estação que queremos.
–Obrigada...
–Mas tem algo que quero lhe falar. Algo sério e verdadeiro. –seu semblante fica sério.
–Ainda temos um caminho a pé até a minha casa. Pode falar enquanto caminhamos.
–Quero dizer isso olhando nos seus olhos, sem rodeios.
–Então desembucha!
–Resolvi mudar aos poucos. Percebi que aquele meu jeito desleixado não me levaria a lugar algum. Só notei isso quando lhe deixei sozinha. Sem conversar com alguém que me pudesse falar sobre suas experiências incríveis, acabei ficando vazio. Decidi fazer as pazes contigo e entrar no clube porque não posso sempre depender dos outros.
–Isso é bom. Fico feliz que tenha feito essa decisão.
–É eu percebi que estava magoando alguém que amo muito dessa maneira que estava. A verdade é que, eu quero evoluir como baixista! Quero me esforçar ao máximo e superar até a Luka-senpai. Mesmo que haja pessoas que queiram empurrar isso como algo para eu fazer no futuro, eu não vou desistir da música, não pretendo isso. Também, pretendo parar de fugir do futuro.
–E para isso que você teve que voltar ao passado?
–Exato. Não adianta seguir em frente se tiver arrependimentos. Posso dizer que estou arrependido de ter desistido do basquete, mas não queria odiar o esporte. Mas, parando com os rodeios dessa conversa, eu quero lhe dizer que... Não importa o que aconteça no futuro, se continuarmos amigos ou evoluirmos para algo a mais, prometa para mim que seremos sempre parceiros nessa jornada de música.
Seu olhar é sério, nunca o vi desse jeito. É muita surpresa para um dia só, mas aceito o que ele diz. Ele está garantindo que, não importa o que aconteça entre nós dois, não vamos deixar de nos ajudar. Até porque somos amigos e não podemos deixar essa amizade morrer outra vez.
–Len... Eu prometo que, não importa qual será nossa situação futura, seremos sempre parceiros. – sorrio e estendo minha mão fechada em um punho como fizemos mais cedo na escola.
Ele repete o gesto e nos cumprimentamos com um soquinho. Depois disso rimos igual a dois retardados. A conversa foi constrangedora, isso é fato, mas ainda assim foi algo libertador.
Len acompanha-me até minha rua e passamos o tempo conversando sobre coisas naturais como o fato dele achar um bico para fazer nas férias de verão, sobre Rinto fazer o mesmo para comprar uma moto e coisas assim. Acabo lembrando-me de um fato que fiquei sabendo hoje mais cedo.
–Ah, a Neru me falou que o Rinto tinha uma irmã mais nova, dessa eu não sabia.
–É, ele tem uma irmã um ano mais nova. –Len diz depois de um suspiro- Seu nome é Lenka.
–Parece seu nome. –digo rindo.
–Falta de imaginação da minha tia.
–Ela não estuda no nosso colégio não é? Por quê?
–Os pais deles são separados já tem uns três anos. Acabou que Rinto ficou com a mãe aqui em Osaka e Lenka foi com o pai para Okinawa, onde eles têm parentes. Mas eles estão sempre aqui em épocas comemorativas.
–Nossa, eu não sabia disso. Parece que você gosta muito dos seus primos.
–É eles são minha família. E durante muito tempo foram os únicos com quem eu podia contar. Depois apareceu a Gumi e o irmão dela, depois o Kaito, depois você e agora as senpais do clube de música.
–Eu não sabia que você e o Kaito tinham aprendido música no mesmo local.
–Pois é. Já faz um tempo que o conheço. Talvez há mais tempo que você o conhece. Por falar nele, vocês se dão muito bem não é?
–C-Como? –engasgo-me com minha própria saliva- Você é louco?
–Estou errado? Vocês parecem estar sempre em sintonia.
–Ele é um idiota.
–Não disse nada sobre ele ser um idiota. –Len ri da minha reação.
–Eu nunca me daria bem com um idiota!- cruzo os braços.
–Não fala isso dele, ele gosta muito de você. Quando ele me chamava para o clube, vivia falando que isso ia te deixar feliz.
Aquele Bakaito...
–Ele é mesmo um idiota. –sussurro.
Quando chegamos à esquina da minha rua, peço para que Len me deixe ir sozinha a partir deste ponto. Seria problemático se meus pais me vissem com um garoto a essa hora da noite voltando para casa. O loiro concorda comigo, mas fica me observando da esquina até que eu chegue em casa, para garantir que eu tenha segurança.
Ao chegar na minha casa, minha mãe me enche de perguntas sobre o porquê de eu ter chegado tão tarde. É claro que não vou contar a verdade para ela. Sinto-me mal toda vez que sou obrigada a mentir para meus pais, mas se eu falar que fui abordada perigosamente por dois homens, é possível que eles nunca mais me deixem sair sozinha outra vez. No fim, acabo não mentindo em todas as partes, apenas digo que enfrentei uma fila grande numa livraria ao comprar um livro para estudar.
Aproveitando a conversa, peço permissão de minha mãe para ir à casa de Neru amanhã. Meus pais são cismados sobre quantas vezes eu tenho que ir à casa de alguém ou quando alguém nos visita. Apesar de concordar com eles, creio que a partir de agora eu tenha que desfazer um pouco desses costumes domésticos. Com essa semana de provas chegando, é necessário um estudo em grupo.
–E vocês vão estudar mesmo ou vão ficar só brincando? –minha mãe pergunta.
–Mãe, são a Teto, Haku e Neru. Não se lembra de quando elas vieram estudar aqui? Nós por acaso ficamos brincando?
–Verdade, essas meninas parecem ser direitas. Tudo bem, pode ir, mas eu quero ver os resultados disso.
–Pode deixar mãe! Eu não vou lhe decepcionar!
–Ah Rin, você recebeu alguma ligação de fora hoje? –minha mãe pergunta da cozinha enquanto já estou na escada.
–Ah sim, recebi. Um código de área de Tóquio, você também recebeu?
–Sim, era a sua tia Minami.
–Tia Minami? Mas eu ouvi uma voz masculina, e ela não mora em Sapporo?
–A novidade é que sua tia se casou com um rapaz de Tóquio. Ele já morava em Sapporo fazia dois anos, o emprego dele o força a mudar-se constante mente.
–Sério? Então ela se mudou com ele para Tóquio? –pergunto surpresa.
–Não, eles estavam em Tóquio porque o voo teve uma conexão. Eles virão morar aqui em Osaka.
–Mentira!- indago ainda surpresa- Então a Ia-chan...
–Sim, a Ia e a Minami voltaram a morar aqui!
Pulo de felicidade. Ia é minha prima dois anos mais nova que eu. Ela e minha tia, irmã mais nova de minha mãe costumavam morar aqui até meu segundo ano no ginasial. Depois que seus pais se separaram, Ia foi com sua mãe para Sapporo em Hokkaido. Ia e eu somos muito próximas, mesmo depois que ela se mudou, continuamos mantendo contato constantemente. Ela nem parece minha prima e sim uma irmã, ela me respeita e desde pequena acha que eu sou uma heroína.
Ia é baixinha e tem cabelos cor-de-rosa, mas é um rosa tão claro que parece esbranquiçado. Pelas fotos dela que vi recentemente, sei que seus fios estão enormes. É uma típica otaku. Viciada em mangás e light novels, mas sei que essa influência vem muita de mim. Ela sempre pegava tudo o que eu lia emprestado. Sinto falta dela e estou muito feliz que ela esteja voltando. Agora ela está mais velha do que eu na época em que partiu.
Imagino como ela deve estar pessoalmente...
A noite passa eu fico pensando nisso. Mas se minha tia Minami queria falar comigo, por que foi o seu novo marido quem ligou? Pondero um pouco sobre a situação de alguém numa viagem de mudança. Ela devia estar ocupada demais para poder pegar no telefone. Isso também explica a péssima qualidade da ligação.
Acabo caindo rápido no sono e quando a manhã seguinte chega, faço questão de acordar um pouco mais cedo que nos sábados habituais. Já que vou à casa de Neru mais tarde, tenho que realizar minhas atividades domésticas de sábado mais cedo. Sim, atividades domésticas, porque eu não sou nenhuma dondoca. Começo dando um jeito em minhas roupas sujas e arrumando meu quarto, depois limpo a cozinha.
Perto da hora do almoço, decido tomar um banho, mas antes que eu possa pensar em ir ao banheiro, meu pai diz que Gakupo está na nossa porta me chamando.
–Oi grandão. – digo atendendo meu amigo de infância.
–Rin! Eu pedi pro seu pai lhe chamar, mas na verdade eu queria fazer um convite à família toda.
–Entra aí então rapaz! –minha mãe diz atrás de mim, sabendo que Gakupo já é de casa.
–Licença... Então, minha mãe está fazendo um almoço especial lá em casa e chamou vocês. Desculpa se é de última hora e tudo, na verdade, eu pensei em chamar a Rin antes, mas não imaginei que ia ter tanta comida, vocês sabem como tem gente lá em casa.
–Sabemos Gakupo-kun. –minha mãe diz sorrindo- Nós adoraríamos, mas é que hoje vamos almoçar bem rápido aqui, já que todos têm compromissos hoje.
–É mesmo –diz meu pai –Eu que cozinhei hoje uma lasanha para comermos rápido. Hoje a minha cunhada está se mudando para cá vamos ajudar na mudança e a Rin vai estudar com as colegas.
–Foi mal grandão, mas realmente não dá. –digo batendo no ombro de Gakupo.
–Ah tudo bem, não tem problema. Se houver sobras, eu guardo para vocês.
–Não precisa se preocupar. –digo rindo.
–Preciso sim. Sem você, esse almoço não seria possível hoje. –Gakupo diz com um tom de voz sério.
–Mas o que eu fiz? –pergunto confusa.
–Você me apresentou à Miku e nos ajudou no relacionamento. –ele diz um pouco rosado.
–Ah, então vai apresentar a Miku aos seus pais? Que coisa linda! –digo espantada, porém feliz.
–Que nobre! –meu pai diz – Mas garoto, você tem ter cozinhado alguma coisa. As moças gostam dos rapazes que cozinham.
–Eu não sou muito bom com essas coisas não tio. –Gakupo fala ainda mais envergonhado. –E também foi a minha mãe que tomou a frente de tudo.
–Que bom que está tudo bem entre você e a Miku. –minha mãe diz com o sorriso mais feliz do mundo- Para ser sincera, eu sempre achei que no fim das contas você e a Rin acabariam tendo alguma coisa parecida com um namoro, já que são tão próximos. Mas parece que eu estava errada.
Depois desse comentário, Gakupo e eu rimos feito loucos. Foi uma boa jogada de minha mãe para quebrar a timidez do alto garoto de cabelos roxos. Na verdade, não só minha mãe cogitou essa possibilidade, mas muitas pessoas ao nosso redor também. Parece até que uma garota não pode ter um melhor amigo.
–A Rin sempre foi apenas minha melhor amiga tia. –Gakupo diz sorrindo- Nunca pensei nada além disso, mas sou grato por ela ter me ajudado com a Miku. Ah, mas está tudo bem com os outros garotos. Quero dizer, está tudo bem se o namorado dela não for eu, não é?
Isso meio que choca os meus pais. Esses seres tão avessos a relacionamentos, não suportam a ideia nem hipotética de eu ter um namorado. Talvez seja algo instintivo de algum sentido paterno, mas eles ficam normais e até felizes quando são os filhos dos outros que estão namorando. Eles acham que vou ficar uma pessoa acomodada e decair nos estudos se começar a namorar. Erro deles, pois quando namorei, mesmo que escondido deles, consegui manter minhas notas.
Apesar desse comentário que poderia me colocar numa saia justa, meus pais agem naturalmente, talvez seja porque Gakupo está aqui e apenas riem do comentário do meu amigo. É sempre assim, eles fingem estar tudo bem na frente dos outros quando falam sobre isso e nunca comentam nada sobre o assunto comigo depois.
Não acho totalmente errado o que eles fazem, afinal, é natural dos pais quererem proteger seus filhos, ainda mais com algo que pode realmente fazer certo mal se a pessoa não tiver maturidade e juízo, mas também parece que eles nunca vão confiar em mim. Também parece que sou uma idiota sem coisa alguma na cabeça e que vai fugir para o exterior com o primeiro cara que encontrar.
É ruim também pelo fato de que eu não me sinto confortável para me abrir com as pessoas que mais amo sobre algo que é importante para mim. Eu sinto tanta inveja das minhas amigas que podem falar de suas paixões com suas mães, é o tipo de conversa que nunca tive com a minha.
E pelo visto, vou demorar muito para ter.
Gakupo vai embora e eu finalmente tomo meu banho. Almoçamos todos juntos, colocamos a refeição de nossos cães e gatos e peço carona a meus pais até a estação onde Haku estará me esperando.
Durante o caminho, minha mãe me faz uma pergunta estranha:
–Ei Rin, você não está namorando alguém, está?
–Claro que não mãe! Longe disso. –respondo assustada.
–Melhor assim, concentre-se em seus estudos, depois você pensa nisso.
–Tudo bem mãe.
Recuso discutir isso e logo encontro Haku na estação e seguimos juntas para a casa de Neru. Ao chegarmos, observo a fachada de três casas iguais na arquitetura. A única coisa que as difere é a cor com que cada uma é pintada. Uma laranja, a outra amarela e a última é branca. A de Neru é a amarela central.
Antes de tocarmos a campainha, a loira já aparece. Roupas casuais de quase verão como as nossas, o cabelo preso num coque um pouco frouxo e o meio mau humor de sempre:
–Estão atrasadas! –ela grita ao nos atender.
–Desculpa, foi o trem. –Haku diz adentrando a casa antes de mim.
–Pode entrar Rin, não se contenha. –Neru me diz sendo gentil.
Agradeço e adentro a residência observando cada detalhe. Mesmo estudando com Neru desde o ano passado, essa é minha primeira vez em sua casa. Aparentemente é uma casa bem simples, com um térreo e um primeiro andar, assim como a minha, apenas um pouco maior.
Ao subirmos as escadas, Neru segura meu ombro e sussurra em meu ouvido:
–A casa do Len é à direita. Eu também o chamei.
Encolho meus ombros em um ato reflexo. Meu rosto toma um traço de susto e olho dessa maneira para Neru que sorri descaradamente e continua sua fala:
–Relaxa, ele não chegou ainda, é provável que nem venha considerando sua preguiça.
Subo as escadas num ritmo mais acelerado e entramos em seu quarto. Um quarto de decoração simples por sinal. Lá estão Teto e Gumi, cada uma de um lado da pequena mesa disposta no centro do cômodo. Sinto-me um pouco envergonhada em falar com Gumi depois de imaginar que ela e Len tinham alguma coisa e morrer de ciúmes dela por nada.
Apesar de sentir-me ridícula, lembro que sou a única que sabe disso. É algo que só comentem brevemente com Kaito, então tento afastar esse sentimento vergonhoso e continuar minha amizade com Gumi e estudar tranquilamente com ela e as meninas.
O tempo passa e percebemos que já estamos à uma hora estudando. Teto começa a tossir e pede um copo de água a Neru. A coisa generaliza e todas pedimos. A loira tem a ideia de pegar uma jarra e cinco copos para levar lá para o quarto e me pede para ajudar.
Nós duas descemos para a cozinha e ela procura uma bandeja enquanto separo os copos. Neru pede para que eu passe uma água nos copos enquanto ela vai até a dispensa e reclamo por ser a minha primeira vez aqui e ela já estar me mandando trabalhar.
Enquanto lavo os copos e sinto a demora de Neru. Percebo que é estranho estar lavando pratos numa casa que não conheço. É como se não me sentisse segura em sua cozinha. Não é como se a aparência da casa fosse sinistra nem nada, mas o fato de estar lavando algo sozinha é estranho. Mas quando sinto um leve toque no ombro, assusto-me ao ponto de quase deixar um copo quebrar.
–Ei, o que faz aqui. –Rinto aparece do meu lado direito.
–Que susto garoto! Quer me matar? –pergunto quase derrubando um dos copos.
–É sua primeira vez aqui e a Neru já lhe escravizou? –Len pergunta surgindo do outro lado.
–Você também?!- assusto-me ainda mais. –Vocês são entidades ou algo assim?
–A Neru nos chamou para estudar. Parece que chegamos mais tarde. –Rinto conta.
–Quer ajuda? –Len pergunta.
–Temos que ter mais dois copos para vocês dois. As garotas estão lá em cima. –digo voltando à calma anterior.
Neru aparece e diz que não achou nenhuma bandeja, logo, temos que subir com copos e jarras. Os garotos juntam-se a nós e nosso grupo passa a ser de sete. E nós garotas não dominamos apenas em número, estamos mais por dentro das matérias que os rapazes. Mas tudo acaba sendo resolvido quando cada um resolve ajudar o outro no que é melhor. Até mesmo Len, que está abaixo da média em quase todas as matérias, entende um pouquinho de alguma coisa.
Os resultados do grupo de estudos são tão bons, que resolvemos continuar fazendo isso. Consigo convencer meus pais a ir para as casas de meus colegas com o propósito de estudar, até porque, sete cabeças pensam melhor que uma só. Apesar de sermos todos próximos, não houve bagunça e conversa.
E assim o final de semana termina, uma nova semana começa e seguimos com o grupo de estudos. Todos os dias na casa de alguém diferente. No próximo sábado está marcado para ser na minha. Sinto que, se levarmos isso a sério, teremos bons resultados.
Chega quarta-feira e todos estão tensos e agitados. Uma semana e meia para a semana de provas. Já estamos usando uniformes de verão, o que implica que, quem conseguir as médias e não ficar nas aulas de verão (um tipo de recuperação de semestre), estará de férias em mais ou menos duas semanas.
Na última aula da manhã, perto da hora do almoço, o nome de Len é chamado nos megafones. Um professor pede que ele vá até a sala dos professores. Olho para o loiro, um pouco assustada e sua expressão facial com certeza não difere da minha.
–Aconteceu alguma coisa? –pergunto.
–Não que eu saiba. –ele responde.
–Seja o que for, boa sorte. –aperto sua mão antes dele sair.
Neru o acompanha por ser a representante da sala, mas não fica lá com ele. Segundo ela, o assunto é pessoal. Mas algo é interessante, o pai de Len está lá. Ele deve ser a razão desse chamado.
Os minutos passam e fico apenas batendo o lápis no caderno e balançando as pernas. Estou nervosa e curiosa. Não sei se é intuição feminina ou algo parecido, só sei que não tenho um bom pressentimento sobre isso. Assim que o sinal toca, saio imediatamente da sala e dirijo-me diretamente para a sala dos professores.
Chegando ao corredor onde se situa a sala, encontro Meiko, que acaba de sair de lá. Ela entende o motivo de eu estar aqui e diz:
–Eu não entraria aí se fosse você.
–Não vou entrar. Só quero saber o que está acontecendo.
–Não acredito que seja da sua conta.
–Eu só quero saber...
–Rin, é melhor não, depois você pergunta o que está acontecendo. Agora não é o momento certo.
–Eu não vou entrar! Só vou ouvir.
–E você acha que ele gostaria que você ouvisse algo que implica apenas na vida dele? Não acha que está se metendo demais?
Talvez ela tenha razão. Acho que já fui longe demais na semana de Len, especialmente nos últimos dias. Ele tem se aberto muito comigo ultimamente, então creio que se eu perguntar o que houve, ele deve me deixar informada.
Mas eu sinto que algo não vai bem... Ele me salvou da última vez, por que eu o deixaria na mão agora?
Não posso deixa-lo...
–Por que você não me deixa em paz?! –ouço Len gritar da sala dos professores assim que fecho meus pensamentos. –Você passa o ano inteiro sem sequer lembrar que existo e agora vem exigir nota? Ah, me poupe!
–E você está fazendo um escândalo por nada. –uma voz masculina responde o garoto.
–Você quem começou isso! Se quiser conversar, por que não faz isso em casa? Tinha que ser na escola? Para me envergonhar? Para me chamar no megafone e deixar meus amigos preocupados?
–Ah, amigos? E você tem amigos agora.
–Não lhe interessa! Afinal de contas, você nunca conversa! Você nunca quer saber de nada! –Len grita num tom de voz que nunca ouvi.
–Na verdade, eu não me importo se quiser tirar notas baixas. Mas o problema é esse tal clube de música. Isso vai atrapalhar seus estudos. –deduzo que essa é a voz do pai do loiro.
–Para de fingir que você é o pai exemplar que se preocupa com o filho! Está só fazendo caso na frente dos professores. Sabe o que sempre atrapalhou meus estudos? Isso mesmo, você!
Ouço a voz de alguns professores querendo manobrar o tumulto, mas falham. Meiko tenta me tirar daqui, mas teimo e não saio até ouvir tudo o que tenho para ouvir.
–Professores que me perdoem. –Len diz- Mas eu estou literalmente cagando para o que esse velho idiota tem para dizer. Se ele é alguma é perigo.
–Garoto, não fala assim comigo!
–Vai se ferrar!- ele aparece na porta e a fecha com violência, depois segue em passos rápidos e largos.
Ao sair, Len sequer nota que estou aqui ao lado de Meiko. A morena segura meus braços para que eu não vá até ele, mas ela precisa muito ir para a sala dos professores, ajudar a resolver o problema que estava lá até agora a pouco.
Quando ela finalmente me solta, corro em direção a Len que já está perto da escada. Chamo seu nome involuntariamente. O loiro vira-se lentamente e o semblante de raiva dá lugar a um sucinto e pacífico. Algo quase como um sorriso sereno.
O garoto que há poucos segundos estava vermelho da cor de um tomate perde todos os pigmentos de sua pele. A palidez toma conta de seu corpo juntamente com seu sorriso. Parece até alguém morto...
Espera aí... Você está bem?
Claro que não está!
Aperto meus passos para chegar perto dele. Len sibila meu nome e fecha lentamente os olhos. Num ato reflexo, o seguro pelos braços.
E desmaia...
...
Continua...
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