My Guardian Angel

4 O motoqueiro não tão fantasma.


Notas iniciais
Yo minna *w* *foge das pedradas que merece* Eu sei, demorei UM SÉCULO pra voltar a postar essa história, mas foi necessário, minha vida tava uma bagunça! E bem, quando eu tive a brilhante ideia de manter TRÊS histórias em andamento, eu não imaginava que isso fosse acontecer. Mas agora que estou quase de férias, posso voltar a me dedicar a minha paixão. Eu sei que é cara de pau minha, mas recomendo que leiam os capítulos anteriores para entender melhor a história. Espero que gostem do capítulo, é um dos que eu mais amei escrever

" E se todos os caminhos que você escolhesse convergissem no mesmo ponto, ou melhor, no mesmo alguém"

~ Allen.

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Capítulo 04 — O motoqueiro não tão fantasma.

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Demorei um tempo para assimilar a informação, o encarando descaradamente enquanto se aproximava.

– Moyashi? – Indaguei revirando na minha cabeça o meu pouco conhecimento sobre japonês ao mesmo tempo em que tentava entender de onde veio aquilo.

Ele apenas respondeu com um risinho sarcástico, indicando minha altura com a mão.

Filho da...

– Meu nome é Allen. – Retruquei em um tom irritado, cruzando os braços sobre o peito em uma tentativa inútil de parecer ameaçador quando irritado.

O infeliz simplesmente ergueu uma sobrancelha, parecendo surpreso e divertido ao mesmo tempo, se abaixando um pouco para que seu rosto ficasse da altura do meu.

– Então quer dizer que o Moyashi é bravinho... – Comentou sacana fazendo meu sangue ferver. – Me mostre o que sabe fazer na minha aula, e talvez haja uma remota possibilidade de eu lembrar seu nome. – Concluiu se erguendo e arrumando o kimono, indo até o centro da sala.

Eu até lhe acertaria um lindo soco no meio da cara se o filho da mãe em questão não fosse tão malditamente sexy.

– Hey, espera! – Chamei-o novamente me lembrando de um assunto pendente.

– Hn? – Resmungou me olhando por cima do ombro.

– Já lembrou de onde me conhecia? – Perguntei com um meio sorriso que foi correspondido com outro enigmático.

– Talvez, uma remota possibilidade... – Repetiu a mesma ladainha de instantes atrás com um tom provocador. Sim, com aquele tom de “quero foder com seu juízo”, antes de se virar, me deixando no vácuo e puto da vida.

Custava responder decentemente a uma simples pergunta?!

–-- x00o00x ---

A aula transcorreu... Tranquila. Se é que se pode usar esse adjetivo para descrever uma aula de Karatê. Digamos que Kanda não era nenhum professor sádico ou tirano como fazia parecer ás vezes (principalmente quando indiretamente mandava os garotos se matarem durante as lutas), na verdade ele parecia bem sério e íntegro, dando frequentes dicas técnicas e corrigindo posturas e golpes, embora que o mais perto que ele chegasse de um elogio fosse um “finalmente começou a fazer isso certo...”

E eram essas coisas que me deixavam cada vez mais confuso sobre sua real personalidade, ora era um nerd anti-social, ora dançarino de boate, ora engraçadinho e sarcástico e agora um excelente professor.

Quantas personalidades você tem, maldito?!

Como eu já estava na faixa laranja (a quarta faixa de oito*), me saí bem nas lutas, recebendo até um “você não é tão inútil quanto parece” (Kanda é mesmo um amor, não é?), já na hora da realização dos katas — que são uma sequência de golpes que simulam uma luta imaginária, usados para aplicar e corrigir técnicas — eu não lembrava de nenhum.

Quando o assunto era lutar, meu corpo tinha memórias disso, era só deixar fluir, mas lembrar qual sequência de golpes pertencia a cada faixa era impossível para mim. Não consegui fazer nem o início do primeiro, e pelo olhar mortal que eu recebi, vi que estava ferrado.

Ao término da aula, mal acabou o cumprimento final e eu tentei correr discretamente até a saída, mas fui interceptado bem na hora.

– Moyashi. Você fica. – Sentenciou sério, me fazendo parar subitamente e então voltar lentamente para a sala, me sentando emburrado.

– Já disse que é Allen. – Respondi lhe devolvendo o olhar fulminante que me lançava.

Não demorou muito para que a sala esvaziasse por completo e ele viesse na minha direção com um olhar impassível. E mente, por favor, pare com devaneios pervertidos inspirados nos mangás que a Road me empresta ou isso não vai prestar...

– E então? – Indagou sério, erguendo uma sobrancelha.

– Então o quê? – Perguntei desviando o olhar tentando não pensar em nada que vá me comprometer depois...

– Alguma explicação para essa desgraça que você fez na parte final do treino? – Seu tom era uma mistura confusa de indiferença e ironia, que poderia até parecer uma leve preocupação se eu viajasse bem muito na maionese.

– Eu não lembro os Katas. – Fugi do seu olhar cortante, observando o fim de tarde pela janela.

– Qualquer idiota perceberia isso. – Devolveu, doce como sempre.

– É complicado... – Enrolei coçando a nuca. Não queria entrar naquele assunto.

– Não vou te forçar a falar, só achei que tivesse um motivo. – Deu de ombros, olhando pela janela também.

– E ainda acha? – Perguntei incerto, tomando coragem e voltando meu olhar para a intensidade inabalável do seu.

– Tch, não mudo fácil de opinião. – Comentou displicente, me fazendo sorrir aliviado por algum motivo.

Eu não entendia de onde esses sentimentos estranhos vinham quando eu estava perto dele, era como se eu tivesse a clara impressão de já o conhecer há muito tempo, mas não essa coisa de vidas passadas. Era só que sempre que eu olhava dentro de seus olhos, sentia que havia algo de extrema importância faltando em mim.

Talvez isso explicasse essa minha maldita e louca “obsessão” por ele.

– Er... E-Eu esqueci. – Murmurei baixo, observando por um momento seu olhar curioso na minha direção, como se me dissesse para continuar.

Era impressionante como havia algo em seus olhos que me inspirava confiança.

– Eu fazia Karatê antes dos dez anos, e... Nessa idade, eu sofri um acidente de carro. – Parei por um momento buscando as palavras. – Nesse acidente meu pai morreu e eu sofri uma espécie de trauma psicológico onde perdi todas as memórias. Esqueci até mesmo de coisas básicas como andar e falar... Essas memórias também estão entre as únicas que eu recuperei. – Concluí por fim, enquanto ele me olhava com uma expressão de perfeito entendimento.

Perfeito até demais... Ousei pensar, afinal esperava que ele perguntasse alguma coisa, mas acabei esquecendo minha pequena paranóia quando ele resolveu se pronunciar.

– Isso explica muita coisa... – Comentou de maneira enigmática, como se estivesse se referindo a algo a mais, algo além do que essa conversa abrangia.

– Como ass... – Eu iria começar a perguntar quando fui interrompido por um suspiro sonoro de sua parte.

– Isso vai ser trabalhoso... – Resmungou arrumando o kimono antes de apontar pra mim. – Levante agora e volte para o tatame. Vou ensinar de novo tudo o que você esqueceu, e você só sai daqui com os quatro primeiros Katas memorizados. – Anunciou já se encaminhando para o centro da sala.

– O q-quê? Mas... – Tentei protestar, mesmo que inutilmente.

– Sem essa de “mas”. Tatame, a-go-ra. – Falou assumindo completamente a postura séria e autoritária de professor.

–-- x00o00x ---

Depois do que me pareceram horas, eu sentia meu corpo todo moído, mas havia aprendido, ou reaprendido, os quatro Katas perfeitamente, mesmo que na marra.

– Acho que por hoje já chega. – Declarou tranquilamente enquanto eu me largava de costas no chão, respirando como se tivesse acabado de escapar de um afogamento.

E de fato eu tinha escapado... De uma tentativa de assassinato por exaustão!

– Ora, já está morto assim Moyashi? – Falou com um ar zombeteiro, me olhando de cima.

Ah, filho de uma...

– É Allen! A-L-L-E-N! – Respondi indignado, recebendo um risinho cretino e arrogante como resposta.

Como alguém consegue ser tão...

– Já vai? – Perguntou em um tom desinteressado, me observando arrumar minhas coisas.

Sorri maldosamente pensando em uma resposta para uma pergunta tão retardadamente óbvia.

“Não... Vou apenas trancar a sala, jogar a chave pela janela e te fazer dizer meu nome. De um jeito, ou de outro...”

Mas como sou covarde, respondi:

– Uhum, vou indo. Se eu não cair na minha cama agora, maus ossos vão se desintegrar. – Tentei fazer uma brincadeira, mas parecia que nenhum tipo de piada ou comentário engraçadinho surtia efeito no moreno.

Prestei mais atenção na sua expressão e percebi que ele lançava olhares preocupados para a noite lá fora e depois para mim, como se estivesse pensando se seria seguro eu sair sozinho á noite.

Até que, inconscientemente, ele sabe ser fofo.

– Relaxa, ainda é cedo. E também eu moro perto, chego em casa em dez minutos se não ficar enrolando. – Respondi a sua pergunta muda com um sorriso tranqüilizador.

– Hm. – Resmungou pensativo.

– Então... Até mais. – Me despedi sendo correspondido por um aceno de cabeça e fui embora logo de uma vez.

Sai da escola sentindo vontade de ir saltitando o caminho inteiro, era algo... Diferente de qualquer coisa que eu já senti antes, porém familiar ao mesmo tempo.

Sorri de canto imaginando a cara que Lavi e Road fariam se soubesse do ocorrido de hoje, seria simplesmente hilário ver as mentes pervas daqueles dois imaginando todo tipo de situação (leia-se: Sexo) para eu e Kanda termos demorado tanto na sala. Por isso mesmo que eu iria dizer que me perdi no caminho pra casa, e por isso demorei.

Só de imaginar aqueles dois maquinando todo tipo de putaria possível, e o pior, provavelmente na frente do meu tio, me dava arrepios.

Parei na metade do caminho percebendo que uma das ruas menos movimentadas do meu trajeto estava completamente escura, deveria ser uma daquelas gangs de vândalos que pareciam estar se multiplicando aqui na cidade, era comum esses desocupados darem trabalho para a companhia de energia quebrando as luzes dos postes.

Não sei se mencionei, mas minha cidade se localiza em uma ilha. Há uma parte urbana, e outra que é uma espécie de reserva ambiental, onde não é permitida a entrada. Não fica muito distante do continente, mas como a maioria das coisas (companhias de água, energia, telefone...) funcionam lá, qualquer problema urbano daqui demora um pouco pra ser resolvido.

Dei de ombros e continuei andando por aquela rua mesmo. Além de estar morrendo de preguiça de procurar um desvio, eu também estava com medo de me perder (e acredite, eu sou bem capaz disso) e demorar o resto da noite para achar o caminho de casa (sim, isso já me aconteceu).

E foi quando eu cheguei no meio do caminho que percebi a merda que tinha feito.

Uns caras mal encarados começaram a sair de becos escuros e de algumas portas que eu nem havia notado, me olhando de uma maneira nem um pouco amigável e sussurrando uns com os outros, até que um deles veio na minha direção, acabando com a minha esperança de sair dali sem arrumar confusão.

– Hey gracinha! Posso saber o que uma dama tão delicada faz andando sozinha por aí a noite? – Um deles se pronunciou e eu apenas ignorei, apressando o passo. – Heeeyy, pra que tanta pressa lindinha? – O mesmo cara se aproximou, tentando passar o braço em volta dos meus ombros, mas desviei a tempo.

– Estou só de passagem – Respondi sem lhe dirigir o olhar.

– Por que não fica mais um pouco? A noite está tão linda. – Insistiu segurando meu braço com mais força que o necessário para que fosse apenas um toque sem segundas intenções.

– Não posso. – Respondi evasivo, me desvencilhando da sua mão e apressando o passo.

– Não pode ou não quer? – Perguntou próximo ao meu ouvido, me puxando pelo braço com o dobro da força da vez anterior.

– Me solte. – Falei sério. Eu podia até estar assustado (oi, com a violência nas ruas de hoje em dia, quem não estaria?), mas isso não queria dizer que a minha paciência era eterna.

– Não. Tô. Afim. Algum problema? – Respondeu pausadamente, me puxando para mais perto de si com brutalidade. E urgh, o cara cheirava fodidamente a álcool, mais especificamente whisky barato.

– Por que a pressa? Fica pra se divertir com a gente um pouquinho... – Falou outro que vinha na minha frente com uma garrafa de bebida quebrada em mãos.

E foi que eu percebi que já estava cercado.

– Eu tenho mesmo que ir... – Murmurei agoniado com tudo aquilo enquanto tentava discretamente fugir, só que mal me soltei e ele me prendeu numa chave de braço.

Oh merda...

– Não, você tinha que ir. – O que estava com o pedaço da garrafa pontiagudo na mão falou, se aproximando mais ainda, enquanto os outros davam risadinhas abafadas. Devia ser o líder.

– Você vai ser o meu brinquedinho dessa noite... – Continuou me secando e lambendo os lábios de uma maneira nojenta. – De todas as formas possíveis... – Completou com uma risadinha filha da puta.

Oh grande merda...

Comecei a me debater nos braços do outro, já que eu ia me ferrar se continuasse mais um segundo ali. Acertei uma cabeçada forte no que estava atrás de mim, fazendo-o me soltar, e tentei correr para a saída da rua, acertando um soco forte bem na cara do que tentou me impedir, e um chute no cara que veio da lateral tentando me acertar com um porrete.

Continuei correndo, e quando pensei que finalmente conseguiria sair daquela situação desgraçada, sinto algo extremamente rápido passando pela lateral da minha cabeça, quase tocando minha orelha, acompanhado de um som que fez meu corpo paralisar como se tivessem injetado gelo nas minhas veias.

Era um tiro.

Um arrepio gélido percorreu minha espinha, fazendo meu estômago revirar ao mesmo tempo em que as sensações do pesadelo da noite anterior (*) voltavam com força total.

Minha mente ficou em branco por um momento, meu corpo parecia que nunca mais voltaria a se mexer e meu coração acelerava a cada segundo que passava. Desde que eu me lembro, eu sentia um verdadeiro pavor de armas de fogo. Não suportava a idéia de ter uma próxima a mim nem mesmo em jogos de vídeo game.

E, lembrar disso nessa situação, me fazia sentir como se a última gota de esperança se esvaísse do meu corpo.

Provavelmente agora eles fariam todo tipo de atrocidade comigo, para então depois largarem meu corpo em qualquer lugar imundo onde a polícia fosse demorar a achar. A essa altura, eu só lamentava não ter me despedido de todos como deveria, principalmente de Cross, com quem eu havia brigado hoje de manhã...

Cerrei os dentes enquanto a culpa se abatia sobre mim com o peso de mil elefantes.

Eu nem tinha dado um último abraço na Lenalee, que devia pensar que eu estou bravo com ela, não tinha dado um último abraço de urso na Road até ela reclamar que eu queria parti-la ao meio, nem dito que eu até gostava quando ela se preocupava comigo, mesmo dizendo que não. Não tinha passado uma última tarde com o Lavi, onde ele ia me ajudar a estudar e acabava dormindo no meu colo, não tinha dito que ele era como um irmão mais velho pra mim... Não tinha dito a ninguém o quanto eles eram importantes pra mim.

E também havia Kanda.

Não sei por que diabos eu vim pensar nele logo agora, mas... Não sei explicar. Por toda a minha vida eu senti uma espécie de vazio, como se algo faltasse para me sentir completo, e quando vi seus olhos... Foi a primeira vez na minha vida em que essa sensação sumiu. Era como se seus olhos tivessem as respostas para todas as minhas perguntas. E eu não conseguia acreditar no quão estranho isso era.

Respirei fundo, relaxando meus músculos para depois tencioná-los novamente, e encarei firmemente os caras que vinham na minha direção.

Eu iria morrer, mas morreria lutando.

E quando eu pensava que já era o fim da linha e que mais nada podia acontecer, eis que aparece uma luz forte no começo da rua, no lado oposto onde eu estava, acompanhada por um ronco de motor ensurdecedor.

Observei atônito o motoqueiro vir na minha direção — a roupa, o capacete e a moto preta se misturando com a escuridão opressora daquele lugar que parecia estar viva — avançando diretamente até mim, quase atropelando os desgraçados que estavam no meio do seu caminho, parando perfeitamente na minha frente.

– Sobe! – Falou já me puxando pelo braço e me jogando na traseira da moto.

– K-Kanda?! – Indaguei mais do que surpreso.

– Segura. – Sua voz soou um tom mais grave, quase me fazendo visualizar o meio sorriso sacana que ele tinha no rosto.

Mal tive tempo de me arrumar devidamente no assento e ele arrancou com tudo, me fazendo praticamente agarrar sua cintura – no melhor “estilo Koala” — pra não cair, quase atropelando os caras de novo e cantando pneu como se estivesse em uma corrida.

Abracei-o mais forte, escondendo meu rosto nas suas costas enquanto ele fazia curvas impossíveis numa velocidade alucinante daquelas. E quando eu finalmente encontrei coragem para desgrudar meu rosto de lá para espiar o velocímetro, quase tenho um enfarte.

– Você é louco?! – Quase gritei quando vi que estávamos no 140Km/h!!!!

Que porra é essa?! E a polícia rodoviária? Ai meu miocárdio, se a gente não morrer, vamos presos...

– Tch, já viu quem vem lá atrás? – Respondeu calmamente, em seu habitual tom sarcástico.

Olhei pra trás somente para sentir meu sangue gelar mais uma vez naquela mesma noite.

Os caras que me atacaram instantes atrás estavam em um carro perseguindo a gente.

Oh merda de vida...

– Pode acelerar. – Murmurei escondendo o rosto na curva do seu pescoço e abraçando ainda mais a sua cintura, tentando esquecer tudo que eu ouvi sobre os perigos de andar em alta velocidade numa rodovia, como curvas fechadas, batidas terríveis e... Nossa, que corpo é esse meu pai do céu...

Não! Não mente, volte para os perigos de andar em alta velocidade, por favor...

Ok Allen, você está correndo risco de vida, pare de ficar reparando no abdômen definido do seu professor, que por sinal não dá a mínima pra você e...

Espera um segundo.

Como foi que ele me encontrou ali naquela rua? Quer dizer, não tem como ter sido simplesmente sem querer, ninguém – a não ser que seja lerdo como eu – entraria naquela rua como ela estava, e sem contar que não dava pra ver nada fora dela, eu mesmo só percebi os caras lá quando já tinha entrado. E mais, ele chegou bem na hora. Um segundo a menos, e eu ainda estaria imobilizado nas mãos de um dos caras, um segundo a mais, e eu estaria morto.

Não poderia ser só coincidência, poderia?

Desenfornei meu rosto do seu pescoço bem a tempo de assistir de camarote a coisa mais insana e potencialmente suicida que já fiz na vida.

Kanda acelerou ainda mais e simplesmente saltou de cima de uma ponte pela qual passávamos no momento, girando a moto levemente no ar antes de atingir o chão, dando um cavalo-de-pau na areia fofa e jogando a moto para baixo da ponte – onde não poderia ser vista – e desligando-a logo em seguida.

Porra, eu nem acredito que tô vivo.

– Você tá bem? – Perguntou abrindo o visor escuro do capacete, me permitindo vislumbrar um brilho de preocupação nos seus orbes escuros, me deixando ainda mais desconcertado.

– Er... E-Eu... – Respirei fundo, colocando meus pensamentos no lugar antes de tentar responder. – Olha, depois de pular de uma ponte em cima de uma moto em alta velocidade depois de ter sido atacado por uma gang de arruaceiros e ainda estar com todos os ossos inteiros, putamerda , eu estou ótimo! – Desabafei rindo nervosamente, fazendo-o arquear a sobrancelha, mas antes que perguntasse se eu tinha pirado de vez, um som ecoou pelo ambiente, nos fazendo ficar imediatamente tensos.

Os caras haviam parado o carro na ponte acima da gente, e pelo visto iriam descer para nos procurar.

Olhei assustado para Kanda que me apenas deu de ombros.

Sério, como ele fica tão calmo numa situação dessas?!

– Oe, não saia daqui, entendeu? – Falou seriamente, me descendo da moto.

– Mas o que diabos você va... – Antes que eu concluísse a sentença, ele me interrompeu.

Não. Saia. – Repetiu olhando no fundo dos meus olhos de um jeito que fez meus joelhos fraquejarem por um momento. – Eu volto em cinco minutos.

Tentei dizer alguma coisa, mas antes que meu corpo reagisse, ele abaixou o visor do capacete e saiu com a moto. Ah filho de uma...

– Não pense que eu não vou contar BaKanda! – Respondi, vendo-o dar um tranco na moto quando ouviu seu mais novo apelido.

Acabei sorrindo sacana mesmo sem querer. Ah, ele vai me estrangular quando voltar... E por dois motivos.

Peguei meu celular e comecei a procurar um caminho alternativo para subir até a ponte, e como já imaginava que ele iria atrás de confusão, nem me surpreendi quando ouvi o som da moto se aproximando da parte da ponte onde os caras estavam. Logo que achei um caminho possível de ser escalado por um ser humano, coloquei o aparelho na boca e comecei a subir.

Aquele idiota achava mesmo que eu ia ficar numa boa esperando ele voltar?

Não é que eu estivesse com medo por mim, mas eu não conseguia nem imaginar Kanda indo sozinho atrás daqueles caras. Mas se bem que... O olhar que ele me lançou antes de sair, e o modo como meus pés grudaram no chão ao seu comando... Era como se ele prendesse uma verdadeira besta assassina dentro de si.

Ouvi uma barulheira em cima da ponte e tentei escalar mais rapidamente, o que quase me rendeu uma linda queda de uma altura considerável. Ok Allen, não olhe para baixo ou você estanca nesse barranco de vez! Comecei a subir com mais atenção, e quando estava prestes a alcançar a ponte, sinto algo batendo nas minhas costas. Ainda tentei me segurar, mas não deu outra: Adeus apoio dos pés, olá queda que vai me mandar dessa para uma melhor.

– AAAAAHHHHH!!!! – Ai eu to ferrado, morto, e muito ferrado, e morto...

O estranho foi que em um segundo, eu sentia aquele frio na barriga e aquela sensação de estar voando, só que o que veio no segundo seguinte não foi o chão duro e arenoso, e sim um par de braços fortes que me seguraram firmemente.

Porra, EU AINDA TÔ VIVO!

– Que merda de grito fino, Moyashi. E que idéia foi essa de subir o barranco? Quer morrer? – Uma voz grave e mal humorada soou próxima e eu quase chorei de emoção.

– B-BaKanda? – Indaguei enquanto ele me colocava cuidadosamente no chão, tirando o capacete logo em seguida, deixando os longos cabelos escuros caírem bagunçados pelos seus ombros, emoldurando seu rosto de forma única, lhe dando um ar sexy e selvagem.

– De que porra você me chamou, pirralho? – Indagou franzindo o cenho e eu não agüentei. Comecei a rir alto, tipo, realmente alto.

– O que foi? Eu só te dei um “apelido carinhoso” já que você também me deu um. Ba-Kan-Da. – Respondi com um sorriso de canto.

– Ora seu Moyashi abusado, eu vou enfiar sua cara nessa areia e... Moyashi...? – Ouvi sua voz soar em um tom mais brando e foi ai que eu percebi que tinha caído encostado no seu ombro.

Oh não... Agora não...

Minha visão começou a embaçar e minhas pernas fraquejaram, e não foi da emoção dessa vez, mas antes que eu desse de cara no chão ele me segurou.

– Tch, esqueci da hipoglicemia... – Murmurou baixinho, passando um de meus braços por cima dos seus ombros e me levando até onde a moto estava parada.

– Hn? Como você... – Comecei a perguntar como diabos ele sabia do meu problema, até por que antes de ir ao médico, eu mesmo confundia com pressão baixa, ou seja, dessa vez não era coincidência.

– Cala a boca, já vamos sair daqui. – Me interrompeu, arrumando o capacete na minha cabeça, subindo na moto e arrancando dali, em uma velocidade aceitável dessa vez. – Se mantenha acordado. – Falou ajeitando meus braços em volta da sua cintura.

– Tenho a impressão de que, se eu dormir, você me acorda na base do tapa. – Resmunguei fechando os olhos pra diminuir a tontura.

– Pode apostar. – Comentou acelerando um pouco e costurando por entre os carros quando chegamos à rodovia.

Agora, sem o risco iminente, eu podia aproveitar melhor esses momentos com Kanda. Pode me chamar louco, mas você já sentiu o cheiro de alguém e jurou já o ter sentido antes? Por que diabos estar com ele me trazia essa sensação nostálgica?

Chegava a ser bizarro o quão bem eu me sentia perto de uma pessoa tão introvertida.

– Yuu... Você está bem? Digo, não se machucou, não é? – Perguntei apoiando a cabeça no seu ombro, observando sua expressão desacreditada pelo espelho da moto.

– Yuu...? – Indagou erguendo uma sobrancelha.

– Posso te chamar assim, não posso? – Perguntei fazendo carinha de cão sem dono.

– É claro... Que não. – Respondeu com aquele familiar olhar afiado e sorriso arrogante.

Mais uma patada para a lista.

– Ok, então você prefere BaKanda. – Falei me controlando pra não rir.

Ele me lançou um olhar fulminante por alguns segundos, como se tivesse imaginando o que faria comigo se não estivesse pilotando a moto.

– Você é uma peste. – Resmungou mal humorado.

– É só me deixar te chamar de Y...

– Não. – Cortou sério.

– Por quê?

– É irritante e eu odeio. – Respondeu frio, parando a moto em frente à praia, que a essa hora estava levemente movimentada, já que ainda haviam quiosques abertos e vários casais, na maioria turistas, perambulando pela orla.

– Tá, parei. – Ergui as mãos em sinal de rendição, enquanto ele me ajudava a descer até a areia.

Fiquei um tempo sentado com a cabeça entre os joelhos, esperando a tontura passar, quando ele voltou com uma água de coco, que me ajudou bastante. Glicose, santa glicose.

– Kanda... Só uma perguntinha. – Comecei, já na minha segunda água de coco.

– O que é, peste? – Respondeu tirando as luvas e a jaqueta de couro.

– Como fez para dar um jeito naqueles caras? – Indaguei realmente curioso, até por que eles eram muitos, e estavam armados.

– Uns policiais rodoviários apareceram. – Deu de ombros desviando o olhar.

– Sério? Não ouvi nenhuma sirene. – Estranhei.

– Você nem me ouviu chegando quando tava naquele barranco Moyashi, quem dirá ouvir as sirenes dos policiais. – Resmungou parecendo incomodado.

– Impressão minha ou seu punho direito tá meio inchado? – Perguntei tocando sua mão, mas ele logo se desvencilhou.

– Foi na hora que pulamos da ponte. – Respondeu desviando o olhar mais uma vez. Estranho.

– Mas não parec... – Comecei, mas fui interrompido.

– O que acha que eu poderia fazer contra um monte de caras estando desarmado, Moyashi? Anda vendo muito filme de ação... – Resmungou olhando fixamente para as ondas que quebravam na beira da praia. – Além disso, eu ensino artes marciais, sou pacifista obviamente. – Completou.

– Pacifista? – Murmurei desacreditado.

– Sim.

– Quer óleo de peroba? Pra passar nessa sua cara de pau. – Sério que ele quer que eu acredite nisso?!

Ele apenas deu um sorrisinho cretino, negando com a cabeça, me deixando curioso sobre os seus pensamentos.

– Me deixe te dizer algo, mas ouça com atenção. – Falou de repente, me encarando com uma intensidade que tornava impossível desviar meu olhar do seu.

– O que é? – Segui seus movimentos com o olhar, enquanto ele se posicionava de frente pra mim.

– Você é fodidamente azarado Moyashi, e como se não bastasse os problemas correrem atrás de você, você ainda faz questão de procurá-los. – Falou em um tom sério, mas que inspirava uma sabedoria que era incomum em alguém da sua idade. – Tem muita gente que não presta nesse mundo, não dê chance para que eles te alcancem outra vez. – Continuou apoiando a mão no topo da minha cabeça, em um gesto que, não sei bem por que, fez meu rosto esquentar.

– Desculpe. – Respondi abaixando o rosto.

– Tch, não se desculpe, faça alguma coisa de útil ao invés disso. – Falou bagunçando meu cabelo e se levantando.

Me levantei logo em seguida, puxando-o pela manga da camisa para que se virasse de frente pra mim, e quando o fez, fiquei paralisado por alguns segundos sem desviar o olhar de seus olhos que pareciam mais intensos que o normal.

Um sentimento estranho tomava conta de mim, e era como se eu não conseguisse controlar as ações do meu corpo, quanto mais eu olhava para aqueles olhos, mais eu sentia que tinha que estar perto, e cada vez mais perto... Queria me lembrar de onde essa sensação vinha, o porquê dela, mas era como se uma névoa cinzenta e densa me impedisse de ver.

Parei de pensar, e sem mais nem menos, avancei na sua direção, passando os braços a sua volta e o abraçando com força.

– Obrigado Kanda, obrigado por tudo. – Sussurrei contra a pele do seu pescoço, sentindo-o tremer levemente com o contato.

– Er... C-Certo. Só não se meta de novo em confusão. – Falo completamente desconcertado, sem saber se recusava ou retribuía o abraço, optando por se afastar timidamente, mas sem parecer hostil.

Pelo que pude perceber, Kanda não era muito acostumado a “calor humano”, então sua reação era perfeitamente justificável, mas... Por que me parecia algo mais?

– É melhor a gente ir. – Murmurou indo em direção a moto com uma expressão que me deixou completamente surpreso.

Eu já havia visto um Kanda sexy, um Kanda professor, um Kanda nerd, um Kanda sério, um Kanda sarcástico, um Kanda intimidador... Mas um Kanda sem graça e corado até as orelhas realmente me surpreendeu.

Notas finais
* No Karatê as faixas são: 1ª- Branca, 2ª - Amarela, 3ª- Vermelha, 4ª - Laranja, 5ª - Verde, 6ª - Roxa, 7ª - Marrom e 8ª - Preta. Mas existem graduações depois da faixa preta. (*) Sonho do capítulo passado. E ai? O que acharam? Só eu que surtei com o Kanda "aconselhando" o Allen? Se vocês ficaram meio em dúvida sobre qualquer coisa, podem perguntar nos reviews, até por que o próximo cap vai ser, no mínimo, revelador. E esses sonhos que o Allen fica tendo vão ser de extrema importância lá na frente. Ah, o fato de eles estarem numa ilha também. E mais na frente a fobia de armas do Allen também será explicada. *se segurando pra não dar spoiler*. Para que ainda não conhece, tenho uma pag no face para minhas fics: https://www.facebook.com/ByTsukiSensei (tem outra autora lá comigo, a Dri, adooooro as fics dela, super recomendo) Fiz também um ask para os personagens: http://ask.fm/AWS2KY Não precisa ter conta pra perguntar, mas pelo amor, parem de chamar o Kanda de Yuu-chan ou acho que ele acaba tendo uma síncope (mentira, pode chamar sim, se o japa ficar brabo o Allen controla). Ah! Por acaso alguém tem teorias sobre a história? Eu ADORO ouvi-las! Até mais~ Kissus :3