Notas iniciais
" Me chamem de covarde, mas acredito que existem coisas que realmente não precisamos saber sobre alguém que amamos..." " As vezes, é se fazendo de cego que se vê as coisas como são..." ~ Allen Walker

Ontem quando cheguei em casa, encontrei Cross dormindo na sala com o seu copo de whisky de estimação. Me preparei para ouvir uma bronca gigantesca, mas imprevisível e pervertido como aquele ali é, ele só me perguntou se eu tinha usado camisinha e mencionou que tinha comprado um lubrificante pra mim e deixado na gaveta da minha escrivaninha (sério, quase morri ouvindo isso, devo ter ficado da cor de um tomate).

Não deu outra, corri para o quarto puto da vida com ele de novo. Bem, já deu pra imaginar que o meu pedido de desculpas sobre a discussão no café da manhã ficou pra depois.

Subi para o meu quarto encontrando o Lavi e a Road vadiando no meu computador (lendo putaria, aposto) e ficamos conversando um pouco antes das indagações começarem.

Pelo visto, todo mundo tinha ficado me esperando. E sem querer ser chato ou mal agradecido, nem nada do tipo, mas essa expectativa toda para o meu primeiro dia no karatê era no mínimo... Esquisita.

Já teve a forte sensação de que todos a sua volta sabem de algo importante que você não sabe?

Convivo com essa sensação há anos, mas nesses últimos dias ela me atingia com o triplo da intensidade. Mas como sempre, eu ignorava. Quando eu tinha onze anos, pouco tempo depois de eu saber que meu pai não estava viajando, e sim que ele tinha morrido, perguntei a Cross se ele sempre era sincero comigo, ele apenas respondeu que faria o que fosse preciso para me ver bem. Eu simplesmente resolvi... Confiar.

Mas se eles tinham seus segredos, eu também poderia ter os meus, não é?

Em resumo, quando cheguei em casa, fomos todos comer lasanha na sala e eu passei maus bocados tentando explicar para aqueles três pervertidos que não, eu não estava em um motel com Kanda, apenas tive que ficar até tarde no treino, tinha uma rua escura no caminho, e como eu sou um garoto ajuizado, eu desviei dela, mas acabei me perdendo, passei horas andando sem rumo, ele me encontrou e me deu carona pra casa (sintam o tamanho da editada que eu dei na história).

Mesmo quando Cross saiu e Lavi e Road ficaram para dormir lá em casa, eu mantive a mesma versão da história. Não era que eu não confiasse neles, mas eu tinha a impressão de que Kanda iria querer manter aquilo em segredo, e que muitos outros segredos surgiriam entre nós. E também o modo como ele agiu comigo naquela noite... Mesmo que ele continuasse frio, não parecia mais tão distante. E eu queria mostrar pra ele que podia confiar em mim.

Quando acordamos pela manhã foi uma bagunça desgraçada. Todo mundo acordou atrasado e meu tio fez o favor de piorar tudo. Como? Cross teve a brilhante ideia de acordar a gente com uma maldita buzina de festa, resultado: Estávamos os três na cama, e eu caí por cima da coitada da Road, Lavi caiu por cima de mim e ainda bateu a cabeça na mesinha da cama. Nos levantamos totalmente atordoados, eu quase vesti a camisa do uniforme da Road, ela lavou o rosto com pasta de dente e escovou os dentes com sabonete líquido, eu e o Lavi vestimos as calças trocadas, o ruivo foi passar fixador para arrumar o cabelo na bandana e acabou passando desodorante, eu derrubei meu sapato na privada e ainda bati a cabeça embaixo da cama tentando alcançar meu celular...

Enfim, demoramos quase duas horas para nos arrumar.

Depois desse começo de manhã desastroso, eu realmente acreditava que nada mais podia acontecer. Bem, isso até eu ir tomar café (a gente já tava atrasado mesmo né...) e fazer a merda de prestar atenção no noticiário policial que Cross sempre assistia (eis um ex-delegado viciado na profissão). Não entendo por que eu fui assistir àquilo, quer dizer, é algo que eu sempre ignoro... Mas quando a repórter começou a pronunciar a pequena nota, meu coração parou uma batida e senti meu corpo ficar gelado.

"Cinco corpos foram encontrados na mata próxima á ponte que liga..."

Meus olhos não desgrudavam das imagens de cinco corpos cobertos por lençóis. Reconheci o taco de baseball que um deles tinha em mãos quando me atacaram no beco...

" Os corpos já foram identificados..."

" Todos os cinco tinham passagem pela policia..."

"Dois eram menores de idade..."

" Um estava respondendo em regime semi aberto... "

" A mãe desmaiou ao reconhecer o corpo do filho..."

" Deixou uma filha de doze anos..."

" Era acusado por estupro e assassinato..."

" A causa da morte ainda não foi identificada, mas todos os corpos apresentam graves marcas de espancamento..."

Flashs da reportagem ficaram passando pela minha cabeça durante todo o dia. Já estávamos no terceiro horário de aula e eu já tinha roído um lápis inteiro. Eu estava nervoso, eu queria... Ou melhor, precisava ver Kanda depois de tudo, mas ao mesmo tempo não sabia o que fazer quando o encontrasse.

O sinal tocou e eu me despedi da Road (que vinha estranhando meu comportamento a manhã inteira), andando calmamente até a sua sala, já que eu sabia que ele não saia de lá durante o intervalo. Dei uma espiada pela janela de vidro, constatando que a sala estava vazia, exceto por Kanda que lixava alguma coisa, que deduzi serem pastilhas, até que estas assumissem um formato de comprimido. Huh...? Ok, estranho, mas veja bem, é de Yuu Kanda que estamos falando então...

Fiquei travado na janela vendo-o lixar pastilhas. O que eu diria se entrasse? Será que ele iria tocar no assunto de ontem? Eu deveria falar sobre o que eu vi no noticiário? Notei que sua mão estava enfaixada e senti um peso no coração. Ah! Foda-se! Eu vou falar qualquer coisa e seja o que deus quiser...

Entrei na sala recebendo automaticamente seu olhar na minha direção. Aqueles óculos definitivamente o deixavam sexy.

– Passou tanto tempo na janela que eu já estava esperando você começar a fotografar. — Falou em um tom irônico, com aquele sorrisinho cretino que me dava raiva.

E é claro que eu fiquei da cor de um tomate.

– BaKanda. — Resmunguei fazendo bico, sem parar de avançar na sua direção.- Como está o seu pulso? Tá doendo? — Indaguei me sentando na mesa em frente a sua.

– Tch, isso não foi nada. — Respondeu tirando os óculos e deixando-os em cima da mesa, guardando os trocinhos que estava lixando em um potinho de remédio, depois socando dentro da bolsa — Só moro com alguém dramático e escandaloso. – Deu de ombros.

– Pra quê tava lixando essas coisas? – Perguntei pegando seus óculos enquanto ele limpava o pó da mesa.

– Vou dar um sustinho em alguém. – Respondeu displicente.

Eu pensava em perguntar se ele tinha visto os jornais, ou algo parecido, só pra sondar, para ver se era “seguro” entrar naquele assunto, mas uma coisa que eu percebi enquanto experimentava seus óculos e tentava adivinhar que tipo de problema de vista ele tinha se tornou mais urgente.

– Hey! Isso aqui não tem grau. – Comentei franzindo as sobrancelhas.

– Eu sou míope. – Se largou na cadeira, olhando pra mim com um ar de quem vai dar um daqueles sorrisinhos cretinos.

– Ah, mas você não é mesmo! Cuidado pra não dar cupim nessa sua cara de pau, viu? – Retruquei irônico e ele apenas deu um risinho de canto, se divertindo com a minha reação.

– Moyashi, pensei que tinha ficado claro... – Ele se desencostou das costas da cadeira e aproximou o rosto do meu, deixando seus lábios perto da minha orelha. – Aqui eu sou apenas um pacato e inofensivo nerd, e tão míope que não consegue nem te enxergar daqui. – Continuou fazendo um arrepio percorrer meu corpo com o seu hálito quente na minha pele sensível. – Estamos entendidos...?

– Sim. Com certeza. – Respondi meio mole, mas feliz por ele confiar em mim.

– Mas então... Pelo quê veio me perturbar, cabeça de chantily? – Perguntou voltando a se encostar na cadeira.

– É ALLEN! – Exclamei. Mas que coisa! Qual o problema dele em dizer meu nome?!

– Tá certo, que seja... O que você quer? – Indagou dando de ombros.

Eu bem que poderia ser sem vergonha e responder algo como: “Quero você amarrado na minha cama e coberto de chocolate” só pra ver a cara dele, mas sou frouxo demais pra isso.

– Eu vim fazer uma boa ação e te tirar da “nerdisse” pelo menos no intervalo. – Falei me levantando, puxando seu pulso bom e indo em direção a porta.

– Heim?! – Resmungou tentando se soltar.

– Você por acaso conhece um lugar chamado “pátio da escola”? – Falei empregando toda a minha força em tirá-lo do lugar.

– Conheço e detesto. – Respondeu indiferente.

– Então considere-se seqüestrado. – Segurei seu pulso com mais força, começando a correr sem nenhum aviso prévio, obrigando-o a me acompanhar se não quisesse acabar tropeçando e caindo de cara no chão.

Sai em disparada pelo corredor com o moreno na minha cola, falando impropérios a minha pessoa, chamando a atenção da escola toda até chegarmos na parte mais isolada e menos movimentada do pátio, onde ficava a árvore que já tinha virado praticamente o nosso local reservado da escola. Acenei para Lavi e Road que já vinham ao nosso encontro.

– Viu? Nem morreu por isso. – Falei ofegante depois de toda aquela correria e acabei levando uma rasteira que me derrubou de bunda no chão.

– Eu não, mas você quase. – Rosnou mal humorado. Se olhar matasse...

– Yo, Yuu-chan! Prazer em... – Mal Lavi começou a falar e encontrou o seu destino cruel.

Em questão de segundos, Kanda torceu o dedo do ruivo de uma forma que ele acabou ajoelhado no chão aos seus pés gemendo de dor enquanto era mantido preso.

Bati a mão na testa. Eu bem que tinha avisado que ele odiava ser chamado pelo primeiro nome, mas Lavi nunca me escuta...

Não. Me. Chame. Pelo primeiro nome. Não te dei essa liberdade. – Falou sério ainda sem soltar o coitado.

– Ah, que foda! Me ensina? – Pediu Road assustadoramente empolgada, dando pulinhos.

– É simples. – Começou o moreno, soltando o ruivo que mal teve tempo de respirar, sendo logo preso numa chave de braço e erguido do chão. – Você segura esse dedo. – Falou usando o mesmo tom neutro de professor que usava nas aulas de Karatê – E torce dessa maneira, com um pouco de força. – Explicou passo a passo para a pequena azulada, torcendo o dedo do pobre Lavi novamente, voltando a deixá-lo de joelhos no chão.

Que filho da mãe sádico!

– Awn... Você é sempre violento assim, Yuu-chan...? – Indagou o ruivo suicida com um tom de voz completamente pervertido e cheio de segundas intenções.

– E você é sempre masoquista desse jeito? – Devolveu Kanda, passando um braço em volta do pescoço do outro, enforcando-o, e eu achei melhor interferir quando vi uma veia estourando na testa do moreno.

– Nee Kanda, relaxa... O Lavi sente muito, não é? – Lancei um olhar duro para a criatura que estava quase morrendo sem ar.

– C-Com certeza! – Engasgou com o rosto vermelho quase da cor do cabelo, e Kanda acabou o soltando, mesmo que a contra gosto.

– Que aperto, heim? – Comentou o safado de tapa olho, usando um tom de voz ainda mais depravado que o anterior, massageando o pescoço e dando uma bela secada no moreno.

Não deu outra, acabou tomando um chute atrás da perna e caiu de cara no chão.

– Essa praga é sempre assim? – Questionou Kanda, erguendo uma sobrancelha descrente.

– Já me acostumei. – Dei de ombros.

– Em um minuto com você eu já aprendi três tipos de imobilizações especialmente dolorosas. – Comentou Road com os olhinhos brilhando.

– Se o Caolho continuar me secando, você vai aprender mais algumas. – Respondeu compartilhando um sorriso assustadoramente sádico com a pequena.

Troquei um olhar preocupado com o Lavi. Será que foi mesmo uma boa idéia apresentar esses dois?

Depois que o Lavi parou com o ataque de cachorro no cio para cima do Kanda, ele parou um pouco de bater nele (para descontentamento da Road Psicopata Kamelot que esperava um espancamento ali, e para meu alívio, já que esperava a mesma coisa), o resto do intervalo transcorreu assustadoramente bem.

Mesmo que Kanda respondesse a qualquer pergunta pessoal com um olhar matador, ele acabou ficando bem á vontade quando o assunto mudou para torturas medievais, e como o bom nerd que era, acabou nos dando uma verdadeira aula da história e acabou com três alunos lhe implorando por aulas particulares.

Desnecessário dizer que os últimos horários de aula foram totalmente perdidos e nós fomos matar aula no terraço da escola para ficar fofocando.

– Eu achei ele bastante tímido. Nem falei nada demais e ele quis me matar. – Comentou Lavi sobre o moreno, mais roendo do que comendo o chocolate que tinha em mãos. – E completamente tsundere, o que definitivamente é uma graça! – Continuou me cutucando com um olhar sugestivo. – Ele bem que deveria dar aulas de Jiu-Jitsu né? Imagina só Allen, você iria ficar agarrando aquele corpo delici...

– Road, o que você tanto olha ai...? – Perguntei fugindo da conversa do Lavi antes que acabasse com pensamentos nada próprios na cabeça. – Espionando alguém? – Comentei me encostando ao seu lado na grade.

– Pode-se dizer que sim... Lavi, você disse que o Kanda pilotava uma moto preta... – Começou chamando a atenção do ruivo que lia alguma coisa no celular. — Por acaso é aquela? – Completou apontando para o veículo.

– Uma MV Agusta, é essa mesmo. – Confirmou ele se juntando a nós enquanto a Road começava a rir maliciosamente. – O que foi?

– Eu vi essa moto ontem de manhã... – Falou em um tom pretensioso.

– Tá, e daí? – Indaguei sem entender.

– Puta que pariu! Agora tudo faz sentido! – Exclamou o ruivo com um brilho estranho no olhar, semelhante ao da morena.

Apenas fiquei olhando de um para outro, mais por fora do que bunda de índio.

– Será que dá para alguém me explicar? – Reclamei.

– Allen-chan, o que estávamos fazendo na rua ontem de manhã? – Começou Road.

– Vindo para a escola...? – Respondi ainda mais confuso, erguendo uma sobrancelha.

– Yep, agora me diga, o que aconteceu de interessante que um certo alguém poderia ter visto durante o trajeto...

Quase no mesmo segundo, as lembranças do beijo me vieram a mente.

– Putamerda... – Murmurei pasmo quando caiu a ficha. – Ele deve estar pensando que eu e o Lavi... Mas espera ai! Vocês estão querendo dizer que...

– Siiiiim! – Confirmou a Road sorrindo sacana. – Ele ficou mordidinho quando viu vocês. Não foi á toa que ele não estava indo com a cara do Lavi... – Concluiu com um risinho.

– Impossível. – Sentenciei, tentando imaginar de onde aqueles dois tiraram aquela idéia.

– Não é não! – Insistiu Lavi.

– Definitivamen...

– Hey!! Ali não é o Alma? – Interrompeu Road, todos nós corrermos de volta para a sacada.

– Mas... O que diabos ele faz aqui? – Murmurou o ruivo franzindo o cenho.

– Ele é o melhor amigo do Kanda, esqueceu? – Falou a pequena fazendo Lavi soltar uma exclamação de entendimento.

– Ah... Ele fica muito lindo sem o uniforme de garçom, não acha? Ah, se eu pusesse minhas mãos naquelas coxas... – Comentou o ruivo praticamente comendo o garoto com os olhos.

Eu até comentaria alguma coisa naquela conversa, mas minha voz pareceu sumir quando meus olhos se fixaram no moreno que saia do prédio naquele momento. Nem que eu quisesse poderia desviar o olhar.

Kanda caminhou pelo estacionamento até a moto, onde Alma estava encostado distraidamente, sorrindo sutilmente e levantando as mãos em sinal de rendição quando viu a cara mal humorada do castanho.

– ... Eles moram juntos em um apartamento. – Ouvi parte da conversa, observando os dois lá embaixo. Parecia que Kanda estava levando uma bronca.

– Eh? Mas ele não morava com o pai adotivo? – Perguntou Lavi.

– Acho que não se adaptou, eles moram sozinhos. – Respondeu a azulada.

– Devem ser amigos de longa data... – Meditou o ruivo.

Enquanto isso, Alma parecia á beira das lágrimas. Mesmo assim, seu semblante não parecia minimamente magoado ou irritado, mas sim extremamente preocupado.

Por um momento, pensei que Alma iria se atirar nos braços do moreno, mas aparentemente Kanda fora mais rápido e selou seus lábios aos do garoto de cabelos castanhos que ficou estático por alguns segundos.

Correção TODOS ficamos estáticos por alguns segundos.

A coitada da Road que tinha subido na grade até caiu de bunda no chão.

Mesmo que a própria palavra “beijo” faça parecer outra coisa, não chegou a ser de fato uma carícia. Fora apenas um selinho, um toque terno, inocente e fraternal, como se fosse um irmão consolando o outro.

Mas nada disso me impediu de imaginar Alma esfolando a cara no cimento.

Kanda se afastou calmamente, bagunçando os cabelos cor de chocolate do outro, que ainda parecia paralisado. Bem, estava melhor do que Lavi e Road que tinha entrado em choque (e sem previsão para acordar nesse século).

Vou ficar bem” Vi os lábios do moreno sussurrarem para o outro, que tentou sorrir, mas parecia angustiado demais para isso.

Se você morrer, eu te mato” Respondeu Alma enquanto Kanda se despedia e voltava para a sala.

Permaneci naquele estado estúpido de inércia por mais alguns instantes até sentir meu celular vibrar no meu bolso.

Peguei o aparelho distraidamente para ver do que se tratava e quase enfartei com o conteúdo da mensagem.

Você deveria parar de espionar as pessoas, Moyashi

– — — — — — — — — — — — — Zona leste da cidade – 23:00h — — — — — — — — — — -

O rapaz de longos cabelos escuros transitava pelas ruas levemente movimentadas da cidade trajando uma camisa preta com os quatro primeiros botões abertos, um jeans escuro apertado que fazia-o sentir-se um verdadeiro prostituto – e de fato era quase este o seu personagem dessa noite – e um violão nas costas. Ou melhor, uma caixa de violão. Afinal os “instrumentos musicais” ali contidos não produziam nenhuma nota além de gritos de dor e som de ossos quebrando.

Ao chegar ao seu destino, mudou completamente a expressão facial, se desfazendo da usual emburrada, assumindo uma sexy e enigmática, caracterizada por alguns olhares oblíquos e sorrisos de escárnio, para só então entrar no estabelecimento.

Mal atravessou a porta e incontáveis olhares caíram sobre si, devorando cada pedaço de pele exposta e desejando devorar todo o resto, fantasiando sobre como seria sentir todo o corpo desnudo daquele belo moreno em meio aos lençóis.

Perfeitamente ciente do tipo de pensamentos e intenções que eram direcionados a sua pessoa, ele aumentou o sorriso arrogante, desdenhando de todos os humanos ali presentes, sabendo que essa atitude os provocaria ainda mais, os deixaria sedentos por aquilo que não podiam alcançar.

Seguiu seu trajeto atravessando a boate e indo direto para a sala do dono do lugar, seu objetivo. Passou pela sala de Tikky, que tinha a porta aberta, e o viu com a irmã mais nova, “conversando intimamente”. O mais velho lhe lançou um olhar preocupado que foi retribuído com um revirar de olhos impaciente, ele achava Kanda confiante demais, já o oriental sabia que tinha o perfeito controle da situação.

Haguro, o dono daquela boate e de várias outras que ficavam tanto na parte central como no litoral da ilha, era tido como um homem impossível de matar. Simplesmente inatingível. Nenhum dos anteriores havia tido sucesso na missão que ele estava prestes a concluir.

Só não pensaram no método certo...” Pensou com um brilho verdadeiramente maligno no olhar.

Havia se prestado ao papel humilhante (na sua visão) de stripper de boate, já trabalhava lá há três meses e fora tempo o suficiente para ter aquele homem tão poderoso a seus pés. Vez ou outra, Alma (que já trabalhava lá bem antes, três vezes por semana, para pagar a faculdade de gastronomia) lhe ajudava com algumas informações, mas nunca aceitou mais do que isso do garoto por medo de metê-lo em confusão.

Seu alvo estava envolvido a Yakuza e liderava a máfia local, principalmente nos ramos da prostituição, tráfico de pessoas e de armas. Pelo fato da cidade estar localizada em uma ilha, ela se tornava um estratégico ponto de comércio, já que os barcos não tinham que ir até o continente, e ainda não precisavam temer a inteligência da polícia ou nenhuma operação policial drástica, uma vez que a ilha não poderia sofrer “grandes perturbações” devido ao seu ecossistema.

Ou seja, aquele homem era quase o dono da ilha, e o principal negociante de toda aquela região do país, já que o próprio era responsável por levar a mercadoria para o continente, e ainda tinha ajuda de membros corruptos da guarda costeira.

E como se tudo isso não bastasse, sua ficha criminal era recheada de assassinatos. Até aí, nada demais, Kanda também nem conseguia contar quantos já havia matado durante a sua vida. Mas no caso de Haguro, todas as mortes foram antecedidas de tortura e estupro. Era quase um hobbie para o mafioso.

Parou em frente á porta do futuro cadáver, respirando fundo por um momento, apurando os sentidos brevemente antes de realizar sua tarefa. Abriu a porta, entrando no recinto sem pressa, sentindo o olhar depravado e submisso do outro sobre si, trancando a porta logo em seguida.

Agora até mesmo seu sorriso fingido se tornava verdadeiro... Verdadeiramente cruel.

Não se importava de descer tão baixo para chegar ao seu objetivo. Não ligava se tinha que se deixar corromper pelo submundo e abandonar temporariamente seu orgulho. Apenas tinha ânsia por assistir aquele ser inútil agonizando, quer fosse por um tiro, ou por uma Katana cravada no peito caso o plano inicial desse errado.

Haguro era uma pedra no seu sapato, e deveria sumir o mais depressa possível.

E com a vantagem que ainda ganharia dinheiro para se livrar dele. Amava sua profissão!

– Senti sua falta nii-sama. – Falou em um tom carinhoso, sua atuação era sublime – Vim correndo o mais rápido possível... – Continuou envolvendo o seu alvo, encantando-o, seduzindo-o, dominando-o e o deixando completamente a sua mercê.

A vítima permanecia hipnotizada de uma maneira tão profunda que só se dera conta da aproximação do moreno quando este já estava sentado em cima da sua mesa, de frente para si.

Desconcertado com a influência que o menor exercia sobre si, tentou virar o jogo, tentando conquistá-lo com carícias sutis primeiramente, depois partiria para toques mais impetuosos, e quem sabe seria daquela vez que finalmente realizaria a fantasia de possuí-lo.

Haguro sentou em sua cadeira de forro que couro, pondo um dos pés de Kanda sobre seu colo e tirando cuidadosamente o coturno que o moreno usava, começando a beijar seus pés. Ele idolatrava e desejava o jovem sentado em sua mesa de maneira tão profunda que acataria qualquer ordem que ele lhe desse, moveria céus e mares para realizar qualquer desejo que ele tivesse, simplesmente para se sentir satisfeito por satisfazê-lo.

Quando Kanda havia se apresentado para trabalhar ali, fora o único dentre o candidatos que concorriam à vaga que se recusara a vender o próprio corpo para os clientes, não só isso, também havia recusado passar uma noite com o mafioso, o que era quase uma cláusula no contrato.

Interessado demais na beleza do moreno para simplesmente dispensá-lo, Haguro o chamou para uma conversa particular, onde tentou assediá-lo e, ao contrário do que esperava, o garoto não cedeu, e nem tentou reagir violentamente, apenas se encolhia para longe de si, mais parecendo em pânico do que qualquer outra coisa.

Estranhando completamente a atitude de “gatinho assustado” do menor, o mafioso ficou curioso em saber como diabos alguém tão inocente tinha acabado naquele tipo de trabalho. A resposta á sua curiosidade foi acompanhada de lágrimas e soluços enquanto o garoto encolhido no sofá contava que havia fugido de casa por que apanhava do pai e era molestado pelo irmão mais velho, e graças aos seus atributos físicos, havia começado a dançar em boates para ter o que comer.

De curioso, Haguro se convertia em chocado. Jamais imaginara que alguma coisa tocaria seu coração daquela maneira.

Ao fim da não tão longa, porém detalhada, narrativa, lágrimas discretas brotavam do rosto do mafioso, que relembrava de seu querido irmão, que havia sido assassinado por uma gang, e por quem nutria uma forte paixão platônica.

Fato este já conhecido por Kanda, que havia inclusive ensaiado a melhor forma de contar a história, para conseguir o resultado esperado.

O plano obviamente dera certo, Haguro o adotou e o protegia como seu irmão mais novo que voltara para si, e algum tempo depois, o moreno revelara que o queria como homem, e não apenas como seu irmão, mas tinha medo de “avançar” com ele nesse tipo de relação devido ao trauma do estupro incestuoso.

Naquele momento, foi como se a vida violenta e obscura do mafioso recebesse seu primeiro raio de luz, como se em meio a tantos pecados, ele tivesse realizado uma boa ação tamanha que recebera tão maravilhosa benção. E pela primeira vez em sua vida, Haguro sorriu pleno e realizado. Prometendo dedicar sua vida àquele garoto de agora em diante.

Mal sabia ele que simplesmente havia caído na armadilha de um assassino experiente.

– Nii-sam....ma... – Suspirou deliberadamente, jogando a cabeça para trás como se apreciasse aquele toque que julgava repulsivo. – Nii-sama... Eu não quero que me abandone... – Falou de forma angustiada, fazendo o outro parar de beijar o seu joelho e focar sua atenção na conversa.

– Eu nunca te abandonaria. – Sussurrou de volta em um tom apaziguador, dando um beijo suave na testa do menor.

– M-Minha família me encontrou... – Sua atuação era tão perfeita que lágrimas escorriam pela sua face corada, e seu olhar parecia verdadeiramente perdido. – E-Eu não quero ir com eles Haguro... – Choramingou abraçando o mais velho que sentia-se realmente em choque.

– Eu não vou deixar! – Abraçou-o de volta protetoramente.

– Minha família é influente, meu pai tem negócios com o Ministro e... – Murmurou fingindo aproveitar o toque.

– Você sabe que eu faria qualquer coisa por você... – Falou aspirando o cheiro envolvente que o moreno emanava.

– Qualquer coisa...? – Fungou fazendo uma vozinha manhosa e se controlando para não sorrir malignamente.

Esse era o ponto crucial.

– Te daria até minha alma. – Afirmou veementemente o mafioso.

Kanda suspirou pesadamente, parecendo emotivo por fora, mas mantendo sua habitual frieza inabalável, escolhendo com cuidado suas próximas palavras.

– Então fique comigo, para sempre... No outro mundo. – Concluiu sussurrando em seu ouvido, entrelaçando ainda mais Haguro em sua teia de mentiras.

– O que quer dizer? – Perguntou o criminoso pacientemente, acariciando as longas madeiras lisas do mais novo.

– Não poderemos ter paz enquanto meu passado continuar me perseguindo! Eu queria tanto... Mas tanto – “Te matar logo de uma vez...” – Viver toda a minha vida com você, mas... – Pausa dramática para enxugar as lágrimas... – Se não podemos ficar juntos em vida... Por que não depois da morte? – Concluiu mirando dentro dos olhos da vítima, seduzindo-a a segurar o punhal para o ato final.

– O que... – O homem parecia atordoado diante do comportamento do seu amado.

– E-Eu vou entender se não quiser vir comigo... Mas eu já tomei minha decisão no caminho pra cá. – Concluiu tirando um frasco com aparência de novo, mas com apenas uma pequena parte de seu conteúdo preenchida por pílulas brancas.

E diante do olhar chocado e apavorado de Haguro, Kanda engoliu o resto do frasco rapidamente, não dando tempo do outro impedi-lo.

E o impassível homem supostamente impossível de matar entrou em pânico pela primeira vez na sua vida.

Como aditivo, o moreno ainda tomou uma dose de whisky que o outro havia deixando em cima da mesa, se divertindo internamente com o olhar quase alucinado do outro sobre si.

Quase podia enxergar a sua vítima a centímetros do precipício.

– Eu te amo nii-sama... – Murmurou pelo puro sadismo de ver o outro ainda mais insano, deixando seu corpo cair mole sobre o dele.

Minutos se passaram, Haguro nunca teve tanta raiva dos ponteiros do relógio. Na medida em que seu precioso irmãozinho desfalecia em seus braços, o coração do homem se afogava em desespero, até o ponto em que não suportou mais.

Nem sequer parou para pensar sobre detalhes técnicos como temperatura corporal ou batimentos cardíacos, o homem considerado inatingível tirou sua pistola da gaveta, e sem o mínimo de hesitação, disparou um tiro certeiro contra a própria cabeça.

Pelo fato da sala ser a prova de sons – estavam em uma boate afinal – o silêncio que seguiu após o tiro foi quebrado apenas pela risada divertida e irônica de Yuu Kanda.

– Eram apenas pastilhas, imbecil. – A voz do moreno ressoava em seu tom mais completamente sádico, acompanhada de um sorriso deturpado.

O sorriso não de quem apenas vivia no submundo, mas que quem impunha medo nas criaturas inescrupulosas que lá habitavam. Havia crescido em meio a assassinos, estupradores, traficantes, viciados, torturadores, chefões, enfim... Todo o tipo de “gente” que age por baixo dos panos, aparecendo vez ou outra no mundinho ingênuo e atribulado que as pessoas normalmente vivem. Gente que as pessoas normais chamam de “escória”.

Gente que contratava seus serviços, gente que era vítima deles. Ou que apenas morria por que queria que morresse.

Ele definitivamente não aprovaria esse tipo de vida que venho seguindo...”

Sua consciência sussurrou do fundo da sua mente, trazendo todas aquelas imagens, todas aquelas lembranças...

– Tch. – Resmungou limpando a mente. Ainda não era hora de perder o foco.

Não matava apenas pelo gosto, ou pelo pagamento. Matava também por informações, e sempre que precisava se livrar de alguém que havia chegado perto demais daquilo que queria proteger.

Mataria quem quer que fosse para impedir que a escuridão ousasse pousar seus tentáculos imundos sobre ele. Destruiria o que quer que fosse para protegê-lo.

Inclusive a mim mesmo” Completou mentalmente, olhando para o pulso enfaixado enquanto se livrava das suas digitais e outras evidências de que estivera ali.

Ainda outro “suicídio” para planejar. Não tinha tempo a perder.

A principal característica que fazia de Kanda um dos três assassinos de aluguel mais requisitados do submundo, era o fato de conseguir realizar um crime perfeito. Sem provas de que foi um crime, e sem suspeitos, ou seja... Fazia todas as suas vítimas se suicidarem.

Diziam as más línguas que seu trabalho era famoso pelo fato dele destruir cada alvo da forma mais astutamente vil.

Saindo da boate, o moreno caminhou algumas horas até o lugar onde tinha deixado sua moto e foi até a ponte do dia anterior antes de voltar para casa, vendo que os policiais já tinham “limpado” o local. Tinha esquecido completamente dos corpos dos idiotas. E agora, por causa dessa sua falha, ele provavelmente desconfiaria de alguma coisa se visse os jornais... Não, ele já deveria estar especulando, só não tocou no assunto.

– Tch, vou ter que pensar em alguma coisa para falar pro pirralho quando ele resolver perguntar... – Resmungou frustrado, dando meia volta e indo finalmente para casa, tinha um Alma preocupado para acalmar.

Diziam as más línguas também, que Kanda simplesmente não tinha coração. O que era uma perfeita verdade, afinal, seu coração já não lhe pertencia mais, mas sim a uma pessoa que nem mesmo possuía ciência do que tinha em mãos.

Notas finais
Mil perdões pela demora! Ainda estou me acostumando com o trabalho (yeah, ando fazendo algo útil da vida, MILAGRE *W*), mas ando tendo bem mais tempo do que antes, então eu espero ficar nesse ritmo de postar em duas semanas, ou talvez menos. Ando escrevendo MUITA coisa também, então talvez quando eu terminar Neko...?! uma nova história apareça. Prestem atenção no Haguro, no próximo vocês irão entender por que o Kanda o considerava uma pedra no caminho (e mais na frente vai ter mais coisa, mas não vou spoilar). E o que acharam da profissão do moreno? E da relação dele com o Alma? E como o Allen vai reagir a isso? Ah, e teorias?! AMO AS TEORIAS DE VOCÊSS! Se quiserem fazer perguntas aos personagens, eu fiz um ask para eles: http://ask.fm/AWS2KY E sempre tá rolando barraco por lá. Rsrsrsrsr, e não precisa ter conta para perguntar. Temos também uma página no face: https://www.facebook.com/ByTsukiSensei Tem outra autora de Yullen lá comigo, e se você também ama esse casal, seja bem vinda (o)! MUITO obrigada por acompanharem a história! Espero sinceramente que estejam gostando. KISSU