My Own Private Waters
8 Eu Te Amo Mas Preciso de Mais Um Ano
Notas iniciais
Cinco horas.
Cinco longas horas que Neil havia chegado ao hospital. Cinco horas sentado em cadeiras desconfortáveis e encarando paredes brancas. Após a terceira hora, Mike havia chorado tanto que acabou vomitando no chão e uma enfermeira ofereceu a ele um quarto para ficar. Ele havia recusado mas Henry praticamente o arrastou até lá.
Então pela última hora, Scott e Peter estavam em silêncio. Peter não tinha certeza se alguma coisa sequer podia confortá-lo, por que a chance real de que Neil poderia morrer estava escancarada naqueles corredores.
Seu melhor amigo podia morrer.
"Pete, você devia dormir." Scott disse. "Você tá prestes a desmaiar."
E talvez ele realmente devesse com seus olhos vermelhos, olheiras e cabelo bagunçado. Provavelmente parecia que tinha passado pelo inferno, o que não era mentira porque as últimas horas pareciam seu próprio inferno pessoal.
"Vou ficar bem." Ele murmurou. "Tenho que esperar pelo médico."
"Eu acordo você se alguma coisa acontecer. Você não tá bem, Pete. Nenhum de nós."
"É que... é só que…"
O que ele podia dizer para melhorar as coisas?Já tinha feito merda de qualquer jeito.
"Isso é minha culpa. Nada dessa porra teria acontecido se eu não tivesse mantido essa porra de vício do Neil em segredo. E sabe qual a pior parte?" Ele riu amargamente. "A pior parte é que eu sabia que ia acontecer."
"Peter, isso não é sua culpa. Você não podia saber que isso ia acontecer."
"Mas eu sabia!" A voz de Peter quebrou, porque Scott simplesmente não entendia."Eu sabia que um dia o Neil não ia aguentar!Eu sabia que ele escondia drogas e que ele estava mais chapado do que sóbrio!" Ele engoliu um soluço e tentou piscar as lágrimas de seus olhos porque ele se recusava a ser egoísta e chorar agora. "Eu sabia que o Neil era fodido da cabeça. Eu sabia que alguma merda tinha acontecido com ele porque ele não era normal. Mas eu ignorei. Eu ignorei porque eu achei que tava protegendo ele. Eu achei que um dia ele ia se abrir e falar e que se eu estivesse lá por ele ele ia começar a ver o bem nas pessoas. Eu pensei que—"
"Você fez o seu melhor, Pete."
Peter balançou a cabeça. "Eu ficava me dizendo que fazia por ele mas não era. Era por mim porque eu tinha medo e encarar ele. Neil sempre me disse que eu era tudo que ele tinha no mundo e eu tinha medo de perdê-lo. Eu tinha tanto medo, Otts. E agora ele está morrendo por minha causa. Ele vai morrer e a culpa é minha!"
Peter não conseguiu mais segurar as lágrimas e os soluços que sacudiram seu corpo. Ele se odiava. Ele tentou limpar as lágrimas mas elas não paravam e não conseguia parar de pensar em como havia fodido tudo.
"Eu falhei com ele. Eu falhei com ele porra."
Scott puxou Peter para seus braços, o abraçando forte e passando as mãos pelos cabelos ruivos. "Shh,shh, você não falhou com ninguém."
Peter soluçava alto contra o peito de Scott, molhando a camisa dele com lágrimas." V-você tava c-certo Scott, eu d-devia ter te ouvido."
"Tudo bem Pete." Scott murmurou, a voz tremendo. "Vai ficar tudo bem."
Mas quando as lágrimas de Scott molharam os ombros de Peter, ele não tinha mais certeza se Scott acreditava nisso.
══════ •『 ♡ 』• ══════
Quando Neil voltou a consciência, ele se perguntou se estava no inferno. Mas enquanto abria seus olhos, a visão embaçada, ele percebeu que a morte não devia cheirar tão antisséptica, e o som de sinos substituído pelo som de uma máquina que monitorava seus batimentos.
Estou vivo.
Devia se sentir feliz, mas tudo o que sentia era vergonha. Porque ele deveria ter morrido. Deveria ter morrido sozinho em uma rua escura no meio da madrugada. Tinha aceitado o fato de que monstros como ele não deveriam viver, então porque estava vivo?Não era justo que o universo continuava brincando com ele porque morte?Essa era fácil. Mas viver? Neil não queria mais nada haver com isso. E era hipocrisia porque ele se lembrava vagamente de uma de suas últimas palavras serem eu não quero morrer. E talvez ele não queira, ele só queria parar de existir. Ser um nada.
Quase queria pedir desculpas a quem quer que seja que tivesse achado seu corpo. Não tinha planos para acordar. Não tinha planos para continuar machucando as pessoas. Mas isso parecia a única coisa no qual era bom.
Quando sua visão finalmente focou, ele se arrependeu. Sua mente estava confusa e seu corpo pesado, e foi um grande esforço virar a cabeça porque tudo parecia devagar, mas quando o fez ele quase engasgou na língua que parecia pedra em sua boca. Ali estava ele, sua própria kryptonita na forma de Mike Waters. Mike estava sentado numa cadeira próxima da cama, sua figura inclinada e a cabeça descansando sobre o braço próximo a coxa de Neil, a mão livre segurando a sua. Havia um calor na cena que Neil não sentia pelo que pareciam eras, um calor que passava pelos seus dedos como areia e que havia desaparecido no dia que Mike quebrou seu coração. Ele hesitou, contendo a vontade de entrelaçar os dedos com os dele. Mas haviam se passado três meses e Neil Anderson ainda não conseguia esquecer, então ele apertou forte, saboreando o momento antes de ser forçado a deixá-lo. Antes de ficar sozinho novamente.
Ou talvez Mike fique. Ele queria que ele ficasse.
Mike começou a acordar e naquele momento seus olhos se encontraram, Neil sentindo o medo agarrar seu coração. Mike lentamente levantou a cabeça, não desviando os olhos dele. O que Neil deveria dizer nessa situação?O que Mike estava fazendo aqui?
A percepção de Mike estar ali significava que ele sabia o que Neil fez, e isso é esmagador. Isso significava que Mike sabia que ele tinha estragado tudo de novo. Isso significava que Mike sabia sobre as drogas.Ele devia realmente odiar Neil agora, pensar que ele era inútil e nojento. Um produto inútil da sociedade que não serve para nada além de destruir tudo ao seu redor. E Neil sabia que ele não eta nada além de uma pele esticada sobre ossos amassados que mal conseguiam sustentá-lo — ele nem quer que eles o sustentem mais. Ele queria quebrar em um milhão de pedaços e ser transportado pelo oceano e se afogar nas profundezas do mar. E foda-se, parece tão dramático e emo, mas Neil não sabia mais como descrever o buraco em seu coração.
Preferia morrer a enfrentar Mike agora. Preferia se jogar pela janela e torcer para que esteja em um andar alto o suficiente para poder cair até a morte. Tudo estava errado com Neil Anderson. Nada estava certo. Nada nunca foi certo. Este era um jogo do qual ele não quer mais fazer parte.
"Hey,hey," Mike apertou sua mão para confortá-lo e Neil percebeu que estava tremendo, o som do monitor de batimentos aumentando, respirando em ligadas de ar. "Tudo bem. Você tá bem agora, Neil"
Nada disso era bom.
"Como você se sente?"
"Merda." Neil falou, a voz rouca e baixa.
Mike soltou sua mão para se mover pelo quarto e Neil ficou chateado com a perda do contato. "Pesado?" Ele perguntou, retornando com um copo d'água.
Neil assentiu e Mike apertou um botão que moveu parte da cama para que Neil pudesse se sentar e beber, e Neil quase suspirou pelo quão bom era a água descendo por sua garganta.
"Não estou surpreso." Mike deu um sorriso triste. "Eles te encheram de benzos pra manter você, huh, estável. O médico disse que você ia se sentir meio mole quando acordasse."
"Ok."
Houve um longo momento de silêncio onde Mike continuava a encara-lo e Neil olhava ao redor do quarto. Seus olhos encaravam qualquer coisa menos Mike, o relógio na parede indicando que era 7:10 da noite e Neil se perguntou por quanto tempo tinha ficado apagado.
"Mike," O nome parecia estrangeiro em sua língua e ele se encolheu como se tivesse levado um choque. Mike esperou, como se soubesse o que estava por vir quando Neil finalmente olhou para ele. "O que você tá fazendo aqui?"
Foi quando Mike finalmente desviou o olhar para as paredes cor verde claro enquanto sentava na ponta da cama. "Fiquei preocupado."
"Achei que você nunca mais quisesse me ver." Neil não tinha a intenção de parecer amargo, mas as palavras saíram mais frias do que o pretendido.
Mike se encolheu. "Eu estava... machucado."
"Eu sei. Eu também."
O tom de Neil era cortante e insensível, e mesmo que ele não queira nada além de abraçar Mike e beijá-lo, havia uma voz em sua cabeça que continuava dizendo que ele não quer você.Ninguém te quer.Então essa distância é boa. Deveria ser assim. Neil seria tolo em permitir que as chamas se espalhassem; então,ele pisaria no fogo até que não haja nada além de cinzas e folhas queimadas. É melhor assim.
"Sinto muito, Neil. Sério."
Neil zombou. “Pelo que você tem que se desculpar?Eu sou o grande lobo mau da sua história, lembra?"
Neil não sabia por que se sentia tão bravo. Não sabia por que se sentia como um vulcão adormecido, pronto para entrar em erupção e queimar tudo em seu caminho. Não sabia por que as desculpas de Mike se instalavam em seus ossos de uma maneira tão amarga que ele não queria fazer nada além de regurgitá-las de volta.
Ele estava apenas bravo.
"Neil",Mike disse seu nome tão suavemente e era errado. Tão errado.
"Não", Neil balançou a cabeça com tanta força que seu cérebro sacudiu e a visão distorceu. "Você não pode pedir desculpas, não depois de tudo isso. Não depois que você já se decidiu sobre quem eu sou. O que eu sou." A ansiedade subia em sua garganta como bile.“Você me odeia, lembra?Você gostaria que nunca tivéssemos nos conhecido. "
"Eu não te odeio. Eu não quis dizer- "
"Você não pode voltar atrás!" Neil rosnou."Você não pode voltar atrás, Mike.Eu sei que sou nojento. Eu sei que te machuquei. Eu sei que estou com uma bagunça na cabeça e que destruí pessoas, mas você..."Era como se houvesse lama nos pulmões de Neil e isso estava sufocando. A criança espancada de dez anos de idade nele estava gritando para ele continuar fugindo,mas o Neil de hoje não queria mais mentir. Estava cansado de mentir e correr. “Você foi a melhor coisa que já me aconteceu. Você era a única luz na escuridão e depois você saiu e eu," Ele olhou fixamente para as mãos que seguravam o cobertor em um apertão." senti como se meu mundo inteiro se desmoronasse. Você estava sempre tentando me entender e eu tive essa ilusão estúpida que você não me deixaria. Eu queria que você me entendesse, não importa o quanto eu estivesse fodido."
"Então por que você não me contou?" Mike perguntou,a voz baixa e trêmula. "Por que você não veio a limpo?"
Neil olhou para ele, lágrimas ameaçando cair de seus olhos. "Porque eu tinha medo. Como diabos eu devia contar uma porra dessa? Quero que você saiba que eu sou a porra de um sociopata que namora as pessoas só pra terminar com elas e eu pensei em fazer isso com você mas acabei me apaixonando. Ah porra, me diz, você teria me dado uma chance?"
Mike ficou em silêncio.
"Coisas boas nunca acontecem com gente como eu, Mike. E quando acontecem, elas nunca duram ou ficam."
Ninguém nunca fica.
E assim que Mike olhou para ele através dos olhos cheios de lágrimas e disse "Eu quero ficar", que Neil finalmente desmoronou. Sua estrutura pálida tremia com soluços de magnitude incessante e os gritos abafados saem como um lamento quebrado, e dói. Dói mais do que nunca, ser forçado a chupar pau em um beco ou ter uma overdose. Dói porque Neil estava vivo e Mike estava olhando para ele como uma pessoa novamente.
Até os monstros merecem perdão?
"Sinto muito, Mike", ele soluçou, desculpas escapando entre intervalos de suspiros por ar. "Sinto muito pelo jeito que eu te amei quando eu nem me amava." Ele agarrou o material fino da roupa do hospital, logo acima do coração. “Mas foi amor. Deus, era amor e ainda é."
“Então por que, Neil? Por quê?" Mike estava chorando baixinho, suspiros suaves e respirações trêmulas. “Se você realmente me ama, por que fez isso consigo mesmo? Por mim? Eu estava com tanto medo que você fosse morrer."
Uma risada trêmula passou por seus lábios. "Porque pra mim era uma vingança de merda. Eu pensei que se eu me destruísse antes que você pudesse, ou o mundo pudesse, eu ia ganhar. Essa vida já tirou tanto de mim, Mike." Neil agarrou seu peito como se a dor emocional houvesse se tornado uma ferida real. Ele não deveria se sentir assim. Seu coração não devia querer nada além de álcool e cocaína, e mesmo assim tudo o que Neil queria fazer era abraçar Mike e nunca largar, porque agora ele tinha certeza que aquele garoto bonito havia criado o universo. Era como se tivesse abrindo suas próprias feridas mesmo que soubesse que não devia; mas elas nunca tiveram tempo de se fechar porque Mike era o que ele precisava.
Michael Waters era a felicidade a qual Neil não conseguia ter. Ele era o amor que Neil não conseguia parar de perseguir, mesmo que o destruísse no processo.
"Eu queria manter o que restou de mim enquanto podia. Achei que eu ia ganhar desse jeito."
Mas Neil nunca iria ganhar desse mundo de merda.
"Tentar se matar não é uma vitória, Neil."
Neil olhou para ele com os olhos arregalados. "Eu não estava tentando me matar. Foi um erro, mas eu não queria."
Mike fez uma careta, limpando os olhos com raiva. "Bem, você também não estava exatamente tentando viver", ele apontou amargamente. “Você sempre tinha esse olhar sempre que eu perguntava sobre a vida.Eu nunca soube o que era, mas isso me assustou, sabe? Mas agora percebi que esses são os olhos de alguém que está pronto para desistir do mundo." Ele olhou para o teto, tentando e não conseguindo controlar as lágrimas quentes que deixavam seu rosto corado de um vermelho manchado. "Eu sou um idiota por não perceber quanta dor você sentia."
"Não é sua culpa." Neil fungou e Mike olhou para ele quando o garoto colocou as mãos nas dele. “Eu nunca te culparia, Mikey. Nunca."
Mike se arrastou para mais perto e Neil não pode evitar de por a mão na bochecha do loiro. "Você continua tão lindo como eu lembrava."
Mike corou, olhando para Neil timidamente. "Você realmente me ama?" A pergunta foi quase um sussurro.
"Você lembra da nossa primeira conversa?"
Mike assentiu, tentando conter um sorriso. "É, você bebendo whisky sozinho na cozinha no meio de uma festa."
Neil riu com a lembrança. "Eu sempre te achei lindo desde aquele momento. Estava escuro e eu meio bêbado, mas eu lembro como você brilhava naquela cozinha escura. Eu acho que me apaixonei por você ali. Ou talvez foi naquele Halloween onde nós ficamos bêbados e deitamos na grama pra ver as estrelas e a luz da lua fazia você bilhar. Eu lembro de pensar 'ow, eu nunca vi alguém tão lindo antes' mas quando eu chegava a uma conclusão, você sorria pra mim e doía, sabe? Porque você é lindo e no fundo eu sabia que você não poderia ser meu. Estar com você era como estar de mãos dadas em um túnel escuro — eu não me sentia mais sozinho. E mesmo que nunca pudesse sair do escuro, pelo menos eu tinha você lá, mesmo sabendo que não teríamos muito tempo desde o começo."
Ele moveu a mão, os dedos passando pelos lábios de Mike, que suspirou e se inclinou mais contra ele.
"Eu não sei porque eu deixei você ir embora." Ele admitiu. "Acho que eu tinha medo da rejeição, então achei melhor deixar você em paz. Talvez você tivesse ficado se eu tivesse culhões pra contar a verdade. Se eu acreditasse ser alguém que vale a pena." Neil sorriu. "Mas é isso, eu amo você. Eu amo muito você, Mike Waters."
Dizer essas palavras sóbrio era muito diferente de bater na porta de Mike no meio da madrugada. Dizer era uma coisa, mas ouvir outra. Um batimento cardíaco depois, foi quando Mike disse timidamente, mas com certeza: "Eu também te amo, Neil."
E Neil congelou, a respiração nocauteada como se ele tivesse acabado de ser atingido no peito, porque isso não pode ser real. As três palavras que ele ansiava desesperadamente saírem dos lábios de Mike não podem ser reais. Neil Anderson não foi feito para ser amado. Mas aqui estava Mike, olhos azuis como o céu perfurando a alma de Neil, arrancando a cortina e abrindo a gaiola para onde o garoto prometeu que nunca mais se aventuraria. E era uma reação instintiva se afastar; para se fechar. Mas Neil estava fugindo e se escondendo há tantos anos e era tão cansativo.
Estava com medo, com tanto medo, mas quando Mike se inclinou para frente e fechou a distância entre eles, toda a ansiedade que ele sentia desapareceu e tudo em que ele pôde se concentrar era em como os lábios de Mike são macios. Mike o beijou com uma paixão tão delicada que dói. Não havia dentes ou língua, apenas o movimento lento de seus lábios e foda-se, Neil queria chorar.
"Fique comigo", disse ele no momento em que Mike se afasta, o rosto pairando a meros centímetros de distância. "Eu sei que nem sempre digo o que estou pensando e não sou certo para você, mas quero que você fique.Por favor, fique comigo."
Neil sabia que era egoísta. Sabia que deveria deixar Mike seguir para alguém menos quebrado. Mas Neil não achava que ele poderia viver sem Mike.Uma vida sem ele não fazer sentido.
Mike assentou. "Não vou a lugar nenhum, Neil."
"Promete?"
Ele deu um beijo na testa de Neil, alisando seus cabelos bagunçados e castanhos. "Eu prometo. Nós vamos arrumar as coisas um passo de cada vez, ok?"
Neil assentiu, murmurando um okay.
"Neil?"
Ambos se viraram para a porta em surpresa. Mike suspirou aliviado ao ver Peter e Scott espiando na porta. Neil por outro lado não sabia como reagir ao ver seu melhor amigo depois da briga. Peter iria gritar com ele?Chamá-lo de pedaço de merda por desperdiçar sua vida? Não sabia, mas se preparou de qualquer jeito.
"Hey."
A única resposta que Neil recebeu foi um suspiro de Peter, as mãos enterradas no bolso do moletom. Se perguntava quanto mais poderia decepcionar Peter antes que ele se cansasse e fosse embora — talvez esse tenha sido o limite.
Scott cruzou o quarto em um segundo, praticamente se jogando em Neil, os braços ao redor de seu pescoço. Neil apenas ficou lá, sem saber o que fazer enquanto continuava olhando para Peter.
"Estou tão feliz que você esteja bem. Você realmente nos assustou, sabia?" Ele sussurrou a próxima parte no ouvido de Neil. "Ele não admite, mas Peter chorou muito e nem sequer dormiu."
E enquanto os olhos de Neil percorreram Peter, ele viu as olheiras sob seus olhos e a palidez de sua pele.Ele parecia abatido, com o cabelo oleoso como se não tivesse tomado um banho adequado há dias. Sua postura era caída, pesada, e quando Neil desviou o olhar para Mike e Scott, ele viu o mesmo tipo de cansaço refletido neles.
Sentiu um novo ataque de lágrimas frescas picando seus olhos. Tentou segurá-las novamente, ele realmente o faz, mas ver seus amigos agora era como um chute no estômago,porque ele não os merece: não o amor, apoio ou preocupação deles. Pessoas como Neil Anderson não mereciam pessoas como os três meninos no quarto com ele.
Então a represa explodiu mais uma vez, Scott abraçando o garoto mais apertado quando sentiu sua forma começar a tremer com soluços quando as lágrimas atingem seu ombro.
"Sinto muito", Neil pediu desculpas mais uma vez."Sinto muito. Não quis magoar ninguém."
"Nós sabemos", Scott respondeu, esfregando as costas suavemente. "Nós sabemos, Neil."
Peter se aproximou a passos lentos e constantes, expressão impassível ao dizer: "Você é um idiota".
"Eu-eu sei."
"Um verdadeiro idiota."
"Sim."
E então as linhas endurecidas do rosto de Peter suavizam. "Senti sua falta, garoto.", disse ele honestamente, as bochechas de um rosa claro enquanto coçava a ponta do nariz nervosamente. "E estou feliz que você ainda esteja aqui." Ele piscou rapidamente, torcendo o nariz por um segundo enquanto molhava os lábios. "Posso, uh, te abraçar ou algo assim?"
Neil assentiu timidamente enquanto Scott se afastava. Por um momento Peter só ficou parado ali, e após um suspiro ele se inclinou sobre a cama e puxou Neil para seus braços. E é estranho porque Peter Faulkner não é exatamente um cara de abraços e Neil estava acostumado com outro tipo de afeição vindo dele. Mas esse abraço era forte e Peter o segurou assim por um bom tempo sem dizer nada, e Neil sabia que ele apenas estava tentando manter a compostura então ele apenas aceita. Após alguns segundos ele se afastou um pouco e plantou um beijo no cabelo de Neil.
"Bem vindo de volta, garoto."
Neil fingiu que aquelas palavras não o fizeram querer chorar mais.
══════ •『 ♡ 』• ══════
Neil foi liberado do hospital no dia seguinte após uma breve avaliação, que por algum milagre ele conseguiu convencer os médicos que tinha sido um acidente e ele não queria se matar. Peter sugeriu que ele visse um psiquiatra, para o Neil imediatamente rejeitou e insistiu que estava bem, mas Peter não estava convencido.
"Você precisa falar com alguém, cara."
"Eu não quero Pete, eu só quero ir pra casa."
A insistência se tornou uma discussão, que estava evoluindo para uma briga, com Peter ficando mais e mais frustrado com a recusa de Neil de ver um psiquiatra. Neil tentou não se irritar, mas estava cansado e só queria se cercar de coisas familiares — e que não envolvia ficar preso no hospital brigando com seu melhor amigo.
Sentindo que esse vai e volta ia eventualmente evoluir para algo que os dois iam se arrepender, Scott interveio, puxando a manga de Peter e sussurrando algo em seu ouvido que Neil apostava que era sobre a fragilidade de seu estado mental atual.
Peter cedeu com um bufo. "Tudo bem, mas você não tem permissão para chegar perto do nosso dormitório sozinho."
E assim Neil foi colocado em algum tipo de liberdade condicional por seus amigos. Ele foi direto para o apartamento de Scott e foi conduzido ao quarto de Mike. Embora tivesse dormido praticamente uma vida inteira, ele não estava se sentindo melhor. Faziam trinta horas sem cocaína, algo que não teria incomodado Neil há alguns meses, mas perder Mike o havia levado a uma espiral de imprudência e ele não suportava mais ficar sóbrio. Algumas horas sem drogas era uma coisa, porque ele geralmente tinha álcool para substituí-la, mas trinta horas completamente sóbrio eram outra.
Abstinência de cocaína nunca era uma coisa bonita, e o Valium que haviam prescrito estava trancado em algum lugar por seu amigos para abre aspas, precaução, fecha aspas. Mas ele sabia que nenhum deles confiava nele sozinho com nenhum tipo de droga. Valium era uma faca de dois gumes — enquanto ajudava com a ansiedade horrível da abstinência, ele também era viciante.
Neil não era estúpido, Mike estava dormindo quando o médico chamou Scott e Peter para o corredor. E ele, curioso como era, se aproximou em silêncio da porta, encostando sua orelha na madeira.
"Sr. Anderson vai precisar de toda ajuda que puder." O médico havia dito em voz baixa. "A porcentagem de relapsos em alguém cronicamente viciado como ele é de 70% então vocês não devem deixá-lo sozinho sob nenhuma circunstância. Tentem mantê-lo ocupado."
E seus amigos tentaram, as pobres almas, mas era difícil e Neil mostrou para eles o inferno.
Os primeiros dias foram bons. O Valium mantinha os sintomas controlados e o único sinal de abstinência eram as mãos de Neil tremendo e a dor de cabeça, além de ficar tirando várias sonecas durante o dia. Quando estava acordado, Mike o arrastava para o sofá onde assistiam filmes abraçados, mesmo que Neil sempre dormisse no final.
Um brilho de confiança em Neil lhe dizia que isso seria fácil — até que acordou as 5 da manhã no quarto dia e quase não chegou ao banheiro antes de vomitar por vários minutos. Sua pele estava suada e todas vez que tentava se afastar do vaso, uma tonteira vinha como um soco e lá estava ele agarrado ao vaso novamente.
Mike tinha surtado um pouco mas Scott o tranquilizou dizendo que era normal e que Neil tinha que passar por isso. Eles deram a ele um Valium depois que finalmente parou de vomitar, mas não pareceu ter efeito nenhum. Ele pediu por mais, mas tudo o que recebeu foi vários não, que resultaram em vários xingamentos raivosos antes de se trancar no banheiro e ficar gritando por uma hora, até ficar cansado demais e decidir dormir.
No quinto dia, Neil acordou as 4 da manhã gritando como se estivesse sendo assassinado. O som era tão assustador que Mike caiu da cama antes de se levantar assustado.
"Neil o que foi?!"
"Os vermes!Os vermes!" Neil gritava histericamente.
"Que porra–"
"Eles tão em mim!" Ele soluçou. "Eles tão em mim Mikey!"
Neil não conseguia entender como Mike não conseguia ver os vermes e insetos subindo as paredes e caindo nele. Mike tentou confortá-lo e dizer que era só um pesadelo, mas Neil tinha certeza de que eram reais. Ele dormiu em algum ponto, embora não tivesse certeza de quando. Algo entre linhas de Mike o abraçando e passando a mão pelo cabelo suado de Neil que grudava em seu rosto, e os insetos na parede, Neil havia desmaiado.
Não se lembrava de nada quando acordou, mas ele acordou em um pulo esporádico, uma forte ingestão de oxigênio assobiando para os pulmões. Seu corpo estava pesado e doendo por toda parte. Estava muito quente, apesar do fato de ele estar tremendo como se tivesse acabado de passar por uma tempestade de inverno.
Scott estava lá, sentado na cama com uma perna dobrada para que o tornozelo repousasse na coxa. Ele estava de costas para o mais novo e falava em voz baixa e sussurrada no telefone.
"... é, então a dose de agora não está fazendo efeito. Ele fica enjoado o tempo inteiro e dificilmente acordado...é eu sei que é normal mas...yeah...eu só estou preocupado com ele...Duas por dia?Parece bom...hmm...Ok, obrigado."
Scott terminou a ligação com um suspiro pesado, os ombros caindo enquanto ele passava as mãos pelo cabelo e soltava outro suspiro cansado.
Neil não tinha certeza se devia fingir estar dormindo ou não, mas não teve tempo de decidir porque Scott já havia se virado, surpresa e culpa em seu rosto que rapidamente foram cobertas por um sorriso.
É, talvez Neil não devia ter ouvido aquela ligação.
"Hey Neil." Scott disse, pondo a mão no braço do garoto. "Mike disse que você teve um pesadelo noite passada. Que você ficava gritando sobre insetos nas paredes."
Neil assentiu, sentindo sua língua pesada como uma rocha.
"Você não estava vendo mais nada, está?"
"Não." Neil sussurrou quase inaudível.
Ele tentou ignorar o som de alguma coisa rastejando dentro da parede e não entendia porque Scott não ouvia nada. Os sons pareciam que estavam tão próximos, como se algo estivesse rastejando dentro de seus ouvidos. O pensamento lhe deu calafrios.
"Isso é bom. Se você vir qualquer coisa assim também, lembre-se que não é real,Ok?"
Um pequeno sorriso brincou nos lábios rachados de Neil enquanto ele assegurava Scott de que era tudo um pesadelo.
Ele não contou nada a Scott.
Ou a Mike.
Ou Peter.
Estava certo de que não podia ficar pior, mas pelos próximos dias ficou tudo muito pior. Dormir a noite era difícil por causa dos pesadelos, sempre a mesma cena se repetindo todas as noites: Neil criança escondido embaixo da cama após ouvir o som da porta da frente batendo e passos pesados na sala. Os gritos de sua mãe e a voz de seu pai reverberando pela casa e sacudindo as paredes. O som de vidro quebrando e então o silêncio que parecia eterno. E então, os passos se aproximando num ritmo que o fazia querer vomitar. E então a porta se abrindo com tanta força que quase foi arrancada da parede, depois de todas as vezes que ela havia sido batida contra a parede em cenas como essa.
"Neil, pirralho."
A voz embargada de seu pai lhe causava arrepios, e Neil tapou a boca com a mão para abafar sua respiração, lágrimas caindo no chão em uma pequena poça.
"Vem aqui, Neil, Neil. Saudades de você."
Neil não se moveu. Seu pai riu."
"Você sabe que eu não gosto de brincar de esconde esconde, Neil."
Quando seu pai foi recebido pelo silêncio, ele bateu um pé no chão com força. Neil se pressionou mais contra a parede, desejando ser pequeno o suficiente para desaparecer.
"Eu disse pra aparecer seu filho da puta!"
E então ele irrompe em uma tempestade de fúria, varrendo tudo da mesa de Neil. Livros escolares, papéis, canetas e lápis de barro para o chão.Seu pai pega a mini lâmpada do menino que tinha estado em cima de sua cômoda e joga no chão. Cacos de vidro quebram em todos os lugares, pedaços perdidos debaixo da cama e cortando o braço do garoto. Era assustador. Tão assustador e Neil não podia fazer nada além de apertar os olhos e pressionar suas minúsculas mãos contra seus ouvidos e esperar que tudo acabe. Sempre termina em algum momento ou outro. Sempre.
O som horrendo de tudo quebrando e caindo eventualmente parou e tudo o que resta no silêncio e a respiração trabalhada do pai de Neil enquanto ele murmurava em sua respiração. Outros cinco minutos passam antes que o corpo de Neil relaxe e ele se atreva a abrir os olhos.
Grande erro.
Ele ficava cara a cara com seu pai, em suas mãos e joelhos, olhando debaixo da cama e direto para menino mortificado, um sorriso perverso em seu rosto.
"Peek-a-boo"Seu pai riu. "Achei você."
Então seu país o estava arrastando pelo tornozelo, tirando-o debaixo da cama. E Neil gritava, o vidro cortando sua pele enquanto era arrastado pelo chão, deixando um rastro de sangue. Seu estava em cima dele em um instante, apenas rindo das tentativas de fugir de Neil.
"Porque você fica se escondendo de mim, hein Neil?" Seu pai parecia genuinamente ofendido, mas rapidamente virou ódio enquanto ele colocava as mãos ao redor do pescoço do filho e Neil podia sentir sua respiração sendo cortada.
Ele bateu nos braços de seu pai, que é inútil e só fez o homem começar a rir. Em uma tentativa desesperada de se libertar, Neil alcançou e agarrou o rosto de seu pai, mas para o horror, a pele que ele apertava começou a descascar e rasgar. Suas pequenas mãos continuam a rasgar e puxar e ele começa a gritar porque debaixo da pele de seu pai tem um monstro horrível. Sua carne é um vermelho feio e pegajoso, seus olhos ficam negros e ele descobre seus dentes afiados.
"Eu amo e cuido de você e é assim que você me trata!" A voz de seu pai se transformou em algo terrivelmente demoníaco. "Seu pirralho de merda!"
Suas mãos se transformaram em garras e ele sacudiu Neil pelo pescoço como uma boneca antes de liberá-lo. O menino nem era dado a chance de recuperar o fôlego porque o monstro estava em cima dele, garras cortando em suas bochechas e um punho batendo nele no nariz até ouvir alguma coisa quebrar. Neil grita e grita.
"Você é o filho que nunca poderia ter orgulho! Como alguém pode ser uma merda tão grande?"
Outro golpe cortando o interior de sua bochecha, que o fez saborear sangue de espessura em sua língua.
"Você deveria nunca ter nascido."
Ele soluça histericamente.
"Puh-POR FAVOR! Por favor! "
"Você é um erro."
Desta vez, um tapa aberto para sua bochecha já ferida.
"Você não deveria estar vivo."
"Pare com isso!"
Dói.
"Eu e sua mãe nunca queríamos um filho tão inútil quanto você."
Dói.
"Papai pare!"
E então o monstro disfarçado como seu pai estava envolvendo suas garras em torno de seu pescoço machucado e esbelto, mais uma vez e engasgando a vida dele.
"Você deveria desaparecer agora."
Dói. Dói. Dói. Dói.
Neil despertou com um grito estridente que praticamente rasgou suas cordas vocais. Suas pernas chutaram em pânico nos cobertores enquanto as mãos dele voaram para se envolver em volta do pescoço.
"Sinto muito!" Ele gritou. "Papai por favor me perdoe! Por favor, por favor!"
Havia uma figura preta pairando sobre ele, pressionando, sufocando-o. Neil tinha certeza de que ia vai morrer. Tinha certeza de que ele havia escapado dos fantasmas do seu passado correndo todo o caminho para outra cidade e começando de novo, mas as coisas sempre pareciam voltar a assombrá-lo e agora ele iria morrer.
"Neil!"
"Sinto muito!"
Ele não queria ficar sozinho assim. Era escuro e assustador e ele nem conseguia respirar. Seu pai sorria para ele, a malevolência refletia em seus olhos negros. Ele não queria morrer assim. Queria ver Mike. Queria escapar disso. Então ele apertou os olhos.
"Neil!"
Então ele estava sendo agarrado e as coisas não eram tão opacas. Quando abriu os olhos cheios de lágrimas novamente, não era para os olhos negros e a pele vermelha, era para um Neil muito assustado pairando sobre ele e segurando seus braços.
"Neil pare!" ele gritou. "Você está se sufocando. Pare!"
Lentamente percebendo que eram suas próprias mãos e nãos as de seu pai, Neil soltou e deixou Mike puxar suas mãos para longe. Mas a ingestão súbita de ar assobiando pela garganta para encher seus pulmões o deixou enjoado e ele mal teve tempo para empurrar Mike e sair da cama, ombro direito batendo no chão com força. Com alguma sorte, ele conseguiu levantar a cabeça no tempo de vomitar por todo o piso. O líquido se espalhou em seus braços e através da superfície brilhante, o gosto sujo preso no nariz.
Mike estava ao seu lado em um piscar de olhos , a mão esfregando os círculos calmantes nas costas enquanto Neil vomitava por todo o chão do quarto do loiro. Soluçando e vomitando seus interiores ao mesmo tempo é uma tarefa difícil e Neil acabou quase engasgando em seu próprio vômito. Ele mal registrou a abertura da porta e um Scott muito em pânico e com Peter do lado perto, sapato equilibrado em sua mão como se estivesse prestes a lutar contra um intruso com isso.
"Que porra!" Peter murmurou, olhos arregalados com a visão de seu amigo. Scott parecia tão chocado quanto, enquanto Neil tentava respirar e Mike continuava a tentar acalma-lo.
Mas Neil estava com tanto medo que ele começou a chorar histericamente mais uma vez.
"Oh, meu amor." As palavras de Mike eram regadas de pena enquanto ele puxava Neil em seu peito, ignorando o cheiro de vômito.
"M-me d-desculpa. Desculpa."
"Shh" disse Mike, balançando Neil para frente e para trás em seus braços.
"Eu- eu vou se-ser um menino b-b-bom por favor, não me odeie."
As palavras de Neil eram uma bagunça confusa e ele nem sequer tinha certeza se alguém podia entender o que ele estava dizendo.
"Você é um menino muito bom. Você não é nem um pouco ruim, meu amor." Mike levantou a cabeça para fazer contato visual com os outros dois meninos. Um entendimento não dito passou por seus olhares compartilhados antes que ele voltasse a Neil com um sorriso suave no rosto."Você está seguro conosco, anjo. Você está seguro, eu prometo."
"Eu eu — estava tão assustado que ele ia me levar embora."
"Quem vai te levar embora?" Mike perguntou suavemente, mas Neil simplesmente balançou a cabeça e apertou os olhos, o pânico ainda presente.
"Ei, ei." Mike tentou acalmar seu Neil de ter mais um ataque de ansiedade, colocando uma palma quente contra as bochechas coradas dele. "Nós não temos que falar sobre isso, tudo bem? Só sei que você está seguro.Tudo vai ficar bem e ninguém vai pregar você,Neil,eu não vou deixar ninguém machucar você. Você confia em mim sobre isso, certo? Você confia que vamos proteger você?"
Neil assentiu como uma criança.
"Agora você precisa levantar e eu te dar um banho ok?Pode fazer isso por mim?"
Neil queria dizer a Mike que faria qualquer coisa por ele, mas ele apenas assentiu mais uma vez.
"Então vamos, no três!"
Mike o ajudou a se levantar, as pernas de Neil tremendo e quando ele se agarrava a camisa de Mike. Mike pôs um braço ao redor da cintura de Neil, segurando-o no lugar. "Vamos tomar banho e vestir roupas limpas enquanto o Scott e o Peter limpam essa bagunça."
"Kay"
Eles passaram por Peter que encarava o chão, enquanto Scott dava a eles um sorriso triste e dizia: "Vai ficar tudo bem Neil, eu prometo."
Uma coisa que Neil havia aprendido na vida, era que ninguém mantinha suas promessas. E ultimamente ele havia começado qual era o real significado de estar bem.
Mike o fez se sentar no vaso sanitário enquanto preparava a banheira, não acrescentando nada que pudesse estimular seus sentidos de tal maneira que o assustasse. Depois de garantir que a água esteja na temperatura certa, Mike se virou e viu Neil esperando enquanto olhava para o espaço, murmurando incoerentemente, e Mike imediatamente fechou a torneira e se aproximou dele, curvando-se para poder entender o que ele estava dizendo.
"Eu-eu-p-por favor-eu-não posso-"
"Não, Neil",Pegando o rosto dele em suas mãos, Mike gentilmente inclinou a cabeça para poder olha-lo nos olhos. Não sabia se o episódio atual era caracterizado por estresse pós-traumático ou por abstinência, mas tinha certeza de que ele podia passar por isso. "Você está seguro,estou aqui com você. Eu amo você e vou proteger você."
Neil encarou suas lindas íris azuis, vendo todas as matizes e se agarrando aos detalhes memorizados como uma linha de vida. Assentindo lentamente, ele deixou Mike ajudá-lo a tirar suas roupas que ficaram presas à sua pele devido à transpiração e ao vômito.
Mike o levou pela mão até a banheira, mesmo que ficasse a apenas 2 passos, e o ajudou. Neil exalou enquanto deixava a água quente libertar alguma tensão em seus músculos. Quando ele ficou pronto, Neil pegou um pano e começou a limpá-lo, guiando os movimentos de seu corpo com a outra mão enquanto tentava limpar os traços de seu ataque de pânico e pesadelo. Tudo isso é feito em silêncio — um confortável, em que não precisava verbalizar o quanto se importava, porque esse momento é a prova em si.
O som da água com cada movimento que ele faz era lembrete dos tempos mais simples, e as mãos de Mike sobre sua pele dizia a ele que há algo que ele podia encontrar conforto e não drogas. Os dedos de Mike traçavam padrões ociosos em seu braço enquanto Mike se ajoelhava no chão. Mike o tocava como se ele fosse frágil; como se ele pudesse quebrar se não fosse tratado com cuidado suficiente. Tudo isso é verdade.
Depois de ficar sentado na banheira por uma hora, com Mike traçando constelações em sua pele e beijando seu ombro molhado enquanto sussurrava palavras doces para acalma-lo, ninguém falou sobre o que aconteceu naquela noite. Ninguém mencionou a pele pálida de Neil e os olhos que pareciam conter todos os terrores do mundo.
Mike decidiu tirá-lo do banho antes de a água fica fria. Foi cuidadoso para não deixá-lo tremendo por muito tempo, envolvendo uma toalha fresca em torno de sua figura alta e abraçando-o apertado no processo. Ele ainda estava abalado, mas parecia estável o suficiente, e Mike aproveitou para ir rapidamente pegar roupas limpas. Ele fez isso rapidamente, sem tentar fazer qualquer barulho, porque estava com medo de deixá-lo sozinho lá.
Fazendo o seu caminho de volta, encontrou Neil imóvel, onde o deixou, e quebrava seu coração para ver como os olhos dele estavam vazios, quase catatônico.
Oh, como Mike gostaria de fazer tudo ir embora para sempre, e protegê-lo de todas as ameaças possíveis. Mas não podia, então só tentava o seu melhor para fazê-lo se sentir seguro e amado.
Mike o ajudou a entrar em suas roupas limpas,guiando-o através dos buracos da perna e,em seguida, prosseguiu para limpar as gotículas de água restantes. Usou a toalha para secar o cabelo o melhor que pôde antes de sentá-lo no vaso novamente e puxar o secador. O cabelo de Neil secou relativamente rápido, sendo curto, e Mike foi cuidadoso para cobrir seu rosto com sua mão livre para que não queimasse a pele.
Depois de guardar o secador de cabelo e pendurar a toalha, Mike se ajoelhou na frente dele para encontrar os olhos que foram treinados no chão de azulejos. Gentilmente inclinando a cabeça dele para cima, Mike o olhou nos olhos mais uma vez, observando como alguma vida voltou às suas íris. O loiro procurou por qualquer sinal de pânico sério, mas o pior passou e ele suspirou de alívio.
"Melhor?" Perguntou e Neil respondeu com um pequeno aceno de cabeça. Com um sorriso suave, Mike acariciou seu rosto e Neil derreteu em seu toque, deixando dominar qualquer outra sensação.
Mike estava preparado para levá-lo de volta à cama, mas antes que pudesse, Neil envolve seus longos braços ao seu redor de sua cintura e enterra o rosto em sua barriga. O choque inicial foi curto, substituído por alívio e amor enquanto ficava parado entre as pernas de Neil, abraçando-o de volta e brincando com seu cabelo. Os dois ficam assim por pouco, permitindo a Neil o tempo que ele precisasse para inalá-lo e expirar toda a escuridão e ansiedade.
Ele eventualmente puxa de volta um pouco, indicando que ele estava pronto para voltar para a cama e Mike o levou lá por sua mão como quando o levou ao banheiro mais cedo. Quando Neil retornou ao quarto com as pernas ainda instáveis, o chão tinha sido limpo e o ar cheirava a desinfetante, apagando todos e quaisquer vestígios do jeito que ele se humilhou. Ele não queria falar e Mike nem tentou.
Nenhum deles dormiu naquela noite. Eles apenas ficaram lá em silêncio esmagador com Mike fingindo dormir e Neil olhando para o teto, com medo demais para fechar os olhos porque havia um monstro escondido atrás da escuridão dos olhos fechados.
Mas ele sabia que seus amigos estavam preocupados. Eles estavam com medo de descobrir que verdade terrível poderia assustar o grande Neil Anderson até o ponto em que ele se quebrasse. Era mais fácil apenas culpar a abstinência, que era apenas metade da verdade. Era mais fácil dizer que era apenas outra coisa que passaria, mas Neil não sabia como superar mais de quinze anos de braços machucados e ossos quebrados. Ele só sabia como correr e se esconder.
E apesar de tudo, ao contrário de suas crenças iniciais, a promessa de Scott era verdadeira porque Neil começou lentamente a se sentir melhor. As dores de cabeça não eram mais tão intensas e ele podia se movimentar sem ficar tonto e vomitar. Sua temperatura corporal não mais subia, mas seu humor certamente o fez.
As explosões de raiva vinham repentinamente e sem aviso. Nunca havia uma coisa específica que estressava Neil. Às vezes, Scott estava sendo um pouco amigável demais;ou Mike o estava abraçando demais, ou Peter estava sendo...bem, Peter. Foi um ajuste difícil para seus amigos e Scott certamente ficou magoado nos dias em que Neil ficava particularmente malvado. Às vezes a coisa se tornava física, particularmente quando Peter estava envolvido.
Neil acabou jogando uma cadeira em seu melhor amigo quando ele o chamou de um idiota insensível. E havia algumas vezes em que a raiva de Neil quase o cegou e ele tentava bater em Peter lado da sala, mas felizmente ele nunca foi bem sucedido. Mas na maioria das vezes, era raiva verbal e Neil nunca conseguia parar a boca de abrir e dizer coisas terríveis para seus amigos.
Surpreendentemente, foi Henry quem parecia lidar melhor com os drásticos humores de Neil, além de Mike(que era uma porra de anjo a propósito).Neil estava muito envergonhado de ver Henry quando Peter revelou que era Henry que tinha tropeçado em seu futuro cadáver. Ele não queria saber do que Henry poderia pensar dele agora.
Então, ele evitou o rapaz de cabelo azul ao máximo.
O que não durou muito, porque depois de seis dias, ele literalmente entrou no quarto de Mike e arrastou o menino para a sala de estar. Houve muitos protestos, mas Henry simplesmente agitou seus cachos marrons e disse:"Eu senti sua falta, cara"
Depois de alguns minutos da expressão azeda de Neil, ele cedeu quando percebeu que Henry Cheng com certeza não o odiava. Eles passaram o dia maratonando filmes da Marvel e Henry não mencionou a overdose.
Mas rapidamente se tornou aparente que um Neil Anderson, ansioso, instável e mal-humorado, não era um bom Neil.
Enquanto o Valium relaxava muito os nervos, havia apenas um tanto a medicação poderia fazer e havia dias em que Neil se recusava a tomar os comprimidos azuis circulares porque odiava sentir-se sonolento 24/7. Esses dias eram os piores.
Henry começou a aparecer com muita frequência e sua presença constante tornou-se o centro do assalto verbal do garoto. Quando parecia que Neil estava prestes a explodir, os dedos batendo contra a perna na irritação, Henry sempre encontrava uma maneira de direcionar a atenção de Neil em outro lugar longe de seus amigos e namorado desavisado. E apesar de ter todos os terríveis insultos e ataques pessoais jogados nele, Henry nunca brigou de volta.
"Tudo bem Neil, eu sei que você não quer dizer isso," Ele dizia com um sorriso. "Estamos todos aqui para passar por isso juntos, sim?"
E Neil sabia que ele não merecia seus amigos.
Em outro dia sem Valium, Neil se encontrou esparramado na cama de Mike. Hoje, ele não se sentia com raiva, mas mais triste do que qualquer coisas. Ele não tinha certeza se triste era a palavra certa, mas havia um peso em seu peito e ele havia decidido pelo quarto de Mike, mas agora o silêncio o estava deixando ansioso porque dava tempo de refletir sobre a turbulência que era sua vida. Há alguns meses atrás, Neil Anderson gostava de machucar pessoas por prazer, mas agora tudo o que conseguia pensar eram nos rostos das pessoas as quais ele prometeu um amor impossível. Esse vazio era diferente. Era o vazio da culpa que queimava seu interior como gasolina.
Ouviu uma batida leve na porta antes dela se abrir e Mike espiar para dentro. Neil não pôde conter o sorriso ao ver o nervosismo do loiro porque mesmo este quarto sendo dele, Mike era incrivelmente educado.
"Neil?" Neil soltou um hmmm? como resposta. "Você tá bem?"
"Vem aqui, Mike." Ele respondeu. "Deita aqui comigo."
Ele ouviu Mike atravessar o quarto antes da cama afundar com o peso e mesmo com o espaço entre eles, Neil ainda podia sentir o calor de seu namorado. Ele virou para o lado e abriu os olhos para encontrar Mike o observando com o lábio entre os dentes, e ele sabia que Mike estava nervoso por não saber qual era o humor de Neil hoje.
"Eu tô bem." Ele finalmente respondeu. "Melhor que antes na verdade."
Isso fez Mike sorrir e oh, como Neil queria saber pintar um quadro só para imortalizar aquela visão do paraíso.
"Fico feliz." Mike sussurrou. "Eu não quero perder você, Neil. De vontade própria ou atropelado por um carro automático, eu não ia aguentar. Eu não posso."
"Eu sei, Mikey, eu sei. E me desculpa por não perceber antes."
Mike se aproximou até que suas testas se tocasse e entrelaçou os dedos nós de Neil.
"Por que você fazia isso?" A pergunta foi sussurrada contra as curvas das bochechas de Neil e mesmo que não haja contexto, ambos sabiam o que a questão implicava. Neil sabia que era algo que ele teria que responder por eventualmente, e incrivelmente ele não estava com medo.
"Sabe como quando você está em um carro e está chovendo e você vai para debaixo de uma ponte e só por um momento, tudo é calmo;Tudo é quieto, antes de sair do outro lado e voltar para o caos?" Ele começou e Mike assentiu. "Cocaína era minha ponte. Minha paz. Meu santuário."
"Mesmo que fosse temporário?"
"Mesmo que fosse temporário."
"Eu gostaria que eu pudesse ter sido sua ponte."confessou Mike,evitando o olhar dele conforme a vergonha transformava a ponta do nariz um tom claro de rosa. Neil podia ver que ele estava com raiva de si mesmo, e era como o hospital de novo. "Mas eu era um idiota que te deixou quando você mais precisava de mim."
"Não é sua culpa, Mikey", diz Neil, mas com firmeza. "Nunca foi e nunca será."
"Como?" Seus olhos severos voltam acentuadamente para olhar para Neil. "Eu deveria saber.Inferno, uma parte de mim já sabia. Você sempre parecia ser o único a sorrir mais e rir mais alto do que qualquer outra pessoa na sala. Mas sempre que você pensou que ninguém mais estava olhando, eu vi. Eu vi o quão perdido e quebrado você era, e eu ainda assim pulei fora. "
Neil deu um sorriso triste. "Mesmo que você soubesse, então o que iria mudar?"
"Eu teria ajudado você."
"E seu não quisesse ajuda?"
"Então eu..eu.." Mike hesitou, sem saber o que dizer.
"Eu teria afastado você. No meu medo de perder você, eu teria afastado você. Sabe aquela música Love Will Tears Us Apart? Seria como aquela música."
"Neil…"
"Eu não sei como ia acontecer. Talvez seria algo minúsculo. Ou talvez você iria ver alguém e pensar, porque eu estou com ele quando eu posso ter coisa melhor?Eu não sei como iria ser. Mas todos os dias que você me beijou e tudo parecia perfeito, eu me perguntava quando ia acontecer. Quando você iria ficar cansado e me deixar."
"Eu–"
"Até hoje eu me pergunto se você ainda vai desistir de mim."
Havia uma dor em seu peito com a confissão sombria, porque ambos sabiam que se Mike fosse embora, ele estaria levando um pedaço irrecuperável de Neil.
Um longo tempo em silêncio se passou. Mike parecia incerto do que dizer e Neil estava com medo de falar. Mas então, ele soltou a mão de Neil e seus dedos sobem até segurarem a bochecha do rapaz.
"Neil William Anderson, você é foda e lindo pra caralho, e eu não teria passado em História sem você. Como que alguém tão inteligente e foda não consegue ver isso? Por que você não vê o quão amável você realmente é?"
Neil sentiu lágrimas ardendo nos olhos. Ele não sabia como dizer a Mike que durante sua vida inteira, ele havia ouvido o quanto era sem valor. Então ele fechou os olhos e tentou conter as lágrimas, o que não adiantou com Mike passando os dedos por sua bochecha.
"Eu amo você, Neil." Mike disse de repente. Eu amo tanto você e dói saber que você não se ama tanto quanto eu te amo."
Neil abriu os olhos assustado. "Mike,"
"Você me ama,"
Neil assentiu, fazendo Mike sorrir. "Então é isso. Eu nunca vou deixar você, não agora nem nunca."
Neil podia pensar em milhares de modos de dizer a Mike o quanto o amava, mas nenhum deles podia ser descrito com palavras. Mike Waters era perfeito de jeitos que nunca poderiam ser descritos. Ele era perfeito em jeitos que apenas o coração de Neil entendia e tudo o que ele podia pensar ah, então era isso pelo qual eu estava esperando?
É, definitivamente amor.
E quando seus lábios finalmente se encontraram, Neil suspirou porque ele não conseguia se lembrar do que era ser tocado tão gentilmente. Mike rolou até que ele estivesse por cima.. Sua língua lambeu contra o lábio inferior de Neil, a boca se abrindo de bom grado quando ele solto um gemido suave no gosto persistente de chocolate quente. Não havia nada de bruto sobre a maneira como Mike o beijava. Era tudo muito carinhoso e amoroso, algo que inicialmente teria deixado Neil desconfortável há alguns meses atrás, quando ele não tinha sentimentos.
Não demorou muito para o beijo aquecer algo mais apaixonado até que Mike se afastasse alguns minutos depois e ambos estavam ofegantes para o ar. Neil não teve outro momento para recuperar a compostura porque Mike realmente deixou a boca pela a curva suave, onde o pescoço e o ombro de Neil se encontram, a mão debaixo da camisa rastejando a extensão do estômago de Neil. "A-Ah, Mikey."
Mike rou em seu pescoço antes de arrastar beijos ao longo de sua mandíbula, em bochechas coradas e depois a ponta do nariz, colocando um último beijo firme contra seus lábios inchados.
"Deixe-me cuidar de você hoje", disse ele. Neil franziu as sobrancelhas,olhos arregalados em confusão."Deixe-me fazer você feliz.", disse Mike, puxando Neil para uma posição sentada para que ele possa tirar a camisa dele. Quando o pedaço de roupa foi descartado, Mike o empurrou de volta para a cama e Neil não pôde deixar de rir.
"Eu te amo tanto, porra."
══════ •『 ♡ 』• ══════
Quando Neil acordou, estava escuro lá fora. Mike estava deitado ao lado dele, dormindo profundamente com os lábios levemente separados e o peito nu subindo e descendo suavemente, parecendo um anjo tirado diretamente de uma pintura.
Neil sorriu. Ele não dormia profundamente assim por um muito tempo.
Se demorou por mais alguns minutos admirando Mike antes de decidir tomar um banho. Saiu da cama nu antes de pegar algumas roupas e ir ao banheiro, sem levar em consideração o fato de que mais alguém poderia estar em casa. Acabou esbarrando em Scott, que o olhou de cima a baixo, nada perturbado por seu estado nu.
“Chegamos em casa para ouvir vocês dois quase quebrando a cama diretamente através da parede. Mas não parecia que o Mike estava recebendo desta vez ... foi tão bom? ”
Neil sentiu seu rosto ficar um tom escuro de escarlate enquanto tossia de vergonha. “Uh. Desculpa pelo barulho."
Scott sorriu amplamente. “Não fique. Estou feliz que você esteja feliz, Neil, e se eu tiver que lidar com vocês dois quebrando a barreira do som e me traumatizando para sempre apenas para fazer você feliz, então eu vou. ”
Neil fez um barulho entre um bufo e uma risada. “Obrigado,Scott. Realmente. Não sei o que faria sem você.”
"É para isso que os amigos servem.”
Os dois se despediram e Neil entrou no banheiro, jogando suas roupas em cima da tampa do vaso sanitário antes de se virar para o espelho.Não era como se houvesse algo exteriormente errado com ele. Seus cachos castanhos eram uma mistura de sono e sexo, e pintas cobriam seu pescoço e peito. Sua pele não estavam mais tão afundada e pálida e, embora as bolsas sob seus olhos de noites sem dormir ainda estejam lá, elas não eram tão proeminentes. No geral, Neil parecia melhor do que em meses.
Mas algo simplesmente não está certo, e quanto mais ele se olha, mais ele sente vontade de vomitar. Ele tentou afastar a sensação, afastando o olhar do reflexo e se movendo em direção à banheira, ligando o chuveiro e pisando na água quente. E sim, talvez ele devesse saber melhor. Talvez ele devesse saber que sua recuperação estava começando a ficar muito fácil e que seu relacionamento com Mike e seus amigos era bom demais para ser verdade.
Ele tentou ignorar o que estava sentindo. Era uma torção feia na boca do estômago a princípio. Então ele se concentrou em ensaboar a bucha na lavagem do corpo e deslizar o sabão com perfume floral contra a pele avermelhada, mas então a sensação evolui para um pensamento. Um pensamento que disse a Neil que ele era inútil em uma voz muito semelhante à que sussurrava para ele em seus pesadelos.
Então ele esfregou um pouco mais, mas não era suficiente. Porque Neil estava sujo e dormindo com Mike, ele contaminou o homem que ele ama. O pensamento o fez reprimir um soluço enquanto as lágrimas transbordavam e ele tinha certeza de que estava à beira de outro ataque de pânico.
Ele tentou visualizar Mike segurando-o e dizendo-lhe que tudo ficará bem como uma fonte de conforto, mas então o rosto sorridente dele se transformou no de seu pai e ele se lembrou do modo como ele machucava sua pele e os ataques de pânico, tão de repente que ele se viu incapaz de respirar e quase caiu.
Neil ficou impressionado com o súbito pensamento paralisante de que, debaixo de todas aquelas camadas de pele, poderia haver um monstro dentro dele também. Ele olhou para as mãos trêmulas, mas tudo o que conseguia ver eram garras e quase gritou, mas seu corpo não estava ouvindo muito o cérebro, então começou a esfregar com mais força o braço, porque talvez então ele pudesse lavar a sujeira por dentro.
Ele queria lavar seus pecados.
Então ele esfregou com mais força.
E mais forte.
E mais forte, até que sua carne ficasse pegajosa e crua e o sangue se misturasse com os redemoinhos de água a seus pés e pelo ralo. A dor aguda era calmante e a ansiedade começava a diminuir. Neil puxou a bucha para trás, notando que ela estava coberta de vermelho e a soltou como se o tivesse queimado, recuando com um gemido quando a água bateu na pele crua de seu braço.
Ele desligou o chuveiro, quase caindo da banheira enquanto se secava e vestia as roupas. Neil sabia que deveria sair e ir para Mike agora, porque é com ele que os maus não o alcançam, mas seus olhos pegaram seu reflexo mais uma vez e desta vez havia um monstro. Ele tropeçou até que as costas bateram na parede e ele deslizou até o chão. Neil olhou fixamente para o pedaço cru de carne em seu braço e sua mente se apagou. Ele não sabia quanto tempo ficou sentado, olhando a rosada e lustrosa carne. Ele olhou até ter certeza de que algo estava lá, rastejando sob sua pele e ele podia vê-lo. Ele tinha certeza disso.
Scott e Mike estavam errados. Os vermes estavam lá.
E Neil precisava tirá-los.
Ele começou a coçar freneticamente sua pele, a subida e queda de seu peito em um ritmo irregular quando ele começa a entrar em pânico mais uma vez porque eles não estão saindo e há algo na cabeça de Neil que dizia a ele que se ele não os tirasse agora,ele iria morrer.
Ele se arrastou para a frente, com as mãos e os joelhos, abrindo o armário da pia e depois as gavetas, jogando vários itens no chão antes que o brilho metálico das tesouras captasse sua atenção.
Neil as agarrou, se jogando contra a parede, sua cabeça batendo na superfície com um baque surdo. Respirando pesadamente, ele abriu as alças antes de agarrar uma parte da lâmina com uma mão e pressionar a outra extremidade do metal afiado contra o braço. Suas mãos tremiam tão severamente que ele quase as deixou cair no processo. Neil podia ouvir seu coração batendo forte nos ouvidos quando ele começou a pressionar a lâmina contra sua pele. Precisava tirá-los antes que seja tarde demais.
O primeiro corte foi raso. As gotas de sangue vem a superfície, mas não transbordam e a picada desaparece em uma dor maçante dentro de momentos. O segundo corte foi igualmente raso, sem muito sangue. Ele fez uma careta para isso.
Precisava tirá-los.
Então, Neil começou a cortar a pele de forma imprudente em movimentos rápidos e afiados do pulso. À medida que os cortes se aprofundavam, as gotas de sangue começaram a escorrer por seu braço.Com uma fatia áspera em particular, Neil descobriu que, por baixo de todas as camadas da pele, não havia outra camada de pele vermelha ou chifres, mas era branca e é quando Neil soube que estava cortado profundamente. O sangue não saiu imediatamente. Não havia nada além de branco a princípio, mas então o marrom começou a vazar lentamente e depois de uma só vez. O sangue não jorrou, mas fluiu para a mão dele, pingando nos azulejos brancos das pontas dos dedos.
Os insetos ainda não ergueram suas cabeças feias, então Neil calculou que ele deveria se aprofundar mais para tirá-los. A tesoura fica ensanguentada em suas mãos e, quando ele estava prestes a cortar mais fundo na ferida, a porta se abriu e ...
"Neil, que porra é essa!"
Peter.
No momento em que Peter viu Neil sentado em uma piscina de seu próprio sangue com tesouras colocadas sobre o braço, pronto para cortar novamente, ele se moveu para frente para arrancar o objeto da mão de Neil, mas o garoto correu para trás, manchando vermelho por todo o chão.
"Sai!" ele gritou.
"Neil Anderson, me dê a porra da tesoura!"
"Eu disse fique longe de mim!"
Neil atacou quando Peter estendeu a mão, quase o cortando. Os gritos fizeram com que Scott e Mike chegassem rapidamente com os olhos arregalados. Mike empalideceu visivelmente quando viu o sangue.
"Neil, o que você está fazendo?" a voz de Mike estava trêmula e cheia de medo.
"Estou tirando dos vermes", ele afirmou em voz alta.
"Que vermes?" Mike perguntou gentilmente, dando um passo lento para a frente. "Que vermes, anjo?"
"Os vermes dentro de mim,Mike."
"Eu pensei que concordamos que eles não eram reais, Neil."
Mais um passo.
"Eles são reais!Eles são reais! Eles são reais! Eles são reais!” Ele segurou a tesoura contra o braço machucado, enquanto o sangue fluia continuamente de seus ferimentos e espirrava no chão. “E se você me tocar, eles também vão te pegar! Então não chegue mais perto,Mikey.”
"Ok", Mike colocou as mãos em sinal de rendição, interrompendo seus movimentos. “Então vamos falar sobre isso, sim? Apenas dê a Peter a tesoura e então podemos assistir um filme na sala de estar com Scottie e você pode nos contar tudo sobre isso. ”
"Nuh-não", Neil chorou, lágrimas manchando seu rosto enquanto ele puxava seus cabelos. “Eu sou podre. Sujo."
"O que há de errado com ele, Pete?" Scott perguntou desesperadamente, olhos procurando a expressão ilegível de Peter.
"Acho que ele está tendo um surto psicótico", Peter murmurou humildemente. “O que não é incomum, dado o quão precário seu estado mental tem sido nos últimos meses.”
Peter respirou fundo para se recompor. Agora era o momento em que ele iria pôr a prova à prova os quatro anos de estudo do cérebro e do comportamento humano para ajudar pessoas como Neil. Peter tinha certeza de que, se ele não pudesse ajudar seu melhor amigo, nunca poderia ajudar mais ninguém.
Ele deu alguns passos em direção a Neil, que gritou mais ameaças, então parou fora do alcance do garoto e se ajoelhou, lançando um sorriso no rosto. "Ei, garoto, quer me dizer o que há de errado?"
Neil piscou, sua atenção agora desviada de Mike e focada em Peter. “Os vermes. Eu posso senti-los rastejando.”
Peter assentiu, como se o que ele estivesse dizendo fosse completamente lógico. "Sim, e por que eles estão fazendo isso?"
Neil agarrou as tesouras com mais força até que elas cavam em seus dedos. "Porque eu sou sujo."
“Você não é sujo, garoto. Eu prometo.” Peter disse suavemente.
Neil balançou a cabeça freneticamente. "Eu sou. Estou meio sujo e é por isso que eles não vão embora.”
"Por que você está sujo, Neil?"
"Porque." Ele fez uma pausa. "Por causa do meu pai."
"E o que seu pai fez com você?"
O lábio inferior de Neil começou a tremer enquanto ele chorava mais forte, enxugando as lágrimas e manchando sangue no rosto. "Nuh uh."
"Está tudo bem", Mike persuadiu. "Você pode nos contar, meu amor."
"Eu não posso."
"Você pode", Peter pediu. "Você pode nos dizer qualquer coisa, garoto."
Neil o encarou por um longo momento, os olhos turvos se fixando nos seus e, justamente quando o Peter teve certeza de que o garoto ia avançar e esfaqueá-lo, ele sussurrou: "E-ele me machucou".
Peter correu o risco de apoiar a mão no joelho de Neil e, felizmente, o garoto não pareceu reagir. Progresso.
"Você pode dizer como ele machucou você?"
Neil se abraçou, puxando os joelhos contra ele como se estivesse ficando menor e Peter podia ver Neil começando a se desligar.
"Ei ei." Peter aperta a mão que ele tinha apoiado na perna. “Ele não pode mais te machucar, garoto. Estamos aqui para protegê-lo. Nada de ruim voltará a acontecer, eu prometo.”
"Nunca?"
"Nunca", Peter disse com finalidade.
"E se você me odiar?"
"Eu sou seu melhor amigo.Eu nunca vou te odiar, Neil. Não importa o que aconteça, eu amo você."
Houve outro longo período de silêncio pesado enquanto os três esperavam pacientemente Neil falar, o que Peter esperava que fosse breve, porque ele ainda estava sangrando.
"E-ele costumava me bater", ele começou, a voz baixa e trêmula. "Ele hu-batia em mim e minha mãe o tempo todo. T-todos os dias."
"Por que ele fez isso?"
"Porque eu arruinei a vida dele." Neil soluçou com isso. “Ele sempre me dizia que eu nunca deveria ter nascido. Papai começou a beber por causa de mim. Ele deu um tapa em mim e me trancou no armário, porque ele não aguentava olhar pra mim.”
Atrás de Peter, Scott respirou fundo e o Peter sabe que ele estava tentando lutar contra as lágrimas.
"Você não arruinou a vida de ninguém", Peter tentou acalmar o garoto.
Mas Neil só começou a chorar mais. "Sim eu fiz! Se eu não tivesse nascido, minha mãe não teria morrido!” Ele riu, mas o som era terrível e fez o peito de Peter doer. "Ela se matou e eu não pude salvá-la."
"Não é sua culpa." Scott estava soluçando abertamente agora. “Não é sua culpa, Neilie. Você tem um coração tão bom. Você nunca mereceu algo assim. Nunca."
"Se eu fosse um bom garoto, meu pai teria me amado."
"Seu pai não te amava, porque ele era um pedaço de merda", Mike disse com firmeza, ajoelhando-se ao lado de Peter. “Não tinha nada a ver com o que você fez de errado, Neil. Ele não te amava porque não podia nem se amar.” Neil gritou para ele ir embora mais uma vez, mas Mike apenas agarrou seu pulso e se aproximou. "Mas eu te amo. Todos nós te amamos, anjo. Eu, Peter, Scott, Henry, Ethan; inferno, até o Eiji que mal te conhece e ainda assim ele está constantemente perguntando se você está melhorando. Ele me disse que quer cozinhar para você. Ele disse que tinha certeza de que uma boa comida faria você sorrir.” Mike sorriu suavemente, limpando a bagunça de lágrimas e sangue no rosto de Neil. “Quem diabos dá a mínima para saber se seu pai morto ama você ou não. Porque você nos tem e nós somos sua família, Neil. Sua verdadeira família.”
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Neil piscou, olhando para Scott, depois Peter e depois de volta para Mike. "Família?"
Scott assentiu, fungando. "Sempre seremos sua família, Neilie, e as famílias passam por merda difícil juntos."
"Você pode me dar a tesoura agora, Neil?" Peter perguntou suavemente. "Nós vamos protegê-lo, não importa o que aconteça, então me dê a tesoura e Scott vai limpar tudo, certo?"
"Não!" ele gritou, se afastando de Mike. “Eu sei que sou inútil. Pare de mentir para mim!"
"Meu amor-"
"Não me chame assim!" Neil começou a puxar os cabelos novamente. "Você não sabe sobre todas as coisas ruins que eu fiz."
“Está tudo bem, Neil. Eu te perdoo.”Mike prometeu, começando a estender a mão novamente.
"Eu deixei caras me foderem por dinheiro", Neil entoou e Peter observou atentamente enquanto o outro garoto congelava. "Depois que você foi embora, eu me prostituí por dinheiro, só para que eu pudesse ficar chapado."
O silêncio no banheiro se estendeu até Mike dizer: "Eu não dou a mínima."
Neil olhou para ele de olhos arregalados em descrença.
"Você acha que eu o amaria menos por causa disso?" Mike pareceu ofendido. “Eu não dou a mínima. Isso não o deixa sujo ou podre. Eu amo você,Neil Anderson. Sempre amei e sempre amarei, então apenas dê a tesoura para Peter, por favor.”
Neil hesitou, olhando das tesouras para Peter e depois de volta para as tesouras com uma expressão ilegível. E então lentamente, seu aperto diminuiu e ele entregou o objeto. O sangue já começou a secar no metal, mas parte dele ainda manchou na palma de Peter. Peter suspirou aliviado, soltando um suspiro que ele nem sabia que estava segurando enquanto seus ombros relaxaram.
"Vamos limpá-lo na cozinha", disse Scott.
Mike ajudou Neil a se levantar e seguiu Scott.
O banheiro cheirava muito a sangue e Peter engoliu seco ao ver o vermelho espalhado pelo chão branco. Era como a noite do pesadelo de Neil e o dia em que ele teve um ataque de pânico em seu dormitório, e Peter ficou para limpar as evidências como uma cena de crime. Então ele começou a juntar os vários objetos que foram jogados ao redor antes de pegar um esfregão e o desinfetante do armário e limpar o sangue de Neil.
Ele limpou até o banheiro cheirar fortemente a água sanitária e enxugar todo o sangue que havia caído nas paredes com um pano. Peter não sabia quanto tempo gastou na limpeza, mas se concentrou em limpar todas as fendas, porque ele realmente não queria pensar em nada. Ele realmente não queria pensar em Neil.
Mas sozinho no banheiro que ele estava limpando as evidências de sangue, Peter começou a chorar. Ele chorou porque seu coração estava pesado no peito e ver seu melhor amigo desmoronar por quase dois anos dói.Ele tentou abafar os soluços, pressionando um punho sobre a boca enquanto se sentava na tampa do vaso sanitário e chorava lágrimas quentes e raivosas. E aqui está ele, novamente, culpando-se por tudo o que aconteceu com Neil. Porque se Peter tivesse sido forte o suficiente para ficar, Neil não teria passado seus dias transando com caras por dinheiro. Se Peter não tivesse sido tão covarde, ele poderia ter jogado a cocaína que sabia estar escondida entre o colchão no vaso sanitário e jogado todas as garrafas de álcool embaixo da cama de Neil.Mas Peter nunca foi forte o suficiente para isso.
Ele passou os próximos minutos enxugando as lágrimas e continuando a branquear e limpar o sangue que já se foi há muito tempo. Quando ele finalmente decidiu que terminou e se recolheu, ele caminhou até a sala de estar para encontrar os três garotos sentados na sala. Mike estava sentado em uma extremidade do sofá com Neil deitado em seu colo, provavelmente dormindo e Scott sentado na poltrona. A TV estava ligada, mas nenhum deles estava assistindo.
"Ele está bem?" Peter perguntou, sentando-se na beira da mesa de centro e olhando para o braço enfaixado de Neil.
Scott assentiu. “Os cortes são bem feios, mas nada com risco de vida. Ele também ralou o braço, então eu coloquei um adesivo de gaze nele.”
"Você acha que ele estava tentando se matar?" Mike perguntou calmamente, os olhos nunca saindo do rosto de Neil enquanto ele continuava brincando com seus cabelos.
"Nah", disse Peter. “Tenho certeza de que foi apenas um episódio muito ruim de psicose. Neil realmente pensou que havia realmente vermes neles. Ele tinha muita coisa dentro, além de tudo o que estava acontecendo. Isso iria acontecer eventualmente.”
"Então o que fazemos agora?" Scott perguntou.
"Temos que mandá-lo para um hospital."
Mike olhou para ele com perplexidade. “Mas Scott acabou de dizer que-”.
Peter hesitou. "Não é esse tipo de hospital, Mike."
O loiro endureceu com suas palavras. “Você sabe como Neil se sente sobre isso, Pete. Não podemos fazer isso com ele. Não podemos mandá-lo embora assim depois de prometer estar com ele.”
Peter suspirou, passando a mão pelo rosto. “Você acha que eu não sei disso? Você acha que eu quero entregar meu melhor amigo a estranhos e mantê-lo trancado em um hospital até que ele melhore? Bem, eu não quero, ok? Mas não há muito que podemos fazer. Nenhum de nós é profissional, muito menos eu. Ainda somos todos universitários pelo amor de Deus. Estamos loucos, cara. Se continuarmos agindo como se pudéssemos consertar o Neil, se continuarmos agindo como se ele fosse melhorar por conta própria sem ajuda profissional, ele vai se machucar novamente — ou pior. ”
"Ele está certo", disse Scott. "Neil precisa de ajuda, Mikey."
Mike ficou em silêncio por um momento. Ele olhou para Neil com lágrimas não derramadas antes de finalmente dizer. “Eu sei. Eu sei. É péssimo saber que somos todos impotentes para ajudá-lo.”
"Sim. Você e eu.” Peter soltou um suspiro profundo. “Vou ligar para o médico e arrumar as coisas. Fique aqui, ele vai precisar de você quando acordar.”
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