Notas iniciais
" Alguém além de mim já reconheceu um desconhecido?"
~Allen.

Se meu pai estivesse vivo, ele com certeza não acreditaria no que estava vendo.

O ninfomaníaco ruivo ao meu lado, que não parava de comer com os olhos todo garçom de sunga e gravatinha que passava, era meu melhor amigo, Lavi. E a morena tarada do meu outro lado, que estava quase subindo no palco e agarrando um dos homens que lá se apresentavam e só não fazia isso por que seu irmão (e amante nas horas vagas) era ninguém menos que o gerente do lugar, era minha melhor amiga Road.

E a pobre criatura no meio desses dois pervertidos sou eu, Allen Walker, e por ser menor de idade (15 anos) eu nem deveria estar aqui, numa boate de strippers, e muito menos bebendo a quantidade de Tequila que eu já bebi. Mas acontece que não é todo dia que você descobre que namorou dois anos com uma vadia que te chifrava desde o sexto mês de namoro.

Suspirei virando mais uma dose amarga e me jogando de qualquer jeito no sofá de couro vermelho. Aquilo estava um verdadeiro tédio, e eu já estava começando a me sentir meio zonzo (meio? Juro que seu me levantar eu caio), afinal, eu nunca tinha bebido antes.

Olhei para o palco vendo um garoto loiro fazendo pole dance. É bonitinho, admito. Mas duvido que alguma coisa possa melhorar o meu humor hoje.

E no momento seguinte, descobri que estava terrivelmente enganado.

As luzes coloridas do palco se apagaram de repente e algo que eu não pude ouvir foi pronunciado por um homem com cara de cafetão, parecia ser a atração principal da noite.

Assim que o homem saiu do palco, luzes negras e holofotes azuis se acenderam, uma música com uma batida mais civilizada, porem sensual, se iniciou e a primeira coisa que pude visualizar em meio a neblina gerada pelas maquinas de fumaça foi uma lâmina negra.

A medida que a fumaça se dissipava, a imagem de um garoto de longos cabelos negros (que ficavam azuis naquela luz) aparentando não ter muito mais que a minha idade, foi lentamente revelada.

E quando ele virou de frente, eu simplesmente fiquei encantado. Ele usava uma jaqueta sem mangas, dando o merecido destaque aos seus braços fortes, deixando-os a mostra assim como seu corpo definido, já que a jaqueta estava aberta. A calça justa dava um belo contorno a suas pernas, os coturnos amarrados de maneira desleixada lhe davam um ar de rebeldia, junto com as luvas de motoqueiro e a coleira de espinhos no seu pescoço, que combinada com o seu olhar afiado o faziam parecer uma fera indomada.

E que fera heim...

Em uma de suas mãos havia uma bela katana, completamente negra, assim como os olhos do moreno que a empunhava. A sua frente ao invés de um poste, havia uma corrente presa ao teto que caia até o chão. O que já me deixou curioso de imediato. O que ele faria ali?

Como se em resposta ao meu pensamento, ele começou a caminhar em direção ao objeto. Seu andar não era ornamentado, nem afeminado ou cheio de rebolado como o dos outros garotos que haviam se apresentado anteriormente. Ele simplesmente caminhava normalmente, direto e objetivo. Mas acontece que seu caminhar normal era muito sexy.

Ele prendeu uma das mãos à corrente e começou a se movimentar lentamente, em uma dança sutil e provocante enquanto a ponta afiada da espada passeava perigosamente pelo seu corpo, até subir pelo seu abdômen, seguindo pelo seu ombro, e em um movimento rápido, cortando sua jaqueta fora e expondo o peito tatuado.

Em seguida ele prendeu um dos joelhos à corrente e se içou para cima, fazendo- a começar a girar lentamente devido ao abalo repentino e seus cabelos acompanharem o seu movimento, realizando um interessante jogo de esconder e revelar com suas costas.

Por mais que a sua apresentação fosse impressionante (afinal, dançar com uma espada e preso a uma corrente em movimento não é para qualquer um), o que realmente me impressionou foi o seu olhar, que mesmo duro e gélido, parecia conter uma chama abrasadora.

Ele dançava como se estivesse em um mundo próprio, ignorando as notas jogadas na sua direção e indiferente a histeria que causava. Era como se, para ele, a boate estivesse vazia ou as pessoas fossem tão insignificantes a ponto de não lhe atraírem o mínimo de interesse, ou um pouco dos dois.

Em um momento, quando ele jogou sensualmente a cabeça para trás, nossos olhos se encontraram. Com apenas um olhar ele conseguiu me deixar vermelho, nervoso, suando frio, excitado, intimidado e enfeitiçado. Tudo ao mesmo tempo.

Como se reparasse no meu estado lamentável, a ponta esquerda dos seus lábios se ergueu em um sorrisinho de canto indecifrável, antes de mudar de posição na corrente, virando de cabeça para baixo.

Meu deus... Isso é demais para a cabeça de um pobre adolescente embriagado...

Ele sacou um isqueiro do bolso e colocou fogo na espada, passando pelo seu corpo surpreendentemente sem se queimar, enlouquecendo ainda mais os espectadores.

No ponto alto da apresentação, sua língua percorreu libidinosamente toda a extensão da lâmina em chamas, fazendo todos os meus pelos se arrepiarem, e logo depois assoprou o fogo com força, criando uma chama imensa, como se fosse a de um dragão, que parecia tomar quase todo o teto do palco.

Quando o fogo se apagou, todo o ambiente mergulhou momentaneamente na escuridão, e quando as luzes voltaram a se acender, não havia nenhum vestígio de que aquele moreno havia estado lá.

Quem estava sentado naquele momento se levantou para aplaudir de pé.

Instantes depois do termino da apresentação, meu corpo ainda permanecia imóvel, relembrando todas as sensações que ele havia me causado. Minha mente ainda parecia presa à memória de quando nossos olhos se encontraram. A única mudança no meu estado comparado ao de minutos atrás era a crescente vontade de encontrar seus olhos novamente.

Sai do transe que nem notei que havia mergulhado quando percebi que o foco dos meus pensamentos era também o tema da conversa entre meus dois amigos.

- Nee Lavi, sabe que eu não posso dar informações sobre os garotos que trabalham para o Tikky, mas... Como um certo albino parece terrivelmente interessado...

- Oi? – Perguntei ao ouvir uma indireta direcionada a minha pessoa.

- Vai Road-chan... Qual é o nome dele? – Lavi perguntou me cutucando com o pé embaixo da mesa.

- Eis a questão, ele é novo por aqui, mal faz um mês que entrou e já é a atração principal da noite. – Comentou ela tomando mais uma dose do seu drink.

- Entendo bem porque... – Murmurei baixo e o ruivo afirmou com a cabeça em concordância.

- Continuando, eu não sei muito... Ok, eu não sei nada daquele gostoso. Maaaasss... Sei de alguém que deve saber. – Concluiu a azulada com um sorriso malicioso.

Observei-a procurar algo pelo local por um momento e então acenar para alguém que estava do outro lado da pista de dança.

- Hey Alma! – Chamou ela e um jovem garçom, de pele levemente bronzeada, cabelos e olhos castanhos e com uma cicatriz no meio do rosto, veio em nossa direção.

- Em que posso ajudar? – Indagou com um sorriso meigo e puro que contrastava, e muito, com o local onde estava.

- Você parece ser bem próximo daquele novato... O moreno de cabelo longos, estou certa? – Road perguntou entrelaçando os dedos da mão e apoiando o queixo sobre eles, parecendo um anjinho.

Rá, quem não te conhece que te compre...

- O Yuu não faz nenhum tipo de “serviço especial” se é isso que querem saber. – Respondeu rispidamente ficando sério de repente.

- Nhaay Alma-chan, isso foi rude. – Falou a morena com uma vozinha “kawaii”.

- Er... Foi mal Road-san... – Ele se desculpou parecendo meio encabulado e coçando a nuca.

- Ah qual é, nos conhecemos a uma porrada de tempo e você ainda me vem com esse “-san”? – Comentou divertida.

- Hã... Foi mal? – Ele começou sem graça e os dois acabaram rindo deliciosamente.

- Então... – Ela recomeçou, com uma cara totalmente pretensiosa dessa vez. – Vocês são namorados? – Perguntou deixando o coitado do garoto da cor de uma pimenta.

- N-N-N-N-Não... Somos só... Er... Amigos de infância. – Ele respondeu parecendo completamente desconcertado. – Mas por que a pergunta?

- É só que você parece muito protetor com seu “amigo”... – Comentou a azulada com um sorrisinho malvado.

- Ãn, er... Sério?

- É, sério.

- Hmm, então... Eu acho que já vou indo. Meu turno acabou e o Yuu tá me esperando para ir embora... Boa noite para vocês! Divirtam-se! – Se despediu com um último sorriso, já caminhando em direção a porta dos funcionários.

- Road, você é do mal. Até eu tive peninha do garoto. – Comentou Lavi quase chorando rir por cima da mesa.

- Isso é só o começo meu caro ruivinho, eu ainda vou descobrir se o gato tem endereço, telefone, e-mail, facebook... – Ela riu trocando olhares pervertidos com Lavi.

- Aproveita e também descobre se ele curte baixinhos... – Insinuou o caolho safado me olhando torto.

- H-Hey! E quem disse que eu... – Comecei vermelho como um tomate, mas fui interrompido.

- Ora Allen, sua cara deixa óbvio. – Riu o ruivo.

Ok, na falta de um buraco para enfiar a cara nesse momento, vamos entornar mais uma.

- Você não acha que já bebeu demais por hoje, Allen-kun? – Perguntou Road, parecendo preocupada, mexendo suavemente no meu cabelo.

- Depende, eu ainda vou lembrar meu nome amanhã? – Resmunguei sentindo o mundo girar a minha volta.

- O único nome que vai estar na sua cabeça amanhã será “aspirina”. – Respondeu Lavi apoiando a cabeça no meu ombro, igualmente tonto.

- Ok, então já chega.

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- Ei moleque, acorda.

- Hmfmnhfmfnnn...

Ouvi uma voz distante na minha cabeça e enfiei mais a cara no travesseiro, me recusando a acordar.

Meu estômago estava revirando perigosamente e minha cabeça latejava como se fosse explodir. Droga, por que eu fui inventar de tomar um porre justo no domingo? Ou melhor, porque segundas não são feriado?

Que mundo cruel.

- Ei! Tô falando com você! – A voz do meu tio soou mais alta, me fazendo tapar os ouvidos.

Não quero acordar e ter que enfrentar a triste realidade de que tem aula hoje.

- Acorda desgraça! – Ele deu um chute embaixo da minha cama me fazendo dar um pulo.

- MISERÁVEL! NÃO TÁ VENDO QUE EU TÔ COM DOR DE CABEÇA?! – Gritei revoltado com a falta de sensibilidade da criatura em relação ao sobrinho debilitado.

- Tô sim, tô vendo que você tá com uma puta de uma ressaca. – Falou sério, me encarando mais sério ainda.

- Desculpe. – Murmurei de cabeça baixa.

Afinal, eu nunca fui de dar trabalho em casa com relação a comportamento, e nem pretendia começar.

- Tudo bem, dor de corno é foda mesmo. – Respondeu dando de ombros.

Filho de uma...

- MALDITOOO!!! – Gritei jogando tudo ao meu alcance na direção, que escapou fechando a porta bem a tempo de evitar os projéteis.

- Mas no fundo até que tô feliz. Você é certinho demais Allen, e isso enlouquece qualquer um. E que saber? Não me importo que você tome seus porres de vez em quando, só não faça isso por motivos idiotas. Aquela vadia podia ser muito gostosa, mas ela não merecia você. – Falou do outro lado da porta e depois saiu.

E assim era Cross Marian, a pior má influencia que já conheci, mas também quem mais sabia me consolar quando eu estava mal.

Me arrastei até o banheiro, entrando de roupa e tudo debaixo do chuveiro e depois vomitando até as tripas enquanto meu cérebro parecia fazer manobras de skate no meu crânio. Após um século de sofrimento repetindo mentalmente que nunca mais ia beber, sai de casa pronto para ir para o infern... Quero dizer escola, e dopado de tanta aspirina.

Fiz todo o meu trajeto até o colégio calmamente, cantarolando Take Me Out, do Franz Ferdinand, afinal, eu já estava atrasado mesmo... Pra quê pressa?

Entrei na escola ainda cantando a mesma coisa e comecei a subir até a diretoria para pegar uma autorização para poder entrar em sala. Passei pelas salas do terceiro ano, espiando pelas janelas a procura de Lavi só pra tirar uma com a cara dele e me esconder depois (falta do que fazer é uma coisa séria).

Não sei por que, talvez por força do destino ou por algum motivo aleatório, eu resolvi reparar um pouco melhor na sala do 3º ano A. E ninguém imagina a minha surpresa ao encontrar uma pessoa no mínimo inesperada na última carteira do canto da sala.

- Só pode ser brincadeira...

Notas finais
Tinha que se fic minha pra ter o Allen tomando todas logo no primeiro cap. kkkkk
Vocês devem estar se perguntando o que issa história tem a ver com o título, não é?
Bem... Aguardem.
Ah propósito, todo inicio de cap *notas inicias* terá uma frase do Allen meio que descrevendo o que vai rolar no capitulo.
Quem quiser xingar, criticar, ou apenas dizer que gostou, fiquem a vontade para mandar reviews~
Espero que tenham gostado.
Kissu