Notas iniciais
EITA, MAIS DE UM MÊS SEM ATUALIZAR ESSA BUDEGA. Galera, eu tenho um grande número de motivos, mas eu acho que ninguém quer saber. Enfim, eu adoeci e muitas outras coisas aconteceram. Mas o capítulo tá pronto e espero que gostem. Mil perdões pela demora.

Pesado... Tudo o que posso dizer sobre o corpo do garoto desmaiado que luto para sustentar, segurando-o por baixo de seus braços. Se eu não estivesse aqui, Len cairia dessa escada. Ele teria perdido os sentidos no momento em que iria descer. Totalmente inconsciente...

Ele poderia se machucar seriamente ou até...

Não quero pensar nisso.

Nesse momento, não é coerente pensar sobre nada além de uma única coisa, esse desmaio está durando tempo demais. Uma perca de sentidos normal e sem gravidade é de no máximo trinta segundos. Isso já deve estar passando dos limites.

Novamente, pensar não é algo muito coeso com o momento. Agarro o garoto pela região do tórax e o arrasto para longe da área de risco (a beira da escada). Jogo-me no chão ao encontrar a parede mais próxima, apoio-me nela e deito Len em meu colo. Aqui mesmo começo a fazer tudo o que aprendi nas aulas de primeiros socorros.

Folgo sua gravata, desabotoo um pouco de sua camisa e também a retiro de dentro da calça para tornar as roupas mais frouxas. Deixar as vestes apertadas é algo que pode empatar a circulação, uma das causas mais comuns de desmaios. Checo seu pulso e sua respiração e percebo que ambas estão lentas.

Minhas ações seguintes não são nada além de bater em seu rosto levemente e chamar seu nome. Implorar para que ele acorde, para que não me deixe aqui sozinha. Noto que lágrimas caem involuntariamente do meu rosto. É inevitável.

Os professores estão muito ocupados com o pai de Len, mas Meiko sai da sala ao escutar alguns gritos meus implorando por socorro. Ela pergunta o que houve e explico rápida e rispidamente.

–Temos que levá-lo para a enfermaria!-grito em meio às lágrimas.

–Você disse que já tem mais de trinta segundos não é? A enfermaria da escola não pode lidar com isso. Vou ligar para uma ambulância.

Meiko corre com o celular em mãos ligando para uma ambulância enquanto encontro-me jogada ao chão, com a cabeça de Len em meu colo. Seu rosto pálido e o semblante sofrido. Percebo que molhei sua face com algumas de minhas lágrimas e tento limpá-las, dou mais alguns pequenos tapas em suas bochechas, mas nada acontece.

–Por favor... Acorda...

–Ele já teve isso antes. –um alto homem loiro diz isso ao surgir do nada, deduzo que é o pai de Len.

–O senhor é o pai dele? Por favor, liga para uma ambulância! Ele já teve isso? Como foi? Por favor, me ajuda! –suplico em agonia.

–Seus professores já o fizeram. Mandei ligar para uma ambulância do hospital em que minha cunhada trabalha. –seu tom de voz é seco.

–E o senhor não vai fazer nada?

–E você garotinha? O que fez?

–Eu o salvei!

–Ótimo, então não preciso fazer mais nada. Ele está melhor com você do que comigo.

–Mas o senhor é o pai dele! –grito desesperada.

–Esse garoto já não me chama disso faz muito tempo. Não é problema meu.

O homem desce as escadas rapidamente e some de minha vista. Logo depois os professores de geografia e matemática aparecem para levarem Len lá para o térreo, já que a ambulância acaba de chegar. Outros professores correm para contar tudo para Neru e Rinto, já que ele precisará de alguém para acompanha-lo.

Depois de Len ser levado, sinto meu corpo tremer por inteiro. É como estar nua no meio do inverno. Todos os pensamentos possíveis imagináveis invadem minha mente e sou incapaz de me levantar do chão. Não tenho firmeza alguma nas pernas, estou muito assustada.

Meiko aparece e tenta me levantar. Minha prima mais velha acaba por me abraçar. Suas palavras são positivas, numa tentativa de me consolar. Mas imagino como ele deve estar. O que teria gerado o desmaio afinal? Por que seu coração estava batendo tão lentamente? Como ele havia ficado tão pálido?

E por que parecia tão morto?

Desço as escadas de mãos dadas a Meiko para que ela possa me apoiar. Ao chegarmos ao térreo, encontro Neru na área onde ficam os armários de sapatos. Ela também está assustada, mas não tanto quanto eu. Quando ela percebe minha presença, corre até mim e abraça-me forte.

–Obrigada. Se ele tivesse caído daquela escada poderia estar morto!

–Eu sei... –digo, mas sem saber que ela já sabia que eu tinha o ajudado.

–Não é a primeira vez que ele tem isso. Não fique muito preocupada, ele vai ficar bem. Foi para o hospital em que minha mãe trabalha. O Rinto foi com ele, eles vão ficar bem lá.

–Promete? –pergunto chorosa.

–Prometo. Vem, vamos beber uma água e lavar esse rosto.

Meiko e Neru acompanham-me até o banheiro para que eu possa lavar meu rosto e secar minhas lágrimas. Vejo o quanto meu nariz os meus olhos estão vermelhos. O que não sabemos enquanto estamos no banheiro é que toda a escola já sabe o que aconteceu.

Antes que chegamos à sala; Miku, Kaito, Luka, Gakupo, Gumi, Teto e Haku vêm nos perguntar se o que houve foi realmente verdade e no que diz respeito a mim. Neru e Meiko afastam o pessoal e começam a explicar gradativamente o que houve, enquanto deixam espaço para que eu possa respirar tranquilamente.

Todos ficam preocupados e chocados. A agitação acaba abalando o colégio inteiro. Luka decide que todos nós do clube de música devemos ir vê-lo no hospital depois das aulas.

As horas passam juntamente com as aulas da tarde. Minha mente está longínqua, não se concentra em nenhum momento. Assim que o sinal toca, Neru ignora tudo e todos e me pega pela mão. Saímos no seu rápido ritmo para a área dos armários de sapatos. Minha cabeça ainda não funciona direito, é como se eu não entendesse o que está acontecendo, então acabo demorando um pouco para trocar meus sapatos e seguir o ritmo de Neru. Como ela percebe que ainda estou meio adormecida, dá um beliscão em minha bochecha e diz:

–Não quer ver se a sua paixão está bem?

Sinto minhas bochechas ficarem quentes, mas não por causa do beliscão apenas. Eu salvei Len de tomar uma queda fatal, mas ele também me salvou de dois tarados. As situações são diferentes, mas não muda o fato de que um salvou o outro num momento difícil. Todos sabem que sou apaixonada por Len, até ele mesmo já tem noção disso. Então, quando Neru diz isso, minha mente retorna ao passado lembrando tudo que já passamos e meu corpo se aquece em resposta.

–Quero sim. –digo segurando sua mão, não negando que ele é minha paixão, como costumava fazer.

–Mais uma vez, obrigada por salvar meu primo. –Neru continua a conversa na rua- Você deve realmente gostar muito dele.

–Sim, eu gosto muito dele, mas isso não tem nada a ver. Eu também te ajudaria se estivesse no lugar dele.

–Idiota... -ela diz com um sorriso sereno estampado nos lábios.

Chegando ao hospital, fico surpresa ao ver a mãe de Neru. Uma médica de cabelos loiros presos num coque. Ela não estava em casa quando fomos estudar lá no sábado, logo, essa é a primeira vez que a vejo. Mãe e filha passam alguns segundos e logo depois Neru apresenta-me a sua mãe:

–Você deve ser a Kagamine Rin né? –a médica loira me cumprimenta- Sou Akita Michiru. A Neru me fala sempre de você.

–Prazer, Dra. Michiru. –cumprimento-a de volta um pouco nervosa, já que ela é uma médica de respeito nesse hospital.

–Eu soube que você segurou meu sobrinho para que ele não caísse da escada. Saiba que essa atitude foi muito nobre.

–Obrigada... Mas eu não fiz nada...

–Nada? Mas ele estava com as roupas abertas. Você fez aquilo para liberar a circulação, não foi?

–S-sim... –afirmo com um pouco de vergonha- Mas foi apenas o que aprendi nas aulas de primeiros socorros. Mas enquanto ao Len, ele está bem?

–Sim, ele teve dois desmaios seguidos ao contrario do que vocês devem estar pensando que ele deve ter tido um longo desmaio.

–E a causa? –Neru pergunta.

–Estresse. O estresse desregulou seus batimentos e claro, sua pressão arterial. Ele teve uma pequena parada cardíaca. Depois seus batimentos retornaram lentamente, não fortes o suficiente para que ele acordasse logo. –Dra Akita nos explica.

O coração de Len parou...

Mesmo que tenha sido por pouco tempo, ainda assim ele parou...

Ele poderia realmente ter morrido.

Antes que minhas lágrimas retornem, Akita Michiru nos guia até o quarto em que Len está e nos explica que não será necessário internamento. Ele só ficará até o fim do turno da tia, por enquanto será apenas uma observação para certificar de que seus batimentos estão normais, que ele está hidratado e não está anêmico.

Ao chegarmos ao quarto em que Len está, volto a tremer. Hesito um pouco em entrar, mas Neru abre a porta como se isso nem fosse um hospital. Vemos Rinto sentado em uma cadeira ao lado da cama em que Len está recostado, com roupas hospitalares, o cabelo solto e bagunçado além de ter um soro ao seu lado. Ele sorri e diz que está tudo bem.

–A tia Michiru disse que é normal, não devemos nos preocupar muito. –Rinto diz com um sorriso sincero no rosto.

–Mesmo assim, foi uma parada cardíaca. –Neru diz preocupada.

–Já não é a primeira vez. –Len se pronuncia- Se fosse para eu morrer, já estaria morto, há muito tempo.

–Falando em morrer, deveria agradecer a essa garota. –Neru fala batendo em minhas costas. –Ela livrou você de quebrar o pescoço.

–Fiquei sabendo... –Len fala com a voz um pouco abafada. – Obrigado Rin. Salvou minha vida.

–N-Não tem de quê... –gaguejo nervosa e envergonhada.

–Ah que saco, estou morrendo de sede. –Neru grita perto de Rinto – Vamos comprar algo para beber.

–Mas... –Rinto resiste para não acompanhar a prima para fora do quarto, mas perde.

Percebo que isso é uma tentativa de Neru de deixar-me sozinha com Len. Assim que eles saem, tomo o lugar de Rinto na cadeira e começo uma conversa a sós com Len:

–Dois desmaios seguidos?

–Num momento eu ia descer as escadas, no outro momento perdi a consciência. Mais tarde um pouco, recobrei a consciência, mas só conseguia ouvir sua voz me chamando. Mas não conseguia abrir os olhos ou falar algo. Tudo ficou turvo novamente e eu só abri meus olhos aqui. – o loiro explica.

–Droga... Você assustou todo mundo.

–Desculpa... E mais uma vez, muito obrigado.

–Não precisa agradecer.

–Não preciso? Eu teria caído da escada, poderia ter batido a cabeça ou, como a Neru falou, poderia ter quebrado o pescoço. Você salvou minha vida. –ele diz nervoso e seu rosto finalmente adquire um pouco de cor.

–Então acho que agora estamos quites.

–Nem se compara o que fiz por você e o que você fez por mim.

–Len, o que você acha que aqueles tarados iriam fazer comigo se você não tivesse aparecido? Você é... O meu herói...

Seu rosto fica ainda mais vermelho e sinto o meu ficar mais quente também. Ele sorri e diz:

–Quem sou eu para ser herói de alguém? Você que é uma excelente heroína. Mas... Parece que eu causei problemas para todo mundo.

–Relaxa ao menos você está bem.

Passamos um tempo em silêncio, ele brinca com a barra do lençol enquanto o observo por inteiro. O jeito que a luz do sol do fim de tarde bate em seus cabelos, iluminando seus cabelos loiros e ressaltando seus olhos azuis. Saio da cadeira e sento-me ao seu lado na cama do hospital. Num ato involuntário, levo minha mão ao seu rosto e digo:

–Naquela hora... Você estava suado e pálido. Seus olhos não abriam. Quase morri de medo.

–Foi só um susto, estou bem agora. –sua mão encontra a minha em seu rosto. Ele segura e a tira de sua região facial, levando-a para os lençóis, mas não a solta.

Não demora muito para sua expressão tranquila transformar-se em uma um pouco transtornada. Entre algo parecido com dor, ele revela:

–Desculpa se causei problemas a todo mundo. É que o meu pai... É um idiota...

Penso um pouco sobre a atitude do homem que Len diz ser seu pai. O homem que ignorou seu filho desmaiado no chão da escola e que virou as costas para este. O homem que causou tamanho estresse no garoto a ponto de fazer seu coração parar. Não quero que Len fique pensando nele ou falando dele para que não piore.

–Shh, calado. –ponho o indicador em seus lábios – Não diga nada.

–Mas você não quer saber? –ele pergunta confuso.

–Conte-me isso quando estiver confortável e fora de um quarto de hospital.

Ele fica um pouco surpreso, sabe que sou curioso sobre o que lhe rodeia. Claro, ele sabe mais que todo mundo que o amo, também sabe que quero descobrir quais são seus problemas, que são o que nos impede, pelo menos por enquanto, de ficarmos juntos.

Não demora muito para o resto do pessoal chegar ao hospital. Meiko,Gakupo, Miku, Kaito, Gumi, Luka, Haku e até Teto vão visitar o loiro, que, no início do ano letivo, nem imaginava que teria tanta gente preocupada com ele.

Quando todos estão juntos, o quarto parece não ser mais o cômodo de um hospital. Todo o barulho e algazarra são interrompidos quando a mãe de Neru reaparece para dizer que logo levará Len para casa e que é para sairmos para que ele possa se aprontar para sair do quarto. Além do mais, estamos fazendo barulho demais e nunca num horário de visitas fora permitido tanta gente em um só quarto.

Neru decide trocar com Rinto e ficar com Len até o fim do turno de sua mãe. Rinto por sua vez atende ao pedido do primo de colocar a comida dos cachorros. Len possui três cães e a responsabilidade com a comida é sua, como ele não voltou para casa cedo, acabou ficando preocupado com a refeição dos animais.

Haku e Teto vão para casa acompanhadas de Gumi. Gakupo vai embora sozinho e Kaito promete levar Luka para casa em segurança, já que já está escuro. Já que Meiko está de carro, ela levará Miku e eu em casa.

Vejo Meiko e Michiru conversando e fico curiosa. Com certeza é sobre a condição de Len. Durante o trajeto até em casa, tento tirar de Meiko todas as informações possíveis. Mas não tenho sucesso, pois tudo o que ela sabe é que ele tem problemas familiares e disso eu já sei.

–Não fica muito preocupada com isso Rin — Miku diz saindo do carro- Ele está bem e vai ficar ainda melhor.

Meiko deixa-me em casa e fico com o pensamento do que Miku me disse na cabeça. Minha mãe pergunta o porquê de eu ter chegado mais tarde e eu acabo explicando tudo a ela. Meu pai chega quando estou no meio da explicação e fica assustado com um garoto jovem tendo uma parada cardíaca, mesmo que tenha sido algo pequeno.

Deito-me em minha cama e não consigo encontrar o sono. Viro-me diversas vezes, cubro-me e arranco o cobertor do meu corpo violentamente em vários e vários momentos. Estou mais que inquieta. Pego o celular e os fones de ouvido e fico ouvindo algumas músicas que deveria ao menos, supostamente me animar. Mas tudo só me faz pensar em tudo o que aconteceu. Mesmo que ele esteja bem... Não consigo esquecer seu rosto desacordado em meu colo.

Em meio a uma música e outra, meu celular toca, assustando-me. É raro receber ligações há essa hora. Imaginei que fosse Len, já que da última vez que atendi ao telefone tão tarde, foi quando ele me ligou. Mas dessa vez não é o seu contato que está cravado e sim o de Kaito.

–Kaito? –sussurro para que ninguém me escute ao telefone numa hora dessas.

–Eu sei que não consegue dormir.

–Podia dizer um “boa noite” primeiro.

–Queria ser direto. Ainda está preocupada com ele, não está?

–Sim... Não consigo parar de pensar no que aconteceu.

–Mas ele lhe disse algo? Sobre o que poderia ter causado tudo?

–Ele queria, mas não o deixei. Não queira que sua situação piorasse.

–Então relaxa. Se o Len queria lhe dizer, então ele acha você especial o suficiente para lhe contar. Isso não te deixa feliz?

–Um pouco... Mas se são esses os problemas que Len diz estar enfrentando... O que eu posso fazer?

–Bem, isso só você pode descobrir e se aproximando mais ainda dele. Agora eu vou dormir, boa noite, Rin-chan.

–Boa noite, e obrigada, Bakaito.

Caso eu diga que minha noite foi tranquila, estou mentindo. Cochilei por poucos momentos e sempre que pegava no sono, acordava novamente suada e assustada. Agora pela manhã, decido tomar um banho logo cedo antes de ir para escola, talvez para lavar as impurezas da noite anterior e acordar um pouco da minha coragem.

Ao chegar ao colégio, tudo toma seu rumo normal e natural. Trocar os sapatos, ir até a sala, sentar-se. Len ainda não está aqui. Imagino se ele pretende tirar o dia para descansar de ontem ou algo parecido.

Minhas conclusões precipitadas se desfazem quando Len chega à sala duas aulas atrasado. O professor de matemática, o que o carregou ontem, entende seu atraso e o manda sentar. Depois que o garoto vai para seu lugar, o mestre pergunta se ele está bem. Len faz um sinal de positivo com a cabeça e depois pede meu caderno emprestado para copiar o que perdeu.

Se o loiro costumava andar pelas sombras no colégio, hoje ele é a mais radiante luz. É como se todos o notasse, não porque é um preguiçoso que não passa nas provas, mas sim pelo cara que quase quebra o pescoço caindo da escada. Claro que essa fama acaba se dirigindo a mim de uma maneira direta ou indireta. As garotas da sala, aquelas que mal falam comigo, vêm perguntar-me o porquê salvei a vida de Len. Logo todas as especulações são feitas.

–Eu sabia que estavam namorando!- uma das meninas diz dando pulos.

–Mas não estamos. –digo tentando fugir do assunto- Somos apenas bons amigos.

–Ei Rin. –Len me chama no meio da conversa com as meninas. –Ah, desculpa, estou atrapalhando algo?

–Não exatamente. O que foi?

–Parece que o Rinto vai ter treino até mais tarde, a Neru fica também até mais tarde no clube de literatura. Quer ir para minha casa depois do ensaio? Para estudarmos? Só a gente?

Quê?

O QUÊ?

–S-Sim, pode ser.

–Obrigado.

Entre as ideias das garotas da nossa sala que acham que estamos juntos, os meus sentimentos explosivos e o rápido ensaio no clube de música, o dia acaba. Vou para a casa de Len pela primeira vez. Ficaremos sozinhos lá.

Sei que as duas casas ao lado da casa de Neru são as de Len e de Rinto. Aparentemente, as casas são uma herança deixada por seu avô. Elas são unidas por um enorme quintal, assim eles podem transitar livremente entre as casas um do outro pelas portas dos fundos no quintal.

Chegamos ao lugar destinado. A casa de Len. Ele abre a porta e entramos, tiro meus sapatos e ele me dá um par de chinelos mais ou menos do tamanho dos meus pés. Aparentemente é uma casa bem parecida com a de Neru. Com a exceção de um piano preto na sala.

Fico curiosa acerca do piano, mas logo minha curiosidade é levada para longe quando três cãezinhos vira-latas atingem-me com cheiradas e lambidas. Segundo Len, Popo, Bob e Yuki são seus melhores amigos caninos e sua maior preocupação.

Confesso que é uma cena muito linda ver o garoto brincando com seus cães. Seu olhar parecia tão vazio ontem e agora parece preenchido de alegria só de ver seus bichinhos. Sei como é essa sensação. Ter animais seja cães ou gatos ou até mesmo pássaro realmente aumenta a nossa autoestima.

–Eles estão te cheirando porque estão sentindo o cheiro dos seus cães. – o loiro me explica, apesar de eu já saber. –Eles são super amigáveis.

–Dá para perceber. São lindos.

–Ah, por favor, não olha a bagunça. Eu lhe chamei de última hora, sequer tive tempo de arrumar alguma coisa.

–Não tem problema. Vamos começar logo.

–Tudo bem. Meu quarto fica no andar de cima, vamos.

Fico nervosa por ir ao quarto de Len na primeira vez que venho em sua casa, afinal, é o quarto do garoto que gosto. Entretanto, não quero permanecer com esse sentimento de pensar nele num modo romântico depois de tudo que houve ontem.

Com meu coração um pouco mais rápido que o normal, adentro ao quarto de Len. Um quarto normal para um menino da sua idade. Muitos pôsteres de bandas espalhados nas paredes brancas. Uma mesa com computador, um amplificador à esquerda acompanhado de um tripé para baixo. Em sua cama de solteiro, ainda bagunçada, encontra-se seu violão. No centro do quarto, uma pequena mesa e um tapete verde. As estantes repletas de quadrinhos e CDs.

O loiro tira os livros da mochila e pede para que me sente ao lado da mesinha de centro, essa que fica a frente de uma televisão com videogame. Ele pede desculpas mais uma vez pelo lugar bagunçado e começamos a estudar.

O silêncio domina enquanto ele copia o que perdeu ontem dos meus cadernos. Logo começa a me perguntar coisas de matemática, disciplina que confesso não ser nem um pouco boa. Seguimos o tempo de mais ou menos uma hora e meia estudando até que Len deixa escapar algo sem querer de seus lábios:

–Ele deve chegar daqui a pouco. Tomara que não durma aqui essa noite.

– O quê? –pergunto sem entender muito.

–Falo do meu pai. –ele diz fechando o caderno. –Você disse que não queria falar desse assunto num quarto de hospital. Quer falar agora?

–Se você estiver louco para contar... Não vou impedir.

–Bem... A questão é que... Eu odeio meu pai.

–Acho que já percebi isso.

–Sim. Eu tenho problemas familiares. Meu pai é um executivo de uma empresa muito grande. Éramos muito próximos e felizes, mas isso foi há muito tempo atrás. Acontece que houve um momento em que sua empresa estava quase indo à falência. Ele ficou muito preocupado e precisava de dinheiro para cobrir os custos. Foi aí que ele começou a se envolver com as pessoas erradas... E mudou completamente.

–Quando você diz pessoas erradas, aonde quer chegar?

–Máfia, Yakuza, não ficaria surpreso se ele também estivesse envolvido com traficantes grandes.

–Nossa... Mas e o resto da sua família? Sua mãe?

–Minha mãe?

Len não termina sua frase ao ouvir a porta abrir. Ele simplesmente puxa-me pela mão e fugimos pela porta dos fundos. O sol está quase se pondo e nós corremos pelo quintal que liga as três casas. Invadimos a casa que acredito ser de Rinto e saímos pela porta da frente da casa do garoto que sequer está aqui agora. Estamos no meio da rua com chinelos caseiros.

–Não queria continuar isso com ele lá. –Len me diz apontando para o carro preto estacionado na porta de sua casa.

–Você foge toda vez que ele chega?

–Não, só fugi porque estou com você. Quando estou com outras pessoas, o que é muito raro, ele costuma me humilhar, como fez ontem no colégio na frente dos professores. Naturalmente, quanto estamos sozinhos em casa, nenhum fala com o outro.

–Então o ódio entre vocês é realmente mútuo. Mas o que aconteceu para vocês se odiarem tanto? Eu entendo que você o odeia por ele ter se envolvido com coisas erradas, mas o que você fez?

–Você acabou de me perguntar sobre minha mãe não foi? Então, ela é a chave pra a resposta de sua pergunta. Vem aqui comigo rapidinho que você vai entender tudo.

Len segura minha mão novamente e me leva para além de sua rua. Dobramos uma esquina e outra e continuamos a andar com chinelos caseiros até chegarmos a uma parte peculiar do bairro residencial. Um parquinho, uma quadra de futebol, uma floricultura. O loiro para no vendedor de flores e compra duas rosas, uma branca e outra vermelha.

Ele toma minha mão novamente e volta a andar, guiando-me de uma maneira mais lenta. Tento não entender a situação, mas tudo fica mais claro quando chegamos a certo lugar deveras particular.

–Podia fechar seus olhos por um instante? –ele me pede gentilmente.

–Por quê? Eu já entendi tudo.

Afinal, estamos na frente de um cemitério.

Minhas mãos tremem e suam e Len nota isso. Mas ele está tranquilo. Entramos no cemitério e andamos um pouco até encontrar o túmulo que o loiro deseja mostrar-me. Ao chegarmos a destino, posso ver que na lápide, há uma foto de uma moça serena, sorridente e que emana uma aura de pureza. Uma moça que faleceu com apenas quarenta e cinco anos.

Meus olhos enchem-se de lágrimas. O garoto que todos julgam ser apenas um preguiçoso tinha passado por tanta coisa. Apesar de eu sentir a tristeza do momento, ele está sorrindo simploriamente. Mas eu também perdi um ente querido. Eu sei que com o tempo, a gente não chora mais.

–Numa noite chuvosa de primavera, meu pai ligou dizendo que não voltaria para casa para dormir. Minha mãe ficou preocupada, achou que ele tivesse tendo um caso com alguma mulher. Mas eu sabia do que se tratava. Eu tinha visto meu pai conversar com uns caras que andavam armados.

–Máfia? –pergunto.

–Provavelmente. Naquela noite, ele não iria se encontrar com nenhuma mulher e sim com a morte. Mas minha mãe foi verificar isso com seus próprios olhos. Ver se não era realmente traição. Eu tentei para-la, mas foi inútil. Tudo o que pude fazer foi segui-la e vê-la tomar um tiro por meu pai.

–Um tiro? O que quer dizer?

–Meu pai estava devendo a um cara da máfia. Ele tinha ido ver se conseguia negociar a dívida. Minha mãe sabia onde ele sempre encontrava pessoas, era num bar numa esquina no mesmo bairro. Quando ela viu o marido na mira de um mafioso, ela pulou na frente dele e tomou o tiro fatal em seu lugar. Meu pai realmente tinha um caso, e ela acabou morrendo sem saber. Morrendo por um homem que colocou-lhe um belo par de chifres, morrendo por um mafioso. Morrendo por um homem que só valorizou o dinheiro.

Ele aperta minha mão e morde o lábio inferior. Aperto também e deixo um par de lágrimas descerem involuntariamente. Não conseguia mais segurá-las. Eu, num momento como esse, sofro por alguém que nem conheci. Porque essa pessoa era a mais importante para a pessoa que amo. E pensar que Len mal teve quem segurar suas lágrimas naquela época.

–Ela pode ter sido cega... –tento dizer- Mas foi uma brava mulher. Morreu pelo homem que amava. O homem que segundo você mesmo, nem sempre foi ganancioso.

–Sim. Meu pai nem sempre foi assim. Mas depois da morte da mãe, ele ficou pior. Ele sempre me culpa por isso.

–Mas você não teve nada a ver.

–É verdade. Mas eu penso que podia ter feito mais. Mesmo tendo só dez anos naquela época. Sabe aquele dia em que lhe pedi desculpas? Aquele dia que cheguei tarde à escola? Era o aniversário de seis anos de morte dela. Yui, minha mãe.

–Eu sinto muito...

–Obrigado. Apesar de tudo, eu consegui meio que aceitar. Porque superar de verdade, a gente nunca supera. Eu sei que seja lá onde ela estiver ela quer que eu seja feliz e sorria. Mas eu não posso fazer isso com aquela pedra enorme no meu caminho.

–Você pode conseguir. Você tem muita gente do seu lado agora. Além da Neru e do Rinto, tem eu, Miku, Kaito, Luka, Meiko, Gakupo, Gumi. Somos todos seus amigos. Estamos todos com você.

–Sim. Obrigado. Por estar do meu lado, mesmo eu tendo me afastado de você. Se minha mãe estivesse viva, eu teria te apresentado a ela.

–E não é isso que você está fazendo agora?

Ele dá um sinal de positivo com a cabeça. Acendemos um incenso, fazemos uma oração e continuamos aqui, de frente para o túmulo. Yui era a mais nova de três irmãs. Trigêmeas. Ela fora a última a sair. E a primeira a morrer.

Len deixa no túmulo de sua mãe a rosa branca que comprara. É algo que combina com a serenidade da mulher na foto. Ele diz:

–Mãe, eu era muito novo quando a senhora falou que toda mulher gosta de rosas. Eu comprei três rosas naquela época. Uma branca para senhora e duas cor-de-rosa para Neru e Lenka. Você disse que as rosas brancas podiam ser eternamente suas, já que eram suas favoritas. Eu sempre lhe trarei rosas brancas. Disse que as cor-de-rosa são para as melhores amigas. Mas mãe, eu encontrei alguém para dar uma rosa vermelha.

Len vira-se para mim entrega-me a rosa vermelha. Fico um pouco sem entender a situação. O rosto do loiro fica vermelho da cor da flor que ele me dá. Ele coça a bochecha em meio a uma face envergonhada e diz:

–Minha mãe disse que as rosas vermelhas tem que ser dadas para aquelas em que se vê amor.

Amor?

...

Continua...