Personagens

A aula acabou finalmente, Mirela e eu juntamos nossos materiais rapidamente para irmos embora do colégio mais que depressa. Ficamos de fazer um trabalho juntas, o que se resume em conversa fiada, músicas e filmes e sobrar tempo aí sim, fazemos o trabalho.

O colégio todo estava em alvoroço esses dias, o baile de outono estava chegando e todos estavam arranjando seus pares. Esse era mais um assunto do qual conversaríamos quando chegasse na minha casa. Por sorte, minha mãe conseguiu convencer o traste do marido dela, meu padrasto Henry, a viajar para a Espanha.

Eles não tinham uma relação boa. Aliás, era péssima! Henry é machista, bêbado e violento. Sempre está com uma garrafa de pinga, cerveja, conhaque, uísque, enfim qualquer bebida alcoólica na mão. Ele só sabe reclamar de tudo, nada que minha mãe faz é bom o suficiente para ele, o que acaba com ele batendo nela. Ele já tentou me bater várias vezes, mas minha mãe sempre conseguia me salvar — e ele acabava batendo nela por interferir.

Até mês passado Henry apenas tentava me bater, mas um dia quando minha mãe demorou a chegar do trabalho ele chegou em casa mais bêbado do que de costume. Fiquei quieta no meu quarto sem fazer barulho para não o irritar, mas Henry já entro me gritando e me procurando em todos os lugares.

O barulho da porta se fez presente quando ele a abriu com toda a força que tinha. Lembro dele correr o olhar por todo meu corpo e me olhar com desejo e luxuria, o que me deu um nojo e um medo horrível. Henry começou a me agarrar enquanto eu me debatia e tentava me soltar. Eu o sentia se esfregar em mim enquanto passava a mão por todo meu corpo. Eu gritava e chorava pedindo ajuda e quando ele se afastou um pouco para tentar tirar minha roupa, juntei todas as forças que tinha e dei um chute em suas partes íntimas e comecei a correr. Ele veio atrás de mim e conseguiu me alcançar na sala dizendo que eu ia me arrepender do que eu havia feito. Ele começou a me bater, chutar e me socar.

Minha mãe chegou na hora e se colocou na minha frente para ele parar. Ele parou. Mas continuou a bater nela. Quando ele cansou, ele simplesmente foi para o quarto nos deixando sozinhas e machucadas na sala. Ele bateu tanto na minha mãe dessa vez, que pensei que teria que chamar uma ambulância para a socorrer.

Mamãe, mesmo machucada e precisando de mais cuidados do que eu, cuidou de mim. A partir daquele dia ela me disse para ficar na casa de Mirela depois do colégio, que passaria lá depois que saísse do trabalho.

Ontem mamãe disse que conseguiu convencer Henry a visitar os pais dele, na Espanha e que eu ficaria devido ao colégio e, porque os pais dele não me suportavam. Então eu teria duas semanas longe daquele traste, e poderia viver como uma simples adolescente normal por duas semanas inteiras. Seria o paraíso.

— Jade?! Você está me escutando? — olho para minha amiga que me encara furiosa. Tá! Perdi alguma coisa.

— Desculpe Mirela! Acabei não ouvindo. — murmuro — Eu ainda não estou acreditando que ficarei livre daquele traste por duas longas semanas. E bem a tempo do baile, será perfeito. — comento animada e destrancando a porta, já que eles iriam sair de viagem hoje enquanto estava no colégio.

— Verdade amiga, sua mãe não podia ter escolhido hora melhor para fazer essa viagem! — ela fala se jogando no sofá.

Quando olho o lugar onde ele me bateu a lembrança vem na minha mente e sobe um calafrio por todo meu corpo, acabo olhando para outro lado e me jogando no outro sofá encarando o teto.

— Mas… eu ainda fico preocupada com minha mãe sozinha com ele. Henry é muito violento. E desde que ele tentou me estuprar, o ódio pela minha mãe parece que só aumentou. — solto um suspiro e encaro minha amiga preocupada.

— Não é por mal não amiga, mas, porque sua mãe ainda não se separou desse traste? — ela questiona confusa.

— Ela até disse que o deixaria, mas ele disse que se ela fizesse isso, ele me mataria e depois mataria ela. — falo e minha amiga fica horrorizada. — Não me surpreenderia se ele já tiver matado alguém, ele é louco o bastante para isso. Mas vamos parar de falar daquele traste e falar de coisas boas.

— O baile?! — pergunta esperançosa.

— O baile. E aí? Alguém já te convidou, ou você já convidou alguém? — questiono fazendo um sorriso surgir em seus lábios.

— O Matt acabou de me convidar! — Mirela fala se levantando do sofá dando pulinhos de alegria, me levanto para lhe acompanhar, afinal ela é apaixonada nele desde a sétima série.

— Não acredito amiga, até que enfim aquele palerma acordou para a vida e enxergou a garota incrível que estava bem debaixo do nariz dele. — digo e ela solta um suspiro.

— Não o chama assim, vai. — Mirela diz o que me faz revirar os olhos. Quem em sã consciência fica esperando quatro anos para ser notada por um cara?! Pois, é a minha amiga. — E você já tem um par?

— O Jason me convidou. — Digo sorrindo. — Mas não é como se ele fosse mudar, ele ainda é um galinha.

Jason e Matt são amigos e os caras populares do colégio. Matt era alto, loiro, tinha olhos azuis e era forte. Jason também era alto e forte, porém ele era ruivo e tinha olhos castanhos escuros. Os dois jogavam no time de futebol, co-capitães.

Apesar de Jason ser tudo de bom, eu queria apenas curtir, não tenho ilusão que ele morra de amores por mim, até porque por onde ele passa deixa corações partidos. Mas não faz mal dar uns beijinhos, né?!

Matt era diferente do amigo, ele não curtia ficar por ficar, ele queria algo sério. Mas a última namorada dele colocou tanto chifre na cabeça dele que eu não sabia como ele conseguia equilibrar toda aquela galhada, coitado.

— Vou fazer um brigadeiro para comermos enquanto assistimos a um filme. — Mirela apenas assente enquanto vou para a cozinha preparar. Pego os ingredientes e a panela e coloco na mesa para pegar a tesoura para abrir a caixinha de leite condensado, quando vejo uma carta endereçada a mim com a letra da minha mãe. Pego a abrindo para ler.

“Olá meu amor,

Sinto muito ter me despedir assim, eu queria muito poder te abraçar e beijar, ver você se tornar uma grande mulher que sei que será, mas filha tem que ser assim e peço que me perdoe. Não consigo mais viver assim, então quando terminar de ler essa carta peço que pegue o dinheiro que guardo na caixa de cereais no armário e vá para o endereço que deixei escrito. Vá atrás de Samuel Uley, diga ser minha filha, e que precisa de ajuda. Entregue essa outra carta ao Sam, ele irá entender o que está acontecendo, ele te protegerá e cuidará de você. Preciso que confie em mim e não saia de perto de Sam, se eu conseguir resolver isso irei te encontrar e te buscar.

Sentirei sua falta!

Beijos, mamãe.”

P.S.: Não esqueça de seus livros, eles são muito importantes! Não os percas.

Fico paralisada por alguns minutos com a carta na mão, uma lágrima escorre e penso na pior possibilidade possível.

— Jade sabe o que eu estava pensando aqui, podíamos ir com vestidos combinando no baile — Mirela entra toda alegre na cozinha, tento esconder o papel na gaveta.

— Sim… Claro, por mim tudo bem desde de que não seja rosa — ela dá uma risadinha.

Coloco todos os ingredientes do brigadeiro e mexo por alguns minutos antes de colocar no fogo, fico de costas para Mirela por alguns minutos. Minha mente ainda fica repassando sem parar o que acabei de ler, o que será que está havendo? Fico mexendo sem parar o brigadeiro, viro para mostrar à Mirela para ver já está bom, eu nunca sei o ponto certo dessa coisa. Vejo ela paralisada com a carta na mão.

— O que você está fazendo? — coloco a panela na mesa enquanto puxo a carta da mão dela, que bate involuntariamente a mão no brigadeiro derrubando a panela quase toda no meu pé.

Droga Jade! — ela grita e eu só consigo gemer de dor e saio correndo para o banheiro. Vejo ela me seguir, mas não presto atenção só ligo o chuveiro na água gelada e deixo cair sobre meu pé, — Você precisa ir agora?

— Ir para onde? — questiono confusa.

— Para a casa desse tal de Samuel Uley? — Ela questiona desligando o chuveiro.

— Parece que sim. E eu nem sei quem é ele, só minha mãe mesmo para fazer isso comigo. — digo e solto um suspiro.

— Vem vou passar pomada e fazer um curativo. Você quer que vou com você até a rodoviária?

— Não precisa amiga, mas obrigada! Vou sozinha mesmo. — digo enquanto Mirela apenas assente e vamos para a sala com a maleta de primeiros socorros que peguei no armário do banheiro.

Ainda bem que não queimou muito, mas mesmo assim estava doendo muito. Mirela é muito cuidadosa, ela faz o curativo com delicadeza e paciência comigo que reclamava quando ela inventou de passar algum remédio que ardia pra caramba! Ela finaliza o curativo com a faixa.

Mesmo eu falando que não precisava Mirela me ajudou a arrumar minha mala. Vou até o armário pegando o dinheiro reserva na caixa de cereais, tem uns quinhentos dólares aqui. Pego minha carta, o papel com o endereço de Forks e a carta para o Samuel. Caminho até meu quarto, me lembrando dos livros da minha mãe, coloco todos os três livros enormes e grossos na mala de rodinhas devido ao peso.

— O que é isso? — Mirela questiona apontando os livros.

— São os livros que minha mãe disse na carta e nem adianta perguntar, isso é coisa dela. Não faço ideia do que são esses livros. — digo e ela apenas concorda, ela conhecia as loucuras da minha mãe como ninguém e aprendeu a não questionar, como eu.

— Vou chamar um táxi — Mirela fala tirando o celular do bolso. Termino de colocar minhas coisas na bolsa e tranco a porta ficando com a Mirela na varanda — Você promete me mandar notícias?

— Claro que sim! Você também me mande notícias — respondo pela milésima vez e ela concorda.

— O que falo para o Jason? — ela me encara.

— Só diz que tive que viajar de última hora e não sei quando volto. — solto um suspiro longo, talvez não voltaria nunca mais ali.

O táxi estaciona na frente da minha casa, vamos até à calçada e fecho o pequeno portão de madeira observando a casa. Aconteceu tanta coisa ruim aqui, mas sentirei falta, foi aqui que eu cresci.

— Vou sentir tanto sua falta! — Mirela diz me abraçando.

— Eu também vou! — nos despedimos.

Entro no táxi fechando a porta. Digo ao motorista para ir para rodoviária, logo o carro arranca e vejo Mirela fazer tchau por alguns metros, volto meu olhar para a estrada. Seria uma viagem longa e cansativa, de quase cinco horas até Forks.