My Own Private Waters

7 A Luz Por Trás Dos Seus Olhos


Notas iniciais
The Light Behind Your Eyes - My Chemical Romance >Esse capítulo é um pouquinho mais pesado que os outros, então recomendo cuidado.

Peter disse que ficaria com Scott por alguns dias, mas Neil não sabia ao certo quanto tempo fazia isso exatamente. Quando você está constantemente martelando e passando por episódios de merda de colapsos mentais (porque a cocaína que ele tinha cheirado em alguma festa sombria tinha a possibilidade de ter sido misturada com metanfetamina), a última coisa com que você se preocupa é com o tempo.

Talvez tivesse se passado três dias ou uma semana ou outra, Neil nem se lembrava que dia da semana era na metade do tempo. Não que importasse, já que não estava nos dormitórios e nem um pouco perto da faculdade. Estava saindo com algumas garotas que moravam fora do campus, dormindo de ressaca pela manhã antes de acordar ao entardecer e passar a noite em boates aleatórias até o sol nascer.

Às vezes Neil perdia a noção do tempo de um jeito que o deixava assustado. Algumas noites não iam tão bem e ele acordava sem camisa no estacionamento de um McDonald's aleatório, ou nas piores ele tinha lapsos de consciência antes de acordar deitado nos velhos trilhos de trem, sentido como se insetos rastejassem debaixo de sua pele

Dessa vez, porém ele não acordou sem camisa e completamente desorientado. Quando seus sentidos voltaram ele estava em um beco atrás de alguma boate, de joelhos e com um pau na boca, e talvez tivesse perdido algo próximo de sete horas porque estava escuro e incrivelmente frio.

"Ah porra!" O cara desconhecido para quem estava pagando um boquete no meio da rua puxou o cabelo de Neil tão forte que ardia.

Não era a primeira vez que havia parado nesse tipo de situação. Quando ele não estava acordando descamisado em lugares estranhos, ele acabava acordando em posições comprometedoras. Mas não era mais pessoas bonitas pulando nele como uma fantasia direto de um filme pornô. Uma vez, havia sido um cara nojento vinte anos mais velho que ele puxando suas calças e tentando transar com ele num banco de parque onde Neil havia desmaiado, e tinha sido sortudo em acordar a tempo o suficiente para dar um soco no cara.

As vezes ele não era tão sortudo, e essa era uma dessas vezes. Mas ele simplesmente assumiu que era consensual e que em seu estado delirante e fodido, ele tinha pedido por isso. Ele queria, certo? Porque qualquer outra implicação de ter sido arrastado e forçado a chupar um pau num beco escuro seria chamado de estupro, mas isso era impossível porque Neil podia se cuidar sozinha e a ideia de alguém tirando vantagem de seu estado o faria fraco.

Neil gostava de sexo. Ele deveria gostar disso. Sexo era natural como respirar para Neil e isso não era nada novo. Não era novo mas ele não gostava disso.

Ele estava engasgado com um pau no fundo de um beco úmido que cheirava a merda e ele nem sabia como diabos chegou lá em primeiro lugar e não é o pensamento de Mike o abandonando que o fez chorar, ou a decepção refletida nos olhos de Peter e Scott.

Era o fato de que aqui estava ele, de mãos e joelhos, para algum estranho em um beco, que o fez quebrar.

Neil soluçou, mas com o cara em sua boca pareceu um gemido.

"Você chupa tão bem, seu puto. Você gosta disso? Gosta de chupar meu pau como o filho da puta sujo que você é?"

Não,ele não gosta. Ele odiava isso e sua garganta doía e ser chamado de sujo o fez chorar ainda mais. Ele fechou os olhos como se a escuridão pudesse confortá-lo de alguma maneira. Lá estava, o som de estática em seus ouvidos, os efeitos colaterais do medo constante e da ansiedade que morava em seus ossos. Ele ouvia seus próprios sons, os soluços e as engasgadas. Esse homem sem rosto e sem nome havia tirado algo de Neil que nem ele mesmo sabia que ainda tinha. Era como um roubo de alma, uma ferida que ninguém mais podia ver.

Neil tentou se afastar, mas o cara puxou seu cabelo tão forte e o pressionou tão fundo contra seu pau que ele quase vomitou. O cara gozou em sua garganta antes de se afastar e empurrar Neil para o lado.

Neil caiu de costas, a cabeça batendo contra a parede de pedra do outro lado do beco que gerou uma dor por sua coluna.

"Valeu,"O estranho disse, se arrumando e fechando o zíper da calça, e tirando sua carteira. Ele tirou algumas notas e as jogou aos pés de Neil. "Pelos seus serviços." Ele então virou-se e entrou novamente na boate.

Neil estava chorando abertamente agora. Sua garganta doía e ele nem tinha ideia de onde estava ou quem era aquele cara. Havia deixado um estranho gozar em sua garganta como alguma puta barata e isso era horrível. Tudo era horrível. Estava frio, ele estava com medo e só queria ir pra casa.

Mas onde era sua casa?

Incrivelmente, ainda não havia perdido seu celular. A tela estava rachada e ele não tinha certeza de quando isso tinha acontecido, mas não importava agora. Havia desligado o celular depois da briga com Peter. No momento que o IPhone ligou, ele veio a vida cheio de notificações.

Você tem 47 novas mensagens.

Você tem 32 ligações perdidas.

Suas mãos tremiam enquanto ele abria as chamadas perdidas e a maioria delas eram de Scott e Peter, outras de Henry e Ethan.

Passou então para as mensagens de texto e não ficou surpreso de ver que grande parte eram de Scott. As datas o surpreenderam porque faziam exatamente seis dias desde que ele tinha desaparecido da face da terra. As primeiras mensagens eram de Peter, e eram curtas e irritadas e familiares.

[5:30PM] Meu Malvado Favorito: Voltei pro dormitório pq sei q vc é cuzão e n vai pedir desculpas lol

[5:30PM] Meu Malvado Favorito: Então kd vc?

[9:30PM] Meu Malvado Favorito: Vc n vai voltar hj?

[3:40PM] Meu Malvado Favorito: Para de ser cuzão e atende o telefone. Me disseram q ninguém te vê faz três dias.

[2:40AM] Meu Malvado Favorito: Fazem 5 dias...só dá um sinal de vida ou eu chamo a polícia.

Neil tentou rir, mas o som saiu feio e distorcido. Que porra a polícia iria fazer?As outras mensagens de seus amigos eram tão preocupadas quanto.

[6:10PM] Scotts: Pete disse q ce n aparece em casa há 1 semana….pfvr atende o telefone Neil.

[8:45PM] Henryeta: Hey cara, eu sei que cê tá passando por umas coisas agora mas se precisar conversar, me liga. Amo você, garoto.

[11:53AM] Ethan: Me liga agora, porra.

Haviam milhões de outras mensagens, mas as lágrimas estavam dificultando sua visão e caindo na tela, porque nenhuma das mensagens eram de Mike. Um claro sinal de que Mike não dava mais a mínima para ele. Seis dias desaparecido e nenhuma vez Mike tinha tentado contato.

E talvez Neil simplesmente estivesse sendo ridículo, mas ele estava chorando histericamente num beco escuro as 3 da manhã, assustado e machucado, sabendo que nenhum de seus amigos ia aparecer na esquina e abraça-lo e talvez gritar com ele por desaparecer. Porque essa era a triste realidade da vida não tinha ninguém para dizer a ele que tudo ia ficar bem porque nada nunca esteve bem.

Talvez em uma realidade alternativa Mike ainda se importava mas Neil sentia sua garganta se fechando e estava certo de que estava tendo um ataque de pânico e merda queria ligar para Peter. Queria pateticamente implorar pelo perdão do seu melhor amigos e pedir um abraço, e talvez se Peter estivesse se sentindo bondoso ele deixaria Neil dormir em sua cama e acariciaria seu cabelo até que ele dormisse. Se sentia tão perdido e precisava do seu melhor amigo mais que tudo no mundo, mas o medo da rejeição o impedia de iniciar a ligação.

Tinha certeza que se Peter o mandasse se foder, ele seriamente iria se matar.

Então ele sentou e encarou seu telefone e rezou para que um milagre acontecesse e Peter ligasse primeiro. Ele rezou, e mais uma vez teve que lembrar a si mesmo que esperança era algo que sempre só o machucava no final.

Já até podia ouvir o eu te avisei do outro lado da linha, a decepção na voz de Peter, porque machucar pessoas era o que Neil tinha feito sua vida inteira. Os eu te disse que não ia durar e os eu disse que karma ia comer seu rabo. E talvez a voz dentro de sua cabeça que dizia eu disse que ninguém nunca ia amar você.

Tentou dizer a si mesmo que tudo acontecia por um motivo. Toda ação tinha significado, um propósito. Então quando seu celular piscou com o ID de Harrison Watts, o toque tão alto que o fez se encolher, Neil tinha certeza de que era um sinal de Peter o odiava.

Todos os seus amigos devem odiá-lo.

Neil respirou fundo, forçando o pânico a passar e ar entrar em seus pulmões. Pensou que se continuasse se movendo, se continuasse correndo, isso deixaria a ansiedade passar. Mas isso era seu diálogo interno, não seu amigo, e os demônios sussurravam para ele desista, é tarde demais pra você consertar alguma coisa. E agora ele estava tentando se segurar para não continuar chorando no telefone quando atendeu, porque a voz ainda estava lá dizendo ninguém quer você por perto.

"Oi?"

"Hey Neil!" O som de música alta quase consumia a voz de Harrisson, mesmo enquanto ele gritava. "Você está ocupado agora?"

Neil tentou rir, a voz quebrada. "Nah. Por que?"

"Eu e uns amigos vamos fazer um bar hopping hoje e um dos caras deu bolo na gente. Quer vir?"

Não.

"Okay, eu vou."

Neil se sentia como um corpo que havia acabado de ser atropelado, mas isso era provavelmente efeito da abstinência de cocaína que eram absolutamente um inferno e Harrison era o melhor fornecedor que conhecia. Um pouco caro, mas ainda assim incrível.

Harrison disse a ele que eles estavam no Blue Birds e Neil prometeu aparecer — assim que descobrisse onde diabos estava em primeiro lugar. Sabia que devia voltar para casa e encarar qualquer merda que ele tinha causado e tentar seguir em frente, mas não conseguia. Tudo o lembrava de Mike, e as camisas esquecidas em seu quarto não o mantinham mais inteiro.

Doía como o inferno.

E era o tipo não adulterado de dor que queimava sua carne toda vez que alguém mencionava o nome de Mike. Era uma dor que Neil conhecia, mas não importava o quanto se preparasse, ainda doía de qualquer jeito.

Era como quando tinha quinze anos e sua primeira namorada o havia traído com outro cara na festa de inverno. Aquilo doeu.

Era o tipo de dor de ser deixado para trás.

A dor de um coração morrendo.

Neil não podia voltar, porque ninguém havia ensinado a ele como lidar com a dor extrema de um coração quebrado que deixou seu interior estraçalhado. Ninguém o havia ensinado como lidar com a perda e a dor de um jeito saudável. Ninguém o havia ensinado que na cidade as pessoas vêm e vão, e que estava tudo bem. Porque pessoas normais iriam superar essa merda. Pessoas normais choravam por uma semana assistindo comédias ruins com seus melhores amigos antes de voltarem a sua rotina. Mas Neil não era normal e nunca seria.

Então quando finalmente conseguiu respirar novamente, ele se levantou e caminhou para fora do beco até a calçada. Olhou para a sua esquerda e viu um grande sinal de neon de um bar que costumava frequentar, suspirando de alívio — pelo menos não havia ido parar do outro lado da cidade. Chamou um táxi, e levou apenas quinze minutos para que chegasse ao Blue Birds.

Neil estava completamente deplorável e sabia disso. Você não passava seis dias dopado de cocaína e saia a coisa mais linda do mundo. Então não ficou surpreso quando Harrison o viu da mesa onde ele estava com seus amigos, e franziu a testa.

"Tá tudo bem, cara?"Ele perguntou quando Neil se aproximou do grupo. "Você parece bem-"

"Fodido."

Harrison riu. "Noite difícil?"

"Vida difícil."

Neil reconheceu os outros rapazes na mesa, já que Harrison sempre estava com ele. Eles exatamente aquele tipo típico de cuzões que certamente filmaram uma sex tape escondida de alguma garota só por serem filhos da puta. Nunca havia entendido porque Harrison os mantinha por perto, porque mesmo que Harrison fosse um fornecedor, ele não era um cuzão.

"Quem eu tô substituindo?"Neil perguntou.

"Jack." Disse Connor. "Ele nos largou por uma garota qualquer aí."

"Você acha que a boceta dela tem um gosto tão bom?" Um cara alto e magro, com pele bronzeada e cabelo rosa que fez o comentário grosseiro. Se a memória de Neil lhe servia corretamente, ele intercambista do Japão, Yoshi alguma coisa.

"Deve ser o Santo Graal ou algo assim",Connor riu.

Harrison fez uma careta. “Sério, pessoal? Não sejam idiotas. "

"É uma piada, não um pau, não leve muito a sério",Yoshi bufou com um rolar de olhos antes de agarrar Neil pelo pulso e puxá-lo para baixo para se sentar ao lado dele. "Beba."

Um shot do que Neil achava que era tequila foi colocado na frente dele e Neil nem sequer teve tempo para hesitar porque ele já estava jogando a cabeça para trás e engolindo.

Connor gritou."Eu já posso dizer que temos um campeão em nossas mãos!"

Neil aprendeu rapidamente que os amigos de Harrison são o tipo de pessoas imprudentes e destrutivas que ele precisa estar por perto. Eles estavam bêbados quando deixaram o segundo bar em que foram, mas não antes de Yoshi puxar um saquinho de plástico pequeno com pó branco e balançá-lo no ar entre eles com um movimento sugestivo de sobrancelhas. .

Era o tipo de coisa que Neil precisava para deixar suas mãos menos úmidas E foda-se, a merda era boa. Era melhor do que qualquer cocaína barata misturada com bicarbonato de sódio ou metanfetamina que ele cheirou nos últimos seis dias.Era pura e subiu pelo nariz suavemente antes de pingar na garganta. Os efeitos não foram imediatos com a quantidade de cocaína que Neil consumiu ao longo de uma semana, mas quando o atingiu, ele sentiu como se estivesse no topo do mundo.

Tão no topo do mundo quanto ele poderia estar, pelo menos.

"Ouvi dizer que você era bicha agora ou algo assim", observou Connor.Já era meia noite. e eles passaram por um punhado de bares antes de decidir sobre uma boate como um desvio.

Neil fez uma careta ao redor do copo de uísque, batendo-o no bar com muito mais força do que o necessário. "O que?"

Connor encolheu os ombros. “Você não estava namorando Mike Waters? Nunca te tomei como esse tipo de pessoa ... ”

"Eu não estou", ele assobiou, apertando as mãos ao redor do copo até que os nós dos dedos se tornassem um tom manchado de branco e vermelho. A última coisa que Neil queria falar era sobre o garoto que ele estava tentando desesperadamente esquecer. Ele não queria pensar se Mike estava ou não feliz, nem se Mike se sentia tão vazio quanto ele e tentava encontrar maneiras de preencher o espaço com conexões que sempre o deixavam se sentindo mais vazio do que antes. Ou talvez ele já esteja apaixonado e Neil era o único que não podia seguir em frente. Sim, Neil definitivamente não queria pensar nisso.

"Sério?" Connor sorriu. "Foi isso que você disse quando estava chupando ele-"

Um chute forte na canela fez Connor gritar de surpresa, ajoelhando-se para esfregar sua perna.

"Para que diabos foi isso?!”

Yoshi lançou um sorriso tranquilizador para Neil, ignorando os xingamentos incessantes de Connor. "Ele estava brincando."

Neil apenas olhou para o líquido âmbar e o brilho dourado dos cubos dentro do copo de vidro, pressionando os dedos para submergir como mini icebergs antes que eles se recuperem.

"Tanto faz", ele murmurou, engolindo o resto um pouco rápido demais antes de pular da cadeira e pedir licença para ir ao banheiro.

Estava vazio, exceto por Harrison, que estava encostado na parede de azulejos com um cigarro aceso pendurado frouxamente entre os lábios já a meio caminho.

“Você não deveria fumar aqui”, disse Neil, franzindo a testa com as palavras, porque lembravam de todas as vezes que Peter fumava descuidadamente no quarto compartilhado.

"Quer um?" Harrison perguntou, segurando um pacote que lê Marlboro Menthol na frente. Não do tipo que Peter fuma.

Se Neil tivesse sido perguntado isso há alguns meses, ele teria recusado e torcido o nariz com o cheiro repugnante. Mas o Neil de alguns meses atrás não era o Neil agora. No momento, ele estava apenas tentando encontrar mais maneiras de matar sua tristeza.

"Quero", disse ele, pegando um cigarro da caixa e espelhando Harrison com o filtro pendurado entre os lábios.

Harrison pegou seu zippo, o isqueiro de uma cor metálica básica que ele abre, dando vida às chamas azuis. Neil sugou a fumaça profundamente em seus pulmões, lembrando de todos os avisos, mas não se importando. Ele o segurou ali, preso, pensando em como seus pulmões devem odiá-lo agora por ter tão pouca consideração. Ele anseia por oxigênio, mas não até que seu corpo inteiro receba a mensagem de que ele precisa de algo para fazer que o fará se machucar menos. Ele respirou, engasgando com força quando a fumaça ficou presa na garganta, com os olhos lacrimejando.

"Você está bem, cara?" Harrison deu um tapinha nas costas dele. "Primeira vez?"

Neil assentiu. "Sim, não sou realmente um fumante."

"Bem, não comece agora, cara."

A fumaça se enrolava ao redor deles e fazia o nariz de Neil queimar enquanto enchiam seus pulmões com morte prematura em silêncio.

"Você tem alguma coisa sobrando?" Neil perguntou depois de um longo momento.

"Tenho",disse Harrison, empurrando-se para fora da parede e puxando outro saquinho do bolso de trás. Ele hesitou por um momento, franzindo as sobrancelhas. "Mas talvez você deva adiar essa merda."

Neil fez uma careta. "Por quê?"

“Você cheirou quinze linhas nas últimas três horas. Não quer arriscar uma overdose, quer?”

Neil encolheu os ombros. "Eu desenvolvi uma tolerância."

Harrison apertou os olhos. "Mas ainda assim..."

"Vocês estão se divertindo sem nós?" Tudo o que Harrison ia dizer foi interrompido quando Yoshi e Connor entraram no banheiro.

"Você não está se escondendo, está?"Yoshi provocou, lábios enrolados em diversão.

Harrison não teve chance de responder antes que o saquinho fosse arrancado de sua mão por Connor, que começou a puxar Neil em direção a uma cabine.

"Eu realmente não acho que-"

"Não seja um chato", brincou Connor. “Nós somos todos bons nisso aqui. Você também não é, Neil? ”

Sem palavras, Neil concordou, ignorando o sentimento de vergonha que sentiu quando a expressão de Harrison caiu em descontentamento.

"Sim, bem, eu não sou bom, então se divirtam sozinhos seus idiotas", Harrison rosnou com raiva, estreitando os olhos e a boca puxada para baixo antes de girar nos calcanhares e sair rapidamente do banheiro.

O lado lógico de Neil sabia que ele não deveria estar pressionado contra a parede de um banheiro com Connor, que estava preparando linhas na tampa do vaso sanitário. É definitivamente nojento pra caralho, mas nenhum deles estava no juízo perfeito para dar a mínima. Yoshi se inclinou contra o lado de fora da porta trancada, sendo uma espécie de vigia.

Connor fazia as linhas mais longas que Harrison, mais grossas também. Ele foi rápido em deslizar um canudo feito de uma nota de um dólar sobre a superfície antes de inclinar a cabeça para trás e passar para Neil.

Por um momento, Neil olhou para as linhas com os lábios contraídos.Connor disse: "Pegue quantas quiser, temos o bastante" e ele sabia que era uma má idéia. Ele estava bêbado e já tinha cheirado quinze linhas a mais, mas era imprudente e não estava bem e Neil só queria ficar bem. Não havia ninguém para detê-lo enquanto ele encolhia os ombros e segurava a vitória entre os dedos trêmulos.

Ele queria que alguém o parasse — desse um tapa na cara dele. Queria que Peter chutasse a porta e o arrastasse para fora do clube e o chamasse de idiota. Queria que,se Peter lhe desse outra chance, ele permitisse que Neil finalmente se quebrasse completamente e lentamente começasse a pegar os pedaços da alma do garoto e tentasse juntar tudo de novo.

Mas é claro que nada disso acontece e logo Neil estava cheirando uma segunda linha enquanto Connor preparava mais duas lado a lado. Se fosse um livro ou um filme, alguém teria salvado Neil antes que ele jogasse a cabeça para trás depois da quarta linha.Se isto fosse um filme, Connor teria notado que as pupilas de Neil estavam fodidamente estouradas e suas mãos estavam tão nervosas que ele nem sequer conseguiu segurar o canudo em linha reta quando chegou na quinta linha. Mas isso é realidade, e realidade é uma merda. E nessa realidade, Neil não sabe viver, então ele flerta com a morte.

A sensação ficou muda por um bom tempo. Connor sugeriu que mais uma iria realmente dar o pontapé inicial, mas Yoshi se tornou a voz da razão e disse para eles esperarem, porque cinco linhas de cocaína pura não eram as mesmas que cinco linhas da merda barata misturada com todos os tipos de produtos químicos . Então Yoshi enfiou o que restava da droga dentro de seu sapato antes de voltar para a área do bar e pedir mais bebidas.

Os efeitos atingem Neil minutos depois, a força quase fazendo o copo de uísque escorregar de suas mãos e quebrar em um milhão de pedacinhos no chão de mármore. Era o tipo agradável de sensação que fazia Neil parecer o Super-Homem; o tipo de euforia entorpecente e mental que o fazia engolir álcool como se não tivesse um fígado antes de se juntar ao enxame de corpos na pista de dança e se esfregar em uma garota aleatória até ficar meio duro.

O rosto dela não era tão legal, mas a cocaína atrapalha seu julgamento e o fazia querer foder com todos. Mas, felizmente, Yoshi, que vê a situação do garoto, afastou a garota de Neil antes de arrastá-lo para longe e murmurar "confie em mim, você não quer acordar ao lado de alguém como ela".

Estava tudo ótimo e Neil não estava realmente pensando em nada ou ninguém. Os pensamentos de cabelos loiros claros e olhos azuis se mudaram para um planeta distante agora e tudo o que Neil podia focar era no quão delirantemente incrível ele se sentia. Ele estava pulando na ponta dos pés, suor escorrendo pela testa. Estava no topo do mundo, mas o barman estava demorando muito para servir uma bebida e Neil estava ficando impaciente. Parecia uma eternidade, mas uma vez que ele tinha sua bebida na mão, ele praticamente correu de volta para a pista de dança com Connor, bebendo e derramando em todos os lugares. Seu corpo estava zumbindo e ele se sentia conectado ao mundo ao seu redor.

Não importava que Neil nunca seria amado. Não importava que Mike não queira nada com ele. Não importava que ele fosse uma grande decepção para o seu melhor amigo. Não importava se ele machucou Scott. Não importava que seu o coração estivesse partido há tantos anos. Sim, sua alma estava gasta e seus ossos rangiam sob pressão como uma casa abandonada. Sim, ele provavelmente morreria antes dos trinta anos, mas isso tem pouca importância para Neil — não é como se alguém sentisse sua falta.Ele era as sombras do amanhecer que desapareciam no horizonte assim que o sol nascia. Neil não era poeticamente bonito como gotas de orvalho refletidas contra a luz da manhã. Ele não era o cheiro reconfortante da chuva e não tinha galáxias dentro dele,mas um buraco negro em seu lugar. Neil Anderson era uma concha vazia. Nada além de pele esticada sobre um esqueleto para tentar conter o vazio interior; para convencer as pessoas de que ele é alguém, que é ele é alguma coisa . E Neil tentava dizer a si mesmo que estava tudo bem assim. Mesmo se seus lábios tremem com o pensamento de dizer que eu valho alguma coisa. Me dê um motivo para viver. Mas isso não importa.

Nada importa, e Neil desejava que ele nunca tivesse que ficar sóbrio novamente.

Então ele dançou até que seus membros gritassem para ele parar e bebeu até que apenas o pensamento de álcool fazia seu estômago revirar. Neil estava muito chapado para se importar. Ele estava muito chapado e o baixo da música reverberava por todo o corpo. Tudo parecia eufórico, mesmo que a garota que ele estava beijando tenha gosto de cigarro — não era nada como o gosto de Mike.

Neil não sabia por quanto tempo eles dançaram. Mas, eventualmente, os dois garotos sugeriram ir a outro clube antes de prometer encerrar a noite. Harrison não estava em lugar nenhum e nenhum de seus amigos parecia preocupado com isso. Neil assumia que Harrison tinha cem por cento terminado a noite e foi embora.

Então eles tropeçaram para fora e começam a curta caminhada para outro clube que Yoshi alegou estar a apenas alguns quarteirões de distância. Mas todos estavam bêbados e, em algum momento, tomaram um rumo errado. Por um tempo, ninguém pareceu se importar, mas depois de mais dez minutos andando, Yoshi se virou para encarar os dois sem expressão e disse: "Estamos perdidos".

Connor riu e chamou seu amigo de retardado, e Neil quis rir junto com eles, mas algo não parecia certo. Era meados de fevereiro, as árvores ainda estavam despidas da vida. Ambos os meninos estavam vestindo casacos e a ponta do nariz de Connor estava vermelha. Era óbvio pela maneira como eles se abraçavam que a temperatura caiu drasticamente. E se os sopros de ar que escapavam entre os lábios após cada expiração são alguma indicação do tempo frio, então a maneira como o vento pega e bagunça os cabelos deveria ser mais do que suficiente.

Neil sabia que ele deve estar com frio, terrivelmente. Sua jaqueta havia sido perdida há muitos dias, então ele não vestia nada além de uma camiseta branca para afastar o ar gelado. Os arrepios que rastejavam ao longo de sua pele eram aparentes, mas Neil não sentia frio; de fato, ele sentia como se estivesse sob o calor sufocante do sol do verão. Ele estava suando, o que era esperado quando você está consumindo cocaína, mas também estava meio tonto.

Connor e Yoshi brincavam sobre as direções enquanto percorriam um bairro tranquilo, suas vozes altas e bêbadas ecoando na noite. Neil seguia silenciosamente atrás deles, entre lapsos momentâneos em que sua visão dobrava e o chão oscilava perigosamente, mas Neil apenas atribuiu isso a estar bêbado. Trinta minutos e o pico da alta de Neil deveria ter acabado, mas tudo parecia muito intenso e sua frequência cardíaca não estava diminuindo como deveria.

"Neil, você está bem?" Yoshi perguntou com uma careta. "Você parece muito pálido e está suando."

"Sim", Neil respondeu sem fôlego, sentindo a língua grossa em sua boca. Havia um aperto no peito que definitivamente não era de desgosto, mas ele tentou sorrir de qualquer maneira. "Estou bem."

Ambos pareciam intoxicados demais para perceber que algo estava errado, apenas encolhendo os ombros antes de retomar a discussão enquanto desviam outra rua. E Neil tentou acompanhá-los, ele realmente tentou, mas colocar um pé na frente do outro estava se tornando uma tarefa árdua e seu corpo parecia tão pesado.

O vento beliscava sua pele exposta e Neil queria tanto sentir qualquer coisa que não seja apenas dormência. Mas ele ainda podia sentir isso penetrando em suas veias, congelando seu sangue e doendo. Dói e Neil não sabia como era possível sentir que duas estações colidiram ao mesmo tempo. Mas aqui estava ele,molhado de suor, com os pelos nos braços erguendo-se da mordida do vento que deixava sua marca na forma de pequenas saliências que formigavam nos braços.

A rua parecia se estender sem parar e, a certa altura, as pernas de Neil começaram a dobrar e ele tropeçou para o lado, encostando-se a um poste de luz para apoio. Seus músculos estavam ardendo e parecia que ele correu uma maratona inteira, apesar de ter andado em ritmo lento. Seus músculos foram reduzidos a gelatina e a letargia era avassaladora, nauseante.

Percebendo que ele ficou para trás mais uma vez, Yoshi e Connor voltaram para onde Neil se inclinava pesadamente contra o poste, postura caída e pernas bambas.

"Você está bem?"

“Sim eu-"

As palavras nunca se completaram, porque a bile subiu tão subitamente que Neil mal teve tempo para se recuperar antes que seu estômago se contraisse violentamente e ele quase caiu, vomitando um líquido ácido marrom em todo o cimento,lágrimas picando nos cantos dos olhos.

Yoshi assobiou humildemente. “Eu não sabia que você bebia tanto. Cara, você é uma merda.”

Neil não pôde ter uma resposta audível porque estava arfando novamente, seu interior se contraindo tão dolorosamente que queima.

"Estou bem", ele finalmente conseguiu dizer antes que sua garganta se fechasse e Neil não pudesse respirar. Ele estava ofegando pesadamente e tinha muita certeza de que podia ouvir seu coração disparado e o sangue pulsando em seus ouvidos.

Isso não está certo, ele pensou. Algo está muito errado.

Connor e Yoshi começaram a fazer piadas sobre o estado de embriaguez de Neil e prometeram desenhar paus no rosto se ele desmaiar. Mas o riso sufocou no ar de inverno no momento em que Neil tropeçou alguns passos adiante, o corpo balançando antes que o mundo começasse a se inclinar e ele atingiu o chão duro com tanta força que desmaiou por um momento.

Ele estava nadando sob um oceano de preto antes de voltar à superfície, respirando irregularmente e com o coração quase saindo do peito. Neil não tinha certeza do que estava acontecendo. Connor e Yoshi estavam olhando para ele com medo e o garoto queria dizer a eles que ele estava realmente perdido e precisava dormir, mas seu corpo não o escuta. Havia um calor formigante que começava na boca do estômago e se espalhava até as pontas dos dedos e, em seguida, Neil estava tremendo violentamente, direto ao seu âmago.

“Puta merda! Que porra vamos fazer, Connor?!”

"Eu não sei. Eu não sei." Connor parecia tão em pânico quanto perdido.

Isso dói.

“Temos que buscar ajuda! Temos que ligar para alguém! Nós temos que-"

Isso dói.

"Não." O medo em ambas as vozes era palpável. “Nós não podemos fazer isso, Yoshi. Nós dois estamos chapados e, se chamarmos uma ambulância, estaremos fodidos!”

“Mas e o Neil? Não podemos simplesmente deixá-lo aqui!”

Por favor não me deixe. Era um apelo que sacudiu o interior do crânio de Neil, desesperado, mas tão perdido para os outros dois meninos. Era um apelo que caiu em ouvidos surdos e penetrou profundamente nas fendas de seu coração enjaulado.

"Alguém o encontrará", assegurou Connor. "Ele vai ficar bem."

Houve um momento de silêncio tenso. E através do silêncio, Neil ainda estava implorando, por favor, por favor, não, porque era como uma repetição do ataque de pânico que ele teve na frente de Peter, exceto que desta vez não havia inconsciência temporária apenas para acordar na cama com um amigo preocupado.Não, Neil tinha a sensação de que, se eles fossem agora, ele nunca iria acordar.

O mundo não devia nada a Neil, mas ele não queria ficar sozinho.

Um ridículo versículo idiota da Bíblia dizia que algo como Deus tem um plano para todos e que sempre que coisas ruins acontecem a pessoas não são boas. É aqui que todo Deus perdoa todos os seus filhos que o aceitam em seus corações , porque Yoshi murmurou um pedido de desculpas instável ao garoto mal consciente e Neil rezou para que, se houvesse um Deus, ele nunca fosse perdoado.Connor foi rápido em fugir,com Yoshi hesitando por um longo momento antes de girar e seguir o exemplo. Neil pôde ouvir sapatos batendo no asfalto enquanto os dois meninos eram engolidos pela noite. Se Deus tinha um plano, Neil esperava que esse plano envolvesse os dois desgraçados sendo atropelados por um carro.

Neil ficou imobilizado e sozinho no meio de uma rua sem nome, abandonado por dois jovens de vinte e poucos anos que não davam a mínima se ele vivesse ou morresse.

A constatação de que sua sorte finalmente acabou não era tão assustadora quanto ele pensou que seria. Neil estava dançando com a morte há muito tempo agora, sempre contornando as bordas, mas nunca mergulhando. Mas parece que a morte finalmente se cansou de suas brincadeiras e arrancou o garoto do precipício entre a vida e a morte. Ele se sentia escorregando; olhos caindo e rolando para a parte de trás de sua cabeça.

Mas era estranho, porque não havia medo e o pânico desapareceu, apesar de Neil ainda não conseguir respirar. Não haviam arrependimentos dramáticos como desejar que ele pudesse envelhecer e ver seus sonhos inexistentes se tornarem realidade. Era mais uma voz que sussurrava suavemente em seu ouvido, então é isso.

O que Neil se arrependia eram sobre coisas que nunca foram dele; como deixar Mike se afastar dele; como decepcionar Peter; como deixar sua própria mãe morrer. Neil lamentou ter nascido, seus desejos que ele não existisse. Ele não entendia por que diabos algumas pessoas nasciam no mundo apenas para sofrer e levar uma vida sem sentido antes de morrerem tão pateticamente. Então é isso, realmente é. Este é Neil dando a volta no mundo que já tirou muito dele.

Ele esperava que sua carcaça apodrecida envenenasse o próprio solo em que seria enterrado, para que pelo menos deixasse algo para trás, além de uma trágica história. Ele esperava que em algum lugar, no fundo, Mike soubesse que Neil o amava. Ele esperava que as iniciais NWA se infiltrassem nas fendas das articulações de Mike, para que pelo menos alguém se lembre dele, mesmo que este alguém deteste sua existência. Neil ainda não queria ser esquecido.

Dizem que quando as pessoas morrem, sua vida passa diante de seus olhos. Mas Neil rapidamente percebeu que não era nada disso. Não havia nada bonito ou romântico na morte. Era só frio, solitário e escuro. Não havia luz e definitivamente não havia sensação de paz. E Neil se odeia porque, mesmo que ele queira morrer, ele não podia aceitar — ainda não, de qualquer maneira. Mas a vida para ele sempre foi cheia de soluções indeterminadas para problemas incompreensíveis que ele nunca conseguiu resolver.

Enquanto Neil se deitava no asfalto, a vida se esvaindo lentamente, ele quase desejou que o céu se abrisse sobre ele e chorasse por ele até que ele ficasse encharcado, até que seus lábios trêmulos ficassem azuis. Porque então, pelo menos ele poderia morrer com a ilusão de que algumas lágrimas foram derramadas por ele, mesmo que essas lágrimas não fossem de Mike Waters.

Mike Waters. Mike, que é tão brilhante que dói fisicamente. Mike, que segurava as mãos de Neil como o garoto segurava o mundo inteiro na palma da mão. Mike, quem é o beijo era como se fosse o último de Neil. As memórias são boas, um conforto na noite sombria. Neil lembrou do tempo em que tinha visto o pôr do sol com Mike na praia, sempre que as coisas não estavam desmoronando tão de repente.

“Você realmente não se importa em morrer?”Mike perguntou; ao qual Neil admitiu que alguns dias ele não se importava. Às vezes, ele dormia por dias e perdia a noção do tempo e sair da cama era difícil. Às vezes eu simplesmente não me importo, mesmo sabendo que devo. Aqueles eram os dias em que Neil sabia que algo não estava certo em sua cabeça. Ele pegou a mão de Mike e entrelaçou os dedos antes de sorrir e dizer: “Mas os dias em que estou com você são os mais felizes que já estive. Quando estamos assim, não me sinto mais tão vazio.”

E naquele momento, Neil acreditava que suas próprias palavras eram verdadeiras. Porque Mike Waters com suas camisas de flanela de tamanho grande que nunca se encaixavam direito, sua obsessão com videogames e seu sorriso que tirava o fôlego de Neil.Mas então Mike perguntou sem rodeios, isso não é chamado de depressão? Para o qual Neil tinha desaprovado, se afastando e dizendo de forma defensiva, não estou triste Mikey.

E Neil percebeu pela maneira como Mike levantou a areia e se recusou a fazer contato visual que não acreditava nas palavras do garoto. “Eu não sei,” Mike disse suavemente. “Mas acho que se você se matasse, eu também morreria.”

Neil lembra vividamente o modo como seu sangue gelou com as palavras de seu amante. Ele se lembrou do pânico que sentiu ao pensar em Mike não existir mais. Porque um mundo sem Mike Waters não era um mundo em que Neil queria viver. Então ele prometeu que não iria morrer — que não iria se matar antes de selar com um beijo.

Neil desejou que isso fosse verdade — que ele não estava triste, isso é. Ele desejou que a tristeza não o tenha consumido desde a infância. Ele desejou que ele pudesse simplificar o vazio doloroso que inflamava dentro dele por anos como simplesmente estar triste. Neil desejou que ele estivesse apenas tendo um dia de folga antes de se levantar novamente na manhã seguinte. Mas nunca foi assim que funcionou, porque, desde que Neil se lembrava, a simples tarefa de respirar nunca foi fácil e fingir se preocupar com as necessidades básicas sempre exigia a pouca energia que ele tinha.

E mais uma vez, Neil foi incapaz de manter outra promessa ao garoto que ele ama. Mais uma vez, ele estava machucando Mike e o arrependimento afundava em sua alma. Agora, ele estava começando a se sentir um pouco assustado (apenas um pouco).

Neil não acreditava em Deus, mas ele rezou para que que, com seu último suspiro, ele permitisse a Mike seguir em frente, ser feliz. Ele esperava que todos os corações que ele roubou sejam devolvidos aos seus proprietários originais assim que o seu parasse de bater.

Neil se perguntou brevemente se ele se juntaria a sua mãe no céu, mas então ele lembrou que ele era alguém que esteve preso no escuro a vida toda e que nunca poderia brilhar tão brilhante quanto ela. Ele nunca poderia ser tão gentil nem tão generoso como ela. Se houvesse um inferno, Neil acreditava que era ali que sua alma permaneceria trancada por toda a eternidade.

Era quase uma piada realmente; morrendo sozinho, mas estar sozinho era tudo o que Neil já conheceu.

Então talvez seja por isso que sua mente decidiu invocar a ilusão de Henry se inclinando sobre ele. Talvez seja por isso que sua mente evocou a ilusão de mãos que o sacudiam. Talvez seja por isso que sua mente evocou a ilusão de Henry implorando para que ele ficasse, o rosto bonito transformado no do medo cru, a veia saliente do pescoço e os olhos vidrados quando ele gritou com o garoto, palavras abafadas porque o zumbido nos ouvidos era muito alto.

“Fique comigo, Neil! Abra seus olhos!"

Neil quer ficar, mas tudo parecia tão longe.

"Oh Deus. Oh Deus . O que aconteceu? O que aconteceu,Neil?” Henry parecia quebrado, a voz gutural e superada pela emoção. Essa devia ser a maneira cruel do diabo de mandá-lo para o inferno, com o rosto triste de seu amigo gravado em sua memória para sempre.

"O que eu faço?" Henry perguntou desesperadamente. “Por favor, me diga como ajudá-lo. Eu não sei como te ajudar, porra.”

Neil abriu a boca para responder, mas engasgou com o breve suspiro de ar que encheu seus pulmões em chamas, cavando as unhas no asfalto até que sangrassem e juntando pedras soltas. Era quase como se ele estivesse engasgado com a própria saliva, resmungando, ofegando e tremendo por toda parte.

Neil lamentava tudo.

Tudo.

Ele queria se desculpar com Henry, que estava tentando segurá-lo (ele realmente estava tremendo tanto?) Ele queria voltar para aquele banheiro sujo e não aceitar toda essa merda. Ele queria voltar pelo beco, uma bagunça histérica de ranho e lágrimas e ignorar a ligação de Harisson. Ele queria voltar para o dia em que decidiu machucar Mike e fazer tudo de novo.

Neil estava arrependido. Ele sentia muito, mas nenhum de seus amigos jamais saberia. Ele só seria conhecido como o garoto que tinha tanta coisa e que morreu de overdose de drogas, estimulado pelos problemas de seu pai. Ethan e Henry nunca saberiam o quanto Neil estava com medo de chamá-los de amigos porque eram pessoas boas, o tipo de pessoas boas que ele não merecia.

Pater iria odiá-lo. Ele arrancar todos os pôsteres de Neil e queimaria suas roupas. Ele ira fumar até que seus pulmões se tornassem pretos e desmoronassem como cinzas. E ele se perguntaria por que repetidamente. Por que Neil? Mas Neil nem estaria lá para uma resposta. Ou talvez seu fantasma fosse condenado a vagar pela terra por toda a eternidade e todas as perguntas de seu amigo mais velho serão recebidas com um silêncio de eu não queria morrer, Pete que Peter nunca será capaz de ouvir.

“Vamos, Neil. Acorde. Foda-se, abra seus olhos.” As mãos de Henry eram quentes contra o gelo em seu rosto e Neil sorriu interiormente. O calor não dói mais.

Mesmo que isso seja apenas um sonho e Henry pareça pronto para derrubar o mundo, Neil estava feliz por ele não se sentir mais tão sozinho. E então, é aí que a dor para. É aqui que ele pode finalmente parar de correr. Todo o sofrimento, tristeza e lágrimas — tudo termina aqui em uma sexta-feira, onde a noite o engole inteiro neste bairro tranquilo no centro da cidade.

É aqui que Neil William Anderson termina.

Ele queria dizer a Mike que sente muito pela maneira como as coisas terminaram. Ele queria se desculpar, porque mesmo que ele se apaixonasse, Neil nunca aprendeu a amar o garoto da maneira que ele merecia — ele não podia nem se amar. Havia uma voz na cabeça dele conversando com uma miragem de cabelos loiros e olhos azuis que dizia: Sim, eu ainda te amo, mas eu sou seu veneno e você é minha kriptonita. E talvez em outra vida em que Neil não fosse tão ferrado na cabeça, ele encontre Mike em uma cafeteria e seu amante sorria para ele com olhos brilhantes e, dessa vez, Neil não iria estragar tudo.

Talvez então eu aprenda a amar direito.

══════ •『 ♡ 』• ══════

Scott Favors era muita coisa. Ele era legal, simpático, um bom amigo, paciente, e pela maior parte, racional. Scott era muitas coisa, mas ser racional em situações estressantes não era seu forte. Mas ele estava tentando, por que Neil estava desaparecido por seis dias e ninguém tinha ideia de onde ele estava. Ele não tinha muita certeza do que tinha acontecido entre Neil e Peter, apenas que logo antes de Neil desaparecer Peter havia aparecido na sua porta e perguntado se ele podia ficar por alguns dias. Scott nem se atreveu a perguntar porque o olhar de Peter era igual os que ele recebia quando perguntava sobre Neil estar bem.

Distante. Gelado.

Juntar as peças e perceber que Neil e Peter haviam tido uma briga séria não foi difícil, porque Peter andava grudado em Neil no momento do término com Mike. E se seu humor horrível não era pista o suficiente, o jeito que ele ficava tenso quando Scott perguntava sobre Neil era resposta o bastante.

Mas depois de três dias Peter havia decidido voltar ao dormitório, bem menos bravo do que antes. E Scott ficou aliviado porque ele sabia o quanto Neil precisava de seu melhor amigo. O sentimento incômodo em seu estômago dizia a ele que Neil estava sofrendo mais do que Mike, mesmo que ele não soubesse exatamente como.

Enquanto Mike expressava seus sentimentos, Neil não o fazia. Mike Waters era lágrimas e soluços, e os velhos suéteres de Neil enquanto ele chorava até as 4 da manhã.

Neil Anderson sofria em silêncio. Às vezes era o sorriso que não se refletia em seus olhos, risadas forçadas, ou seu jeito de andar como se ele carregasse o mundo nas costas. A tristeza de Neil era escondida entre mentiras e álcool, algo que o perseguia, e Scott não podia fazer nada a não ser observar.

Scott frequentemente se perguntava o que havia acontecido com Neil para ele ser assim.

No dia seguinte, Peter havia voltado a seu apartamento, reclamando sobre como Neil havia desligado seu telefone e se recusava a voltar para casa. E entre xingamentos e reclamações, Scott podia ver a ansiedade de Peter sobre o desaparecimento de Neil debaixo da raiva.

Mas então dois dias se tornaram cinco e quando Peter estava perdido em seus pensamentos, ele estava abraçando Scott apertado como se estivesse com medo de que ele também desaparecesse. Scott tentava conforta-lo dizendo que tudo ficaria bem enquanto acariciava seus cabelos, e Peter respondia ‘Mas e se ele não estiver?’ e desviava o olhar.

Scott queria acreditar que Neil estava bem, mas até mesmo Mike estava preocupado mesmo que tentasse esconder. Todas as vezes que Peter falava de Neil, Mike ouvia tudo do corredor apenas para suspirar tristemente quando Peter dizia que Neil ainda não havia voltado.

No sexto dia, Peter queria chamar a polícia. Demorou um tempo para Scott acalma-lo, porque Peter era uma tempestade de raiva e dor. Mas por algum milagre, Scott conseguiu convencê-lo a dar uma andada pela cidade procurando antes de ir para medidas mais drásticas. Então eles passaram o dia visitando todos os lugares que Neil poderia estar, como bares e boates. E mesmo que eles não tenham encontrado Neil, varias pessoas disseram a eles que Neil havia passado por ali.

Era quase meia noite quando Scott sugeriu que parassem por aquela noite. Peter parecia hesitante, mas enfim concordou.

“Vamos encontrá-lo, Pete.” Estavam há apenas alguns quarteirões do apartamento de Scott e a noite estava extremamente quieta.

Peter deu de ombros. “Não posso fazer nada se ele quer me evitar, Otts.”

“Eu também estou preocupado com ele, sabe?”Scott suspirou. “Você não devia-”

“Aquele é o Henry?”

Scott franziu a testa, virando-se para onde Peter apontava. Havia alguém agachado na calçada, e mesmo que fosse de costas, apenas pelo formato magro e alto e os cabelos azuis, podiam identificar Henry. Quem mais andaria tão perto do apartamento de Scott tão tarde?

“Hey Henry!” Ele chamou, mas Henry não pareceu ouvir.

Ele estava agachado sobre alguma coisa que Scott não podia ver. Enquanto se aproximavam, a coisa ia ganhando forma. “Henry?” Scott chamou de novo, hesitante quando notou que a forma suspeita eram um corpo.

Henry olhou para eles tão rápido que Scott quase deu um pulo. Os olhos de Henry estava arregalados de medo e cheio de lágrimas. Havia um sentimento no estômago de Scott que dizia que alguma coisas estava errada, muito errada.

“S-Scott,” Henry gaguejou. “P-por favor ajuda ele. E-eu não sei o que fazer, e-eu não sei o que aconteceu!”

Scott se aproximou alguns passos para olhar por cima do ombro de Henry. apenas para congelar com a visão. Peter praticamente o empurrou para o lado, caindo de joelhos no chão tão rápido que Scott tinha certeza que estariam ralados. “Que porra!” Ele gritou. “Neil”Neil”Neil porra!”

Neil estava deitado no asfalto, seu corpo se movendo em espasmos erráticos e olhos revirados. É quase como se ele estivesse tendo um pesadelo infernal, pernas chutando e braços agitando enquanto os músculos de seu corpo continuam a contrair esporadicamente. Peter parece tão inseguro quanto Henry sobre o que diabos ele deveria estar fazendo. Ele simplesmente continuava chamando o nome do garoto repetidamente como um mantra, mas estava perdido como um eco à distância.

Scott Favors era bom em muitas coisas, mas manter sua sanidade intacta enquanto um de seus amigos estava morrendo a seus pés em plena madrugada entrava na lista de Coisas Que Eu Não Faço. Não foi até Peter começar a sacudir Neil que Scott saiu de seus estado de choque.

“Peter, você não pode fazer isso.” Ele disse, se aproximando e tentando afastar Peter, que simplesmente se afastou de suas mãos.

“Precisamos ajuda-lo! Precisamos chamar alguém. Precisamos-”

“PETER!” Scott gritou. “Sai da porra do meu caminho!”

A rispidez na voz de seu namorado Peter fez hesitar por um momento e não é até Henry puxá-lo para ele se mover.Scott não perdeu um milésimo de segundo e se colocou ao lado de Neil, que começou a espumar na boca, barulhos feios e guturais rasgando sua garganta como uma criatura estranha.

Era assustador. Era muito real e mesmo com seu estágio no hospital e tendo visto várias situações assustadoras, Scott estava com medo. Na faculdade de medicina ninguém preparava você para esse tipo de trauma emocional. Ninguém o preparou pra isso.

"Ele está tendo uma convulsão."

"Por quê?" Peter perguntou em pânico. "Por que diabos ele está tendo uma convulsão?"

Scott grunhiu, ignorando a pergunta. “Eu preciso de luz. Me dê um telefone.”

Peter quase derrubou o dispositivo no processo com mãos instáveis. Scott acendeu a lanterna, erguendo as pálpebras de Neil, na tentativa de lançar a luz brilhante em suas pupilas, mas os olhos do garoto se afastaram completamente e tudo o que ele podia ver era branco.

"Merda.”

"O que há de errado com ele?"

“Ajude-me a virá-lo de lado para que ele não engasgue com a própria saliva, mas não o mantenha pressionado ou ele poderá se machucar e deslocar algo".

Peter e Henry apressadamente viraram Neil para o lado dele e Scott colocou a mão na testa dele. "Ele está queimando." Ele então pegou o pulso de Neil, colocando dois dedos exatamente onde deveria estar o pulso antes de se inclinar para frente e tenta colocar o ouvido no peito do garoto, o que era quase impossível com a convulsão violenta de seu corpo. Então Scott optou por colocar os dedos no pescoço escorregadio de suor de Neil, sobrancelhas franzidas em concentração enquanto contava os intervalos entre os batimentos cardíacos do garoto. "Ele tem uma arritmia e, pelo que parece, taquicardia grave."

"Fale inglês,Scott.”

"Isso significa que não apenas o coração dele está batendo irregularmente, mas também está elevado." O tom de Scott era suave, calmo demais para a situação atual, mas ele tinha que ser. A vida de Neil dependia disso. "Que droga ele estava usando, Peter?"

"Ele não estava-"

"Peter Faulkner, agora não é a hora para essa merda!Você quer que Neil viva ou não?"

Mesmo que seus olhos estivessem focados em Neil, Scott podia praticamente sentir a culpa de Peter irradiando dele, misturada com o medo em sua voz.

"Cocaína", ele finalmente disse.

Scott ficou tenso.

Cocaína.

Neil era viciado em cocaína e Scott não tinha nem ideia. A realização foi como um chute no estômago e Scott sentiu como se fosse vomitar. O cansaço. Desorientação. Crises de raiva aleatória. Como não tinha notado o monstro que Neil estava escondendo?

Se perguntou o quanto Neil havia sofrido sozinho. Se perguntou quantas noites em claro Neil havia passado sentando chapado em chãos de banheiro, tentando apagar a dor com álcool e drogas. Se perguntou o quão grande era a dor para Neil ter mais fé em dançar com a morte do que ele confiava em seus amigos.

Scott engoliu seco antes de assentir. “Ok, temos uma overdose de cocaína então.”

“Merda!” Peter xingou, passando as mãos pelo cabelo. “Merda, o que vamos fazer?”

“Temos que esperar a convulsão passar.” Scott disse, passando a mão pelos cachos de Neil mesmo sabendo que o garoto nem sabia que seus amigos estavam ali. “Por quanto tempo ele está assim?”

“Não muito tempo.” Henry respondeu. “Uns dois minutos acho.”

“Ok, então deve passar a qualquer momento. Elas não duram mais do que três minutos.”

As palavras de Scott fazem nada para passar o medo de seus amigos. A escuridão apenas parecia intensificar a ansiedade de um jeito que era quase sufocante. O único som no ar era o som de Neil engasgando e tentando respirar, fazendo sons tão macabros que Scott tentou não tremer.

Tudo o que podia fazer era esperar.

Não chore,Scott pensou enquanto começava a contar.Nem pense em chorar agora.

Estava em seus ossos. O medo, a náusea. Era um tipo de desesperança que repetia que era tarde demais, mesmo Scott sabendo que iria passar. Tinha sido um estudante de medicina por quatro anos — ele sabe disso, e mesmo assim, seus pensamentos continuavam correndo para os piores cenários. Era como ver sua casa se incendiar não poder fazer nada a não ser esperar as chamas se apagarem.

Parecia uma eternidade até a convulsão de Neil parar, com Scott o acalmando e passando as mãos pelos cabelos suados do garoto.

“Neil?”Ele chamou, incerto. “Sou eu, Scott.”

Os olhos de Neil se abriram um pouco, mas a esperança no coração de Scott se torna horror quando Neil faz um barulho horrível de dor antes de cair no chão. Ele foi rápido em mover Neil para que o garoto não caísse no vômito repugnante ao lado de seu rosto, mas quando outro round de vômito sai da boca de Neil, o braço de Scott acabou sendo uma vítima e ele tremeu com a sensação do líquido marrom.

“Preciso que um de vocês segure ele pra ele não se engasgar.”

Neil foi movido para se sentar, suas costas contra o peito de Peter e sua cabeça caindo para a frente. Saliva misturada com vômito escorria de seu queixo até o chão. Ele deveria estar voltando a consciência agora que as convulsões haviam passado mas ele não voltou. Scott chegou novamente seu batimento cardíaco apenas para descobrir que agora ele havia desacelerado e sua respiração estava mais difícil. Estava tentando não surtar porque seus amigos estavam contando com ele, mas a realização de que a condição de Neil estava piorando era assustadora.

“Henry, ligue pro 911.”

Henry assentiu, respirando fundo antes de pegar seu celular.

Os olhos de Peter se arregalaram. “Pensei que a convulsão havia passado.”

“Yeah,” Scott respirou fundo, tentando não deixar sua voz quebrar. “Mas a OD é bem pior do que eu pensei. Ele não acordou e o coração está devagar. Precisamos tira-lo daqui.”

“Mas a gente não devia esperar pela ambulância?”

Scott balançou a cabeça. “Ele precisa de tratamento de emergência. Algumas overdoses podem causar infarto. Precisamos tirar ele daqui agora.”

Peter assentiu, mesmo que tivessem milhões de perguntas em seus olhos. Scott estava aliviado que mesmo com seu pânico, Peter ainda conseguia pensar racionalmente.

“Coloque ele nas minhas costas.”

Foi um pouco difícil mas mesmo assim, Peter foi capaz de carregar o garoto sem tropeçar ou cair.

“Henry.” Scott disse sério e Henry virou para ele, o telefone pressionado firmemente na orelha enquanto ele falava com o operador. “Quando eles perguntarem sobre a frequência cardíaca, diga a eles que são mais de duzentos batimentos por minuto e se prepare para um paciente que pode precisar de cirurgia para cateterismo cardíaco.E eu preciso que você fique aqui fora e espere os paramédicos chegarem. OK?"

“Não se preocupe, Otts. Você apenas cuida do Neil, ”Henry tentou tranquilizá-lo.

Eles pegaram as escadas para o apartamento de Scott para ser mais rápido. Quando chegaram ao topo, suor encharcava o rosto de Peter. Ele ajustou Neil em suas costas enquanto Scott batia na porta, tendo esquecido suas chaves.

“MIKE ABRA A PORRA DA PORTA!”

Pareceu eternidade até que Mike abrisse a porta. “Otts, que porra-”

Mas Scott não tinha tempo de responder a seu melhor amigo. Ele empurrou Mike para o lado e entrou com Peter em seu encalço, as pernas tremendo por causa do peso de Neil. Ele praticamente arrancou a porta do banheiro das dobradiças, apontando para o vaso sanitário e mandando Peter sentar Neil nele. Ele abriu o chuveiro completamente, tampando o ralo antes de água gelada invadir a banheira.

Mike estava na porta, os braços cruzados e irritados. "Ele está bêbado?Porque vocês o trouxeram pra cá?"

Scott não perdeu como a mão na de Peter se fechou em punho, nem como a mandíbula dele ficou tensa.

"Vai a merda, Mike Waters." Peter xingou enquanto tentava manter Neil sentando.

"O que?!" Mike parecia escandalizado.

"Essa merda é sua culpa!Nada disso teria acontecido se você parasse de olhar pro mundo ao redor do seu umbigo!"

"Você tá brincando comigo?Neil quem me usou e eu que sou o cuzão aqui?Você ficou louco?!"

Peter parecia pronto para dar um soco em Mike e Scott tinha certeza que se Peter não estivesse ocupado segurando Neil, Mike já teria o nariz quebrado há muito tempo.

"Você nem sequer ouviu o Neil!" Peter berrou. "Você nem falou nada pra ele e deixou ele explicar as coisas!"

"Explicar o que?Que ele me traiu?Que eu era um brinquedo?Que ele não sentia porra nenhuma por mim?"

"Ele nunca te traiu seu filho da puta, ele te amava!"

"Ele me feriu!"

"Você machucou ele também! Ele está morrendo aqui por sua causa!"

O rosto de Mike ficou confuso. "O-o que?"

Mas Peter se recusou a responder, voltando sua atenção para Neil. Houve um momento de silêncio, apenas preenchido pela água na banheira. Ele engoliu seco, desviando de Peter, para encontrar Mike e levá-lo ao corredor.

"O que o Peter quis dizer?" Mike perguntou.

"Mike, eu preciso que você se acalme."

"Calmo?!Eu só quero saber porque você trouxe ele aqui. Você não é a babá dele pra quando ele fica bêbado."

"Ele não está bêbado." Scott rosnou. "Olha eu não tenho tempo de ficar aqui segurando sua mãozinha só porque cê quer ficar irritadinho. O Neil teve uma overdose de cocaína, seu porra, e eu tenho que ajudar."

Os olhos de Mike se arregalaram e ele ficou pálido. "Isso é brincadeira certo?"

Scott pareceu ofendido. "E você acha que eu brincaria com uma coisa dessas?"

"Não!M-mas ele está bem, certo?"

"Não." A honestidade nas palavras de Scott eram como um soco. "Ele tá morrendo."

Mike soluçou, as costas batendo contra a parede, a expressão incrédula.

"Olha eu não tenho tempo pra sua merda agora, viu Mike?Ou você vai esperar lá fora pelos médicos com o Henry ou para de ser um cuzão!"

Scott nem sequer esperou uma resposta antes de virar e voltar para o banheiro, deixando Mike sozinho. Ele não tinha tempo para emoções quando tinha a vida de seu amigo em suas mãos.

A banheira já estava meio cheia então Scott desligou o chuveiro e apontou para Neil. "Vamos colocá-lo na banheira."

Peter assentiu, agarrando as pernas de Neil enquanto Scott segurava o tronco. Eles o carregaram no três e colocaram o garoto na banheira com cuidado, Peter quase caindo no processo. Scott sentou na beira da banheira, a água molhando seus jeans. Ele quase não percebeu Mike, que mais uma vez estava na porta. Os olhos do loiro estavam cheios de lágrimas e ele parecia uma criança, o que fez Scott se sentir mal por gritar com ele.

"Ele vai ficar bem?" A pergunta pareceu ecoar no banheiro. Mike deu um passo hesitante a frente, os olhos colados em Neil cuja pele havia tomado um tom pálido assustador. Os lábios dele estavam rachados e azuis e Mike sentia que ia desmaiar porque Neil nem parecia estar mais vivo.

"Choque hipotérmico vai ajudar a diminuir os batimentos e evitar o coração de parar." Scott explicou, pegando a mão de Neil e pressionando os dedos contra o pulso dele. "Não tenho nenhum equipamento pra cuidar disso então é o que da pra fazer até os paramédicos chegarem.

Peter se encostou na parede e deslizou até o chão. Parecia mais que eles estavam no banheiro com um cadáver, a única esperança sendo o conhecimento de Scott, mas e se não fosse o suficiente? Deveria haver mais panico. Mais gritos. Mas não havia nada além de três garotos em silêncio com os sons da respiração difícil de Neil como uma contagem mortal. Não é como nos filmes, mas deveria ser porque Scott odiava a dormência subindo por seu corpo e o fazendo se sentir apenas uma casca vazia.

Peter parecia distante enquanto encarava o chão, os olhos vermelhos. Tudo parecia um sonho ruim, muito cruel para ser real. Quando mais novo Scott ia a igreja, e ainda as vezes até mesmo rezava. Por que Deus estava fazendo isso?Por que Deus estava matando alguém que já tinha sofrido tanto?

O Neil não merece uma chance? Scott queria gritar aos céus.

Então um grunhido alto e atenção de todos imediatamente se virou para o garoto na banheira que tremeu levemente.

"Neil?" Scott chamou, segurando a mão do garoto. Os olhos de Neil se abriram lentamente. Scott tentou sorrir. "Você está com a gente?"

"S-otts?" Neil forçou, a voz mal um sussurro.

Peter piscou rapidamente, se movendo para passar a mão no cabelo de Neil. "Hey, Neil, hey," Ele parecia estar sem palavras. "Você está melhor?"

Neil balançou a cabeça devagar. "Tô cansado, Pete."

"Eu sei, amigo. Mas você não pode dormir agora, ok?"

"Tô cansado…"

Scott finalmente sentiu o pânico ao ver os olhos de Neil querendo se fechar. Não podia deixar ele dormir, absolutamente não.

"O Mike tá aqui, sabia?" Scott disse, Peter e Mike ficando tensos. "Ele quer ver você."

"E-ele não tá com r-raiva de mim?"

Scott balançou a cabeça. "Claro que não." Ele então virou-se para Mike. "Certo, Mikey?"

Por um momento, Scott teve medo de Mike fugir ou dizer algo errado. Mas então os joelhos de Mike se dobraram enquanto ele caia ao chão soluçando.

"N-Neil." Ele chorou, engatinhando para perto da banheira. Ele tirou pegou a mão de Neil que Scott segurava. As mãos de Mike estavam tremendo quase tanto quanto as de Neil enquanto ele colocava a mão fria do garoto contra o rosto. "Neil, Neil, me desculpa, Neil por favor…"

Scott então começou a chorar — não histericamente como Mike, mas lágrimas desceram por seu rosto e embaçaram sua visão.

"Num chora, M-mikey," Neil implorou, tentando fazer um carinho no rosto do garoto mas tudo o que conseguiu foi um movimento de dedo. "N-nao vale a p-pena."

"Não fala assim!" Mike gritou quase histericamente. "Você vale a pena. Você vale tanto a pena Neil, eu prometo. Me desculpa por tudo, só por favor não morra. Por favor não morra, Neil." O aperto na mão de Neil ficou mais forte e Scott rezou para que se o aperto de Mike fosse forte o suficiente, Neil não os deixaria.

Peter parecia prestes a explodir também, mas era claro que ele estava tentando se segurar pelos outros, e Scott sentiu vergonha por chorar mesmo tendo prometido ser forte dessa vez.

"Neil," A voz de Peter temia. "Preciso que você me diga o que você usou. Foi só cocaína?"

Neil assentiu.

"Quanto?"

Silêncio.

"Neil, por favor, quanto?"

"M-me desculpa." Neil chorou, lágrimas caindo de seus olhos e Scott odeia o medo claro no rosto do garoto."E-ey num lembro, foi m-muito e eu tava bêbado. Por favor não me odeia, Pete." Ele soluçou alto. "P-por favor Peter, por favor."

"Shh, vai ficar tudo bem, Neil. Vamos ajudar você ok, então tenta ficar com a gente, ok?"

Neil pareceu perdido por um segundo muito longo e Mike agarrou em sua camisa e chamou seu nome em pânico. "Neil!"

Neil piscou. "E-ey num quero m-morrer. E-ey quero ficar com v-vôces."

Scott pôs a mão nos cabelos molhados de Neil, fazendo carinho. "Tudo bem, Neil. Vai ficar tudo bem."

"T-to com medo."

"Não precisa ok?Vamos proteger você."

Mas Scott não sabia proteger Neil dos monstros na mente dele.

Neil sorriu, um sorriso incrivelmente genuíno apesar de tudo. "E-eu amo v-vocês."

Neil piscou uma vez, e mais uma, então seus olhos não se abriram novamente.

Mike realmente começou a gritar então. Um som tão feio e dolorido que Scott sentiu vontade de vomitar mas não pôde fazer nada a não ser chorar e assistir Mike se agarrar a Neil com todas as forças.

"Para com isso!" Peter gritou, tentando afastar Neil do aperto histérico de Mike."Eu disse pra parar!"

Scott não acreditava que pesadelos pudessem ser reais até agora. Era quase como se tivesse desconectado da realidade. Os sons dos gritos de Peter e Mike pareciam perdidos no zunindo dos ouvidos de Scott. Mesmo quando Henry apareceu na porta e falou algo, Scott não conseguiu ouvir nada. Mesmo quando Mike gritou com os paramédicos e foi levado pela polícia, tudo parecia tão surreal. Mesmo quando Henry gentilmente tirou Scott e Peter de lá, o tempo parecia tão devagar e nada realmente processado por sua cabeça.

Não era até os três deles estarem parados na calçada com Mike tendo um surto e exigindo ir na ambulância mesmo não sendo família que o cérebro de Scott finalmente voltou a realidade. Mike estava gritando e ameaçando para ser deixado ir, e Henry quase levou um soco no rosto tentando acalmar seu amigo.

"Mike, para com isso!"

"Não!" Ele gritou. "Eu vou pular na frente de um carro!Me deixa ir!"

Os paramédicos finalmente cedem e o deixam ir, e enquanto a ambulância se distância, a sirene ecoando tão alto quanto as batidas de seu coração, Scott se perguntou se havia alguma coisa que eles poderia ter feito para salvar Neil antes.