My Songs, My Life
10 I can't give up on you
Notas iniciais
Normalmente, eu ficaria tão nervosa com o fato de Len ter ligado para mim que não conseguiria dormir, mas essa ligação foi o suficiente para que eu adormecesse tranquilamente.
Corro para a escola de manhã com o coração a mil. Apesar de estar feliz, também estou um pouco nervosa, afinal, posso dizer algo que volte a estragar tudo outra vez. Ou simplesmente porque só de ouvir sua voz acelerou meus batimentos de tal forma que pensei que fosse morrer.
Mas toda a expectativa acaba quando chego à escola e vejo que Len não está lá. Imagino mil coisas, mas também penso que ele está fugindo de mim, até porque matar aula por motivos fúteis nunca foi problema para ele.
Se esse for o caso, por que ligaria àquela hora e falaria de hoje? Qual o objetivo disso? Minha mente não fica quieta e passo as aulas pensando nisso, não me concentro em uma sequer, e claro que acho essa atitude do meu cérebro um pouco ridícula.
Na hora do almoço, estou presa em pensamentos que não são os melhores. Encontro-me vidrada na janela, como Len sempre fica. Que deplorável, estou tão perdida por causa de um garoto que provavelmente vai me rejeitar... Mas é uma amizade que está em jogo aqui, isso é mais importante que qualquer amor. Pelo menos para mim.
Enquanto estou viajando em meus pensamentos, Teto tenta chamar minha atenção de todas as maneiras, mas só noto sua presença quando ela aumenta seu tom de voz, coisa que dificilmente faz.
–Rin, algo está te incomodando? –ela me pergunta.
–Digamos que sim. Mas não é nada sério.
–Saiba que se precisar desabafar ou coisa parecida, eu estou aqui.
–Obrigada Teto. Eu te conto quando resolver tudo.
Não costumo compartilhar muito de minhas paixões com Teto por um razão, ela é completamente inexperiente em relação a esse tipo de coisa. Às vezes, penso em pedir conselhos a ela sobre o assunto, mas sei que seria algo inútil. Se eu tenho vergonha perto de garotos que me despertam o interesse, Teto é cem vezes mais. Ela fica extremamente envergonhada em qualquer situação, apesar de agora estar melhor do que quando éramos crianças, que ela tinha medo de fazer amigos.
Talvez toda essa vergonha e medo dela tenham me tornado uma pessoa forte. Quero dizer, a conheço há onze anos e tive que abandonar alguns medos para protegê-la de certas coisas. Pode ser que isso seja ruim para ela, já que a protejo tanto a ponto dela ficar dependente de mim, mas desde que entramos no ensino médio e fomos para clubes diferentes, ela tem se saído muito bem socialmente.
Voltando à conversa, Teto me pede para acompanha-la ao refeitório. Ela quer comprar seu almoço na cantina, o que é raro, já que ela sempre traz seu almoço de casa. Concordo com ela e a acompanho. Lá encontramos Gakupo e Miku em uma mesa, e enquanto Teto está na fila para pegar um pão de yakisoba, vou conversar com o novo casal da escola.
–E aí pombinhos? Como vai o nojo do relacionamento? –pergunto ironicamente, mas não posso negar a pequena inveja que tenho dos dois.
–Vai muito bem Rin. –Gakupo diz pondo o braço nos ombros da namorada. – E tenho que agradecer a você por isso, sem você me encorajando, eu não pensaria em agir tão rápido.
–Não me agradeça, estou muito feliz de ver vocês dois juntos. Sempre imaginei que dariam um bom casal, mas não sabia que vocês conversavam muito quando Gakupo me disse que estava afim de você, Miku.
–Ah, então ele realmente falou com você sobre isso? –Miku pergunta surpresa.
–Claro que sim! Pode me chamar de cupido ou intermediadora de relacionamentos. –digo sorrindo.
–Deveria agradecer a ela, Miku. –Gakupo fala balançando a garota.
–Eu já o fiz. –Miku diz rindo do ato do namorado.
–Mas... Eu sinto muito por você, Rin. –Gakupo continua a conversa- A Miku disse que seu assunto com o Len não deu muito certo.
–É isso é verdade. Mas eu estou tranquila. Quer dizer, eu não estava, mas consegui me acalmar.
–Conseguiu mesmo? –Miku pergunta.
–Sim, ele me ligou essa madrugada. Disse poucas coisas, mas vamos nos resolver. Quero que as coisas voltem a ser como antes.
–Boa sorte, Rin. Estamos torcendo por você. –Miku fala e dá um sinal positivo com o polegar.
Volto à sala com Teto e almoçamos com nossas amigas. Ao terminar a refeição, peço licença às garotas e dirijo-me à porta para ir ao banheiro, como sempre faço depois do almoço. Ao abrir a porta do fundo da sala, tenho um susto, pois quem estava tentando fazer a mesma coisa era Len.
De cabelos bagunçados e olhar assustado, o loiro entra na sala e ao o fazer, ignora minha presença como tem feito ultimamente. Faço mesmo e volto para minha carteira fingindo que esqueci algo que levaria para o banheiro para saber a razão de ele ter faltado as da manhã.
Percebo que Neru levanta imediatamente da cadeira e começa a interrogar o garoto de uma maneira que não consigo entender:
–Você foi lá? – a loira pergunta.
–Sim, fui. É melhor ir lá pela manhã. Não iria depois da aula, estaria quase escuro. –ele responde.
–Você sabe que poderia ter chamado Rinto e eu para irmos com você.
–Não esquenta, você sabe que não precisa. –Len diz dando um tapinha no ombro da prima- Afinal, a obrigação de ir lá é minha.
–Mas somos sua família, Len. –nunca ouvi um tom de voz tão sério de Neru quanto esse.
–Eu sei, mas não precisam ir comigo. Se quiserem ir lá depois, tudo bem. Mas é algo que prefiro fazer sozinho. Enfim, mudando de assunto, o que tem para hoje?
–Coloquei você na limpeza hoje no final da aula. Também expliquei aos professores que você chegaria tarde hoje.
–Obrigado Neru. –ele agradece dirigindo-se para sua carteira.
–Não precisa me agradecer seu idiota.
Entender o conteúdo da conversa é difícil. Para ser mais objetiva, não entendo uma palavra, mas não me atrevo a perguntar nada à Neru, apesar de que Haku tenta fazer isso, mas segue sem sucesso.
Voltamos às aulas e Len parece um pouco mais aéreo que o normal. No meio da aula, ele cutuca meu ombro e, em resposta ao seu ato, viro-me um pouco assustada. Ele estende uma mão com um pedaço de papel para mim, mas continua com seu olhar desviado para a janela. Pego o material e viro-me de volta para a minha carteira, noto que é um bilhete e nele, Len diz:
“Desculpe por ter te ligado tão tarde, eu estava bastante confuso, mas ainda quero falar com você, parece que estamos juntos na limpeza hoje, depois da aula então...”.
Sem virar-me de volta para ele, faço um sinal positivo com o polegar e volto para a aula. Mas continuo alheia às explicações e noto que preciso parar com isso antes que me prejudique de verdade por besteiras.
Logo as aulas do dia terminam e percebo que os nomes escritos na louça mostram que Len e eu estamos juntos na limpeza. Tenho quase certeza que isso é coisa de Neru. Ao ficarmos sozinhos na sala, ficamos rígidos e em silêncio por um tempo. Talvez ele nem saiba aonde quer chegar e assim eu também. Percebo que eu que tenho que fazer algo acontecer. Apenas digo algo idiota e sem nexo:
–Os dias estão ficando cada vez mais longos, não é?
–É sim... Será que é porque não estamos aproveitando direito
–Não, é porque o sol está demorando a se por. Logo será verão.
–Verdade. – o loiro diz um pouco rosado.
–Sabe... Não me leve a mal, mas eu senti falta de falar contigo. –digo sorrindo e me sentindo um pouco aliviada.
–Igualmente... Para falar a verdade, eu queria pedir desculpas... –ele diz virando-se para mim.
–Não precisa se desculpar. Eu fui errada. Eu fui errada em contar meus sentimentos.
–Não Rin, você fez a coisa certa. Eu que não fui homem o suficiente para ser capaz de falar com você-ele diz de cabeça baixa.
–Por favor, não digas essas coisas. –eu quero que ele continue dizendo, mas de qualquer forma é algo constrangedor, tanto para mim, quando para ele. –Está criando um clima meio desagradável.
–Eu que fui desagradável durante todo esse tempo de silêncio, eu tenho minhas razões para não ter dito nada...
–E quais seriam. –pergunto querendo saber, mas ainda com medo disso.
–Fiquei assustado. Todas aquelas conversas que a Neru, o Rinto e a Yowane inventaram e todas aquelas perguntas... Eu realmente não sou o cara certo para você. E quando você disse aquilo, eu juro que não sabia o que dizer. O que eu poderia ter feito para você gostar de mim? O que ia acontecer com a nossa amizade?
–Mas isso é besteira...
–Não, não é. Eu imaginei o que poderia acontecer caso a gente começasse a sair e namorar. Eu provavelmente ia lhe machucar muito com os meus problemas. Mas aí...
–Mas aí...?
–Eu percebi que acabei lhe machucando bem mais quando lhe deixei no vácuo. Todos os dias eu falava para mim mesmo “eu tenho que me desculpar”, mas nunca encontrava coragem. Eu nunca quis me afastar de você. Nunca quis perder sua amizade, nem lhe perder, então, por favor, me perdoe!
Ele se ajoelha ao chão, curvando-se para mim. Tenho certeza que isso está sendo constrangedor e humilhante para ele.
–Não precisa tanto. –digo meio constrangida- Eu lhe perdoo.
–Você pode me perdoar, mas eu nunca irei. Afinal de contas, a maior covardia de um homem é inspirar o amor de uma mulher, sem sequer poder amá-la.
Eu nunca o vi desse jeito, e nunca pensei que iria vê-lo. Talvez seja mais um dos seus lados que eu desconheço. Posso ver que, mesmo curvado no chão, ele continua trêmulo. Suas orelhas estão vermelhas. Isso prova que ele está falando a verdade e que tudo o que sente e expressa é verídico.
E era tudo o que eu queria. Eu posso nunca ser sua namorada, mas não quero ficar longe de alguém que é especial para mim. Não quero que um amigo se torne um estranho. Abaixo-me e toco seu ombro dizendo:
–Essa frase... É do Bob Marley, não é? –estendo a mão para que ele levante.
–Só você para saber. –ele agarra a minha mão e se levanta junto comigo.
–Eu também fui uma covarde. Eu deveria ter esclarecido as coisas na hora em que me confessei. Mas fiquei com medo.
–Então... Tudo numa boa? –ele pergunta.
–Espera. Antes de dizer que está tudo numa boa, eu quero ouvir uma resposta de verdade. Mesmo que seja negativa, eu quero que meus sentimentos sejam corretamente respondidos. –digo séria.
–Justo. Kagamine Rin, eu aprecio seus sentimentos e fico feliz que goste de mim. Mas eu simplesmente não tenho o que é preciso para fazer alguém tão incrível quanto você feliz. Por favor, não fique triste, espero que possamos continuar amigos daqui para frente. Tudo numa boa?
–Sim. Tudo numa boa. –digo com o sorriso mais verdadeiro no rosto.
–E você não tem problema com isso? –ele pergunta fazendo uma expressão de receio.
–Eu jamais trocaria um amor incerto por uma das minhas melhores amizades. Certamente, esses sentimentos não irão embora tão facilmente. Mas não quero deixar de gostar de você romanticamente por estarmos distantes um do outro.
–Então tudo bem. Fico feliz. Mas ao mesmo tempo fico triste. Devo ter lhe magoado muito...
–Bem, isso eu não vou negar, mas vamos deixar isso para lá por enquanto.
–Um dia vou pagar por isso.
–Pode começar me pagando um suco depois daqui. –digo brincando.
Começamos a limpar a sala. Ele fica com a parte do fundo enquanto varro a área perto do quadro. Uma boa parte do tempo é silenciosa, até que ele diz:
–Eu sei que é desagradável perguntar... Mas... Como e por quê?
–Não sei. –respondo sinceramente — Só aconteceu. De repente, quando eu lhe via, meu coração disparava. Isso ainda acontece. Uma vez, uma pessoa me disse que o amor transcende a lógica e é abstrato demais para ser explicado com lógica.
Obrigada Kaito... Parece que você realmente me ensinou coisas úteis.
–Viu só, quando você fala coisas tão profundas, eu fico sem palavras. Eu nunca conseguiria namorar uma poetisa como você. –ele diz rindo.
–Cala a boca. –digo rindo na mesma tonalidade.
–Sabe, eu contei isso para três pessoas. Desculpe se eu não deveria ter dito.
–Todo mundo já tinha percebido que eu estava afim de você, menos você, seu trouxa. Entendo que contou para Neru e Rinto, mas quem foi a terceira pessoa?
–Gumi. Vocês duas são minhas duas únicas amigas. Tenho minhas primas, mas prima não conta muito. A Gumi me deu uma grande regulagem e me chamou de grosso e tudo.
Entendo, então era sobre isso que eles dois conversavam naquele dia. Sinto-me mal por ter tido ciúmes de Gumi por vê-la com Len. Também não quero admitir isso para ele, afinal, não quero que ele me ache uma maníaca por ter ciúmes da amiga dele que o conhece há mais tempo que eu.
–A Gumi-san é uma pessoa excelente. –digo- Não me leve a mal, mas eu até achei que... Vocês dois...
–Não, eu vejo a Gumi como uma irmã ou algo parecido. Quando o irmão dela se formou ela começou a pegar no meu pé e no do Rinto. Ela também não me vê desse jeito.
Ainda bem.
Acabamos a limpeza da sala e nos despedimos como pessoas normais. Saio já ansiosa para o dia seguinte chegar, pois nos veremos novamente e poderemos olhar um nos olhos do outro e dizer “bom dia” e falar de idiotices.
Chego ao clube de música e tudo parece bem. Kaito está sentado atrás de sua bateria, apertando os parafusos de seu instrumento. Chego perto dou um grito:
–EI, SHION!
–Que susto garota! Quer me matar?
–Bate aqui! –estendo a mão no alto e ele me cumprimenta.
–Está tudo bem, você parece de bom humor hoje. Não vai me dizer que...
–Isso! Deu tudo certo!
–Ainda bem! Estou tão feliz por você! De verdade. –ele diz levantando-se com um sorriso enorme e sincero no rosto.
–O que foi Rin? –Miku pergunta- Falou com ele?
–Sim. Resolvemos tudo, somos amigos de novo.
–Ainda bem! –a esverdeada me abraça.
–Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? –Luka pergunta.
–Muitas coisas. –respondo- Mas nada de muito importante. Enfim, o que há de novo, Presidente?
–Bem, eu estava revisando umas músicas, mas eu notei que muitas delas ficariam bem melhores se acompanhadas de um teclado.
–Mas se você tocar teclado, quem vai ficar com o baixo? –Miku pergunta.
–Bem, que tal se a gente tirasse uma das guitarras e substituísse por um baixo, você sabe tocar ambos, não é Miku? –Luka sugere.
–Mas o equilíbrio fica perfeito com duas guitarras. –Kaito fala- Seria melhor achar um baixista.
–Nessa época? O garoto que a Rin-chan tento trazer não veio.
Parece até piada, mas quando Luka diz isso, escutamos três batidas na porta. Não é Meiko, ela nunca bate em nossa antes de entrar. Ao abrirmos a porta, vemos que quem está lá é Len.
–Oi, eu soube que vocês estão procurando por um baixista novo. –ele diz.
Todos ficamos surpresos com a aparição do loiro. Faço uns sinais faciais com expressões para perguntar indiretamente à Len o que está acontecendo, mas ele não nota o que estou perguntando.
–Você quer entrar agora, Len? – Miku pergunta.
–Bem, o Kaito e a Rin me deram essa oportunidade antes, mas eu não agarrei. Alguém me disse recentemente que eu precisava fazer algo para minha vida ter significado. Algo para eu me orgulhar. Então eu quero tentar isso agora. – o loiro pergunta.
Fico surpresa ao ouvir essas palavras. Eu não tinha dito isso a ele, logo essa pessoa que disse isso não fui eu. Estaria ele entrando como um pedido de desculpas?
–Bem, parece que você é um milagre. –Luka diz- Estava falando agora sobre arrumarmos um novo baixista. Sabe, eu estou com o baixo por agora, mas minha especialidade sempre foi o teclado, porque desde pequena, eu toco piano no restaurante dos meus pais. A Miku também sabe tocar baixo, mas ela também é meio ocupada com o vocal principal, então um novo baixista é tudo o que precisamos.
–Ótimo, então, onde eu assino para entrar?
–Espera aí novato. –Kaito diz barrando Miku quando ela entrega o formulário. –Você manja mesmo de baixo?
–Qual é Kaito. –Len bate no ombro do azulado- Nós aprendemos violão juntos, não lembra? É claro que eu manjo.
Ah, então foi aí que Kaito disse ter conhecido Len.
–Se você manja mesmo, toca um pouco para as garotas ouvirem. E tem quatro anos que não escuto você tocar. Quando lhe escutei, você era só um aprendiz. –Kaito diz entregando o baixo de Luka à Len.
–Esse é um baixo para destros e eu sou canhoto...
–Não consegue tocar nesse? –pergunto.
–Consigo sim. O meu é adaptado para a mão esquerda, mas quando comecei foi com um para destros.
Ele começa com umas notas aleatórias e segue com refrãos de músicas conhecidas. Acaba surpreendendo todo mundo. Fico feliz por ouvi-lo tocar, ele é muito bom com isso e parece contente com o instrumento, é como se eu o visse vivo de verdade quando ele está em contato com as cordas do baixo.
E de agora em diante, vamos tocar juntos, numa banda, num time. Agora ele faz parte do clube e estou muito feliz por isso. Tão contente que poderia morrer.
Kaito. Miku e Luka o aceitam numa boa. Ele assina uns formulários e Meiko aparece para aprova-lo no final. Len começará a ensaiar conosco a partir de amanhã e Luka trará seu teclado e será nossa não tão nova tecladista.
E eu não poderia pedir algo melhor.
Ao final do ensaio, Meiko nos despensa propriamente e pede para que eu a espere, já que ela me dará uma carona. Luka sai na frente e Miku vai ao clube de kendô esperar pelo namorado. Acabo ficando sozinha na sala com Kaito e Len. Fico um pouco tensa, mesmo sabendo que os dois são amigos e se conhecem há um tempo, mas ainda fico com receio, já que Kaito sabe que o loiro me magoou.
–Então Len... –Kaito começa a falar com o novato no clube- Tem certeza que quer fazer parte disso?
–Sim. Vocês são incríveis, e talvez eu não chegue nem aos pés de vocês, mas quero me esforçar. –Len diz com um olhar sério- Nos últimos anos, eu não tenho feito nada de útil, nada do que eu possa me orgulhar. Se isso for um começo, quero começar bem.
–Aprecio sua atitude. Mas você sabe que vai ter que se esforçar mesmo, não é? Sem essa preguiça que você tem nos estudos. –Kaito fala com seriedade.
–Eu sei de tudo isso, e antes de passar por aquela porta, jurei me comprometer com tudo daqui em diante.
–Espero que esteja falando sério. –Kaito ergue um punho fechado.
–Nunca falei tão sério. –Len também fecha seus dedos em um punho e ambos se cumprimentam com soquinhos.
Antes que Len saia, passo por ele na frente da porta e agarro seu braço. Depois, pergunto:
–O que foi isso? Quero dizer, você já estava com isso em mente?
–Eu tive uma briga com o Rinto. Mas ele estava certo, eu tenho que fazer algo que me ajude a melhorar. Algo que me faça querer ser alguém melhor.
Não é a primeira vez que ouço alguém dizer isso. Talvez essa seja mais uma coisa que me fez gostar de Len. Ele me lembra de alguém que amei um dia. Essa pessoa costumava me dizer algo todos os dias.
–Sabe, uma vez, alguém me disse que você precisa de duas coisas para se sentir vivo. –digo para Len.
–Ah é? E o que é?
–Algo e alguém.
O rosto de Len ganha cor, ele desvia o olhar para o chão e coça a nuca. Não nego que o que eu disse foi constrangedor, mas foi algo que precisava ser dito. Não que eu queira me aproveitar dele, dizendo que o alguém que ele tem que ter sou eu, mas algo que o inspire que o faça permanecer conosco.
–Sempre poética. A gente se vê amanhã. –ele diz um pouco envergonhado e se despede.
Assim, pego minha guitarra e deixo a sala junto a Kaito. Ele começa a conversar comigo:
–Ei, parece que está mesmo tudo bem entre vocês.
–Está sim, ainda mais agora que ele está no clube. O interessante é que ele não tinha me dito nada sobre essa decisão.
–Pouco me importa a decisão dele, eu quero saber de você. Vocês dois vão continuar sendo só amigos ou você pretende continuar algo?
–Devo admitir que eu estou satisfeita com a amizade dele.
–Bem Rin-chan... –Kaito segura meu pulso- Parece que você é uma mentirosa.
–O quê? Aonde você quer chegar?
–O que você disse a ele antes dele ir. Você vai continuar tentando, mesmo que não perceba. Você é do tipo de pessoa que se apega às outras.
–Se você acha isso, então você realmente não sabe de nada!- digo soltando-me de sua mão- Você e eu somos completos opostos. Você não se apega a ninguém, enquanto eu sou capaz de esperar a pessoa por uma vida inteira. Se minha atitude é certa ou errada, eu não sei, mas não saia por aí fazendo deduções precipitadas.
–Não estou dizendo que está errada em persistir com ele! –ele parece irritado- Afinal, você seria mais feliz com ele do que com qualquer um! Então por que você não insiste?
–Porque não é isso que ele quer!
–E o que você quer Rin? –ele finalmente chega a gritar.
Eu nunca o vi alterado desse jeito. Mas a pergunta de Kaito faz sentido. O que eu realmente quero? Deixar Len escapar das minhas mãos e continuar sendo sua amiga e vê-lo futuramente com outra pessoa? Ou insistir nele e fazê-lo se apaixonar por mim a qualquer custo? Ambas as opções me parecem ridículas, e claro que sou egoísta por dentro, mas gostando tanto de alguém, eu não sei se penso cem por cento em mim ou nele.
–Não sei... –digo virando meu rosto.
–Droga... Pensei que fosse mais egoísta. Enfim, desculpe por ter alterado minha voz com você, mas quando é você... Eu não consigo me controlar. Quero que você seja feliz.
–Eu vou pensar em algo, prometo. Mas por que quer tanto que eu invista no Len? Você sabe que ele pode me magoar novamente e você sempre implicou com meu ex...
–Sabe Rin-chan... –ele vira-se de costas para mim- Todas aquelas vezes em que nos beijamos você não sorriu nenhuma vez. Não pareceu que eu estava lhe fazendo feliz ou alegre... Já o Len, qualquer coisa que ele faz lhe deixa sorridente. Então é nele que você deve investir. Se vocês namorarem, prometo não implicar com ele, afinal, ele também é meu amigo. Dito isso, até amanhã.
Shion Kaito... Que tipo de idiota é você?
Confusa com essa conversa volto para casa com Meiko e passo o resto da noite estudando e escutando músicas aleatórias. Tento dormir, mas algo me perturba. Não tem nada a ver com o colégio, mas sim com meus problemas femininos físicos.
Sim, menstruação.
Passo a noite em dor e agonia entre cólicas menstruais e dores musculares espalhadas por todo o meu corpo. Tomo alguns analgésicos e isso me deixa com sono. As dores menstruais parecem sumir quando acordo, mas minha cabeça tem um peso enorme.
Vou vagarosamente para a escola, já que parece que minhas pernas pesam uma tonelada cada. Todo o resquício de felicidade de ontem se vai ao lembrar que hoje temos educação física.
–Se você não estiver se sentindo bem, deveria ir para a enfermaria. –Teto diz preocupada.
–Relaxa, eu não estou tão ruim assim, tomei uns remédios tem umas oito horas. Caso eu não me sinta bem durante os exercícios, prometo ir à enfermaria.
Assim, seguimos todas para o vestuário, mas lá volto a sentir minha cabeça pesada, e todo movimento me faz parecer que vou cair para qualquer lado.
Teto e Haku me acompanham até a enfermaria e me deixam lá, já que peço a elas que não percam aula por minha causa. A enfermeira faz uma sequência de perguntas como o tempo que dormi e quantas horas já fazem que tomei o remédio. Feito as perguntas, ela me dá um analgésico mais forte, depois claro de me perguntar se sou alérgica a formula.
–Kagamine-san, o período menstrual deixa sua imunidade física mais baixa. –a enfermeira me diz- Aparentemente você está também em estado febril. O analgésico dará conta de ambos os problemas, mas pode sentir muito sono. Sinta-se a vontade para dormir o tanto que precisar.
Agradeço e puxo o lençol da cama da enfermaria para cima de mim. Não demoro muito para sentir os efeitos sonolentos do remédio e acabo adormecendo. É como se eu estivesse repondo o que não dormi durante a noite devido às dores.
Em meio ao despertar do sono pesado, sinto algo tocar minha testa. Ainda estou com os olhos fechados e demoro em entender o que acontece. Aparentemente é algo como uma mão, mas ao mesmo tempo, um pouco mais lisa e sem dedos. Imagino que a enfermeira esteja tocando-me para vez se a febre passou. Vou abrindo gradativamente meus olhos e tomo um susto. Len está acima de mim, sua testa está tocando a minha e ele está de olhos fechados.
Espera aí, estou sonhando?
–LEN? –grito assustada, assustando-o em cadeia.
–Que susto Rin!- ele diz abrindo os olhos rapidamente e afastando-se do meu rosto.
–Eu que digo isso! O que está fazendo aqui?
–Neru me falou que você estava aqui na enfermaria desde cedo e pediu para que viesse lhe ver. Quando cheguei, você estava dormindo. A enfermeira saiu rapidinho e pediu para que eu ficasse de olho em você. Como eu não sei onde ficam os termômetros, decidi checar sua temperatura com contato corporal.
Ele se preocupou comigo... Estava tão perto de mim agora... Seria esse sinal mais um sinal falso como todos os outros anteriores?
–Obrigada por ficar aqui. Por se preocupar comigo... –agradeço.
–Disponha, eu quero você bem.
Fico confusa. Todas essas atitudes e palavras fazem parecer que seus sentimentos são recíprocos aos meus, mas ele continua a negar isso. Eu não quero mais esquentar minha cabeça com isso!
Eu não quero mais perder tempo Len... Já me decidi faz tempo agora é sua vez.
Você me ama?
Seu rosto rosado e as batidas compassadas do meu coração indicam que é hora de fazer as coisas certas. Quando Kaito me perguntou o que eu queria fazer, percebi que ainda não tinha feito o que realmente queria fazer. E outra coisa eu sei...
Palavras alimentam apenas livros.
Nossas vidas são feitas de ações.
Agarro as roupas de Len e o puxo para perto de mim dizendo:
–Len, você pode me ver da maneira que quiser; uma amiga, uma colega, uma conhecida, para mim tanto faz. Mas eu não vou conseguir matar meus sentimentos por você e vê-lo apenas como um amigo ou colega. Você pode me odiar ou se afastar de mim se quiser, mas uma coisa eu posso garantir; eu não vou desistir de você!
–Rin... Você...
Desculpa Len, mas você é tudo o que eu quero; tudo o que preciso...
Você é... Tudo...
E eu não posso desistir do meu tudo.
Aproximo meu rosto do seu e finalmente...
Nos beijamos...
...
Continua...
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