My Songs, My Life
5 More than friends, less than lovers
Notas iniciais
Há dias em que Neru simplesmente tira todo o resto de paciência que tenho no fim do dia. Mas hoje, mesmo que ela tenha tirado toda essa minha virtude, foi para me ajudar a dar um pulo tão alto, que eu não conseguira dar sozinha.
Graças à sua sugestão, vamos sair em grupo e Len aceitou ir por querer me agradecer de alguma forma diferente. Essa diferença será paga em pizza. E quem não gosta desse alimento à base de massa moldada por deuses?
Estou tentando conter todas as minhas forças. Não é um encontro de casal, é uma saída entre amigos, numa sexta feira normal. Mas, seria estranho se eu tentasse subir o nível da minha amizade com Len nessa saída?
Sim, seria. Mais de uma vez, Len admitiu, deliberadamente que não somos nada além de bons amigos. Talvez, toda a minha insegurança com meus sentimentos seja pelo simples fato de não querer acabar com algo que ambos valorizamos nossa amizade. Ele deixou bem claro no terraço que não me vê “desse jeito” e eu não vou forçar nada à ele.
Isso quer dizer que não vou declarar meus sentimentos como Miku sugeriu? Errado. Claro que vou fazer isso. Mas no lugar certo e na hora certa. O festival do fundador é uma data perfeita, pois é uma data festiva em que todos nós nos divertimos além de ser um evento apenas do colégio –diferentemente do festival cultural, que é aberto para o público externo- o que nos dá a chance perfeita de ficarmos sozinhos, num clima em que eu posso dizer o que sinto apropriadamente.
Até lá, eu posso usar o tempo para ficar mais próxima dele em situações como essa. Eu achei que demoraria centenas de anos para conseguir sair com Len, mesmo entre amigos. Dessa vez, admito que devo agradecer à Neru mais tarde.
Enquanto estamos conversando perto das torneiras, Rinto e Neru juntam-se à nós.
–Então Len, você vai? –Neru pergunta.
–Vou sim. Depois da aula e das atividades dos clubes de vocês, certo? –o loiro confirma.
–Sim... Milagre que você vai, seu HikkiNEET. –Neru diz meio surpresa. –Normalmente você recusaria o convite para ir direto para casa virar a sua noite de sexta jogando.
–Isso não é da sua conta. E além de tudo, faz tempo que não como pizza. –Len diz irritando-se com a prima.
–Então, quem vai além de nós quatro? –Rinto pergunta.
–Haku e Teto. –Respondo.
–Beleza Len! –Rinto pula para perto do primo-Todas as gatinhas amigas da Neru estarão lá.
Depois dessa tentativa de piada de Rinto, seguimos para os vestuários, tomamos banho, vestimos novamente nossos uniformes convencionais e vamos almoçar. Passo o resto do dia aleatória a tudo o que se passa pensando apenas em Len e na melodia que se formou em minha cabeça ontem na banheira.
Sinto-me culpada em admitir que não consegui prestar atenção nas aulas seguintes da tarde. Len também não conversa, está completamente quieto, o que me preocupa um pouco. Ao bater do sinal, é mais que automático que recolha minhas coisas rapidamente, junto à minha guitarra. Deixo meu lugar mais rápido que o loiro atrás de mim, que consegue fazer isso em questão de segundos e ser o primeiro a sair da sala.
–Ei Rin!-ele me chama.
–O quê?-pergunto já na porta da sala.
–Você, Neru, Rinto e as garotas têm atividades do clube. O que eu vou fazer para esperar vocês?
–Não sei, se vira, você me deve uma pizza. –respondo. –Se quiser, pode ficar na sala de música nos vendo ensaiar.
–Não, eu meio que estou em dívida com Kaito por ter rejeitado a oferta dele, e Luka-senpai provavelmente não vai curtir muito minha presença lá, já que ela é a presidente.
–Que nada, eles não ligam para isso. –digo sorrindo.
–Ah, Rin. –Teto me chama ao se aproximar da porta. — Eu não vou poder ir hoje com vocês. Parece que meu irmão mais novo está doente e minha mãe quer que eu fique com ele em casa.
–Ah Teto, eu sinto muito. –digo realmente triste- Se você não vai então eu também não vou.
–Não precisa, pode ir, divirta-se eu vou outro dia. –ela diz, vira para Len e depois volta seu rosto para mim e pisca- Boa sorte!
É deprimente o fato de Teto, a garota mais inocente e lerda em relação ao amor ter notado que estou gostando de Len.
Eu sou tão legível assim?
Todos saímos da sala e Len promete ficar sentado em um dos bancos da área externa da escola até terminarmos nossas atividades. Digamos que ele não quer encarar os membros do clube de música, ver Rinto no clube de basquete deve ser um pouco frustrante para ele e quanto ao clube de literatura, ler não é bem o forte dele. Ele apenas gosta de ler mangás.
Deixo de ficar preocupada se ele irá realmente nos esperar e vou diretamente ao clube.
Agora penso apenas em descarregar tudo o que está em minha cabeça. Chego na sala do clube e encontro os três veteranos conversando. Não presto atenção no assunto e trato como se fosse uma aleatoriedade qualquer. Parece que minha existência o aparência nesse momento não é notada, mas é melhor assim.
Tiro minha guitarra de seu compartimento, plugo-a no amplificador, e começo a tocar as notas que estavam na minha cabeça desde a noite passada. Começo lentamente e de forma gradativa vou acelerando o ritmo até eles notarem minha presença.
Os três interrompem sua própria conversa e prestam atenção em mim, ao perceber isso, paro o som e peço:
–Rápido, um papel e uma caneta, ou lápis, o que seja.
–Aqui Rin- Luka entrega-me os materiais. — Isso foi repentino, de onde tirou essas notas?
–Da banheira. Estou pensando nisso desde a noite passada. Também já tenho uma certa ideia para a letra. Vocês bem que poderiam ir afinando seus instrumentos enquanto escrevo isso aqui.
–E a música da Luka? O que vamos fazer sobre ela? –Kaito pergunta.
–Podemos ver isso depois. –Miku diz. — Hoje é sexta, temos tempo para ver isso.
–Na verdade... Eu não posso demorar muito hoje. –digo.
–Por que? –todos perguntam em perfeita sincronia.
–Eu vou sair para comer pizza com um pessoal.
–Mas você não falou nada. –Miku diz.
–Foi decidido agora e também não é tudo que te conto. –digo voltando-me para o papel.
–Quem vai? –Luka pergunta.
–Neru, Haku, Rinto, Len e eu.
Quando cito o nome de Len, a atmosfera da sala muda completamente. Agora percebo que realmente todos conseguiram perceber que realmente estou interessada em Len, até Luka percebeu. Todos os presentes seguem com sorrisos maliciosos, o que me deixa com vergonha.
–Não é um encontro, seus idiotas!- digo irritada.
–Ninguém disse que era um encontro, Rin-chan.- Luka diz rindo.
–Poderia ser um encontro em grupo. -Miku sugere em gargalhadas.
–Suas tontas, não sabem que tem mais garotas que garotos? –digo estressada, dando seguimento à conversa.
–Então eu bem que poderia ir para equilibrar os números. –Kaito diz rindo maliciosamente.
–Seus malditos! Não é um encontro! Muito menos um encontro em grupo! Ia ser apenas a noite das garotas, mas aí a Neru pensou em chamar os primos e o Len está me devendo um favor e topou ir...
Eu e minha boca grande.
–Ah, então era sobre isso que vocês estavam conversando ontem!- Kaito conta- Que tipo de favor ele te deve?
–Não lhe interessa!- digo sentindo meu rosto queimar.
–Bem gente, estamos perdendo tempo demais discutindo coisas fúteis. –Luka assume sua liderança de presidente do clube.
–Luka-senpai, isso, me salve! –digo abraçando-lhe.
–Calma Rin-chan. –a rosada continua- Visto que é sexta-feira e que todos querem se divertir, vamos encerrar as atividades do clube aqui.
–O quê? Não pode fazer isso! Não podemos ficar sem ensaiar logo agora, tão perto do festival do fundador! –grito assustada separando-me da veterana.
–Calma Rin, nós não vamos ensaiar mais por hoje porque todos nós temos uma música em andamento para terminar. A atividade do clube hoje é terminar a música que começamos. –Luka encerra seu discurso.
–Espera todo mundo começou a escrever música? Até a Miku e o Bakaito?
–Como a Luka-chan foi para a minha casa ontem e tinha começado a dela, eu comecei uma também. Já que meu irmão estava lá, foi bem legal, porque ele nos ajudou. –Conta Miku.
Entendo certa parte das coisas. Luka está apaixonada por Mikuo e ontem foi à casa de Miku vê-lo. Creio que a rosada está cheia de inspiração, já que reviu o seu amor.
–Eu não estava conseguindo dormir com uma batida na cabeça, então escrevi umas cifras que ficariam legais acompanhadas das batidas que pensei. –Kaito explica- Antes das meninas chegarem, eu estava treinando as batidas na bateria. Em casa, pretendo testar essa melodia no violão.
Eu nunca me senti tão feliz nesse clube. Pela primeira vez em mais ou menos um ano, a nossa produtividade está em alta. Nós costumávamos fazer isso ano passado. As sextas, ficávamos escrevendo músicas e se tivéssemos que sair, saíamos e continuávamos o trabalho em casa.
Eu não acredito que Neru e Haku irão encerrar as atividades de seu clube agora, mesmo sem Teto devido aos problemas dela, ainda há veteranos no clube de literatura que não as deixarão sair mais cedo. Mesma coisa com o clube de basquete, que treina todos os dias sem descanso. Mas os garotos do clube de Rinto são tão viciados pelo esporte, que chegam a ser maníacos por basquete.
Isso significa que eu e Len ficaremos sozinhos por mais ou menos uma hora.
–Estamos mesmo liberados? –pergunto nervosa guardando minha guitarra.
–Claro. –Luka responde. –Nem a Meiko-sensei virá hoje. Os professores estão em reunião.
–Sério? Então, eu posso mesmo ir? Mas o pessoal ainda tem coisa para fazer.
–Bem, tem alguém que está desocupado, olha lá. –Miku diz apontando pela janela da sala do clube, o banco em que Len estaria sentado.
Ele está mesmo me esperando.
–Vai lá, só não exagera na diversão. –Miku fala batendo em minhas costas.
–Divirta-se Rin-chan e boa sorte no seu encontro. –Kaito diz sorrindo descaradamente.
–Eu já disse, não é um encontro, idiota!
Saio da sala de um jeito meio rápido, na verdade estou correndo. Como não corria há muito tempo. Corro mais rápido que as batidas do meu coração. Chego à área externa do colégio onde o loiro está a minha espera. Quando chego, sem fôlego ele ri singelamente.
–Já foi liberada do clube? –ele pergunta.
–Já, não tínhamos muito que fazer hoje.
–Não ouvi quase nada hoje. Só uma guitarra.
–Espera, dá para ouvir daqui?
–Um pouco. Eu costumo ouvir os ensaios de vocês quando espero esses dois. Mas e você, quer esperá-los?
–Temos outra escolha? Foi ideia da Neru.
–Esperar é bem tedioso, queria dar uma matada no tempo enquanto eles não terminam o que têm para fazer.
–No que está pensando Len?
–Podemos passar mensagens para eles que estamos indo para uma certa loja de discos que fica perto da pizzaria que a Neru gosta.
–Está falando da “Biblioteca de Discos”? Eu amo aquela loja! Tem CDs de bandas e artistas do mundo inteiro!
–Eu também gosto bastante de lá. Já foi no subterrâneo de lá?
–Não, mas dizem que lá em baixo tem um espaço perfeito para shows.
–Eu já fui lá com meus tios, os pais do Rinto, sabe? Lá em baixo é incrível.
–Então, você quer ir para essa loja agora?
–Alguma objeção?
–Não, claro que não. Vamos mandar essas mensagens logo.
Depois de fazer o texto que mandarei para Neru, sinto um arrepio na minha coluna. Vou sair à sós com Len. Passaremos mais ou menos uma hora juntos sem a presença de outros e fora do colégio. Sempre tive medo disso, mas o que eu tenho que fazer agora é aproveitar.
Isso é como um encontro curto!
Eu e Len deixamos o colégio, um ao lado do outro. Ele, um garoto mais ou menos dez centímetros mais alto que eu, e quanto a mim, um garota um pouco mais baixa que ele, com a mesma tonalidade de cor de cabelo, pele e olhos. Quem nos visse poderia achar que somos irmãos, primos ou qualquer coisa, mas vejo muitos colegas olhando para nós de maneira pretenciosa.
Todos sabem que não tenho nenhuma ligação sanguínea com Len e que somos colegas de classe. Quase todos que conheço já sabem que sou apaixonada por ele, então, não seria surpresa alguma se alguém achasse que estamos namorando.
Eu acho isso até legal.
Os primeiros minutos de nossa caminhada são silenciosos por minha parte. Len está falando como nunca falou antes. Mesmo perdida em meus devaneios sobre a situação, não deixo de prestar atenção em cada movimento seu, em cada palavra, até no jeito em que levanta as sobrancelhas.
Isso talvez seja idiotice de quem é apaixonado, mas eu guardo tudo o que Len faz, gravo todas as suas palavras, observo cada uma de suas ações com carinho, mesmo que sejam coisas totalmente nada a ver.
–Ei Rin, tudo bem para você sair assim só comigo? –Len pergunta um pouco preocupado.
–Como? Problema nenhum, por que acha que tem algum problema?
–Talvez você quisesse estar acompanhada com suas amigas, não sei se você está acostumada a andar sozinha com um marmanjo.
–Ei, não vá se achando único. Eu tenho outras amizades masculinas além das suas e saio com meus amigos de vez em quando.
–Ah tá, tudo bem então. –ele diz rindo.
Não sei se isso foi um teste dele para saber se eu estava ou não gostando da caminhada. Talvez ele estivesse realmente querendo saber se eu tenho amizades masculinas. Será que ele estaria preocupado com isso? Será que ele estaria pensando nisso porque Kaito foi me buscar na sala ontem? Será que ele realmente quer que eu aprecie essa caminhada com ele, o considerando um homem? Mas essas questões só seriam levadas em conta se ele também estivesse afim de mim.
...Será?
–E você Len?
–Eu o quê?
–E suas amizades femininas?
–Ah, você também não se ache única. Eu também tenho outras amizades femininas.
–Tem mesmo? Você é considerado por todo o colégio um HikkiNEET sem experiência social. Você não me parece muito popular entre as garotas. –digo em tom de brincadeira, mas ao mesmo tempo testando-o.
–Claro que eu tenho amizades femininas. Acha que eu só ia ter de amiga você e a Neru, se bem que a Neru não conta, somos primos. Tenho muitas amizades femininas.
–Amigas normais ou de benefícios? –digo rindo para soar brincadeira.
–Não tenho algo assim. –ele diz rindo. –E você, tem amigos de benefícios?
–Não, essas coisas não fazem meu tipo. Mas você é acostumado a sair com suas amigas?
–Ah Rin, você sabe, eu não sou muito de sair. As maiorias das minhas amizades femininas foram feitas na escola, na rua onde moro ou pela internet. Como não gosto muito de sair nunca cheguei a sair com uma menina. Mesmo em grupo. Só a Neru, mas como eu disse não conta.
–Você nunca chegou a sair em grupo? –pergunto.
–Já claro, mas dificilmente esse grupo tinha uma garota. Na minha época do ginasial, quando eu estava no clube de basquete, os garotos do time sempre se reuniam nos finais de semana depois dos treinos para comer algo fora. Às vezes alguma menina ia, colega da gente ou tiete do time, até irmã de algum dos caras. Mas dificilmente falava com elas.
–Sei como é. Mas por que não falava com elas?
–Ah, não sei. Não sou bom em fazer amizades. Se a pessoa não vem falar comigo, dificilmente vou falar com ela. Isso vale tanto para garotas quanto para garotos.
–Eu sou meio que o contrário. Quando conheço alguém novo quero logo fazer amizade! Se for alguém que goste das mesmas coisas que eu fica ainda melhor!
–Completo oposto meu.
–Mas você acha isso irritante? Quero dizer, geralmente pessoas que são meio quietas não gostam de ser incomodadas.
–E você me acha quieto? Eu passo todas as aulas lhe enchendo o saco! Mas não, não acho irritante, pelo contrário, acho facilitador. Se a pessoa vem fazer amizade comigo é mais confortável para mim. Se você não tivesse falado comigo naquele primeiro dia, talvez eu nunca tivesse falado com você.
–Que cruel! –digo brincando-Quer dizer que eu não sou nem um pouquinho interessante?
–Pelo contrário Rin. –o loiro diz sorrindo- Quando lhe vi se apresentar na recepção para os calouros imaginei que você fosse uma pessoa incrível. E você realmente é. Não só na guitarra. É meio tonta e desajeitada, mas é muito atenciosa com os amigos. É uma pessoa cheia de virtudes. Eu certamente... Não me arrependo de ter me tornado seu amigo. –ele vira para mim com um enorme sorriso no rosto.
Suas palavras e seu sorriso quase ferem meu coração. A cada passo dado na calçada, a cada vírgula posta em nossas falas, imagino se Len se sente da mesma maneira que eu. Depois do seu discurso sobre mim, sinto todo o meu corpo mais quente que o habitual, eu juro que tudo o que eu quero é morder esse garoto.
–Len... Se você disser essas coisas às pessoas, elas vão acabar se apaixonando por você. –digo tentando uma abordagem.
–Nossa, desculpa se isso foi meio constrangedor. Parando para analisar, realmente foi constrangedor. –ele diz corando levemente.
–Não, não foi ruim, pelo contrário. Deu vontade de mandar você repetir tudo isso e gravar para que eu ouça isso toda vez que eu me sinta mal.
–É que ultimamente você tem dado um upgrade na minha autoestima. Por isso vou tentar lhe agradecer até puxando seu saco.
–Tonto. –digo entre risos- Também fico feliz em ser sua amiga. Na verdade, não quero que isso acabe.
–Ei, não diz essas coisas não Rin, eu vou acabar me apaixonando. –ele diz em tom de brincadeira.
Sou obrigada a admitir que acho que ele está correspondendo meus sentimentos. Ele acaba de usar a mesma tática que eu, está me elogiando... Não sei onde isso vai dar, só sei que estou gostando disso.
–Falando em se apaixonar –puxo uma conversa estratégica- Você disse que não costuma sair com garotas, nem em encontros?
–Ah Rin você agora está querendo me destruir. –ele diz gargalhando –Claro que não vou a encontros! São trabalhosos e constrangedores.
–E alguma menina já lhe chamou para sair?
–Algumas na época do ginasial.
–E nenhuma valia a pena para você se dar ao trabalho de sair com ela?
–Elas eram um saco. Sabe aquelas meninas que se enchem de massa corrida na cara? –ele diz- Aquelas meninas que dão em cima de atletas e caras boa pinta. Caramba, elas eram um saco! Ficavam no meu pé e de todos os meus colegas de time.
–Nossa cara, você tinha péssimas tietes. –digo rindo- Nunca se interessou por uma menina?
–Você sabe que eu sempre me desfoquei da realidade e de tudo que dá trabalho. Eu achava uma ou outra bonitinha, mas não pensava em me aproximar dela, também a minoria era interessante. –ele diz pondo as mãos no bolso.
–Nossa, até para paqueras você se fecha? –pergunto.
–Acho que talvez não seja apenas pelo fato do meu jeito sabe. Também é um pouco constrangedor. Mas eu acho que é porque eu não me aproximo muito de garotas. Sabe, você pode achar difícil se aproximar de um cara, mas é ainda mais complicado para o cara, ainda mais quando ele não tem experiência.
–Como assim? –pergunto.
–Você sabe, o cara tem que tomar certas iniciativas, tem que preservar sua posição de homem da relação cuidando das inseguranças da garota, tem que saber a abordagem certa, tem que saber como não magoá-la, essas coisas.
–Para alguém que não tem experiência, você até que sabe bastante. –indago.
–Acho que é porque passo muito tempo observando os outros ao meu redor. Não sou de mentir para mim mesmo, não me acho muito maturo para ter relacionamentos. Eu tenho muitas inseguranças, mal consigo cuidar de mim mesmo, não posso cuidar de uma garota.
–Sabe Len, relacionamento é uma coisa a dois. Tudo é dividido. Você não vai cuidar das inseguranças da garota sozinho, ela também vai cuidar das suas. Se os dois tiverem medo de algo, os dois vão dar um jeito na coisa... Pelo menos é assim que eu vejo. Você não tem que deixar seus defeitos limitarem suas vontades. Afinal, se você encontrar a pessoa certa, ela pode ajudar você eliminar alguns defeitos.
–Nossa Rin, você fala como uma poetisa. – o loiro surpreende-se-Você deve ter muita experiência com relacionamentos.
–Bem, eu tive um namorado. Mas acabou já faz tempo. Não era muito trabalhoso sabe. A questão dos problemas era tudo dividido entre nós dois. Numa vida a dois, as coisas são igualmente divididas.
–Por que será que é assim? –ele diz virando seu rosto para o céu, parecendo até meio pensativo.
–Porque num relacionamento, duas pessoas se tornam uma só. –digo com o maior sorriso no meu rosto.
Estamos chegando perto do nosso destino, mas a conversa também está chegando perto de onde eu quero que chegue.
Mas será que eu quero que realmente chegue aí?
Caso essa conversa continue nesse ritmo, vou acabar declarando meus sentimentos à ele, mesmo que de uma forma involuntária.
–Você é uma pessoa bem peculiar Rin. –Len diz andando um pouco à minha frente.
–Como assim? –pergunto tentando alcançar seu passo.
–Ao mesmo tempo em que você é o tipo de garota que não se preocupa com o que as outras costumam se preocupar você fala de amor melhor que qualquer uma delas.
–Claro que não é, seu tonto, eu posso não ser fresca como as outras meninas, mas isso não muda o fato de eu ser uma garota.
–Claro que não muda. Eu sei disso. E também...
–Também...
–Deixa para lá, afinal, por que começamos a falar dessas coisas mesmo? –o loiro pergunta.
–Eu não sei direito. Começou com você perguntando sobre minhas amizades masculinas.
–Não, foi você falando que o jeito que eu falei podia deixar as pessoas apaixonadas.
–Não, quem começou foi você, dizendo aquelas coisas bonitas.- provoco.
–Mas agora é minha vez de lhe perguntar, está interessada em alguém Rin?
Essa é a hora em que imploro por minha morte. Agora seria a hora certa de lhe dizer que te amo? Agora seria a hora certa de lhe confessar meus sentimentos? Nesse clima? No meio da rua?
Eu não preciso dizer por quem estou apaixonada, basta responder a pergunta. Apenas espero que ele não pergunte quem é. Não é bem do seu feitio se interessar por isso. Talvez essa sua pergunta comprove a minha tese de que talvez esteja apaixonado por mim.
Ou não.
–Bem... Eu, realmente estou interessada em alguém. –digo de cabeça baixa.
–É uma pessoa legal? –ele pergunta rindo.
–É sim, é um pouco idiota, mas esse é um dos lados mais charmosos dele. –digo abrindo um sorriso gradativamente.
–Boa sorte tentando conquistá-lo. Acho que você consegue. Você é incrível. –ele diz com o sorriso mais idiota e inocente do mundo.
–E você Len? Mesmo com todo esse discurso de insegurança, bem lá no fundo, não tem ninguém que você esteja interessado? –pergunto.
–Talvez tenha. Mas ela é tão ofuscante que talvez... Talvez o brilho dela tenha ofuscado a minha vontade que tinha dela.
Meu coração então bate numa velocidade nunca antes vista, tenho medo de enfartar aqui e agora. Estamos numa praça, se atravessarmos essa praça, chegamos na loja de discos. O lugar é bonito, é perfeito para uma confissão. Já estamos no clima, talvez... Talvez essa seja a hora de dizer o que sinto. Não posso mais esperar até o festival.
Corro desajeitadamente e fico na frente de Len, abro meus braços como se estivesse tapando seu caminho.
–Diga! –grito – Diga a primeira sílaba do nome dessa pessoa! Pode ser o sobrenome.
–O quê? –ele pergunta corado- Esquece isso. –depois disso ele tenta ir para o lado esquerdo tentando livrar-se de mim.
–Se você disser, eu também digo. –grito desesperadamente sem sair da frente dele.
–Rin, esquece isso- ele continua a andar e força um sorriso em seu rosto avermelhado.
–Não, não vou esquecer.
Enquanto ele anda para frente, continuo andando de costas, tapando seu caminho. Ele leva tudo isso numa brincadeira e até ri. Eu tento fingir que é uma brincadeira também, tento até forçar uma gargalhada, mas a verdade é que estou bem séria e tensa.
Por estar andando de costas como uma criança retardada, acabo tropeçando e sinto que meu corpo está caindo. Len se assusta com a situação e tenta impedir a queda, mas ao invés disso, o loiro cai ao mesmo tempo que eu. Acabo jogada em um dos canteiros da praça e Len está em cima de mim.
Agora sim eu enfarto. Seu rosto avermelhado, meu coração pulsante, a posição em que estamos, seu olhar em direção ao meu.
–Você está bem? –ele pergunta sem mover um músculo além do da boca.
–Estou e você?- pergunto trêmula.
–Nossa, parece que nós sempre acabamos caindo um sobre o outro. –ele diz rindo e levantando-se.
–Culpa minha, desculpa. Poderia me ajudar a levantar?
–Claro- ele estende sua mão para mim.
–Caímos bem em um canteiro, droga, meu uniforme está muito sujo?
–Não Rin, está tudo bem.
–Ei Len, você passou a mão no rosto depois que levantou?
–Acho que sim, por que?
–Por que está todo sujo! Você se apoiou no chão com as mãos! Tonto , sujou até minha mão.
–Ah, desculpe por ter lhe ajudado a levantar.
–Vem aqui, me deixa limpar seu rosto.
Vamos até a fonte da praça, onde molho meu lenço e limpo o rosto do loiro, que faz várias caretas durante o processo.
–Pronto, está limpo.
–Obrigado Rin. –ele me agradece.
Depois de tudo isso, não resisto ao rosto brilhante de Len. Ele parecia uma criança sendo limpo por mim e depois de toda essa conversa... Não sei se ele sente algo por mim, mas sei de uma coisa...
Eu gosto muito dele.
Droga, por que será que meu peito arde tanto?
Observo seu rosto cintilante por estar levemente úmido por meu lenço. Ficamos nos encarando por um tempo. Eu decido então abandonar o bom senso e agarro os ombros de Len. O loiro não entende meus atos, mas eu também não. Passo a maior parte do tempo olhando para baixo e depois volto a encarar seu rosto. Tento desviar a atenção dos meus olhos para os seus então levo meu olhar para o lado direito de seu rosto.
Fico na ponta dos pés para alcançar seu rosto e sinto o resto do meu corpo tremer. Agora eu estou perto demais para desistir.
Eu não preciso me apressar. Vou ao meu próprio tempo. E eu vou nos dar um tempo para nos entendermos melhor, mas essa decisão não vai mudar o que eu sinto por você, muito menos vai diminuir a minha vontade de torna-lo meu.
Eu te amo, Len.
Essas palavras não ousam sair dos meus lábios, mas outra coisa sai deles. Beijo a bochecha direita de Len, o que o deixa surpreso. Mas estou tão surpresa quanto ele. Na verdade estou com vergonha, estou com medo de, depois de toda essa conversa sugestiva, ele ter entendido que eu estou apaixonada por ele.
O que eu faço agora?
...
Continua...
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