My Songs, My Life
14 Something New
Notas iniciais
Creio que já perdi as contas de quantas vezes Len já deu pistas de que seus sentimentos por mim podem ser os mesmos que os meus por ele. Ele já deu peças separadas de um quebra-cabeça, em que a figura a ser montada seria uma suposta reciprocidade amorosa, mas agora, isso foi além.
Uma rosa. Uma flor da cor do amor. Ele mesmo conta do que sua falecida mãe lhe ensinara. Ele deu uma rosa cor-de-rosa às primas e uma vermelha a mim. Se isso não for uma demonstração de amor, eu não sei o que é.
–Você diz... Aquele tipo de amor? –pergunto envergonhada.
–Vermelho é a cor do amor. –ele faz uma pausa- E também é a cor dos heróis. E como eu já disse você é minha heroína.
Claro, ele não ia se declarar para mim na frente do túmulo de sua mãe.
Aceito a flor e seguro com as duas mãos, viro meu rosto, pois o sinto queimar, ele entende a situação e dá uma risada.
–Parece que fiz você entender algo errado, não foi? –ele toca meu ombro.
–Mais ou menos.
–Bem... Era isso que eu queria te dizer, se não fosse por toda essa situação. A questão é que luto para obter uma emancipação de meu pai. Naturalmente, eu poderia viver tranquilamente naquela casa sozinho, já que é uma herança que minha mãe pegou de meu avô e agora eu pegaria dela. Mas eu tenho uma pensão dela e não posso administrá-la até fazer vinte anos.
–Mas ele não poderia administrar de longe?
–Sim, mas ele prefere ficar de perto. Caso ele morra também, quer que alguém o substitua na empresa. Tudo o que ele tem lá está em meu nome, inclusive suas dívidas. E também, seria bem mais perigoso se ele administrasse a pensão de longe, mesmo sendo pouca a quantia, ele ainda ia ficar com tudo.
–E se você tivesse uma emancipação, poderia tomar conta do dinheiro e do próprio nariz sem intromissão do seu pai?
–Sim. Na verdade, eu imagino que ele só esteja preocupado com minhas notas porque ele tem interesse no meu cérebro. Ele quer que eu seja um empresário que nem ele, mas eu não quero conta com essa história. Não quero saber de nada dessa maldita empresa que destruiu nossa família.
–Então, basicamente, você é um garoto que vive um inferno diário com o seu pai e um abismo mental porque todos esses problemas fazem você perder o foco?
–Isso. Eu sei que essa preocupação dele com minhas notas é só porque ele quer que eu seja um super empresário e tome conta de tudo o que é dele. Por conta disso, procurei não levar mais as coisas tão a sério, além de tentar arrumar algo para ter como distração. Mas antes que eu pudesse notar, ele já estava lá questionando. “É isso que você quer ser?” Foi aí que eu percebi que as coisas que eu gostava como passatempo, como o basquete e o desenho, podiam ser algo como carreira e algo bem sério, fui desistindo gradativamente deles.
–E não tem nada que você goste que venha da sua mãe?
–A música. Sabe aquele piano lá na sala? Então, era o item mais precioso dela. Minha mãe era professora de ciências em uma escola pública e ensinava música numa escolinha de artes para crianças no nosso bairro. Ela quem me ensinou a tocar violão. Quando ela faleceu, decidi que eu podia desistir de tudo, menos da música. Foi aí que eu decidi frequentar a escola que ela ensinava antes de morrer.
–Que decisão nobre. Sua mãe foi uma pessoa incrível.
–Sim. E ela iria adorar te conhecer. Aliás, você me lembra muito dela.
–Sério? Fico feliz em lembrar-te alguém tão especial.
–E aí, quer dizer algo a ela, antes de irmos?
Boa pergunta. Ele já disse tudo como filho, então o que eu posso dizer como uma mera estranha? Nunca nos conhecemos, mas sei sua história. Uma mulher que lutou trabalhando, casou-se com um homem que era gentil, mas que acabou mudando bruscamente devido a usura. Morreu ao proteger o que amava. Teve um filho deveras peculiar, mas ainda é um garoto gentil que com certeza a amava. E ainda ama.
Volto meu olhar para o túmulo e a foto acompanhada do sorriso sereno da moça. Ela era linda. Tento imaginar as cenas de tudo o que ela passou. Mas, ela já está morta. Eu não posso fazer nada em relação a isso. Não estou dizendo que ela não possa ouvir o que eu direi, mas estou dizendo que não posso dizer algo que agrade só a ela. Eu tenho que dizer algo que alcance Len. Ele que está vivo. Ele que deve deixar a própria mãe feliz.
–Yui-san... — tento falar algo- Meu nome é Rin. Sou amiga do seu filho. Eu gostaria muito de ter me encontrado contigo, eu ia querer que a senhora me ensinasse piano. É um instrumento muito lindo. Mas... Yui-san, eu estou aqui para lhe fazer uma promessa. Prometo que vou fazer o Len te dar orgulho!
Sinto meus olhos molharem levemente. Olho para Len, que está com um sorriso enorme no rosto, mas com um olhar perto de transbordar. Ele toma a minha mão e saímos do cemitério de mãos dadas.
Andamos um pouco até chegar a uma praça. Lá, solto a mão de Len e avanço alguns passo e paro na sua frente. Logo depois digo:
–Se quiser dizer algo, demonstrar algo, a hora é agora.
O garoto vem até mim, encosta sua testa em meu ombro, mas ainda estou de costas para ele. Ele segura meu pulso direito com sua mão esquerda. Não demora muito até sentir a manga no meu uniforme ficar levemente molhada.
Ele está chorando...
–Eu quero que saiba que, comigo, você pode sorrir quando tiver vontade, chorar quando tiver vontade, falar uma besteira quando tiver vontade e socar uma parede quando quiser. Aliás, não só comigo, mas com todos aqueles que estavam naquele quarto de hospital com você ontem.
–Eu sei... Obrigado... Por tudo.
–Você não precisa agradecer por nada.
–Sabe... Eu não choro na frente de alguém há anos.
–Você tecnicamente está atrás de mim.
–Engraçada você. –sua voz fica mais leve- Sabe, eu disse que a gente se acostuma, mas nunca supera. Eu sinto tanto a falta dela. Eu odeio admitir, mas também sinto falta do antigo jeito do meu pai. Por que as coisas não podem ser como antes?
–Gostaria de poder te responder. –sua mão escorrega e encontra a minha, nossos dedos acabam se entrelaçando.
–Pode prometer algo para mim?
– O quê?
–Prometa que as coisas entre nós nunca vão mudar. Independente de qualquer coisa!
–Idiota. Eu já prometi isso. –minhas lágrimas voltam a escorrer.
E assim ficamos por um bom tempo. Eu de costas para ele e ele constado em meu ombro, molhando meu uniforme com suas lágrimas. Sei que ele está de costas para que eu não o veja chorando. Mas logo nos separamos e vejo seu rosto vermelho e seus olhos ardentes. Os meus também ardem.
Abraçamo-nos como nunca fizemos antes. Afundamos nossos sentimentos nesse ato de afeto e deixamos todas as nossas angústias se afogarem nele. Ao nos separarmos novamente, notamos que está quase escuro. Voltamos a sua casa para que eu possa pegar minhas coisas. O carro não está mais lá.
–Tem certeza que não quer que eu te leve em casa? –ele pergunta ao chegarmos à estação. Ele insistiu em me acompanhar até aqui.
–Quando eu chegar à estação do meu bairro, eu ligo para a Meiko e ela me dá uma carona.
–Então quando chegar em casa me liga.- ele fica um pouco corado ao demonstrar preocupação- Só para dizer se está tudo bem.
–Beleza. –digo sorrindo- Ei Len, obrigada por me contar tudo.
–Eu que agradeço por ouvir.
Notamos que o trem está para chegar, ele percebe e parece um pouco perturbado, até dizer:
–Rin... Quando as provas acabarem... Eu vou lhe dar uma resposta.
– O quê? Mas você já me deu. E está longe de resolver seus problemas.
–Isso é verdade. Mas não adianta nada eu resolver tudo e não ser honesto na minha resposta.
–Isso quer dizer que...
–Rin, por favor, me espere. Eu lhe darei a minha resposta.
Meu coração dispara novamente. Vejo meu rosto refletido no vidro do trem. Minha expressão é ridiculamente surpresa, acompanhada de um pequeno sorriso de canto. Isso quer dizer que... É recíproco...
Entro rápido do trem e despeço-me de Len acenando. Ele também acena e diz algo que não consigo ouvir por já estar dentro do transporte, mas leio seus lábios e acabo por entender o que é.
“Eu prometo”
Com essa mistura de lágrimas e sorrisos, chego à estação perto da minha casa. Decido não ligar para Meiko, já que estou tão perto e ainda há tanto movimento, que não corro muitos riscos por aqui. Corro bem rápido para chegar em casa.
Na minha residência, meus pais me perguntam a razão de eu ter chegado já em meio à escuridão noturna. Rebobino a fita do dia e reflito comigo mesma. Len já não tem mais a família do jeito que tenho. Meu pai, minha mãe. Apesar de termos problemas e brigas, ainda somos uma família pacífica. Estamos todos vivos e convivendo relativamente bem. Vi Len sentindo-se tão mal por não ter mais sua mãe para compartilhar seus momentos olho para minha mãe e sinto vontade de chorar.
Sim, chorar por todas as vezes que a decepcionei, todas as vezes que menti para ela, todas as vezes que a deixei preocupada, como agora. Sei que não a terei a vida toda, todos nós morrermos um dia. Mas se eu não me arrepender do que fiz para ela agora, quando vou me arrepender?
Decido então contar a verdade sobre o meu dia aos meus pais. Que fui para casa do meu colega estudar, e depois ele me levou para ver o túmulo de sua mãe, ficamos conversando e ele me deixou na estação para que eu voltasse para casa.
Eles não reclamam como pensei que fossem. Já que minha mãe não gosta que eu viva frequentando diariamente as casas alheias e meu pai odeia a ideia de eu estar sozinha com um garoto até escurecer, eles parecem me entender agora.
Sinto um alívio no meu coração por não ter mentindo para eles. Também fico feliz em ter conversado com eles sobre isso. Eu não suportaria ficar com isso guardado para mim e não sei se tenho permissão de Len para falar com Miku ou Kaito ou Luka ou até mesmo Neru a respeito disso.
Apesar de não ter mentido sobre a situação, omito o fato de estar apaixonada por Len, e também escondo a rosa. Mesmo não gostando de mentir, decido dizer que a flor foi algo que eu mesma plantei na escola, caso minha mãe a encontre no meu quarto.
A flor acaba em um pequeno vaso com água na minha escrivaninha. Passo um bom tempo a observando. O que ele disse sobre dar essa flor à garota que sentisse amor, e ao mesmo tempo falando que era porque eu sou sua heroína, e depois dizendo que voltará atrás de sua resposta por esta não ter sido honesta...
Ele deve realmente me amar...
Durmo feliz pensando na possibilidade disso ser verdade e logo o outro dia chega. Arrumo-me tão depressa que me esqueço de por meu laço na cabeça. Chego ao colégio com os cabelos bagunçados e esvoaçantes.
A primeira pessoa com que falo é Kaito, que aparece perto do meu armário de sapatos, me dando o maior susto.
–De onde você surgiu? –pergunto assombrada.
–Isso não importa, só quero saber se foi tudo bem ontem. Você foi para a casa dele depois do ensaio.
–Foi tudo bem. Está tudo bem entre a gente.
–Descobriu algo sobre o desmaio?
–Sim. Mas se quiser saber algo, melhor perguntar à fonte.
–Imaginei que ouviria isso de você. Mas tudo bem, depois eu descubro o que tiver para descobrir. Mas, antes que eu me esqueça, consegui um encontro com a Lily-chan! –Kaito diz todo sorridente.
–Sério?!-pergunto feliz de verdade por ele.
–Sim. Quero dizer, não é exatamente um encontro a sós. A Miku e o Gakupo vão sair aí e eu perguntei ao Gakupo se ele não podia me arrumar com a Lily, já que eles são amigos. Ele disse que ia falar que ia sair não só com a namorada, mas com alguns amigos também, assim ela vai e eu também vou.
–Aí, você vai tentar ficar sozinho com ela no meio do processo?
–Exatamente. Finalmente eu vou poder dar a Lily-chan, o tratamento que ela merece.
–Uau, parece que você realmente gosta dela.
–Bem, não é um gostar do mesmo jeito que você gosta do Len, mas eu quero transformar em algo assim.
–Boa sorte então, Bakaito!
–Para você também.
Sigo meus caminhos até a sala de aula. Lembro de que finalmente, a semana letiva está acabando. Todos estão agitados esperando os professores chegarem para que possamos ir embora o quanto antes para aproveitarmos nossa folga.
Em frente a nossa sala, Rinto, Neru e Len conversam. Quero encontra-los e cumprimenta-los, mas algo dentro de mim faz o meu corpo travar no meio do caminho. Observo Len de cima para baixo. Seu rosto sorridente, seus cabelos amarrados, sua camisa por fora da calça. Tudo normal para ele, mas algo nele parece diferente para mim.
É como se ele tivesse ficado mais atraente da noite para o dia. Mas nada mudou no visual do garoto. Nenhum músculo cresceu, nenhum fio capilar foi cortado, nada mudou. Hesito em chegar perto do loiro. Meu coração dispara, e minha pele arrepia. Parece até que estou gostando ainda mais dele.
Imagino se isso não foi culpa do que passamos ontem. Conheci um pouco mais de Len. Talvez eu saiba tudo sobre ele, ou ao menos quase tudo. Durante todo esse tempo eu o vi sorrir e chorar, o vi me evitar e me beijar. Vi o Len tímido e o Len atrevido. O garoto trancado no silêncio da timidez e o garoto que fala demais. O menino que se diverte e o menino que sofre. É possível que tudo isso tenha se reunido dentro de mim a ponto de aumentar meus sentimentos por ele.
Tentando afastar essas conclusões do meu cérebro, avanço meus passos e dou bom dia aos três jovens parados na frente da porta da sala. Apenas Rinto e Neru me respondem, quando volto a olhar para Len, vejo que seu olhar não encontra o meu. Ele olha para o chão para desviar seus olhos de mim. Face envergonhada e bochechas vermelhas, até suas orelhas estão queimando.
Devo admitir que ele é muito fofo assim.
Mas será que aconteceu com ele o mesmo que aconteceu comigo?
–Ei, seu mal-educado, não vai responder a garota?- Rinto pergunta dando um tapa na cabeça de Len.
–R-Responder? –Len levanta a cabeça assustado. Talvez a palavra “resposta” esteja o assombrando.
–Relaxa, ele falou baixinho apenas. –digo e logo depois adentro a sala.
As aulas passam com o total silêncio do garoto atrás de mim que adora conversar. Sinceramente, isso me recorda quando estávamos sem nos falar. Mesmo sabendo que o motivo é diferente, fico um pouco amedrontada. O receio de que voltemos a ficar num silêncio absoluto me perturba.
No horário do almoço, quando vou sentar-me ao lado de Teto para apreciar a refeição, Len pega a minha mão e me leva para fora da sala sem falar uma palavra. Fico constrangida por ter deixado Teto sozinha nesse jeito, mas confesso que estou curiosa e nervosa com isso.
Len acaba levando-me para o final do corredor das turmas do segundo ano. Chegando lá, ele solta a minha mão e volta a desviar o olhar para o chão. Seu rosto está mais rubro do que nunca. Sinto minha face arder também, estamos sozinhos aqui. Não vamos esquecer de que ele fez meu coração acelerar além do normal mais cedo.
–S-Sabe... Eu acabei dizendo umas loucuras ontem. –ele tenta dizer algo.
–Loucuras?
–Sim... Umas coisas constrangedoras... Desculpa por ter envolvido você em meus problemas.
–Está tudo bem, eu não me importo. Aliás, eu que procurei isso tudo.
–Olha... Droga... –ele não consegue chegar onde deseja.
–Não se force a dizer nada. Se você quiser que eu esqueça algo...
–Não! Não é isso o que eu quero. –ele finalmente olha para mim. –Eu só... Quero levar aquilo o que disse a sério. Sobre responder você depois das provas.
–Ah, aquilo? –agora eu que desvio o olhar- Tudo bem... Leve o tempo que precisar para pensar sobre isso.
–Obrigado. Muito obrigado mesmo Rin.
–Eu que agradeço.
–E... Tem uma coisa... –ele desvia o olhar e olha novamente para mim, coça a bochecha com apenas um dedo para disfarçar a vergonha- Não sei se isso adianta alguma coisa, mas é que...
–Fala logo! Está me deixando nervosa.
–Você está ficando mais bonita ultimamente. É difícil não ficar nervoso perto de você.
O que raios foi isso?
A expressão que ele faz é muito fofa, praticamente me mata por dentro. Parece até que vou por meu coração para fora do meu corpo. Isso é praticamente uma declaração. Entendo que ele quer se concentrar nos estudos e não quer se distrair comigo, eu confesso que quero o mesmo para passar o quanto antes com boas notas, mas por que ele não diz logo a verdade?
Ao ver minha expressão facial constrangida, Len começa a rir. E que risada boa. Mas é algo que me incomoda um pouco pelo simples fato dele ter se aliviado do constrangimento e só eu estar envergonhada.
–E você fica linda quando está assim toda vermelhinha. –ele diz rindo alto.
–Idiota... –aproximo-me aos poucos para uma revanche.
–O que você vai fazer? Vai me bater? –ele quebra totalmente o gelo e a atmosfera do nervosismo de antes.
–Nada disso.
Fico a centímetros de distância de Len. Ponho minhas duas mãos em seu rosto e aperto suas bochechas mornas. Seu rosto forma uma carta e acabo rindo na mesma proporção em que ele estava antes.
–Você não precisa fazer piadas para sair dessa atmosfera estressante.
–Eu não extava faxendo piada. –ele não consegue falar direito comigo apertando suas bochechas.
Meus dedos deixam o seu rosto e minhas mãos descem para seus ombros. Acabo por entrelaçar meus braços ao redor de seu pescoço. Encosto nossas testas e ele sabe o que acontece. Suas mãos trêmulas circundam minha cintura e nossos corpos acabam se aproximando mais a ponto de ficar colados.
Ficamos nos encarando por um tempo, olhando dentro dos olhos um do outro, sentindo a respiração, até que nossos ângulos faciais mudam e nossos lábios finalmente se encontram.
Os movimentos são lentos e calmos. Marcamos um ritmo sincronizado e aprofundamos o beijo cada vez mais e mais. Sinto cada milímetro de sua boca até onde posso alcançar e assim ele também faz. Não é nada muito agonizante a ponto de nos deixar sem ar, mas é um beijo tranquilo e demorado.
Separamos nossas bocas, mas nossos corpos continuam na mesma posição. Olhando dentro dos meus olhos, Len pergunta:
–Não disse que não íamos nos beijar de novo até que eu te desse uma resposta definitiva?
–Eu disse para você não me beijar. Eu que comecei com o beijo.
–Esperta. –um sorriso sucinto traça sua boca.
–Tome o tempo que precisar para me dizer o que quiser. Esse beijo já disse tudo o que você sente.
–Como assim?
–Não se faça de desentendido .- digo nos separando- Vamos voltar para a sala.
Fico feliz, mas não aquela felicidade que mistura tudo com euforia, que faz a adrenalina subir a ponto de não conseguir ficar quieta ou pensar em outra coisa além daquilo que me faz feliz. Pelo que fizemos, parece que Len sente o mesmo. Teto me questiona quando volto para a sala, mas prometo a ela que irei contar tudo depois.
Ao final das aulas, vamos para a sala do clube de música, onde Meiko está a nos esperar sentada em uma cadeira, com as pernas cruzadas um semblante sério.
–Boa tarde Sensei. –dizemos todos em uníssono.
–Boa tarde uma ova! –Meiko grita conosco.
Acho incrível esse jeito que ela assume. Sou prima dela e sei como ela é em casa. Ela consegue administrar todas as suas personalidades dependendo de onde esteja. Como professora de inglês na sala de aula, ela é calma e levemente rígida, às vezes faz uma ou duas piadas para deixar a aula mais dinâmica. Já na sala do clube de música, ela não tem escrúpulos nem pudor. Meiko puxa nossas orelhas, faz piadas sujas, fala palavrões e toca conosco, sequer parece nossa professora conselheira.
–O que foi? –Luka pergunta ao notar o estresse de Meiko.
–Bem, quero que cada um pegue uma cadeira e sente aqui na minha frente. Quero saber sobre as notas e vocês. –seu tom de voz é intimidador.
Mas a palavra notas já é intimidadora.
Kaito e Luka falam que com eles está tudo bem, como sempre. Miku confessa ter tirado nota baixa em química, eu falo que fiquei com a média arrastada em matemática e física. Já Len mostra ter passado apenas em artes e física.
–Bem, temos algo bem heterogêneo aqui. –Meiko começa um discurso- Se vocês ficarem tocando, mas tirarem notas baixas, esse clube corre perigo. Eu quero fazer algo divertido com vocês nesse verão, então não quero que fiquem para recuperação no verão.
–Vamos ter nossas atividades suspensas por algum tempo? –Kaito pergunta.
–Não exatamente. Vocês continuarão a vir para o clube, mas não irão tocar nada até a semana de provas começar. Usarão esse tempo depois das aulas para estudarem. A maioria aqui é do terceiro ano, então vocês ajudam quem for do segundo com as dúvidas e dificuldades. – Meiko explica.
–E se acontecer de eu ficar em recuperação, eu sou suspenso das atividades do clube? –Len pergunta.
–Não exatamente, você sabe como as aulas de verão funcionam não sabe? –Meiko pergunta ao loiro.
–Sim, uma semana de aula, a outra de prova de recuperação. Caso a pessoa não passe nessa etapa dos quatorze dias, ela tem que ficar durante o verão inteiro.
–Exato. Se você pegar a recuperação de quatorze dias, poderá participar das atividades de verão do clube e terá férias mais longas. Caso você não passe, não vai participar de nada e perderá suas preciosas férias preso na escola. – Meiko encerra seu discurso e todos vão estudar.
Assim termina a nossa semana.
Não sei como funciona o final de semana de Kaito e seu encontro em conjunto com Lily, Gakupo e Miku. Se eles dois ficarem a parte juntos, é capaz de que aconteça algo. Quanto a mim, tento focar nos estudos durante a folga semanal para garantir que não pegarei aulas de verão.
Minha prima Ia finalmente tem tempo para ir a minha casa, depois de uma semana que se mudou. Ela não mudou praticamente nada, apenas cresceu. Seus cabelos cresceram junto a seu corpo, agora com quatorze anos, Ia está na nona série do fundamental e continua sendo uma viciada em light novels e mangás.
Ia dorme em minha casa na noite de domingo para segunda e mesmo sabendo que temos aula no dia seguinte, ela não para de conversar. Eu sei que passamos muito tempo sem nos ver, mas a gente sempre se falava por mensagem de texto ou coisa parecida. Mas ela simplesmente não para de falar.
–Nessa minha escola nova tem até uns garotos gatinhos. –ela diz deitada no futon ao lado da minha cama.
–De que adianta ter gatinhos se você não fala com eles? –falo conhecendo a timidez da minha prima mais nova.
–Mas você era do mesmo jeito que eu e acabou conseguindo um namorado rapidinho.
–Ia, por favor, você prometeu não falar sobre isso. –viro-me de lado na cama para evitar o assunto que não suporto.
–Mas eu me lembro do seu antigo namorado. Eu sei que você já superou isso, mas não acha estranha a maneira de que ele sumiu do mapa?
–É claro que acho, mas eu nem ligo mais para isso. Eu estou apaixonada por outra pessoa agora.
–Sério?! E por que não me falou isso logo?
Digo apenas o básico sobre Len para Ia, afinal, estamos ambas com sono e não conseguimos mais manter uma conversa decente. Acabo prometendo contar mais sobre o assunto depois, quando tiver uma chance.
Na segunda feira, chego ao colégio em meio a muitos estardalhaços. As pessoas estão loucas porque faltam apenas uma semana para as provas, o calor do quase verão está queimando os neurônios de todos, mas uma coisa a mais chama a atenção de todo mundo.
–Estão dizendo que é um aluno novo. –Luka me diz ao me encontrar no corredor.
–Mas, nessa época do ano?
–Sim, parece que é alguém que acabou de se mudar para cá.
Acho estranho, mas não me deixo abalar como o resto do colégio, até porque, é só mais um aluno como todos nós. Ao menos que seja algum filho de famoso ou algum ídolo adolescente da mídia.
Não, alguém assim não entraria aqui.
O professor demora a entrar na sala então acabamos conversando na frente da sala. Neru, Haku, Len e eu. O garoto parece um pouco calado, mas não do jeito que estava na sexta-feira. Ele não está nervoso por estar perto de mim ou porque nos beijamos, parece outra coisa.
O estranho é que na nossa conversa, ninguém fala do misterioso aluno novo. Acho que todos esquecem o assunto, até que eu me recordo e tento trazê-lo à tona ao ver Len um pouco preocupado.
Mas antes que eu possa dizer qualquer coisa sobre isso, uma garota pula nos ombros de Len, deixando o garoto assustado. A força que a garota usa no ataque, quase derruba o menino. E claro que estou odiando a cena de uma garota pendurada em Len.
–Len-kun! Estou na sua escola agora! –a menina diz abraçando Len e me tirando do sério.
A garota é baixinha e possui um longo cabelo longo preso em um rabo de cavalo. Tem olhos verdes e um tom de voz irritante. Logo atrás vejo Rinto correndo em nossa direção e ao chegar perto da gente, diz:
–Gente, desculpa o transtorno. Ah, Haku e Rin, essa é minha irmã mais nova Lenka, ela está no primeiro ano e acabou de se mudar para cá.
A irmã do Rinto...
...
Continua...
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