My New Addiction
23 And The History Repeats Itself
Notas iniciais
Ouvi o barulho da porta do meu quarto se fechar atrás de mim, e agradeci por estar sozinha em casa. Tirei meus sapatos e deitei na minha cama. Rachel Barbra Berry, o que você acabou de fazer? Agora que estava sozinha e em casa, me permiti botar toda essa angústia pra fora. Eu andava chorando muito mais esses tempos, e me odeio por isso. Chorar me faz me sentir tão fraca, tão vulnerável. Mas eu não conseguia controlar a enxurrada de lágrimas que desciam pelo meu rosto quando parava pra pensar que havia acabado de arruinar mais uma amizade. Não conhecia Kurt a tanto tempo assim, mas ele já tinha um lugar muito mais que especial no meu coração. Ele, Santana e os outros do glee club foram os amigos que eu tive por mais tempo, porque assim que algum dos meus amigos descobriam a verdade, isso acontecia. Ou eles iam me expulsando da sua vida aos poucos, ou de uma vez mesmo. Eu já devia estar acostumada, não é? Soltei um sorriso fraco. A única pessoa que realmente ficou do meu lado mesmo sabendo da verdade foi Santana. Ai meu Deus! Santana!
Me levantei da cama e corri para o criado onde estava o meu celular. Coitada da Santie, deve estar passando por um inferno com a avó enquanto eu tô aqui, pensando em mim. Disquei o seu número, e comecei a ouvir “Raise Your Glass” da Pink começando a tocar fraco do lado de fora do meu quarto. Nesse momento Santana entrou, com o celular na mão.
– Berry, relaxa, já to aqui. – Ela se virou e me viu. – Puta merda Rachel, o que aconteceu? – Ela me olhava em pânico e eu só podia imaginar a situação que o meu rosto tava nesse momento. O motivo do meu choro me atingiu de novo e senti as lágrimas crescendo em meus olhos.
– Eu contei pro Kurt, Santie.
– O que? E o que aquele filhote de poodle fez? Ele te disse alguma coisa? – Santana já estava com raiva.
– Quando eu contei pra ele, ele me olhou com uma cara... – O rosto de Kurt naquele momento veio na minha mente. – Ele me olhava como se tivesse com nojo de mim, Santie. O mesmo olhar que Finn me deu. O mesmo olhar que eu tive de todos os meus – mexi os dedos fazendo aspas no ar – “amigos” quando souberam que eu sou soropositivo. – Eu já estava soluçando.
Santana atravessou o quarto e me abraçou com força.
– Calma Hobbit, shhh. Eu to aqui tá? E eu vou transformar aquela boneca de porcelana em pó espera só até eu ver ele na minha frente.
– Não Santie, não quero que você faça nada com ele. – Ela me olhou, incrédula. – No final das contas, a culpa não é dele. Eu não sei como iria reagir se tivesse no lugar dele.
– Você ainda tá defendendo aquela Maria Chiquinha? Não acredito nisso.
Ouvimos a campainha tocar no andar de baixo.
– Deixa que eu atendo, você não tá em condições de sair desse quarto. – Ela apontou pro meu rosto, e depois de concordar com ela, fui até o espelho pra ver o estrago. Caramba! É, eu realmente não tinha condições de sair desse quarto. Outro motivo pelo qual odeio chorar. Fico parecendo um pimentão.
Santie estava demorando pra atender a porta, então resolvi descer. Não ia chegar até lá, mas assim que desci as escadas ouvi Santana gritando loucamente com a pessoa que estava do outro lado da porta.
– Como você ousa aparecer aqui depois de tudo que fez ela passar, Barbie? – Santana estava alterada e por essa frase, eu já imaginei com quem ela estava gritando.
– Deixa ele entrar, Santie. – Disse, sem sair da escada. Ela me olhou com a mesma cara de indignação de poucos minutos antes. Kurt entrou logo depois, e eu fiz de tudo pra que ele não visse a minha cara inchada e vermelha, mas tenho certeza que não adiantou de nada.
– Rach, e-eu preciso falar com você. – Kurt parecia abatido. Santana me encarou e eu assenti.
– Tá bom, eu vou estar lá em cima, ok? Se precisar, me chama. – Santana lançou um olhar fumegante em Kurt e passou por mim, subindo e fechando a porta do quarto de hóspedes, que a meses já era considerado o seu quarto.
– O que você quer, Kurt? – Cruzei os braços.
– Olha Rachel, você saiu tão rápido lá de casa que nem me deu uma chance de falar alguma coisa. – O interrompi.
– Eu acho que depois do modo como você me olhou quando eu te contei, não precisava dizer mais nada.
– Eu vim aqui me desculpar Rachel. Por não ter te impedido antes de você sair lá de casa pensando exatamente o que você está pensando de mim agora. Eu fiquei surpreso, tá legal?
Deixei ele continuar a falar.
– Eu acabei de ter uma briga horrível com Finn. Ainda não acredito que ele te abandonou em uma hora dessas. Olha, o fato de você ter AIDS não muda em nada a nossa amizade. Por favor, não pense o contrário.
– Não queria causar uma briga entre você e Finn. Você não devia ter falado nada com ele. – Tentei ser fria.
– Claro que deveria! Ele é um estúpido. Você é literalmente a melhor coisa que aconteceu na vida dele e ele te abandona, assim?
– Tudo bem Kurt. Você quem sabe. – Tentei parecer indiferente. Mas no fundo, estava pulando de felicidade por Kurt me entender.
– Então... amigos? – Ele me olhou com uma carinha de cachorro sem dono.
O encarei por um tempo, mas logo depois abri meus braços, esperando pelo seu abraço. Ele veio na mesma hora.
– Amigos. – Disse, sorrindo. – Obrigada por me entender, Kurt. Isso significa muito mais do que eu posso explicar.
– Não precisa agradecer, Rach. Eu vou estar aqui sempre, até quando você não quiser.
Soltei uma risada e o abracei de novo. Santana desceu logo depois e baixou a guarda com Kurt, não sem antes o ameaçar se ele me magoasse de novo. Adoro o jeito como ela cuida de mim. Ela com certeza é a melhor amiga que eu poderia pedir a Deus. Perguntei sobre como foi com a sua avó e ela contou que foi melhor do que ela esperava. A Sra. Lopez apenas juntou o resto das coisas dela em uma caixa e ignorou completamente a presença da neta.
– E como diabos isso é uma boa coisa? – Perguntei. – Cara, se eu pudesse falar umas poucas e boas pra sua vó...
– Relaxa Berry, aquela lá não tem concerto. E acredite em mim, poderia ter sido BEM pior.
Fiz um bolo de chocolate pra gente e comemos, enquanto assistíamos o programa da Ellen na TV.
No outro dia, eu e Santana fomos pra escola normalmente. Estávamos no corredor, quando avistamos Kurt conversando com Finn. Bem, conversando era um eufemismo. Eles estavam se controlando para não gritar um com o outro. Kurt me encarou, fazendo com que Finn se virasse pra ver o que estava acontecendo e me encarar também. Santana me puxou e fomos para o outro corredor.
– As coisas estão realmente feias entre aqueles dois. – Santana comentou.
– Eu me sinto culpada. Não queria causar briga entre os dois. Ainda mais com toda essa situação com o Burt. – Disse, triste.
– Cala a boca, Berry. Isso não é culpa sua. Se o idiota do seu ex-namorado não fosse tão cabeça dura eles não estariam brigados pra começo de conversa.
Resolvi não estender o assunto. Falar sobre Finn não me fazia bem.
Assisti aos primeiros horários, ainda meio atolada com as matérias depois da minha última ida ao hospital.
Saí da sala da Sra. Harper, equilibrando os dois livros de álgebra junto com os meus cadernos quando Santie me parou e me levou para a parede do corredor.
– Rachel, aconteceu um desastre.
– O que foi? Recebeu a visita indesejada de todo mês? Eu tenho uma calça reserva no meu armário se você quis...
– Fica quieta e me escuta Berry. – Santana sussurrava e eu não entendi nada. – O Karovski e a sua turminha ouviu a conversa do Kurt e do Finn hoje mais cedo. – Senti um gelo no coração. – Eles ouviram sobre você Rach. E eles espalharam pra escola inteira. Eu sinto muito. – Ela me olhava, triste.
Isso não podia estar acontecendo. Levantei meu olhar e percebi que praticamente todos no corredor me encaravam. Isso não está acontecendo. Kurt apareceu na minha frente.
– Rachel, me desculpa. Eu sinto muito. Eu não queria que isso tivesse acontecido. Me desculpa. – Kurt estava quase chorando e me olhava com pânico nos olhos.
– Me tirem daqui, por favor. – Foi tudo que eu consegui dizer.
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