My Songs, My Life
6 Feel it
Notas iniciais
Meus lábios encostaram seu rosto, disso eu tenho certeza. Estamos agora nos encarando. Seu rosto está confuso e rosado, já eu me sinto quente por inteira. Sinto que estou ardendo em febre emocional. Seria essa a hora de confessar meus sentimentos?
Não, disso eu tenho certeza que não. Mas você não beija a bochecha de qualquer um no meio da rua se não estiver interessado nesse alguém. Japoneses não fazem isso em público sequer casados. Paro e penso em uma estratégia que pode dar certo.
–Tinha uma folha na sua bochecha que ficou grudada depois que eu passei o lenço.- digo- Então eu soprei para você.
–Ah tá. –ele diz atordoado- Entendi. Por um segundo pensei ter sentido seus lábios encostarem minha bochecha.
–E se tivessem encostado por acaso seria um problema? –pergunto um pouco chateada com sua resposta.
–Problema nenhum. Eu sei que você não beijaria um idiota como eu sem motivo aparente. –Len sorri dizendo isso.
–Você é um grande idiota se dizendo idiota. Vamos logo para essa loja.
Não arrisco continuar o assunto por medo. Eu iria dizer que não o odeio, e então, as coisas ficariam estranhas de novo. Atravessamos a rua em direção à loja de discos.
Chegando ao estabelecimento, começamos a apreciar o ambiente. Não é minha primeira vez lá nem a de Len, mas nos sentimos como duas crianças que vão pela primeira vez a um parque de diversões. O lugar é extremamente agradável e com uma decoração que mistura o novo com o clássico, tornando o ambiente meio vintage. Len até chega a fazer uma piada dizendo que parecemos dois hipsters europeus.
–Agora só falta a gente ir ao Starbucks e tirar dos cafés para colocar no Instagran depois. –o loiro diz rindo.
–E logo depois jogar as nossas frustrações no Tumblr. –digo rindo dando continuidade à piada.
–Aí a gente cortas os pulsos ao som de Lana del Rey. – Len continua a piada em gargalhadas.
–Tá, acho que o pessoal já não está gostando disso. –preocupo-me com o olhar de duas garotas meio... Hipsters
–Dane-se. –diz Len- Estamos falando entre nós, nada para ninguém ficar escutando.
Desisto de tentar fazê-lo falar mais baixo. Deixo-o então guiar-me pela loja. Imagino para onde ele quer ir. O gosto musical de Len não difere muito do meu. Ele gosta de tudo um pouco. Gosto disso nele. É costume dos japoneses valorizar a sua música local e admiro isso em meu povo, mas isso não significa que temos que ouvir só o que é produzido no nosso país, até porque, há uma infinidade de estilos musicais espalhados pelo mundo, que se diferem a medida que a cultura também muda.
Alguém com um gosto musical variado é alguém com um senso culto rico. Pelo menos esse é meu ponto de vista. Mesmo que Len não veja dessa forma, mas é assim que vejo.
Surpreendo-me ao ver o loiro ir diretamente à bancada de música nacional. Na parte de cima das prateleiras víamos diferentes títulos, esses iam de Enka* ao Electro J-pop
(NT: Música japonesa com sons tradicionais e misturas ocidentais, criada na Era Meiji, também conhecida no seu surgimento como música de protesto.)
–Ei Rin. –Len chama- Você como garota, me diz, o que você acha desses grupinhos pop de rapazes?
–Está falando das boy bands? –pergunto.
–Sim, essas caras que não tocam instrumentos nenhum, mas cantam e rebolam. O que você acha deles?
–Bem, tem muitas bandas assim, pelo menos a maioria delas, que fazem músicas muito legais e animadas, sabe? Algumas tem letras cativantes também, a maioria fala de juventude, amor ou diversão. Gosto bastante. –digo minha opinião com sinceridade.
–Olha...eu não sou muito fã. –ele diz- Nada contra as danças, mas acho que eles rebolam demais e cantam de menos.
Arrasto o loiro para a prateleira onde estão os discos de bandas masculinas de J-pop e o coloco para ouvir diversas músicas de bandas como Hey! Say! Jump! E Generations. Logo o garoto percebe que a segunda banda que vos apresento já participou da trilha sonora de alguns animes de seu gosto. Depois o levo para a estante de bandas de música pop coreana e vejo o rapaz reclamar:
–Ah Rin, não vai me dizer que você ouve esses caras? –Len reclama.
–Ué, qual o problema, muitas bandas coreanas cantam em japonês também. Gosto muito deles.
Coloco para ouvi-lo pelo menos uma música de cada banda de K-pop que conheço e vejo sua expressão mudar. Aparentemente ele gosta da melodia dos nossos quase vizinhos.
–Isso não chega a ser pop não é? – ele comenta sobre CN Blue– É meio que um rock pop.
–Exatamente. Acho os arranjos deles perfeitos. Mas e agora, que tal ver umas boy bands ocidentais?
–Ah não, você não vai me colocar para ouvir One Direction, vai?
–Não costumo ouvir esses caras. –comento. –Mas não é porque são uma banda zoada que vou dizer que são ruins. Não são lá merecedores de tanto respeito, mas não são os piores.
–Tá, eu entendo isso, mas você não vai me colocar para escutá-los, vai?
–Se você reclamar mais uma vez, pode apostar que vou!
Quando chegamos às ocidentais, foco em lembrar o loiro de bandas da década de noventa como NSYNC, o que o faz lembrar que conhecia e que chegou a curtir o som por certo tempo.
Depois de uma longa conversa sobre bandas de pop que vivem pela aparência, fazemos um passeio pela loja enquanto conversamos sobre assuntos que , creio já termos conversado antes.
–Então Rin, Rolling Stones ou The Beatles?
–Ah cara, claro que Beatles, e você?
– O mesmo. Você não acha que as bandas de Visual Key daqui do Japão não tem o estilo inspirado no Kiss? – o loiro pergunta.
–Olha...Eu acho que pode até haver uma certa inspiração no Kiss, mas o Visual Key é uma coisa meio gótica e não Rock n’Roll punk . Mesmo que as bandas sejam de rock e o visual seja meio punk, mas eu acho que tem muito mais inspiração no Emocore do que no Hardcore.- Respondo.
–Caramba! – Len diz em meio a um suspiro. –Você é genial. Me diz, para você, qual é melhor, Nirvana ou Guns n’ Roses?
–Realmente nessa você me pegou. Não dá para fazer uma pergunta em que eu possa escolher um dos dois? –reclamo.
–Claro, me deixa pensar. Jazz ou R&B?
–Jazz. –respondo
–Doce ou salgado? –ele pergunta.
–Doce. – respondo
A conversa segue o rumo mais idiota possível. As perguntas mais bobas seguidas de respostas igualmente idiotas. Isso é tão agradável, já faz um tempo que não me sinto assim. É algo tranquilo e divertido ao mesmo tempo, nem parece que há poucos minutos eu estava tão nervosa. Finalmente sinto que posso me sentir tranquila perto de Len.
Perdemos totalmente a noção do tempo e quando finalmente estamos ouvindo um disco de uma banda que ambos gostamos, Neru, Rinto e Haku juntam-se à nós na loja de discos.
–Aproveitando o encontro? –Neru pergunta ironicamente.
–Encontro coisa nenhuma. –digo nervosa, porém controlada.
–Se deu bem Len. –Rinto ironiza dando um cascudo no primo.
–Estávamos apenas matando o tempo, esperando vocês, idiotas. – Len diz forçando um sorriso.
Haku olha para todos e dá um sorriso sincero, depois desvia seu olhar para mim e retribuo o sorriso da amiga, que me responde com uma piscada. O sinal que a prateada faz com seu olho direito faz meu corpo aquecer-se um pouco, mas não o bastante para me deixar muito envergonhada. Apenas levanto o polegar em sinal de aprovação.
Nós cinco deixamos a loja sem comprar nada, o que me envergonha um pouco, mas aquele é um lugar tão agradável de passar o tempo que creio que muitas pessoas acabem fazendo como nós, apenas observando a decoração e conversando sobre música.
Ainda não está escuro quando adentramos a pizzaria. Escolhemos uma mesa aleatória e brigamos para decidir os sabores da pizza de oito fatias enormes, além de haver um certo impasse em relação às bebidas.
Enquanto esperamos a pizza, deixamos o tempo passar com conversas complemente aleatórias. Digamos que, Neru ajudou quanto à aleatoriedade da conversa a partir da decisão de lugares. A mesa fica a frente de dois bancos acolchoados, bancos estes encostados numa parede de vidro com vista para a rua. Len sentou-se primeiro, na ponta do banco perto da vidraça, Neru empurrou-me para seu lado e sentou logo em seguida, não me dando chances para fugir.
Não que eu quisesse fugir.
No banco à nossa frente, estão sentados Haku e Rinto. Não posso dizer que desgosto da personalidade de Rinto, pelo contrário, até que o acho engraçado. Seu único problema é o seu senso de humor –que talvez seja também sua maior qualidade- senso esse que, dependendo da forma como for usado, pode soar ofensivo para as pessoas. Principalmente para alguém do temperamento de Haku, que odeia piadas preconceituosas e cantadas ridículas, as favoritas de Rinto.
Apesar dessa mistura de ideais, a atmosfera agradável de cinco jovens se divertindo não é desfeita. Isso é algo sobre aproveitar a vida que sempre falam. Esse tipo de contato social que tantos jovens antissociais temem, mas pelo visto, o loiro ao meu lado age naturalmente.
Len ri das piadas de Rinto, leva uma conversa sobre programas de televisão de forma natural com Haku, pede para que Neru pare de falar sobre os doramas nos quais ela é viciada e continua a falar de música comigo.
Isso chega a ser de certa forma até interessante para ele que diz ter preguiça de se esforçar pelas coisas que gosta temendo esforçar-se tanto chegando a odiar o que ama. Fico curiosa para saber o que o faz pensar assim, mas sei que isso é assunto para depois, até porque agora a pizza já chegou.
–Delícia dos deuses! –Rinto grita suspirando.
–Ei, seja educado! –Neru implora. –Estamos no meio da civilização, seu troglodita!
–Você parece um macaco comendo Rinto-kun. –Haku fala rindo pela primeira vez do loiro ao seu lado, o que deixa o garoto um pouco vermelho.
–Ei ei Yowane-san, por acaso você caiu no meu charme? – Rinto brinca com Haku.
–Cala a boca idiota. –Haku pede ao loiro, ignorando sua cantada.
Percebo um silêncio vindo do meu lado. Viro-me e vejo Len devorando a pizza rapidamente como se nunca tivesse comido antes. Ele vira seu rosto para mim todo sujo de queijo e tempero e ainda de boca cheia pergunta:
–Ei Rin, não vai comer?
–Claro que vou, bobo. –digo rindo- Mas antes vamos limpar esse rosto.
Pego um punhado de guardanapos e limpo a bochecha do loiro e digo rindo:
–Droga, você por acaso é alguma criança?
–Droga, você por acaso é uma adulta? –ele retribui o sorriso.
Todos acabam dirigindo sua atenção para nós e dizem em um só tom surpreso:
–Parecem mesmo um casal.
Abaixamos nossas cabeças ao mesmo tempo. Sinto meu rosto arder, mas já que dei tantos passos, acabo ousando olhar para meu lado direito, quando Len decide olhar para sua esquerda, onde estou. Seu rosto já estava vermelho, mas ficou ainda mais depois de encontrar meus olhos. Desvio meu olhar para a pizza e digo:
–N-não somos casal coisa nenhuma.
–Sério mesmo? –Rinto pergunta- Bem, mesmo não sendo, por que não tentam?
A temperatura do meu corpo oscila rapidamente, eu realmente não entendi. Rinto não está sorrindo, não está fazendo cara de quem está brincado. Não é a primeira vez que vejo essa expressão no seu rosto, esse semblante é de quem está falando sério.
–Como... Assim? –a voz de Len sai abafada.
–Quero dizer, vocês se dão tão bem, estão sempre juntos, tem interesses em comum, deveriam tentar sair juntos, só para ver como é. –Rinto diz com o tom mais sério possível e afirma isso. — Estou falando sério cara. Além disso, a Rin é gatinha.
Numa escala de um a cem, minha temperatura corporal deve estar...explodindo. Nunca pensei que Rinto poderia fazer as coisas andarem desse jeito, mas também não imaginei que Len fosse dar continuidade à conversa.
–O quê é isso cara? –Len pergunta- A Rin é areia demais para meu caminhãozinho. Ela é inteligente e dedicada, não merece um vagabundinho que nem eu. Ela é tão incrível que não ia querer sair comigo. Além do mais, eu não sou bom nessas coisas.
–Mas Len... –Haku interfere- Alguma vez você já ao menos tentou?
Quero sair dessa mesa para que ele possa responder a vontade, mas Neru está como uma barreira ao meu lado, não posso fugir disso, eu sou a coisa em questão na conversa, e o que Len está para responder é mais do que eu quero saber.
–Tentei o quê? Chamar uma garota para sair? –Len pergunta.
–Não, chamar a Rin para sair! –Neru pergunta enfatizando meu nome.
–Não... Não faria sentido, já sei que não sou bom o suficiente para ela. – Noto que ele já está tremendo, assim como eu.
–Mas você não tentou ainda, então não tem como saber. –Rinto insiste.
–Gente, para com isso. –interfiro- Vai ver ele não quer nem saber disso, e se ele simplesmente não quiser sair comigo?
–Você não tem como saber disso se não tentar. –Neru fala – E você? Quer sair com ele?
Estou para explodir, essa é a chance de saber se é recíproco ou não. Estamos quase nos entregando.
Droga, por que isso não acaba logo?
Olho para Len e o mesmo retribui o olhar. Mordo meu lábio inferior pois estou contigo e ele respira fundo, como se estivesse prestes a falar algo:
–Sabe Rin... Não levando isso muito seriamente... Se eu lhe chamasse para sair... Você aceitaria ir comigo, mesmo sabendo que sou um fracassado preguiçoso?
Morri, estou morta. Com quais intensões você está perguntando isso? Se eu for responder seriamente, vou declarar indiretamente meus sentimentos. E você? Len, o que você sente por mim? Você curtiria sair comigo?
Não posso responder uma pergunta com outra, só me resta...
Falar a verdade... Levemente.
–Eu... Eu não acho você um fracassado Len. –minha voz sai estrangulada. – Eu acho que... Iria num encontro com você.
Assino minha sentença de morte aqui e agora
Evito olhar para Len, mas todos ao nosso redor estão sorrindo de forma surpresa.
Ah, estão felizes? Vocês me colocaram tanto contra a parede que agora, se tudo der errado, vocês me devem uma amizade.
–Nossa... Eu não esperava essa. –a voz de Len sai igualmente estrangulada.
–Mas não entenda mal, apenas fizeram uma pergunta e eu apenas respondi. Eu sei que você não tem intensões de sair comigo. –falo nervosa.
–Não é exatamente assim. Eu até que sairia com você.
Todos olham para nós com aquele olhar de felicidade misturado com satisfação. Acho que estão todos animados, esperando que tomemos alguma iniciativa a partir desse diálogo louco. Todas essas pistas de Len... Fica difícil saber a verdade. Temos também Rinto colocando lenha na fogueira juntamente com as meninas. Nessa mesa, apenas elas deveriam saber do meus sentimentos por Len e tentar forçar a barra de alguma forma, mas Rinto também força.
Será que Len sente algo por mim e Rinto sabe por ser tão próximo ao primo?
–Bem, está decidido. –Neru fala. –Se vocês não vêm problemas, por que não saem?
–Porque não quero mudar nossa relação. –respondemos em uníssono.
Olho para Len e ele retribui assustado com reação. Essa resposta foi algo quase que ensaiada. Isso só pode significar uma coisa. Len sente o mesmo.
Estou feliz, nervosa e com raiva ao mesmo tempo. Feliz porque as chances de eu estar certa sobre meus sentimentos serem correspondidos é de noventa por cento no máximo. Nervosa porque deixei muito do que sinto escapar. Com raiva porque Neru, Haku e Rinto conseguiram nos deixar contra parede.
Mas acima de tudo estou feliz.
–Mas quem se importa com isso afinal? –Haku fala. – Isso não é problema nosso, vamos parar de constrangê-los.
–Se a Haku-chan diz, quem sou eu para contestar. –Rinto diz
–Tudo bem. –Neru concorda.
Quase solto um suspiro de alívio e percebo que depois de todo esse estardalhaço, minha pizza esfriou. Continuamos a comer o alimento dos deuses e mudamos de assunto, não demora muito para esquecermo-nos do que estávamos falando antes.
Vai ficando cada vez mais tarde. Não temos mais dinheiro para gastar com pizza nem nada, decidimos ir para casa. Ao chegar, vou direto para o banheiro, pego meu celular e ligo para Miku.
–Alô. –ela diz do outro lado da linha.
–Miku, está no papo!
–O quê Rin?
Explico tudo o que aconteceu, todas as conversas que tivemos e todos os sinais que Len deu.
–Bem, isso pode ser algum tipo de sinal. –ela afirma.
–Eu tenho certeza que sim.
–Então, vai se declarar no dia do festival do fundador mesmo?
–Sim, é o melhor dia e nem está mais tão longe.
–É sim. Só mais uma semana. Mas lembre-se, temos uma apresentação importante nesse dia.
–Claro que eu não estaria esquecida. Você também não esqueça.
–Ah sim... Hoje, depois que você saiu, eu também tive um compromisso. –o tom de voz de Miku muda.
–Sério. O que foi?
–Eu saí com o Gakupo-kun.
–O quê?!
Fico surpresa. Aquele idiota disse que esperaria até o dia do festival.
–É, nós saímos. Não foi um encontro nem nada, ele mesmo especificou isso. Disse que era só um sorvete entre amigos. Mesmo sendo só nós dois, ele disse que só queria conversar amigavelmente.
–Ah, entendo. E sobre o que conversaram?
–Ah, muitas coisas, música, kendo, música, televisão, filmes. Coisas normais que colegas de classe falariam.
–Mas, Miku, você já saiu com o Gakupo hoje, sairia com ele em um encontro de verdade?
–Bem... O Gakupo-kun é bem gentil e divertido. Apesar dele parecer um samurai , ser enorme e as vezes parecer assustador, mas ele é um cara gentil, bonito...
–Namoraria o Gakupo?
–Por que essa pergunta? Ele lhe falou alguma coisa?
–Não. –minto- É que você é minha melhor amiga e ele é meu melhor amigo, vê-los juntos seria meio divertido.
–Cala a boca e vai tomar banho. Enfim, boa sorte para você com o Len.
–Obrigada, mas relaxa que tá no papo.
Sei que não devo me anunciar como vencedora, mas quero ter ao menos um pensamento positivo sobre o que vai acontecer.
Len deve mesmo gostar de mim.
O final de semana passa rápido e logo uma nova semana começa e as expectativas para o festival do fundador também. Um festival pequeno, que abriga apenas o público da nossa escola ocorrerá no sábado. Nós do clube de música faremos uma apresentação de quinze minutos. Temos que estar preparados.
Claro que muitos utilizam festivais para realizarem promessas. Não é diferente comigo e Gakupo. Falei com ele sobre ele ter saído com Miku sem me contar na sexta.
–Eu estava livre e ela também, então resolvi convida-la para saber se ela não gostaria de ir. Isso pode funcionar também no dia do festival. –Gakupo me disse na terça-feira. –Mas você também não reclame, Rin-chan. Você saiu com o Len na sexta também, estamos empatados.
Fico feliz que as coisas estejam indo bem para esses dois. No clube de música, tentamos e terminar as músicas que começamos a fazer e as ensaiamos para tocá-las no sábado. Os dias passam voando quando finalmente chega a sexta.
Já se passou uma semana desde que saí com Len e o pessoal. Uma semana desde que conversamos tudo aquilo. Uma semana desde que comecei a acreditar que meus sentimentos podem ser correspondidos.
Bate o último sinal da sexta-feira, todos saem correndo da sala, claro, todos os clubes têm algo para preparar para amanhã. Antes de ir para o clube de música, devolvo a Len um mangá que ele me emprestou na segunda.
–Desculpa por demorar com ele. –digo entregando o material.
–Relaxa, nem foi tanto tempo assim. Aí, me diz, o que achou? –ele pergunta empolgado.
–Incrível! Mas, eu não posso continuar essa conversa agora, temos ensaio.
–Ah é, o festival amanhã. Eu tinha esquecido que terei que vir para escola no sábado mesmo que eu não faça nada.
–Cala a boca e é melhor que esteja aqui amanhã para ver nossa apresentação! –digo apontando meu dedo para ele.
–Sim capitã! Estarei presente. É bom que faça bonito amanhã. –ele diz estendendo o braço. Um comprimento. Um “toca aqui”.
Bato em sua mão e sorrio, logo depois que saio correndo pelo corredor ele grita:
–Me manda uma mensagem mais tarde, sobre o mangá.
–Eu te ligo. –grito de volta.
Na sala de música, ensaiamos bem, com exceção de Kaito, que acelera na batida o tempo inteiro, mas conseguimos dar um jeito nisso. Quando o ensaio acaba, todos recolhemos nossas coisas, Miku e Luka vã na frente, eu e Kaito ficamos para limpar a sala.
–Ei Kaito. – o chamo.
–O que foi? –ele pergunta.
–Você estava agitado hoje. Está com algum problema?
–Não, só um pouco nervoso.
–Nervoso por quê? É só uma apresentação como todas as outras que já fizemos.
–Mas é uma apresentação em que eu sou terceiranista.
–Ah, vai ficar nessa depressão em todas as apresentações do ano? Pelo amor de Deus.
–É meu último ano Rin. Eu tenho que fazer tudo direito e isso às vezes me consome.
Estranho... Kaito demonstrando fraquezas...
–Isso é raro. –digo guardando a vassoura. –Geralmente você se gaba porque consegue fazer tudo muito bem. Nunca tinha visto esse nervosismo em você.
–Eu sou humano também Rin.
–Me chamar apenas de Rin também não é muito comum da sua parte.
–E eu não ouvi um “Bakaito” hoje.
–É que você não mereceu. E também estou meio distraída.
–Mesmo assim ensaiou tão bem.
–Obrigada, Bakaito.
–Já está tarde, quer que eu te leve em casa?
–Eca, você pode acabar me atacando quando ninguém estiver olhando. –digo brincando.
–Eu pareço tão pervertido assim? – o azulado pergunta.
–Você não parece você é.
–Ei, Rin-chan, vou lhe fazer uma pergunta. Vai se confessar pro Len amanhã?
–O quê? N- Não pense besteiras. – digo nervosa.
–Eu ouvi você e a Miku conversando mais cedo.
–Bem, eu pretendo.
–Você está gostando bastante dele, não é?
–S-Sim.- digo envergonhada.
–Bem, eu posso dizer que ele é um cara de sorte. Ele tem sorte por poder ter uma garota como você o amando tanto assim. Eu conheço o Len bem antes de você. Desde a época do fundamental. Ele é um cara complicado, principalmente quando se trata de garotas. Mas já que ele está tão próximo de você, pode ser que dê certo.
–Ele deu alguns sinais de parecer que gosta de mim, assim como eu gosto dele.
–Já que é assim, fico feliz por você e torço para que tudo dê certo.- Kaito diz com um sorriso sincero.
Lembro de meu relacionamento passado e de como Kaito era irritante em relação a meu antigo namorado. Ele sempre foi garanhão, desde a época do fundamental, pegava garotas e mais garotas sem sequer ligar para o tipo de cada uma. Eu, que só queria sua amizade, sempre sofri com suas investidas em me conquistar. Admito que tive uma queda por ele quando o conheci, mas não durou mais de um mês.
Por falar tanto do meu antigo namorado, achei que Kaito tivesse jogado alguma praga em nós para que terminássemos. Talvez ele tivesse com inveja ou ciúmes. Talvez ele gostasse de mim...
Ou talvez ele só queria se aproveitar de mim.
–Você vai mesmo torcer por mim? –pergunto para ele.
–Sim. Sinceramente.
–Vou tentar acreditar em você. Parece que não suportava ver-me namorando.
–Eu não gostava daquele cara. Também eu era mais imaturo naquela época.
–Posso acreditar nisso?
–Rin-chan, eu sou seu amigo. Eu nunca desejaria algo que lhe deixasse triste. Se você estiver feliz, eu vou ficar feliz. Eu ficaria mais feliz se fosse eu no lugar dele, mas já que é assim, eu não vou invejar. Eu nunca colocaria olhado em você.
–Espera... Você está dizendo que queria estar no lugar do Len... Isso é uma confissão?
–Interprete como quiser. –Kaito diz sorrindo.
–Uma confissão para mim, ou você diz isso para todas?
–Está com ciúmes?
–Até parece, idiota.
–Então tá. Vai com a Meiko-sensei?
–Vou sim. Até amanhã.
–Até. Boa sorte.
Kaito consegue me irritar mais do que qualquer pessoa, mas não consigo odiá-lo. Agora não posso pensar nele, nem em mais nada. Apenas na apresentação de amanhã e nos meus planos para o mesmo dia.
Espero que tudo dê certo.
...
Continua...
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