Notas iniciais
Gentee, ficou meio grandinho, mas é isso!! Espero que gostem.

II.

A casa era branca, lotada de vidros e muito, muito grande. Em uma cidade pequena como essa, era comum ver sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares; depois de morar quinze anos no mesmo lugar, eu meio que sabia o nome de cada uma dessas pessoas.

– Hope! Finalmente você está melhor — disse Perrie, atirando seus braços nus ao redor do meu pescoço; ela cheirava a vodka. — Oi Aj, como você está?

Minhas amigas dificilmente costumavam andar com Aj. Como tínhamos a mesma idade e mamãe sabia se tivessemos que nos aturar até na sala de aula, acabaríamos brigando, ela nos colocou em escolas diferente. Eu estudava na Huntington Beach High School, uma escola pública, enquanto minha irmã estudava em uma particular, a St Simon & St Jude.

– Vem, vamos entrar — disse Perrie, me puxando pelo braço.

Havia gente em todo canto, na cozinha, na sala, jogando sinuca, no bar e principalmente, no jardim de fora, onde eu já estava imaginando a quantidade de gente bêbada que cairia na piscina lá pelas três ou quatro da manhã. Se eu desse sorte, eu não seria uma dessas; hoje eu realmente não estava a fim de ficar como um cachorro molhado.

– Julie!!! Ai meu Deus, o que aconteceu com o seu cabelo? — gritei, quando vi Julie e Camille encostadas no balcão do bar.

– Graças á Deus você chegou — Julie bufou- Os meninos estavam perguntando de você... Enfim, você não achou bom? Quero dizer, eu sei que sou morena e não combino muito com loiro, mas acho que dessa vez Michael finalmente acertou.

Fingi não ver a piscadela que ela soltou em minha direção, e dei um beijo demorado em sua bochecha, e depois abracei Camille, que eu já não via desde o baile de formatura. Sentei-me ao lado de Julie e pedi um copo de chopp para um dos garçons.

– Eu preciso te contar os babados, você ficou muito tempo dentro de casa — ela disse, e depois acendeu um cigarro — Espero que Jackson não se importe... E se importar também, foda~se. Fiquei sabendo que ele e a Mirande Schumer estão se pegando lá em cima. N-o-j-e-n-t-o-s.

Ela resumiu o que aconteceu nas três últimas festas que eu perdi, já que estava presa em casa, mas eu não estava interessada em saber quem ficou com quem. Parei de querer ficar com alguém no fim do segundo ano, quando comecei a aprender alguns feitiços básicos. Sempre achei que os garotos da escola eram babacas e superficiais, mas acho que na verdade o fato de eles serem mortais me incomodava um pouco. Quero dizer, como querer ter um relacionamento com uma pessoa que não pode saber nada sobre você!?

– Vem, vamos dar um volta. Quero beber tequila! Ihaaa — Julie falou, rindo, e me puxou para fora, deixando Camille e Perrie sozinhas.

Passamos por alguns garotos do time de futebol do antigo ano letivo, e imaginei que mesmo com o ano acabando, eles continuavam os mesmos babacas caipiras de sempre. As pessoas dessa cidade eram um saco.

– Vamos ali, quero te contar um negócio. — falei, puxando Julie para o meio das matas.

É nesse momento que você imagina o que aconteceria com duas garotas que entraram no meio do mato sozinhas. Eu poderia imaginar muitas coisas e tenho certeza de que Julie também, mas já mencionei que eu sou uma vampira meia loba meia bruxa, certo? O que significa que vai ser meio díficil alguém chegar perto da gente.

– Legal, olha isso.

Ajoelhei-me em frente à um botão de rosa vermelha, sabendo que Julie estava observando cada passo que estava fazendo. Ergui as mãos acima da flor e fechei os olhos.

Phasmatos Tribum, Melan Veras. Phasmatos Tribum, Melan Veras

E em segundos, a flor que ainda estava nascendo, se tornou uma grande e bonita rosa, lotada de pétalas. Sorri, satisfeita com meu próprio trabalho, e virei para olhar Julie, que sorria de orelha a orelha e parecia espantada.

– Isso é daora baby, muito daora ~ ela riu — Você pode fazer isso sempre! Quero te ajudar com novos feitiços, vamos trabalhar nisso nessas férias. Você vai ser a melhor bruxa do mundo.

Ela estava gargalhando alto, muito alto, como se o que ela tivesse dito fosse a coisa mais engraçada do mundo, o que, parando para pensar, até era mesmo. Mas ao contrário da reação que eu esperava de Aj, caso mostrasse isso para ela, Julie estava extremamente animada e feliz por mim.

– Falando em férias, preciso te contar essa novidade — falei, sorrindo — Vou para Nova Orleans, meu pai encontrou algo sobre minha família. Ele acha que eles vivem por lá.

– Ah meu Deus! E você vai conhecer outras bruxas. Quero que você me conte tudo — ela sorriu, sentando-se na grama e colocando o copo azul entre suas pernas cruzadas — Vamos fumar um baseado, isso é a maior brisa.

Do bolso, ela tirou um baseado já bolado por suas ágeis mãos e pegou um isqueiro. Nunca fumei cigarro, mas a primeira vez que fumei maconha foi em uma festa de um garoto do colégio, eu tinha quatorze anos. Acho que o fato de ser imortal me fazia pensar que eu posso experimentar de tudo, nem que seja daqui há cem anos, ou duzentos.

– Aqui, dá uns tragos — ela disse, com a boca cheia de fumaça — Aj iria me matar se me visse dando maconha para você.

– Como se ela não fumasse — ri, revirando os olhos.

Dez minutos depois, nós já estávamos de volta à festa, muito, muito chapadas. Perrie e Camille já estavam loucamente bêbadas, virando copo após copo de tequila e me deixando com uma tremenda vontade de beber.

– Ei Josh, pega uma cerveja para mim — gritei para o garoto de cabelos cacheados ~ Corona!

– Aqui ~ ouvi uma voz masculina atrás de mim — Peguei para mim, mas acho que você pode ficar.

O garoto estava sorrindo para mim, mostrando seus dentes brancos e ligeiramente tortos. Ele era ridiculamente mais alto do que eu, e mesmo não sendo forte ou muito musculoso, também não era tão magro, e tinha lindos olhos verdes. O seu maxilar quadrado dava um ar de superioridade e ele parecia ser um pouco mais velho.

– Ah, obrigado — ri — Me salvo muito. Só posso beber cerveja.

Peguei a long neck da mão do garoto e agradeci com um sorriso, e depois dei um longo gole na bebida gelada.

– Vai dirigir?

– Bom... Sim. — dei de ombros. Claro, eu não falaria que era um lobisomem e que se eu começasse a beber perderia o controle e sentiria uma ligeira vontade de matar alguém daqui — Vou fazer o papel de boa irmã.

– Então você merece essa cerveja — ele sorriu e bateu o copo de plástico na garrafa — Isaac.

– Hope. — estendi a mão para cumprimentá-lo

– Nome legal.

– Eu gosto também. Gostaria de saber o significado dele.

Ele mudou de assunto ao perceber a feição que fiz, como se dissesse "não vamos falar sobre isso". Perrie, Camille e Julie pareciam estar entretidas em um jogo Eu Nunca, e como não queria beber, supus que a minha única opção era ficar conversando com o cara estranho que me oferecer uma cerveja do nada.

Isaac trabalhava em Los Angeles e morava por lá nos dias de semana, e passava os outros dias na casa dos pais na cidade. Ele estudava direito e era amigo do irmão mais velho de Jackson, e estava aqui por mera coincidência, já que foi convidado por um amigo que sequer estava na festa.

– Suas amigas parecem estar se divertindo — ele sorriu — Sua irmã está aonde? É mais nova do que você?

– Bom, não. Somos gêmeas — menti, dando de ombros. Explicar a história da adoção era complicado demais, ainda mais rodeada de muita gente e música alta.

– Então ela deve ser tão linda quanto você. — ele deu um sorriso malicioso

– Acho que sim — ri. Isso dependia de um ponto de vista, é claro, porque enquanto eu tinha cabelos castanhos claros e olhos azuis escuros, Aj tinha os cabelos um pouco arruivados, olhos verdes e sardas espalhadas pelas bochechas.

– Quer dar uma volta? — ele perguntou

– Sabe, acho que vou procurar pela minha irmã, mas a gente se vê por aí, né? Valeu pela cerveja.

Sorri e me distanciei dele, que andava em direção à piscina, mas sem tirar os olhos de mim. Ele era bonito e tudo mais, e era mais velho, mas agora eu já tinha coisas demais para me preocupar, garotos não faziam parte das minhas metas para Setembro. Até lá, eu tinha de estar no mínimo, apta para praticar outros tipos de feitiços, eu já estava exausta de mexer apenas com flores.

Depois de me espremer por algumas pessoas, encontrei Aj encostada num canto da parede se agarrando com um cara. Quando me viu, fez um gesto com a mão, indicando para eu cair fora, e deu uma piscadela rápida antes que eu virasse a cara.

Ao invés de voltar para onde as meninas estavam, resolvi sair para o jardim e tomar um ar fresco. Eu tinha vontade de praticar magia toda hora. Queria, mentalmente, pegar um copo que estava no balcão, sem ter que me mover; queria levantar a água da piscina e criar uma estátua de lobo. E como não podia fazer nada disso, estava sentada num dos degraus da escada de pedra, tomando cerveja quente e vendo todo mundo muito bêbado.

– Ei, ei. — falei, levantando os olhos para a única coisa que me chamou atenção desde que eu cheguei. Uma garota que estava de costas e usava uma regata verde-limão, virou o ombro direito para minha direção e eu pude deslumbrar rapidamente o que eu achava que era uma marca de nascença igual à minha — Ou.

A menina, que tinha cabelos curtos e loiros e usavam uma saia ridiculamente curta, olhou para mim com as pupilas dilatadas.

– Qual seu nome? ~ perguntei

– Stacey. Você?

– Hope.

Esperei que ela fizesse uma cara de surpresa, quero dizer, se ela fazia parte da mesma matilha dos meus familiares, ela provavelmente já tinha ouvido falar de mim em algum ponto de sua vida. Mas eu lembrei que deveria existir muitas Hopes pelos Estados Unidos, e eu nem sabia realmente se a marca era igual à minha.

– Onde você conseguiu essa marca? — perguntei. As amigas dela já tinham se afastado e não havia ninguém prestando atenção na nossa conversa.

– Nascença — ela assentiu

– Será que você pode dar uma olhada aqui?

Abaixei a alça da blusa, permitindo que ela tivesse uma boa visão da minha marca. A garota abaixou-se para olhar e em pouco segundos, pegou meu pulso pela mão e me arrastou para dentro da casa, sem dizer uma palavra. Passamos por Julie, que me olhou com uma cara de dúvida, e depois entramos no banheiro, cortando a fila das meninas.

– Saiam. — falei. Stacey olhou para mim pelo canto dos olhos e depois me enfiou no cubículo, fechando a porta atrás de nós.

– O que você é?

– Tem certeza de que não sabe? — sorri, cruzando os braços sobre o peito. Stacey olhou para mim de cima para baixo, então vi seu olhar se tornar vago, como se ela estivesse tentando lembrar de alguma coisa.

– Hope. — ela murmurou, quase tão baixo que só pude escutar por conta da minha audição sobrenatural — Você é ela.

– Ela...? Ela quem?

– Filha da Hayley... E do Klaus... — ela começou — Sumiu quando tinha dois anos, no meio de uma guerra entre vampiros e lobisomens. Sai da matilha há alguns anos, mas lembro que sua família procurava por você todos os dias.

Isso sim era muito para digerir. Nunca pensaria que encontraria outra lobisomem, ainda mais aqui, na praia, na maioria das vezes eles se aventuravam por montanhas e colinas; e agora ela estava falando sobre minha mãe, cuja pessoa eu tento encontrar há anos. O mais emocionante de tudo é que sempre sonhei que ela ainda estivesse viva, e agora eu sei que sim.

– Fale mais. — pedi

– Não posso. Segredos da matilha, não podemos compartilhar.

– Eu mandei falar. ~ gritei, cruzando os braços na altura do peito. A luz do lugar fraquejou e uma brisa gelada passou por nós. Estava tudo fechado.

– Bom dia, flor do dia — ouvi a voz da mamãe ao fundo. Não entendi qual a animação era essa, mas eu parecia cansada demais para fazer outra coisa que não fosse ficar na cama — Um presentinho para você.

Senti que ela havia colocado algo sobre minha barriga, e de pouco em pouco abri os olhos. Minha vista embaçada logo reconheceu uma passagem. Uma passagem de avião para Nova Orleans para amanhã á noite.

– Eu não acredito! — saltei para fora da cama — Obrigada, obrigada, obrigada. Amo vocês, sério, muito mesmo. Estou louca para ir. Vou fazer minhas malas.

Aj, é claro, era a única que não parecia muito afim de viajar. Ela havia acordado uma hora da tarde, louca de ressaca e de mau humor, sem contar que estava com um imenso chupão no pescoço. No almoço, ela trocou poucas palavras, perguntou se ficaríamos no centro e pediu ao papai que depositasse um pouco de dinheiro na conta dela.

– Para mim também — falei

– Aliás, vamos ficar quanto tempo por lá mesmo?

Papai colocou que ficaríamos duas semanas, mas eu duvidava muito que conseguisse fazer tudo o que precisava nesse curto espaço de tempo.Pelo o que eu já memorizava na cabeça, eu queria achar meu pai, minha mãe, conhecer minha matilha e conseguir ajuda com minha mágia.

– Quatorze dias ~ falei, e dei um gole no suco de laranja. Deixei meu prato na pia e avisei que ia para casa de Julie.

Eu não fazia idéia do que aconteceria em Nova Orleans, mas eu sentia que precisava me despedir. Julie é minha amiga desde o jardim de infância, já que nossas mães trabalhavam no mesmo tribunal e acabaram se conhecendo. Ela sabe de cada momento da minha vida, e praticamente passamos nossas primeiras experiências juntas.

Lembro que contei à ela sobre o que eu realmente era, no dia do meu aniversário de treze anos. Estávamos correndo entre as mesas e acabamos esbarrando numa bandeija lotada de copos de vidro; a maioria acabaram quebrando, mas consegui salvar cinco usando um feitiço de levitação. Ninguém percebeu, mas é impossível esquecer sua cara de indignação que fez para mim ao ver o que eu estava fazendo.

Não contei sobre a parte meia vampira meia lobisomem. Apesar de eu não ser realmente um vampiro, eu sabia que meu sangue curava. Descobri isso quando minha mãe prendeu a perna na caminhonete que tínhamos, lembro que ela estava perdendo e eu resolvi tentar. Não sabia nenhum feitiço de cura, mas imaginei que com o sangue que tinha, ele ajudaria em alguma coisa. Mas quando contei para ela que era uma bruxa, ela pareceu aceitar muito bem.

– Vou pegar seu carro Aj, acabou a gasolina do meu — falei pela fresta da porta do seu carro e peguei a chave do seu Jeep.

Julie morava mais no centro da cidade, perto das lojas, enquanto eu morava na praia, então demorei alguns poucos vinte minutos no trânsito, mas quando buzinei no portão, ela não demorou nem um minuto para me deixar entrar.

– Nina — ela disse, chamado a Golden Retriever de dois anos que não fazia nada além de pular nos outros — Vem, entra, minha mãe acabou de fazer brownies.

A casa, que parecia ser simples por fora, era toda branca e com quadros espalhados em todos os lugares, sem contar o lindo lustre que havia logo na entrada. Segui Julie para seu quarto, que era no andar de cima e me joguei em sua cama logo que ela trancou a porta de seu quarto.

– Olha, eu trouxe isso aqui, ninguém vai ouvir a nossa conversa — falei tirando sálvia da bolsa.

Ergui as mãos sobre a flor e uma chama inundou seu miolo, enquanto ela estivesse acessa ninguém escutaria nossas conversas. Não sei bem onde papai conseguiu, mas quando fiz dezesseis anos ganhei um livro sobre feitiços, não sabia se iriam realmente funcionar até tentar. Todos deram certo.

– Agora a gente pode falar — sorri

– Cara, é muito legal ter uma amiga bruxa — ela riu — Por que vocês foram embora mais cedo ontem?

– Minha irmã — revirei os olhos — ela acordou numa tremenda ressaca, ela estava muito bêbada. Eu até queria ter ficado mais, conheci um carinha.

– Eu vi!! Ele era bonitinho, devia ter dado seu telefone para ele.

– Eu sei, mas tenho coisas mais importates para fazer. Aliás, é por isso que estou aqui.

Contei para ela que íriamos para Nova Orleans amanhã, mas que ao contrário do que meu pai achava, eu não voltaria com eles. E não era porque eu não os amava mais, ou que os trocaria pelos meus biólogicos pais, mas pelo fato de que se eu aprender magia da forma adequada, e me tornar a bruxa que eu acredito que tenho potencial para ser.

– Quer dizer que você está se despedindo de mim? — ela abaixou — E a faculdade?

Olhei para ela e meu coração ficou apertado apenas de ver a cara que ela havia feito. Nunca, desde que nos conhecemos, havíamos nos separado por tanto tempo. A única vez foi quando ela passou um mês na Grécia, mas quando ela voltou, dormi na casa dela por uma semana para poder ouvir todas as histórias da viagem. Agora, eu realmente não sabia se dizer quando nos veríamos novamente.

Julie iria para Nova York em Setembro, para estudar música na Julliard. Seu pai havia estudado lá quando era mais novo, então ela sempre viu a universidade como um sonho que gostaria de realizar. Mesmo se eu voltasse á tempo para o ano letivo, não a veria novamente até as próximas férias.

– Bom, se eu ficar por lá é mais fácil de visitá~la. — falei, sorrindo, e a abracei

– Verdade! E eu posso conhecer sua família, estou louca para saber de tudo — ela riu — Prometa que vai me visitar em dezembro.

– Pode deixar. Você sabe o quanto tenho vontade de passar o Natal em Nova York. — sorri

Notas finais
Reviews são sempre bem vindos, obrigado, de nada!! Beijinhoss, até o próximo. :*